sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Tempo


O Tempo

Enquanto observo a paisagem correr para trás, fico a refletir sobre o tempo. O ônibus me faz sentir que ando para frente, embora o meu destino seja o passado.

Um passado distante, empoeirado, triste. Como um livro antigo que colocamos na estante e de tempos em tempos abrimos para folhear.

O passado.

Não se pode apagar. É como a fundação de uma casa. Precisa ser mantido inteiro, sem fissuras. Fica oculto, enterrado. Mas, se tiver qualquer problema, toda a estrutura desaba.

Nunca ouvi falar de reforma em fundação. Mas, sei de prédios demolidos que viraram novos empreendimentos, tendo-se aproveitado os alicerces.

Podemos nos reinventar, nos demolir e nos reconstruir mil vezes, mas a fundação sempre será a mesma.

Por isso, há que se cuidar dessa base. Mas, não se pode viver só dela.

Precisamos de parede, telhado, janela...

O futuro.

É a janela. Por ela, vemos o horizonte. Por ela vemos o amanhecer, o meio-dia e o pôr do Sol. É ela que me anuncia o começo e o fim da jornada. Precisa estar sempre aberta, arejada, livre. Nada de grades, telas ou cadeados. Quero minha janela escancarada.




O presente.

É o chão que eu piso. Foi de barro, foi de vermelhão. Foi de ardósia, é de porcelanato. Ora quente, ora frio. Gosto de pisar descalça, para sentir a textura, a temperatura. Para me conectar.

O chão me prende a realidade. Nele eu percebo que não sou mais que um grão na poeira cósmica que é nosso planetinha. Uma bactéria, uma mitocôndria. Ou menos que isso. Apenas um atomozinho. Um nada...

O Tempo.

Este sim. Eterno, ilustre, elegante. O ônibus segue para frente. A paisagem fica para trás. Meus dedos procuram as teclas e minha mente divaga. A janela do ônibus é larga, mas trancada.

Estou presa. Ao presente? Ao passado? Os pés estão no chão, mas meu chão se desloca. Sigo em direção a ontem. Lá esta meu pai. Minha memória. Meu sangue. Minha fundação.

Não se pode fugir dele.

É preciso que esteja inteiro. Resguardado. Restaurado. Vivo.

Melhor cavar mais um pouquinho. Ver se está bem firme. Quem sabe se eu colocar mais uma coluna? 

O presente pode melhorar esse alicerce. Mas, não perco muito tempo com isso. A janela continua mostrando que a paisagem corre. Cada vez mais rápido, para trás.




É o Tempo.

Avisando que não vai esperar mais nada. Tenho ganas de saltar da janela. Mas estou com os pés presos no chão. Melhor ficar por aqui mesmo, ao menos por enquanto. O Presente me chama de volta a realidade.

A janela vai ter que esperar mais um pouquinho. Falta pouco agora. A reforma segue em andamento conforme o cronograma. Logo, logo, a nova estrutura estará pronta.

Então, todas as janelas se abrirão... O ar fresco e a luz vão invadir todos os cantos da casa. Todos os dias serão de Sol e sempre será Primavera! 


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal


This little light o’mine.. I’m gonna let it shine. Let it shine. Let it shine. Let it shine…

E o Natal começou assim. Sorridente, musical. No conforto do sofá, no aconchego da cozinha. Tudo perfeito. A comida cheirando no forno. A casa limpa. As plantas regadas.
A mesinha pequena teve uma ceia bem simples. Pãozinho, panetone, suco de uva, rosca natalina. Presentinho. Nada de mais. Nem de menos. Apenas o suficiente.

Eu estava feliz com meu Natal sustentável. Sentia-me bem comigo e com o mundo.

Foi quando me atrevi a olhar pela janela e não gostei do que vi. Aqui, de dentro do conforto da sala de jantar, havia me esquecido de como é o mundo lá fora.
Tiros, bombas, crianças com fome. Drogas, violência. Gente sofrendo. Meninos armados. Pais que acorrentam o próprio filho dentro de casa para protegê-lo dele mesmo e do crack.
Olhei de volta para minha mesinha simples e fiquei triste.  Eu achava que tinha feito minha parte. Repartimos o pão e as roupas com quem tinha menos que nós. Oramos a Deus pelos menos afortunados e agradecemos pela nossa saúde. Cumprimentamos os amigos. Enviamos mensagens pelo facebook...

Mas, o som dos tiros continua ecoando em meus ouvidos. A visão de hospitais cheios. O cheiro do sangue. A dor dos aflitos... Foi tirando aos poucos minha Paz.
Difícil dormir em uma cama confortável, enquanto milhares não têm onde descansar a cabeça.
Sei que é fácil se engajar daqui de dentro do conforto do meu sofá. Teclando em um computador. Usando os dedos para tentar mudar o mundo. Será que é possível? Será que é suficiente?

Enquanto crianças segurarem armas, não pode haver Feliz Natal!

Eu sei que nessa época todos nós só queremos ver imagens de alegria e confraternização. Sorrisos, festa, comida e bebida. Mas, enquanto comemos nossa ceia, milhares de crianças morrem pelo mundo. Vitimas da fome, da guerra e da ignorância.

E o que estamos fazendo para resolver isso?

Não adianta dizer que não é problema seu. Tudo está conectado. Eu, você, o menino que fuma crack em São Paulo ou no Rio ou na Bahia. A menina Palestina que acaba de ser estuprada por um soldado ensandecido. E o playboyzinho que depois de tomar todas vai passar com seu Audi sobre várias pessoas inocentes ou se arrebentar em um poste.

Agora, aqui do meu confortável sofá, não posso fazer nada. Só posso orar. E convidar quem eu conheço para fazer o mesmo. É um começo. E que não seja o fim.

Tiremos alguns minutos da nossa Noite Feliz e façamos uma oração por eles. Não custa nada. Não é muita coisa. Mas, se há um Deus no céu, ele há de nos ouvir. Quem sabe se todo mundo orasse um pouquinho, o mundo seria menos violento. Quem sabe??

Quem sabe o que poderia acontecer se todo mundo se incomodasse com essa situação?
Não quero ser mais uma pessoa da sala de jantar. Mas, ao mesmo tempo me sinto impotente.
Só orar não basta. Só desejar não basta. Deve haver algo que se possa fazer de fato. Mas, o quê?



Amanhã o efeito das festas terá passado e nossa vida voltará ao normal. Seremos engolidos pelo relógio e não nos lembraremos de mais nada. Nem de festa, nem de dor.
Entorpecidos pela rotina, deixaremos o sonho para depois. Afinal, é preciso trabalhar, estudar, atender compromissos, cuidar da família. Mudar o mundo? Eu? Agora não posso. Estou muito ocupado tentando sobreviver...

Que não seja assim. Que nossa luz não se apague. Que o ser humano reencontre a harmonia com a Terra. Que a violência seja banida para sempre.

Que cada um se esforce um pouquinho para fazer um mundo diferente. Não amanhã, nem no Ano Novo, nem depois que as contas forem pagas. Mas aqui e agora.

Um Ano Novo decente para todos!

“Never, never be afraid to do what's right, especially if the well-being of a person or animal is at stake. Society's punishments are small compared to the wounds we inflict on our soul when we look the other way.” 
― Martin Luther King Jr.

domingo, 18 de novembro de 2012

Vegetariana


Não, obrigada. Sou vegetariana.

Por quê? Está doente? 

São as primeiras perguntas que escuto.  As seguintes usualmente são: Mas nem peixe? E frango? Ah, esse você vai gostar: É de camarão (!) Você pode comer bacalhau?

Gente, não se trata de poder ou não poder! É de Querer que estamos falando!

É bem difícil entender a cabeça de um vegetariano, mesmo!. E olha que nem sou tão radical assim. Em geral, acho graça e respondo com educação: Obrigada querido (a), mas eu não como animais!

Sem pregações, sem proselitismo. Não é uma questão de poder ou não poder comer carne. É só uma escolha. Como tantas outras que fazemos ao longo da vida. Respeito a sua. Respeite a minha!

Decidi ser vegetariana em abril de 2011. Nem faz tanto tempo assim. Foi a conclusão de um processo que levou anos. Começou em 2005 quando decidi que um dia pararia de comer carne. Ainda me considero em transição, já que não parei nem com o leite nem com os ovos. Ainda não sei quando vou parar ou se vou parar. Seria bem mais difícil, já que teria que preparar toda minha comida em casa. 

Provavelmente me tornaria bastante antipática perante os outros. Como recusar aquele bolinho feito por uma colega do trabalho e que parece tão apetitoso? E os docinhos do aniversariante do mês?
Logo eu que adoro bolo, sorvete, pão caseiro, chocolate e outras guloseimas... Não... Acho que ainda não evoluí o bastante. Peço licença às vacas e galinhas pelo mal que lhes estou causando e continuo a comer meus bolos...E os que os outros me oferecem também.

Aliás, comer é um dos grandes prazeres da vida. É tão bom, né?

Outro dia uma amiga me chamou para sair. Fomos ao Outback do shopping Iguatemi - Salvador.  Mas, criatura, o que uma vegetariana convicta faz no paraíso da costela de porco?

Foi ótimo! Além da conversa, que poderia ser até no banco da praça que seria tão boa quanto, encontrei ótimas opções no cardápio. Chá gelado, smashed potatoes – vem com queijo e alho. É só pedir para não colocarem bacon que fica perfeita. Tem também uma porção de brócolis na manteiga que é algo perto do divino. Tudo delicioso e um atendimento de primeiro mundo. Fiquei surpresa. Não esperava tanto.

Já em outros lugares, nem sempre é tão bom. Na “Sombra da Mangueira” – em Diogo – Litoral norte da Bahia – quase não há alternativas. Apesar de o local estar na lista dos bicho-grilos e o restaurante ter toda uma atmosfera bucólica, o cardápio é pobre. São as mesmas opções de sempre: moqueca ou peixe frito. Como os acompanhamentos e petiscos de sempre. Confesso que me decepcionei. O lugar é lindo, mas o que se come lá, se acha em qualquer lugar. Não surpreende. Não encanta. A salada de legumes varia a depender do estado de ânimo do cozinheiro. Uma vez me deram chuchu, cenoura, tomate e cebola. Odiei! Dei-lhes uma segunda chance e melhorou um pouco. Veio abóbora e vagem! Tudo cozido na água e sal.

Esse é um erro comum dos restaurantes. Pensam que quem come legumes está doente, e por isso, nos servem comida de hospital. Água e sal!! Muitas vezes só água, porque pensam que não podemos comer sal.

Vegetariana! Por quê? Está doente? Ai, ai...

Na Torre de Pizza – Lauro de Freitas – BA pedi uma sugestão de salada. Tomei um susto quando vi um prato do tamanho de uma pizza família com repolho e alface!!

Hello!!!  Sou vegetariana, não uma hipopótama! Acho que pensam que para alimentar o cliente o prato de salada tem que ter o mesmo peso de um de picanha! Foi um desperdício. Além de muito, estava ruim. Não consegui comer nem um terço. Foi tudo para o lixo. O que me deixou péssima, pois detesto estragar comida. Nunca mais voltei lá. 

Mas, nem tudo está perdido. Soube que há um restaurante famoso em Salvador que é muito bom. Chama-se “Saúde na Panela” e tem muitas opções gostosas. Ainda não fui, mas estou curiosa para experimentar.

Na Praia do Forte também é possível achar comida veggie. Eu provei uma moqueca de banana da terra que era a coisa mais maravilhosa que o dendê já fez. Pena que não lembro o nome do restaurante. Mas, é fácil de achar. Fica ao lado de uma loja de pedras semipreciosas de um argentino muito simpático.  

Mas o melhor mesmo é a boa e velha comidinha caseira. As possibilidades de combinações são infinitas. Do espaghetti ao alho e óleo ao risoto al funghi. Do Omelete au quattre fromages à feijoada sergipana. Do cuscuz ao pão caseiro. Huummm.... E mais gostoso ainda é quando você faz disso um momento de lazer com quem você gosta. Aí fica perfeito mesmo!

A vida vegetariana não tem nada de sem graça como dizem. Pelo contrário. É nutritiva, colorida e muito gostosa. Estou curtindo e não pretendo parar.

Meu tempo, Agora


Meu tempo, Agora!
Os fantasmas ainda me atormentam. As vozes, os ecos do passado. Ainda ouço seus gritos. Dizendo dores, cuspindo culpas, doendo coisas que não existem mais...

Meu tempo, Agora!
Quero ficar momentaneamente surda. Quero acender a luz. Quero que as coisas se dissolvam no ar. Quero ouvir as cores e ver o silêncio. Subverter a ordem. Quero gritar!

Um grito surdo que ecoe nos ouvidos de todos eles. Que diga que estavam errados. Que mereço viver. Que mereço ter tudo. Que mereço ser o que eu quiser. Que mereço ser livre e feliz.

Não! Não devo nada a você – Passado. Cruel. Injusto. Tirano. Você estava errado desde o começo. Eu venci. Pulei a janela da catedral, e apesar de suas ameaças, encontrei afeto. Eu não sou Quasimodo. E mesmo que fosse, eu ainda poderia viver sem você. Eu posso viver comigo. E posso ter amigos. E posso ter amor.

Meu tempo, Agora!
Quero que o passado se cale!
Eco, fantasma, monstro do armário. Don Giovanni! Você não existe!!

Silêncio, agora! Preciso escutar meu coração. Ele bate descompassado e ansioso. Não quer chegar atrasado no compromisso que assumiu comigo, no momento em que eu nasci.
Já perdemos tempo demais.

Meu tempo, Agora!
E agora quer dizer neste minuto exato. Quero estar aqui. Comigo, com amigos, com você! Você, Presente. Você que existe de verdade. Visível, real, tocável, sentível. Quero olhar no fundo dos seus olhos e ver um reflexo cristalino de mim. Sem sombras, sem dor, sem medo.

Meu tempo, Agora!
Eu lhe convido a viver. Andar descalço pela rua. Correr sobre folhas secas. Rir de si mesmo. Diga para eles, meu tempo, que a criança sem afeto não será o adulto perdido! Diga para eles que o passado é mentiroso. Diga que não é nada disso, e que eu venci!

Diga para eles. Mas, diga bem alto que eu quero escutar!
Vamos desafiar a matemática! Quero que a probabilidade se exploda em mil números coloridos.
Vamos fugir de moto. Deitar na grama, rolar no chão. Vamos sorrir e brincar. Vamos voltar suados, cansados e felizes. Vamos viver tudo de novo?

Meu tempo, Agora!
Me leve no tempo. A escorregar em tobogãs imaginários. A correr sobre estradas de chão, montanhas, areia da praia. A ouvir o riso alto das crianças e o risinho abafado dos namorados.

Me leve contigo. Aonde lembranças dolorosas não vão mais doer. Aonde o passado perdeu o chicote. Aonde há afeto e abraço. Aonde a criança encontra colo. Bolinho assado no forno. Historias para contar.

Meu tempo, Agora!
Me leve contigo. Mas, segura bem forte a minha mão, para que eu não queira voltar atrás. Seja firme comigo. Não me deixe vacilar. Grite aos meus ouvidos que é pra frente que se anda. E me ensina a perdoar. 

domingo, 11 de novembro de 2012

Hoje não quero café. Quero Segurança!

Novembro violento.

Este mês que nem chegou ao meio já me trouxe diversos casos de assalto com amigos próximos ou com amigos de amigos.

Um casal de amigos é assaltado a mão armada. Levam o carro e os pertences.

Uma amiga é assaltada em frente a um mercado super movimentado. Apontam uma arma para sua cabeça, levam seu carro e quase a levam junto.

Uma amiga posta no facebook que ao tentar ajudar uma senhora que acabara de capotar o carro termina por presenciar um assalto. O bandido leva a bolsa da senhora que já devia estar assustada com o acidente.  Alguém grita da janela do edifício para a cidadã que tenta ajudá-la: Saia daí!! Esse lugar está cheio de bandidos!!

Deus sabe como essa vida chegou em casa!

Uma pessoa é atropelada ou bate o carro. Outro se aproxima... para roubar-lhe o relógio ou o celular.

Todos os cidadãos acima vão à delegacia prestar queixa. Invariavelmente, as celas estão cheias e há meliantes sentados pelo chão, escoltados por guardas armados. Os meliantes lhes olham nos olhos. Ameaçadores. Você, ali, de cara limpa, tenta registrar queixa.

É obrigado a falar seu endereço em voz alta, pois a delegacia é barulhenta e o policial é meio surdo. Os bandidos ouvem seu nome, seu endereço e sabem detalhes da sua vida: Número dos documentos, telefone, sua cara e seu medo....

Depois de preencher um pedaço de papel, o policial lhe diz para voltar amanhã, porque o sistema está fora do ar ou o delegado de plantão não veio. Você volta amanhã, depois e depois. O boletim fica pronto depois de 15 dias e o policial lhe desilude: Não tenha esperança de recuperar seus pertences. A essa altura, já foram vendidos.

Como se não bastasse, você ainda ouve sermão do policial: "Minha senhora, aquela área é perigosa. Todo mundo sabe disso. O que a senhora fazia ali sozinha?" "Minha senhora, não ande mais com o vidro aberto". "Minha senhora, não use brincos. Não use relógio. Não use bolsa".

Compre um cachorro. Ponha tranca no portão. Não saia de casa. Não tenha bicicleta bonita...

Há policiais ganhando dinheiro fazendo palestras para lhe ensinar a evitar o ladrão... Por que eles mesmos não evitam o crime? Não é para isso que são pagos?

Seu carro foi para o desmanche e o seguro não quer pagar, porque acha quer você está fraudando... A moça foi estuprada.... porque estava de saia curta... porque estava sozinha num local escuro... porque homem é assim mesmo. Afinal, ele estava bêbado! Ou, quem sabe, ela estava bêbada e por isso ele achou que ela consentia....

Até quando?

Adoro meu país, meus amigos, minha família e meu emprego. Mas, são situações como essas que me dão vontade de ir embora. Isso não é um país. É um mangue (no sentido baiano da expressão)!!!

Já chega gente! Se o Governo não faz nada, temos nós que fazer alguma coisa. Ainda não sei o quê, mas estou pensando a respeito.

Não - não vou combater espada com a espada. Não acredito nisso. Acredito em educação, em bons modos e em Justiça. Mas, confesso que estou me sentindo impotente para resolver essa situação.

Se alguém aí tiver alguma ideia, compartilhe! Eu estou aceitando sugestões.



domingo, 28 de outubro de 2012

Fiscaliza, Cidadão!!!

Atenção senhores prefeitos! As eleições terminaram! Tratem de começar a trabalhar.. Imediatamente!

Mesmo morando em um município periférico e trabalhando em outro município satélite, eu me sinto soteropolitana. Todos nós do interior dependemos do que acontece nessa cidade tão linda e tão maltratada.

Minha cidade é praticamente um pitstop. Passo a maior parte do tempo fora dela. Salvador é a minha metrópole. É onde tudo acontece. É onde tem meu pôr do Sol favorito. É onde tenho amigos, onde estudo, onde passeio. Por isso, eu me interesso tanto por ela.

Quero o melhor para Salvador.

Vou fiscalizar o Prefeito da minha pequena Lauro. Mas, vou fiscalizar ACM Neto também. E talvez, com ainda mais intensidade. Acho que todos devemos fazer isso.

Entendamos de uma vez por todas que o Prefeito é nosso funcionário. Nós pagamos seu salário e por isso, temos todo o direito de cobrar resultados. Alías, temos até o poder de demiti-lo, se quisermos.

Se preparem, senhores! Não pretendo facilitar sua vida!

Quero e mereço uma cidade limpa, segura e organizada. Quero poder andar de ônibus sem ter medo de assalto. Quero conseguir caminhar a noite, correr, pedalar, passear com meu cachorro. Enfim, fazer o que eu quiser com meu tempo livre.

Quero que dona Raimunda, a distinta senhora que me ajuda em casa com as tarefas domésticas, consiga entrar e sair do meu bairro com segurança, voltando para o bairro dela em um ônibus decente, como convém a pessoas decentes.

Aliás, quero andar no mesmo ônibus que ela, para assim ajudar a poluir menos a cidade.

Quero ciclovia. Quero Praça. Quero luz, asfalto e água.

Quero Guarda Municipal. Quero coleta seletiva. Quero metrô. Quero trem e quero ônibus.

Quero escola. Quero comida nas mesas da escola. Quero livro. Quero professor bem pago e bem formado.

Quero criança na rua, só se for para brincar. Quero sinaleiras que funcionem. Quero fiscalização que funcione (a minha vai funcionar, vou logo lhe avisando).

Eu sou líder, meus caros Prefeitos. E não sou fácil não! Costumo deixar as regras bem claras para aqueles a quem lidero. E costumo cobrar, conforme as regras.

A partir de 01 de janeiro os senhores prefeitos de Lauro de Freitas e Salvador serão  liderados do Povo. São mais de 3 milhões de líderes exigentes. Acho bom não decepcionarem!

Atenção Soteropolitanos, a página do novo Prefeito é: http://www.acmneto.com.br/.  Isso não é propaganda política. Isso é cidadania.

A pequena Lauro de Freitas, com seus quase 170 mil habitantes, tem um certo Dr Marcio como Prefeito. Eu não achei sua página da internet. Acho que não tem. Mas, não importa. Isso não nos impedirá de fiscalizá-lo. Segue link para a página da prefeitura:
http://www.laurodefreitas.ba.gov.br/admin/app_home.php

Vamos parar de reclamar, falar mal de políticos e fazer o que está em nosso alcance: Fiscalizar, cobrar e exigir nossos direitos.

E que tenham todos um ótimo Governo!

sábado, 20 de outubro de 2012

Pára tudo! É informação demais. Vamos tomar um café!

Tem momentos que faço isso mesmo. Quando o cérebro não está processando mais nada e estou prestes a entrar em curto, páro tudo e vou tomar um café. Troco uma ideia com alguém. Ou fico ali sozinha mesmo, observando a fumaça que sai da xícara e pensando em como tratar toda essa avalanche de informações que recebo todos os dias. 

Ando refletindo sobre o efeito da modernidade sobre nossa saúde mental. Decididamente recebemos muito mais informações que nosso cérebro é capaz de processar. Tudo hoje é muito rápido e entrecortado. Interrompido. Raso.

Começamos a escrever uma mensagem no facebook e logo "pipoca" uma outra no MSN, e no twitter. E toca o telefone. E chega um e-mail novo. E a atualização do Windows lhe interrompe avisando que vai reiniciar sua máquina....AGORA!

... (reiniciando)...

Antigamente, usávamos mais o "ou". Ou escrevíamos uma carta, ou usávamos o telefone. Ou íamos falar pessoalmente. As cartas eram mais longas.

Ou conversávamos com uma pessoa ou com outra. Esse negócio de falar com três ou mais amigos simultaneamente sobre assuntos diferentes é coisa de doido! Minha avó nunca entenderia.

Eu estou achando que isso tudo está nos tornando mais impacientes. Mais rasos. Superficiais.

Se o professor oferece aos seus alunos um texto com mais de quatro linhas, os alunos desistem de ler. Pior! Sob o argumento de que tem “muitas palavras”. Ficam logo cansados e entediados. Querem que o professor leia por eles. Escreva por eles.  Pense por eles. 

No meu tempo de estudante, as redações tinham que ter de quatro a cinco parágrafos e de 20 a 25 linhas.

O meu filho só precisou escrever 15 linhas. O ENEM de 2010 exigiu 11 linhas. O de 2011 reduziu a redação para 8 linhas! O de 2012.... sete linhas...SETE LINHAS!!!!!

Como expressar uma ideia e desenvolver um raciocínio com apenas pobres 7 linhas?

Quem é que quer desenvolver ideias, minha tia? – Responderia um desses meninos da geração Z. Essa turma que já nasceu com um chip no cérebro e que não sabe segurar uma caneta, mas digita mais rápido que qualquer secretária executiva.

Pensam rápido. Aprendem rápido. Esquecem rápido. Agem sem pensar.

Nós queremos falar, não dizer. Informar, não conversar. Não há tempo para textos complexos. Não há tempo para filosofia. Não temos tempo para refletir. Nem para sentir. Estamos na era do AGIR! Be quick or be dead! 

                                                                 Blog do Quemel

Confesso que não estou gostando nada disso! Quero conversar. Falar e ouvir. Ler e escrever. Críticas. Comentários. Sugestões. Hipótese. Antítese. Tese.

Quero a reflexão. Quero mais contato. Menos superfície. Mais conteúdo. Olho no olho!

Sei lá.... O que vejo adiante é uma epidemia de psicóticos. Surdos sem problemas de audição. Analfabetos que conseguem ler, mas não conseguem entender o que as palavras lhe dizem. Líderes que decidem com base nas três primeiras linhas de emails que fingem ler. Porque afinal, mais importante que decidir certo é decidir rápido!  

Pessoas impacientes, intolerantes e que medirão seu sucesso pela rapidez com que conseguem responder aos milhares de estímulos que recebem. Sem se preocupar com a qualidade dessa resposta. Sem se preocupar com o impacto das suas decisões. É tudo tão rápido mesmo, que daqui a cinco minutos ninguém vai lembrar do que foi dito ou escrito.

As palavras estão ficando mais curtas e mais escassas. Os vocabulários, cada vez mais restritos.

Ou encontramos o caminho do meio ou vamos todos ficar meio doidos.

Quem consegue ler, entender e responder 200 emails por dia, dentro de uma rotina que inclui conversar com pessoas, andar, comer, rir e amar?

Quem consegue absorver tanta informação? Como diria Caetano...“Quem lê tanta notícia?”.

Por que temos que andar plugados o tempo todo? O ipod no ouvido, um olho na TV outro na internet e dedos rápidos que interagem com todas as redes sociais existentes ao mesmo tempo.

Deixo aqui o meu protesto!

Proponho voltar a ser simples. Que tal uma vez por semana ir para um lugar onde não haja telefone, nem TV, nem internet? Só para a gente descansar um pouco a cabeça?
  
Na Higiene Ocupacional se utiliza o repouso como forma de reduzir o impacto dos agentes de risco na saúde das pessoas. Se há exposição a ruído, se passa uma parte do tempo em um ambiente mais tranquilo. Se numa tarefa há o uso dos braços, que se alterne com alguma atividade que utilize as pernas. Se o indivíduo está em um ambiente quente, vai para uma área mais fresquinha....


E se está exposto a excesso de informação, faz o quê?

Desliga. Desconecta. Cala.

Sugiro o silêncio. Um pão caseiro. Uma xícara de chá ou de café. Uma caminhada no mato. Um bom papo com os amigos. Sem ipods e sem celulares. Por favor!

Descansar a mente e o espírito. Não podemos interromper o avanço da tecnologia. Mas, é preciso saber a hora de parar a nós mesmos. 

Vou agora mesmo fazer um capuccino e refletir um pouco mais sobre isso tudo enquanto observo a fumaça da minha xícara se esvair no ar. Estão servidos?


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nostalgia – IQ, Haroldinho, UERJ e eu


Nostalgia – IQ, Haroldinho, UERJ e eu


Hoje entrei na UERJ pela segunda vez, depois de formada. A primeira vez foi para pegar o diploma. Foi tão corrido que nem teve graça. Não teve saudade. Naquela ocasião o sentimento era mais de alívio que de nostalgia.

Hoje foi diferente. Mais de dez anos se passaram. Fui de ônibus, como fazia quando estudava lá. Desci no mesmo ponto em que costumava descer todos os dias, durante quatro anos da minha vida. Passei pelo mesmo portão. 

Um vendedor de livros usados expunha seus produtos bem na entrada. Eu me lembrei de como gostava de livros usados. Quase comprei um. Fui retida pelo sentimento de culpa por ter mais de dez na fila esperando para serem lidos.  Segui adiante. Quando eu vi aquele prédio de estilo arquitetônico brutalista e senti aquele cheiro de livro velho, uma onda de lembranças me invadiu. Tive vontade de abraçar o prédio inteirinho. Disse baixinho só para mim e para o prédio: Obrigada, UERJ.

Eu me lembrei da primeira vez que passei por aquele portão, encantada com toda aquela imponência. Cheguei a pensar que não saberia mais achar o Haroldinho(1). Deixei meus pés me levarem. Abri um largo sorriso quando vi aquele anexo baixinho. Uma moça estava na sacada do prédio principal que dá vista ao Haroldo Lisboa e me viu sorrir. Olhei para ela e me lembrei das histórias que contavam sobre pessoas que se suicidavam pulando das sacadas. Espero que ela não tenha feito isso. Espero que meu sorriso a tenha feito pensar que afinal, se valeu a pena para mim, valerá a pena para ela também.

Subi pelas escadas, como sempre fazia. Nunca tive paciência para elevador.  O cheiro de formol do segundo andar continua o mesmo. É onde ficam os laboratórios da Biologia. Tudo igualzinho. Chegando ao terceiro andar, dei de cara com o CAIQ(2). Estava trancado. Olhei pelo vidro para ver as mesinhas. Hoje com computadores modernos. Antigamente ocupado por alunos alegres, barulhentos e que ouviam Tihuana e Raimundos enquanto jogavam buraco. A gente sentava pelas escadas e pelo chão ao redor do CAIQ, de onde emanava uma energia boa, jovem, rebelde, meio perdida, mas cheia de sonhos.

Nunca joguei buraco. Não por ser certinha, mas é que eu não sabia mesmo. Às vezes tinha que pular sobre as pernas da galera que se espalhava por ali, para passar de um andar ao outro. Adorava aquele povo. Gostava de ouvir as histórias deles. Todos sempre muito bem humorados.

Fui à secretaria e perguntei pelo seu Secundino, antigo funcionário que sempre me atendia muito bem. Soube que ele morreu, e então entendi que o tempo passou. Que aquele eco de risadas e conversas entrecortadas é apenas uma lembrança. Assim como aquele querido técnico administrativo que se foi.
Colado no vidro da secretaria, há uma plaquinha imitando as letras do Profeta: “Gentileza gera Gentileza”. De fato, se você espera obter alguma coisa de uma secretaria de Universidade, seja gentil. Aliás, traga uma dose extra de gentileza, porque você vai precisar. Eles são em geral muito “gente boa”, mas como a estrutura não ajuda, qualquer pequeno serviço é sempre muito, muito difícil.

Não foi diferente na minha vez. O procedimento que eu precisava seguir duraria no máximo uma hora. No meu caso, durou quatro. Mesmo com todo o meu estoque de gentileza e paciência em jogo.
Como a coisa ia render, aproveitei para visitar o campus principal.

Passei pelo Queijo(3). Tive vontade de sentar ali para matar a saudade, mas já estava ocupado. Lembrei subitamente que ele sempre esteve ocupado e que eu nunca havia sentado nele, por só andar apressada para almoçar ou para as aulas do 11º. (Faculdade de Educação).

Fui ao terceiro andar. Era o território da engenharia. Terra de bicho grilo, calça jeans e gente despida de vaidades. Bem a minha cara. A turma ali andava largada mesmo. Blusa de malha desbotada, mochilinha, tênis ou chinelos. Antigamente, havia ali o bar do DCE, até que alguém teve o bom senso de proibir bebidas no campus. Virou bandejão. Ainda estava lá, no mesmo lugar, mantendo inclusive a mesma disposição das mesas e das rampas de comida. Deve ter mudado de dono, mas para mim continuava igual. Na minha época de estudante, era uma boa opção para comer. Não era assim tão barato, mas era viável. Foi ali que aprendi a ser precisa nas pesagens. Mais que nas aulas práticas de Quanti(4). Minha refeição não passava de 195+/- 10 g!

Fui me servir e consegui exatos 200g, mostrando que não esqueci minha lição. Comprei o mesmo serenata de amor que comprava para a sobremesa e não tomei o cafezinho, por que dessa vez era pago. Foi divertido repetir essa sensação. Entrei no banheiro, que continua exatamente no mesmo lugar e chorei. Chorei por aquela menina que tinha que contar os centavos todos os dias. E que ficava exasperada se perdesse alguma moeda. Abracei aquela menina e disse a ela que tudo isso passou. E que agora ela pode dizer a outras meninas que sonhar é bom. E que correr atrás do sonho é sempre um exercício válido.

Subi até o quarto andar para ver se o restaurante de massas ainda estava lá. Havia ali uma lanchonete que servia um joelho delicioso. Daqueles que o queijo fica esticando, sabe. Eu adorava. Às vezes o dinheiro dava para o joelho, às vezes não. A turma gostava de ir lá à noite, entre uma aula e outra. Quando o dinheiro dava, eu comia. Quando não, dizia que estava sem fome só para poder ficar ali com eles, conversando e absorvendo aquelas experiências tão diversas das minhas.

Eles falavam sobre suas viagens de fim de semana e dos planos para o futuro. Alguns, reclamavam de terem se atrasado porque não tinha vaga no estacionamento. Outros, de como era ruim ter que acordar tão cedo e dormir tão tarde. E de como, para quem não tinha carro, aquele determinado ônibus só vivia cheio e aquele outro era sempre alvo de assaltos.

Falavam também dos seus problemas. Do filho pequeno que ficou em casa. Do estágio que era chato e pagava pouco. Ou do que era muito interessante e onde pretendiam permanecer após formados. Falávamos das nossas crises, dos nossos pais e dos nossos relacionamentos. Aliás, vários desses começaram ali, naqueles corredores.

Eu ouvia aquelas histórias com admiração e interesse. Via que, em maior ou menor grau, todos nós tínhamos lá nossas dificuldades. 

Para mim, nada era fácil. Acordava às 4:30, dava um beijo no filho, pegava três ônibus, chegava atrasada no estágio, depois andava por mais de uma hora até a faculdade, para guardar o dinheiro do joelho. Aí assistia às aulas até às 22h e saía correndo para tentar pegar o último ônibus, que sai precisamente às 22:20, mas que pode ser cancelado em caso de chuva.

Se desse sorte de ter chuva, pegava um outro ônibus que pára mais longe e andava  por mais uma hora, no escuro e com medo de assalto, até chegar finalmente em casa. Tomava um copo de leite, um banho rápido, dava mais um beijo no filho antes de um breve cochilo para começar tudo de novo. Minha mãe insistia para eu jantar, mas eu preferia dormir a comer...

Voltando às massas e ao quarto andar.... O restaurante estava lá. Com suas mesinhas de madeira e toalhas quadriculadas vermelhas e verdes. Quase igual. Só que não tinha mais joelho...Agora só serve ravióli, caneloni e outros bichos. Serve sanduíches também. Mas nada de joelho. Que pena! Mas, enfim. Eu não ia comer mesmo. Só queria ver se ele ainda estava lá.

Pensei em subir mais um pouco, até o 7º. Andar. Era lá que eu ia quando precisava de colírio. O andar da faculdade de Direito. A maior concentração de gente bonita por metro quadrado de todo o campus. O oposto da engenharia. Os meninos andavam de terno e as meninas de tailleur e salto alto. Um luxo! O restaurante também era melhor e obviamente, mais caro. Fiquei com preguiça e não fui.

Também não fui ao 11º. Onde, na época das vacas realmente magras, eu comia um refresco de caju e um pãozinho com queijo por R$1,00. Foi lá que eu tive minha formação humanística: Psicologia, Sociologia, Didática e Metodologia do Ensino. Bons tempos.

Fiz o caminho de volta ao IQ. Andei pelos corredores, sentei nos bancos. Lembrei da minha amiga Fernanda Costalonga e de nossas conversas sobre chocolates e de como essa iguaria nos salvava do stress. Ela era linda, educada e gentil. Vivia às turras com a balança, por ser gordinha. Estagiou na FIO-Cruz e seu fusca tinha um buraco no piso. Dava para ver a avenida Brasil por aquele buraco. Era um fusca adorável!

Lembrei de Fernanda Ribeiro, de Ilton Jornada, de Fátima Gomes e de um churrasco feito ali mesmo, no estacionamento do Haroldinho, nos tempos em que eu ainda comia carne...Lá vai tempo...

Lembrei dos meus colegas da Engenharia Química, com quem fiz todo o ciclo básico e com quem me formei, graças a benevolência deles. A Licenciatura só tinha três formandos e por isso, a turma de Engenharia que se formou no mesmo ano nos adotou.

Lembrei da minha formatura e das fotos que tirei ali por aquelas escadas. Do meu filho pequenininho segurando o canudo simbólico, todo orgulhoso. Fiquei tão feliz. Que bom que passei por ali. Que bom que tinha disposição para aquela maratona doida. Que bom que eu não desisti. Olha, moça da sacada, não desista não, viu? Vai valer a pena!

Obrigada, UERJ. Guardo somente lembranças maravilhosas de você.

De como a gente conseguia fazer graça de tudo. De como eu ri de mim mesma no dia do temporal que me fez assistir aula com o tênis encharcado, que fazia “chop-chop” quando eu andava e deixava um rastro de água e lama pelo caminho.

Do dia que faltou luz no campus porque um gato entrou na subestação, e a gente desceu as escadas de mãos dadas para ninguém cair.

De como todo mundo se ajudava na hora de estudar para aquelas matérias mais cabeludas. De como os cadernos migravam de mão em mão para tirarmos Xerox das aulas, das listas de exercícios resolvidos e dos relatórios dos períodos anteriores. Do rádio da Xerox que tocava reggae. Do moço da Xerox que era gente boníssima.

Da minha alegria quando fui aprovada. Da sensação de orgulho por estar numa Universidade. Do nervosismo na primeira prova de Cálculo e de como devorei o Leithold até aprender aquela porra! Das aulas de laboratório em que eu era sempre a última a sair. Dos técnicos que sempre tinham a maior paciência com meu excesso de meticulosidade. Do estágio na Quanti. Do professor de Ciências ambientais. Das aulas de Termodinâmica. Dos relatórios das práticas de laboratório e da monografia de Orgânica IV!

Não fui só CDF não, minha gente. Também devo lembrar....

Da aula de Inorgânica que matei para ver o show do Gil na concha acústica, e da outra que filei para ir com Marcio Marçano, ver  “O Rei de Copas”, peça engraçadíssima que passou na mesma concha. Da prova de Orgânica que matamos juntos, de novo eu, o Marcio, a Angélica e mais alguns amigos para ver “A Rede”, filme com a Sandra Bullock que já antecipava que ninguém mais estaria seguro quando essa tal de internet dominasse o mundo....

É verdade. Eu ralei. Dormi pouco, comi mal, trabalhei feito um jegue e estudei feito um aspirante ao MIT. Não fui às calouradas, nem às chopadas, nem às cachaçadas. Nem mesmo à do meu trote, porque não bebia e também não podia perder o ônibus. Mas, eu me diverti. Eu vivi e aprendi demais que toda aquela gente. Colegas, professores e funcionários. Foi uma época iluminada da minha vida.

Espero que todos eles estejam bem. Felizes, onde quer quer que estejam, fazendo o que quer que estejam fazendo. Vivendo! Espero que eles também guardem essas lembranças boas. Espero que lembrem de mim com o mesmo carinho com que lembro deles. Espero que leiam esse texto um dia.
Um enorme abraço a todoso: Ao Prédio, ao Haroldinho, ao Queijo, aos alunos, professores e ao Secundino, que Deus o tenha em bom descanso!!


Notas
11      Prédio Haroldo Lisboa – Onde ficam os Institutos de Química e Biologia. Carinhosamente apelidado de “Haroldinho” por alunos, professores e funcionários.
22      CAIQ – Centro acadêmico do Instituto de Química.
33      “Queijo” ou “redondo” – Uma pedra de granito bem grande que fica no meio do saguão de entrada, perto dos elevadores. Tem formato de uma mesa estilizada, lembrando um queijo redondo. Como tudo no Rio, sempre acaba ganhando um apelido divertido.
44   Química Analítica Quantitativa


domingo, 7 de outubro de 2012

Conversas imaginárias

Uma conversa imaginária baseada em fatos reais.

Hora do café da tarde. As cigarras silvam em uma árvore distante. Faz calor na Baixada Fluminense, mas à noite deve chover.

Uma criança, um pai, uma xícara de café fumegante e perguntas existenciais...

- Pai por que o passado se chama passado e o presente se chama presente? E o que é o futuro?

- Filha, por que você não comeu aquele bolo que sua mãe lhe fez e você nem provou?

- Xiii, pai. Esqueci! Agora, já tem mais de uma semana! Deve estar passado!

- Exatamente, filha. Passado, é aquilo que passou do tempo. Virou história. O futuro, é desconhecido. É como aquela estrada para a serra, quando está cheinha de nuvens. A gente não enxerga nada, não é mesmo? Mas, conseguimos enxergar passo a passo, metro a metro, conforme vamos avançando. Isso é o futuro. A gente só entende mesmo, quando ele vira presente.

- E o presente, pai?

- Ah, o presente é uma dádiva. É por isso que ele se chama presente. Precisamos aproveitá-lo bem, senão, ele fica igual aquele bolo que você não comeu. Fica passado e você nem pôde saber se era bom ou não.

Entendeu, minha filha?



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Eu sou filha do Feijão e do Sonho



"E quando olhei no espelho / Eu vi meu rosto e já não reconheci. 

E então vi minha história / Tão clara em cada marca que tava ali..."


Este mês faço quarenta anos. Idade da razão. E da reflexão.

Estive pensando em quem sou eu. Quais são meus sonhos? De onde eu vim? Aonde quero ir e o que vou deixar pelo caminho? Aliás, onde estou agora e o que eu já deixei para trás?

Um monte de erros e acertos. Um monte de gente, coisas, livros... e Lembranças. Algumas permanecem comigo. Outras foram esquecidas. Outras ainda...estão exatamente onde as deixei. À minha espera. Para um resgate a qualquer tempo que eu queira...

Fiquei pensando em como era o mundo em 1972, mais especificamente no dia 29 de setembro, quando nasci. Descobri algumas coisas interessantes. Afinal, o mundo não parou para me ver nascer. Esse é um dos produtos da reflexão dos 40. Você começa a ver as coisas em perspectiva e já enxerga com mais clareza o que há além do seu umbigo.

Descobri que era uma sexta-feira. E que vários eventos aconteceram por aí. Muitos decretos foram publicados, muita gente nasceu, se casou e morreu.

O Papa Paulo VI fez um discurso na França para  professores. No Brasil, era publicada a Portaria 1002, que teria sido a primeira Lei de Estágio. Nos porões da ditadura, morria uma certa Helenira Rezende de Souza Nazareth, guerrilheira. Torturada, metralhada nas pernas e morta a golpes de baioneta. Seu crime: Levar seus ideais a ferro e a fogo... literalmente. Eram tempos difíceis. Radicais de ambos os lados dilaceravam nossa República.

Esse era o cenário. Como todos os dias, gente nascia e gente morria. Gente sonhava e gente sofria. A vida seguia seu curso.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, debaixo de uma chuva torrencial, uma mulher baixinha tentava pegar um ônibus para a maternidade.

Dela herdei o meu senso de dever, o gosto pelo trabalho e uma quase obstinação por fazer direito o que me é devido. A certeza de que ao fim do dia, se tudo der certo, não terei feito mais do que a minha obrigação.

Do meu pai, herdei o sonho. O ideal. A crença de que amanhã vai ser sempre melhor e que todo ser humano tem jeito. Só precisa de apoio e educação.

Minha mãe - prática, determinada. Primeiro o dever, depois a obrigação. Primeiro pague as contas, depois, se der, vá ao cinema.

Minha mãe é o Feijão!

Meu pai - a terra, o cheiro de chuva, o trabalho que enobrece o homem. A Revolução pelo Voto. O exemplo. A coragem de largar um emprego estável, para preservar seus valores - sim, ele fez isso e lhe custou muito caro. Militar, carreira certa até o fim da vida. Cansou de prender jovens idealistas como ele. Não queria mais saber de Heleniras morrendo. Largou tudo, para ficar em paz com o travesseiro. Virou motorista de caminhão para criar a filha pequena.

Depois, continuou a perseguir seu sonho até encontrá-lo... Uma casinha branca de varanda, um quintal, uma janela, um canteiro...Plantar e colher com as mãos a pimenta e o sal...

Meu pai é o Sonho!

A esses dois seres cheios de defeitos eu atribuo a minha igual imperfeição. Da minha mãe, o buço português, as perninhas tortas e uma certa teimosia. Do meu pai, ensimesmada, guardo minha tendência à melancolia. E como ele, luto contra ela com unhas e dentes, porque, também como ele, aspiro a vida com toda a força dos meus pulmões.

Aceito as rugas, os cabelos brancos, a certeza dos meus limites.
Perdôo meu pai, por sua ausência. Perfeitamente justificada pelos moinhos de vento que ele viveu a perseguir.
Perdôo minha mãe. Pela sua dureza. Compreensível, para quem nada tem e muito deseja. Para quem queria ensinar que a vida é difícil mesmo. Eu entendi, mãe. Agora, eu entendi tudo.

Aceito a experiência que vem com o tempo. A paciência que aprendi a cultivar. Agradeço. A tudo e a todos, pelo dia de hoje. Pelos anos vividos e pelos que ainda vou viver. Eu sou fruto de tudo isso aí que se passou comigo. Bons e maus momentos. Dor e riso. Feijão e Sonho.

Obrigada, Deus pelas pessoas que colocou em meu caminho. Aprendi muito com todos eles e elas.

Que venham mais 40 anos! Sei que agora, nada será como antes. Mas, ainda serei feijão e sonho. Vou trabalhar até o fim. Vou ter uma casinha na montanha, ir ao trabalho de bicicleta, fazer bolinho de chuva para os netos e lhes contar histórias do vovô e da vovó. Esses seres lindos que Deus me deu o privilégio de ter como pais.

Obrigada Pai.
Obrigada Mãe.




terça-feira, 4 de setembro de 2012

Há tempos tive um sonho... que não me lembro


I Have A Dream ABBA
I have a dream 
A song to sing 
To help me cope 
With anything 
If you see the wonder 
Of a fairy tale 
You can take the future 
Even if you fail 
I believe in angels 
Something good in 
Everything I see 
I believe in angels 
When I know the time 
Is right for me 
I'll cross the stream 
I have a dream 

I have a dream 
A fantasy 
To help me through 
Reality 
And my destination 
Makes it worth the while 
Pushing through the darkness 
Still another mile 
I believe in angels 
Something good in 
Everything I see 
I believe in angels 
When I know the time 
Is right for me 
I'll cross the stream 
I have a dream 

O sonho é a razão de ser de uma criança. Tendo pouco o que comer, ela brinca que a fatia de chuchu cozido é um bife. Que a casa é um castelo. Que uma fada madrinha vai aparecer e transformar suas roupinhas gastas num lindo vestido.

Ela sonha. Que um dia vai ser grande. Que vai ser bonita e elegante. Que vai andar de salto alto e falar muitos idiomas. Que vai sentar numa mesa bem grande cheia de talheres e taças. Cheia de gente e de sorrisos.

Ela cresce. E por um tempo se esquece dos seus sonhos. Era o que mesmo que ela queria ser quando crescer.. Ah.. cientista. Queria descobrir a cura de uma doença. Trabalhar na Hoescht. Fazer "Química a serviço da vida".

Ela descobre que odeia salto alto. Que não gosta mais de bifes. E que não é cientista.. 

A vida mudou de direção. Mas, não totalmente. Até que não foi tão ruim. Não é a Hoescht. Essa, nem existe mais. Mas, tem Química, e Vida. E tudo mais.

Quando a tristeza aperta, ela se lembra que um dia teve um sonho. Que a ajudou a passar pelos momentos mais difíceis. Que a fez andar uma milha a mais no meio do escuro. Com o sapato furado. Ou com um calo dolorido. Ou com fome. Ou muito cansada mesmo.

Ela ainda acredita em anjos. Que eles estão aqui e agora segurando sua mão. Que seus problemas nem são tão grandes assim. E que quando está doendo muito, é só fechar os olhos e continuar andando. Afinal, a realidade é um rio que se tem que atravessar a nado. Se parar, se afoga!

Então ela fecha os olhos e nada. E atravessa mais esse rio, de braçadas. Toma fôlego. E segue em frente.

E continua acreditando.  E lembrando de que quando era criança tinha sonhos tão simples. Tão simples, que ela as vezes se pergunta: Com o que eu vou sonhar agora?
.



domingo, 12 de agosto de 2012

Mas a Copa vem aí e tudo se resolverá...


Mas a Copa vem aí e tudo se resolverá...

Eu também fiz côro para criticar o Brasil. Sempre que via algum absurdo, tipo três horas de engarrafamento em um trecho de 40 km, eu repetia, ironicamente: “Mas, a Copa vem aí e tudo se resolverá”.

Aí vem... A Copa!  Logo depois, as Olimpíadas. E eu não estou vendo a movimentação que esperava. Não sei onde estão os trens, os metrôs, os ônibus e os bondinhos para levar e trazer a gente toda para os eventos. Eu desejava que a essa altura o Brasil inteiro fosse um grande canteiro de obras e que várias coisas já estivessem prontas. Tipo... O metrô de Salvador, por exemplo...

Não sei como receberemos visitantes em nossos banheiros públicos imundos e quebrados. Nos nossos ônibus e trens sempre cheios e atrasados. Em nossos aeroportos... Enfim. Não sei como será...
Hoje, lendo o jornal “O Dia”, do Rio, tive um surto de esperança. Não sei se era matéria paga ou se realmente algo está acontecendo. Li que várias obras estão em andamento, dentro dos prazos. Li que o COB está trabalhando duro para se manter dentro do orçamento e ter tudo pronto, a tempo e a hora para as Olimpíadas.  Li recentemente que o Rei Pelé está preocupado com a infraestrutura para a Copa, mas, está confiante de que tudo dará certo.

Soube que vai ter metrô da Zona Sul para a Barra da Tijuca. Teremos competições em Realengo e na Marina da Glória. E o trânsito entre os centros desportivos será de no máximo 50 minutos. Promessa de campanha? Não sei. Gostaria que fosse verdade.

Soube que o Governo vai financiar os atletas que demonstrem hoje algum potencial para ganhar medalhas em 2016. É a “Bolsa Pódio”. Sem apologias, sem demagogias... Sei lá se a ideia é boa. Mas, ao menos é uma ideia. Esses meninos precisam mesmo de apoio. Pela reportagem, não será só dinheiro. Eles terão nutricionistas e psicólogos a disposição. É um começo.

A cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres será transmitida ao vivo em um telão, na zona portuária do Rio de Janeiro. Haverá música e alguém vai contar a história das Olimpíadas para quem estiver lá. Bom, ao menos, estamos entrando no clima!

Isso me deu uma vontade danada de ajudar. Estou muito preocupada com esses eventos. E se for um caos? Um vexame internacional? E se tiver apagão aéreo? Não vi ninguém mexer uma pá de pedreiro nos aeroportos daqui.... De que adiantará ter metrô se o turista não conseguir chegar ao país?

E os engarrafamentos? E a violência urbana? E se as delegações forem assaltadas? E se roubarem as medalhas? E se a bagagem da delegação norte-americana se extraviar? E se os correspondentes internacionais forem assassinados durante um assalto em frente a Vila Olímpica? E se furtarem o laptop do Presidente do COI na hora da abertura oficial? E se um incêndio destruir as fantasias da Escola de Samba que vai se exibir na cerimônia? E se o Usain Bolt for sequestrado? E se a Polícia entrar em greve?

E o que faremos com nossas ruas cheias de pedintes, mendigos, batedores-de-carteira, bêbados, drogados, traficantes, bandidos,........ O que faremos das nossas calçadas sujas, fedidas e dos nossos becos escuros?

O que faremos com os nossos políticos? ? ?

Que Deus permita que esse cenário de filme noir fique só na minha imaginação.
Será que tem algo que possamos fazer para ajudar?

Se tudo der errado, não adiantará culpar o Governo. A vergonha será de todos nós. O Brasil será escrachado publicamente, internacionalmente...

Para completar minha angústia, vamos suceder a competente Londres na tarefa de sediar as Olimpíadas. Veterana, já sediou três! Lá, tem trem desde o tempo em que andávamos de carroça. Lá, o metrô programado para as 8h30’30’’ chega nos exatos 30’’, conforme o planejado.

Lá onde você percorre a cidade inteira debaixo da terra, entrando e saindo dos “tubes”. Minding the gaps, always! Lá, todos os carros param diante das faixas de pedestre e todo mundo fica do lado direito da escada rolante.

Como vamos competir com essa gente?

Dá medo. Dá um frio na barriga...

Enquanto reflito sobre o assunto e jogo essas palavras no papel, eu me sinto impotente.

Mesmo assim, ainda quero ajudar. Vou começar estudando melhor os candidatos às próximas eleições. Quem sabe votando certo, posso contribuir de alguma forma?

Se alguém aí tiver mais ideias, compartilhe. Não vamos deixar que a Copa seja uma vergonha, nem que as Olimpíadas sejam um fracasso retumbante. Não vamos deixar que a corrupção vença. Os jogos são nossos e dos nossos atletas. Vamos tomar posse deles!

E a contagem regressiva começou: Os Deuses do Olimpo visitam o Rio de Janeiro

Conheci o túmulo de Mme Simone de Beauvoir por acaso

Numa tentativa frustrada de conhecer as catacumbas de Paris, acabei indo parar no cemitério de Montparnasse.

Era meu último dia de passeio em Paris e uma preguiça enorme tomava conta do meu corpo. Sem coragem para enfrentar trens cheios e filas, optei por ir para a estação Denfert Rochereau, onde meu mapa turístico apontava a localização das famosas catacumbas.



Pensei com meus botões... Todos os turistas devem estar no Louvre. Pouca gente se interessará pelas catacumbas... 

Lêdo engano... Não sei de onde brota tanta gente nessa cidade!! 

Ao chegar na estação, pedi orientação a um distinto cavalheiro do balcão de apoio aos turistas. Ahhh. Les catecombes... Cest lá, madame... You will need to wait 4 hours to get in... Disse ele num inglês totalmente francofônico....

4 heures!!! Quel'horreur!! Pas possible!! Respondi num francês totalmente macarrônico! 

Eu não tinha condições de ficar em fila alguma. Aliás, vou me lembrar de nunca mais vir a Paris no verão. É fila para tudo. Tem fila até para perguntar onde é a fila....

Para não perder a viagem, resolvi continuar o passeio. As ruas são agradáveis e arborizadas. Não são cheias de gente como as do centrão de Paris. Tem parques, Brasseries, barzinhos. Tudo muito bonitinho. Só tenha cuidado ao escolher onde comer. Os preços variam muito. Não pare na primeira opção! Enquanto um restaurante cobrava 24 euros o menu, o outro oferecia o mesmo por 11,80! Acabei comendo um delicioso tartine com salada, muito bem servido,  por 9 euros. Se você for mochileiro de verdade, pode economizar mais ainda, comprando um pãozinho e uma bebidinha nas quitandas que ficam pelas ruelas. Tudo bem limpinho e gostoso.


Avistei um lugar que parecia um parque. Logo descobri tratar-se do cemitério de MontParnasse.  Tão grande que ocupa um quarteirão inteiro.

O cemitério é bem bonito. Um lugar de descanso mesmo. Cheguei a deitar num dos banquinhos sob uma árvore e tirar um cochilo... Só ouvindo o canto dos passarinhos e o farfalhar das folhas anunciando que o outono está próximo.... Ali não deve nem ter fantasmas. Todo mundo parece estar descansando em paz!


Encontrei túmulos bem variados. Alguns, muito bem cuidados, com flores frescas. Outros cobertos pelo limo. Parece que foram esquecidos há séculos. Túmulos cristãos, judeus e chineses. Ricos e pobres. Antigos e modernos. Tudo bem democrático.

Havia um túmulo bem interessante. Todo em aço inoxidável de boa qualidade. Ele ainda tinha uns móbiles também de aço que serviam de enfeites. Imaginei ser o de alguma criança ou artista. Não fotografei, porque achei desrespeitoso.

Continuei caminhando em busca nem eu sabia do quê. Bom, deve ter alguém famoso por aqui.... Vejamos.... Pierre Larrousse, editor... não sei quem... Arquiteto..., escritor, cantor... Não-sei-quem-lá... Morto pela pátria....... Voilá!!... Mme Simone de Beauvoir! 

Bom, esse mereceu a foto. Afinal, ela pertence a todos nós. 


Descobri que Mme de Beauvoir está sepultada junto ao companheiro, M. Paul Sartre. Sei pouco sobre eles. Infelizmente, ainda não li seus livros. Mas, já tratei de inclui-los na minha lista.

Só sei que os dois foram precursores do amor livre e ícones da filosofia dos anos 70. Simone antecipou tendências e inaugurou o feminismo. Sartre defendia ideias esquerdistas. Beauvoir defendia as mulheres.  Pareciam ter personalidades vibrantes, pensantes e atrevidas.

O casal viveu por muitos anos. Mesmo tendo cada qual seus "affaires" aqui e ali, sempre estavam juntos.

Achei curioso que as pessoas colocam bilhetes de metrô no túmulo do casal. Já que estava lá, coloquei um também. Depois, fui procurar saber o porquê desse costume.

Descobri que tem algo a ver com um movimento dos anos 70 contra o aumento das tarifas do metrô. Um grupo de ativistas teria roubado tíquetes do metrô de Paris e os espalhado pela cidade. Ao que parece, M. Paul Sartre apoiou a ideia e se tornou editor do jornal daquele grupo maoísta. Bom isso, é o que está na rede. Se alguém souber de mais informações, me conte!! Fiquei bem curiosa.


Além dos tickets, há bilhetinhos direcionados a Simone. Vários são de mulheres inspiradas pelos seus ideais de liberdade. 

Simone teria dito: “one is not born a woman, but becomes one” ("Uma pessoa não nasce mulher, se torna uma"). Je suis d'accord, mme de Beauvoir!!! E não é nada fácil se tornar uma mulher!

Se você também sabe pouco e quiser conhecer mais sobre o casal, clique no link que direcionará para a wikipedia: Simone de Beauvoir.

Vou ler mais sobre esses dois. Depois, conto tudo para vocês.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Em defesa dos cabelos crespos



Oh yeah! I Love my hair!

Quando eu era bem pequena sofria muito por causa do meu cabelo duro. “Tão bonitinha, pena que nasceu com cabelo ruim!”. “ Ah, se não fosse esse seu cabelo...”. “Não! Não use este pente. Você vai quebrá-lo...” Cresci ouvindo coisas desse tipo.

Eu virei uma espécie de referência: Ah! É aquela do cabelo de bombril! A da juba de leão. A urso-do- cabelo-duro (desenho animado famoso nos anos 70). Aquela do pixaim!

A quem será que ela puxou? É adotada, né? Tadinha!

Fiquei assim, meio sem identidade. Entre os brancos, era preta, do cabelo duro. Entre os negros, era branca, do cabelo alisado. Era como a índia mestiça do Gonçalves Dias (Marabá).

Para tentar me adequar as exigências da sociedade racista onde me criei, mandaram alisar meu cabelo. O salão usava um produto muito forte, que deixava meu couro cabeludo cheio de feridas. Como meu cabelo é muito fininho, caía bastante. Fiquei então com os cabelos ralos, fracos, quebradiços....Porém, lisos!

Eu não gostava daquilo. Não podia pegar chuva. Tinha que dormir de “bobes” (aqueles rolinhos que usávamos para dar alguma forma ao cabelo esticado). O cabelo não crescia. Não mexia. Sair no vento era uma tortura. Horrível!

Nunca namorei na escola. Eu me achava horrendamente feia. Sempre que olhava para alguém, achava que o outro só via o meu cabelo duro. Morria de vergonha de mim.

Casei com o primeiro namorado. Ele não parecia ligar muito para o meu cabelo, contanto que eu o mantivesse arrumado. Nada de cabelo esvoaçante. Tudo muito bem comportado. Preso. Amarrado. Contido.

Tive meu filho aos 19 anos e precisei ficar um bom tempo sem usar química. Foram quase dois anos contando toda a gravidez e o período da amamentação. E o cabelo amarrado. Só que eu sou rebelde por natureza e o meu cabelo também. Ele resolveu que ia crescer e aparecer, mesmo contra a minha vontade! No começo achei estranho. Não adiantava mais fazer touca, nem usar bobes para manter a juba arrumada. Nada mais domava a fera. Ele foi tomando um formato meio híbrido. Não era duro. Nem mole....Nem liso, nem enrolado...

Fui a uma cabelereira para pedir um corte, já que desde a gravidez eu estava com muita queda de cabelos. E sem os produtos eu já não sabia o que fazer para domar aquela juba, agora ainda mais disforme. Ela olhou a raiz do meu cabelo e me perguntou: Você já reparou como seu cabelo ao natural é bonito?

Eu não conhecia o meu cabelo. Achei que ela estivesse brincando. Ela disse que não. Então ela me mostrou várias fotos de mulheres como eu. Disse que meu cabelo era muito sensível e que era um pecado colocar química nele. Fez um corte moderninho. Tirou todo o cabelo velho e “espichado”.  Ela me ensinou a tratar dos cachinhos e a assumir minha identidade afrodescendente.
Foi o início de uma nova fase. Eu tinha 20 anos. Meu cabelo cresceu, apareceu, e ficou lindo. Eu passei a me achar bonita.

Tempos depois eu me separei do meu marido. Após quase dois anos sem ninguém, conheci um outro rapaz. Um belo dia, ele me viu penteando os cabelos molhados e comentou: Seu cabelo é mais bonito molhado. Por que você não alisa?

Senti um ardor subindo pelo pescoço até deixar minhas bochechas vermelhas. Engolindo a raiva, segurei o pente de forma ameaçadora e perguntei azeda: “Você tem algum problema com o meu cabelo?” Ele percebeu a “bola fora” e nunca mais tocou no assunto! 

Separei deste e de outros. Nunca mais deixei ninguém me criticar pela crespice do meu cabelo. Ora essa! Com o tempo, conheci pessoas que achavam o meu cabelo o máximo. Isso serviu para fortalecer minha auto-estima. Aquela história de que a gente faz com que os outros vejam em nós o que nós mesmos vemos é verdade. Se você se sente bonita, as pessoas te acham bonita. 

Um dia, já trabalhando e totalmente de bem com meu cabelo, um chefe me chamou à sua sala:
- Veja bem, minha cara, vamos ter uma visita importante esta semana e eu gostaria de lhe dar um conselho. Acho que você deveria fazer uma chapinha no cabelo. Uma mulher na sua posição não deveria usar o cabelo assim...tão rebelde...
...

Nem o deixei terminar. Disse com a maior tranquilidade e auto confiança do mundo:
-Não se preocupe, chefe. Eu saberei como me vestir e como me comportar. Porém, deixe meu cabelo fora disso!

Olhei para aquele homem e vi como o mundo ainda é carregado de preconceito. Naquele dia, fui ao salão. Não para fazer chapinha, mas para ir a manicure. Aproveitei para refletir sobre o meu dia enquanto folheava revistas. Vi fotos de mulheres negras bem sucedidas. Executivas, primeiras-damas. Quase todas tinham o cabelo alisado. Por um breve momento voltei a me sentir deslocada. Senti um pouco de vergonha de mim. De novo aquela sensação de ser Marabá...

Continuei olhando revistas e achei a Taís Araújo, a Vanessa da Mata e a Sandra de Sá. A Clara Nunes também estava lá. Todas negras ou mestiças. De cabelo crespo! Lindas!

Apesar de constrangida, encarei a visita com os cabelos que Deus me deu. Tudo correu conforme o protocolo e tenho certeza de que o ilustre visitante pouco se importou com meu cabelo. Havia coisas mais importantes na pauta. Meu chefe... Ah, este nem cabelo tinha. Quem era ele para dar palpites na minha vida, afinal?

Um dia a mãe de um amigo meu me disse assim: - Minha filha, seu cabelo já fez maldade com alguém? Então, nunca mais diga que ele é ruim, tá?  Ruim é quem faz mal aos outros.

Ruim é quem quer encaixar todo mundo em padrões pré-estabelecidos. Ruim é quem tem preconceito. Ruim é o Racismo.

Quer alisar o cabelo, alise. Quer fazer chapinha, faça! Que usar blackpower use! Eu respeito sua opção. Respeite também a minha.

Tudo isso serviu para me ensinar que não devemos ter preconceito contra ninguém. Aprendi a ser compreensiva com as diferenças. A respeitar o gordo, o magro, o idoso, o “feio”, o “diferente”, o gay, a lésbica. A não rir de ninguém. Sei exatamente como eles se sentem, porque já sofri na pele o preconceito.

Vamos deixar de frescura e deixar cada um ser como quiser!
E viva o cabelo da Gabby Douglas! Uma menina de ouro! E de cabelos crespos!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Quero morar em Bruxelas

Que povo simpático!

O vôo de Paris para Bruxelas atrasou mais de meia-hora porque a tripulação resolveu esperar cinco passageiros que estavam atrasados. Devem ser pessoas importantes. Sei lá... Tinha uma gente com cara de Príncipes das Astúrias na primeira classe. Whatever... O Comandante me deu um sorriso tão simpático quando fui reclamar, por receio de perder a conexão para Munique, que desisti da reclamação e do receio.

Todo mundo sorri para você em Bruxelas. E ainda tentam se comunicar com você. A moça do guichê respondeu ao meu francês chinfrim com um Português bastante razoável. Muito interessante!

Para completar, servem chocolates de graça no avião. Ainda por cima, tem lojas e lojas de chocolates por aqui... Já devoramos uma barra inteira e tem outra esperando para daqui a pouco. Estou com  vontade de comprar uma barra de cada tipo e marca... Mas, para o bem da minha silhueta achei melhor segurar a minha onda...

Acabei de achar um hotspot onde eu posso conectar o netbook e gerar energia para ele enquanto pedalo. Estava mesmo morrendo de vontade de pedalar. Minha tomada nem serve aqui, mas, e daí... Estou pedalando assim mesmo! Exercitando as pernas, salvando o planeta e conectada de graça.

O Brasil podia ser assim também.... Seria tão bom!


domingo, 29 de julho de 2012

Je me suis engagée à Paris!!

28 de julho de 2012

Pois é! Fiquei noiva em Paris!!


Às vezes nós nos impomos limites que não existem. Começamos a achar que sonhar é bobagem. Que romantismo é coisa de adolescente e que não temos mais idade para isso ou para aquilo. Pois é. Por um breve momento cheguei a me sentir assim.

Que nada!!! Sonhar é tão bom! E como dizia a Elis: Viver é melhor que sonhar! E quando a gente vive o suficiente para realizar os sonhos. É melhor ainda! Decidi abraçar o que a vida está me oferecendo alegremente sem pensar no que os outros vão dizer.

 As férias estavam planejadas e já tínhamos decidido noivar. Faltava escolher onde. Não era uma tarefa difícil, considerando que Paris estava no roteiro. Aliás, talvez seja difícil justamente por isso. Tem opções demais! Lugar bonito é que não falta nesta cidade!

Descobri a Pont L'Archêrverchè por acaso em uma revista. Não tinha muitas referências, mas logo decidi que seria lá. A ponte é conhecida pelos cadeados que os namorados prendem ali para celebrar sua união.   Consta que se deve jogar a chave no Rio, para que o cadeado nunca mais seja aberto.



Tudo que eu sabia é que era uma ponte que passava sobre o Sena, mas não tinha ideia de por onde começar.

Decidimos fazer alguns passeios pela manhã e procurar a Ponte no final do dia. Eu queria ficar noiva perto do pôr do Sol. Isso, aqui em Paris a essa época do ano, só acontece lá pelas dez da noite. Tínhamos todo o tempo do mundo!

O dia foi lindo. Fomos ao Chateau de Versailles e na Torre Eiffel. Já era tardezinha quando fomos em busca da Ponte. O engraçado é que ninguém sabia onde era a tal da ponte dos cadeados. A atendente de um guichê de informações teve que olhar no mapa!! Mesmo assim, ela indicou corretamente em qual estação tínhamos que saltar e daí ficamos novamente por nossa conta.

Com meu francês fraquinho fraquinho conseguimos chegar às margens do Sena. Agora, era só achar a ponte. Andamos, andamos sem achar nem sinal dela. Resolvemos então parar para perguntar a um vendedor de livros usados. Certamente ele saberia. Ele não tinha muita certeza da distância, mas nos indicou o caminho. Estávamos indo no sentido errado! Cheguei a ficar desanimada...

Voltamos tudo de novo até que ela apareceu na nossa frente!! Linda! Cheinha de cadeados coloridos! Era a nossa Ponte! Bem de frente para a Catedral de Notre Dame!! Vista lindíssima!


Agora era só achar uma alma bondosa para tirar as fotos, fazer o pedido e colocar as alianças!

Achamos uma senhora que estava só. Ela gentilmente aceitou tirar fotos da gente e logo ficamos cercados de curiosos. Vand, que tinha até ensaiado um pedido, ficou acanhado. Mas, conseguiu dizer o clássico "Aceita casar comigo?" ao que eu, obviamente respondi com um sorridente "SIM".

Depois de muitas fotos, sorrisos e abraços, nos declaramos oficialmente noivos e jogamos as chaves do cadeado no Sena. Para nunca mais serem encontradas. Combinamos de voltar à Ponte. Lá pelos nossos noventa anos. Procurar nosso cadeado e celebrar mais uma vez o Amor, a Vida e o Sonho!

Sejam felizes para Sempre e tenham todos um ótimo dia!