sábado, 14 de dezembro de 2019

CAMBOS 2019 - Salvador

Aqui deixo meu relato sobre o CAMBOS 2019.



#Alerta1! Talvez você precise de um dicionário de baianês...😊

#Alerta2! Aqui tem resenha pra mais de metro! Sugiro que leia em capítulos. Com esse texto, dá para tomar uns três bules de café com leite...aproveita e pede um cuscuz...

Eu poderia descrever cada ponto, cada azimute, cada mapa de cada pista. Mas, escolho fazer diferente. Quero expressar minhas impressões. Emoções. Talvez haja espaço para um prisma ou outro. Mas, a corrida vai além dos prismas. Orientação é muito mais que seguir mapas e perseguir pontos aleatórios. É sobre estar presente. É sobre estar conectada. É sobre fazer amigos. É sobre se superar a cada prova.

O CAMBOS de Salvador era só um sonho há alguns anos. Acompanhei à distância a organização do evento. Imaginei, mas não vivi as milhões de homens-hora de trabalho, as milhares de horas de planejamento e as centenas de problemas para resolver... Só sei que dezenas de grupos de whatsapp depois... O filho nasceu. E oxi, que nasceu bonito, viu? Sei que muita gente perdeu noites e se doou por este evento. Acreditem, organizadores! Valeu o esforço! Vocês brocam!!! Para vocês, só Gratidão eterna!

A ARENA PELOURINHO - 15/11/19

Salve, Salvador! Eu sou do Pelô!

O Pelourinho é a parte mais colorida de Salvador. Embora seu nome seja símbolo de castigo e punição, os baianos souberam contrapor essa herança de dor transformando-a com arte. O pelourinho é música, é dança, é pintura, é gingado, é tambor, é capoeira. O Pelô é barril dobrado!

No dia da Proclamação da República, o Pelô foi palco da primeira pista do CAMBOS - Campeonato Brasileiro de Orientação Sprint.

Orientação??? Mas, que diabéisso?? Calma, mainha, que já vou lhe explicar.

Orientação é um tipo de esporte que consiste em correr com um uma bússola e um mapa. O objetivo é marcar os pontos de controle (prismas) certos, na ordem certa e no menor tempo possível.

Orientação Sprint é a modalidade do esporte que envolve fazer tudo isso aí de cima "virado no estopô". Ou seja, é para correr mais rápido, viu meu nêgo? Deixe de maresia e se jogue que o esporte é massa!

O percurso 1 tinha 11 prismas na minha categoria (D45A). Não estava difícil, mas como sempre, a estreia foi nervosa. Entrei no cone de largada com o coração na boca. Corri pelo percurso balizado até o prisma zero que era onde a navegação tem que começar. Havia três rotas possíveis para o prisma 1. A melhor era bem em frente. Era só orientar o mapa, checar as referências que não tinha erro... Só que não.....

Engano 1 – Uso certo da regra errada.
Na frente do prisma zero havia um bêbado que gritava: - Não vá por ali! É pra lá, pra láaaaa!!!!
E gesticulava insanamente. O “não vá” era a rua em frente, que eu queria ter pego. O "pra lá" era à direita – caminho mais longo e tortuoso. Por um momento, pensei que ele fosse da organização e obedeci. Afinal, o cabra tinha atitude! Parecia até policial de trânsito! Depois de me atrapalhar toda, percebi que o brother estava em águas...Tinha comido uma água dura da p#rr@! 

Mas aí... eu já tinha me desconcentrado toda.... Dei umas três voltas na quadra e nada de prisma.... lasquei-me!

Quando resolvi voltar e reiniciar a navegação encontrei Gabi. Pela cara dela, acho que se confundiu com o brother também 😊😊😊. Rodamos juntas feito peru bêbado em véspera de natal e nada de prisma. Depois de uma paletada sem fim, convenci minha amiga a voltar.

Voltamos para o prisma zero e dali para o mapa.... Ó paí ó.... A p#rr@ estava pertinho, disgrama!😤.. Constatei, indignada!

Batido o prisma ainda dei uns gritos em Gabi, só para que ela ganhasse distância de mim, já que ela ainda tinha chance de pódio no campeonato:  CORRE, Penélopeeeeeeeee.! Se pique! 

E lá foi Gabi batendo os calcanhares na bunda, partindo a mais de mil......Todo mundo olhando pra gente sem entender nada! Eu nem aí... Fingi que não era comigo e segui meu rumo, na cocó....😊😊😊. 

Dali em diante, foi tudo muito bem, até o prisma 5. Neste ponto, passei pela área balizada consciente do que estava fazendo. Ainda ouvi minha intuição avisando. Olha! Cuidado para não trocar o 6 com o 9, pois os números são muito parecidos. Cuidado quando dobrar o mapa! Olhei o mapa com atenção para ver onde estava cada prisma e.. pá!

Engano 2 – Uso errado da regra certa!
Inverti o mapa e peguei o prisma 9! Alegre e contente – P#rr@@@@! Tô navegando horrores! Brocando em alta!!!! Botando para lá!!!!

Sabe de nada, inocente!

Como  numa crise de diarréia, após os gases frequentemente vem....

Desgraça pouca é bobagem! Não bastasse o engano besta, ainda veio o lapso.

Lapso – Esquecimento da intenção; branco; falha de memória; curto circuito cerebral.

Segui para o prisma 10 como se não houvesse amanhã! E de lá para o 11... E de lá para o fim da prova!
Ainda dei um belo sprint no cone de chegada, afinal de contas... era uma prova de Sprint, né? Mandaram correr, corri! E me f....

Peguei meu extrato toda contente...

Ops.....#Erro no prisma 6! Como assim????

Me retei!!! Fui reclamar com a organização, virada no setenta!

Samuca, venha cá meu velho! Não te falei que esse sicard estava com problemas! Olha só! Tá vendo aí! Deu erro! Ia eu tentando manter a calma e a educação, mas me achando cheia de razão!

Todo mundo muito educado me orientando. Olha – vai lá na secretaria e abre um recurso...

Pensei eu....Lá ele!!!! Pode ser que um dia eu até faça isso, mas tá aí um negócio que me dá preguiça de fazer é abrir recurso...

Olhei de novo e de novo... Mas, Samuca. Olha aqui... Em marquei o prisma sim ....

E Samuel com a maior gentileza do mundo foi me mostrando (Pense num cara calmo!)...

Venha cá, minha linda... Vamos ver esse mapa.. Tá vendo aqui ó... prisma 1, prisma 2, prisma 3... Está vendo? No prisma 6 você bateu o 9! Não pegou nem o 6, nem o 7 nem o 8.

Ahhhhhhh... Não acredito!!! Eu me senti o Marcelo no jogo de estreia do Brasil na Copa de 2014. O primeiro gol do Brasil na Copa foi dele... Mas, foi contra!

Arrasada e não classificada, sentei desolada na calçada... vendo minha primeira etapa escorrer ladeira abaixo.

Triste para mim. Feliz para o Vand que foi o melhor classificado dos Aventureiros nessa pista, ficando em segundo lugar na sua categoria. Um ótimo e promissor resultado, orgulho também para o COARI, nosso clube no Pará. Orgulho define!!!😎😎😎 

Agora o jeito era ir para casa, fazer um bom jantar com a família e os amigos, rir e esquecer, pois essa foi só a pista 1. Ainda temos mais três pela frente.




A ARENA BOMFIM - 16/11/19 - manhã

Você já foi à Bahia (Dorival Caymmi)

Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas,
Do tempo do Imperador.
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito,
Que nenhuma terra tem!

Quando ouvi aquele jeito malemolente de falar, quando senti os tambores, quando vi as cores e abracei as pessoas me dei conta de que sinto saudade. Saudade dos cheiros, do sol, da brisa, da entonação, das risadas altas, das gírias. Saudade é um troço doido. Quando a gente está longe sente falta até do que não gostava.

E eu não gostava do trânsito. Nem de dirigir na cidade baixa, que acho muito confusa. Para matar as saudades, pegamos aquele trânsito maravilhoso passando pelo Largo dos Mares. Demos umas duas ou três erradas nas ruelas cheias de curvas e vias mal sinalizadas. Sem stress, na maciota, chegamos em tempo.

Ai, meu senhor do Bomfim!!! Pensei alto no cone de largada.

- Ôxi, o dia de rezar no Bomfim foi ontem! Disse alguém.
- Não tem problema. Ele vai me ouvir assim mesmo. - Respondi eu, surpresa por terem me ouvido os pensamentos, divertida e cheia de fé!

Hoje são só nove prismas. Hoje aqueci. Respirei. Rezei.... Hoje estou aqui. Presente. Corpo, alma e espírito. Mindfulness total! Hoje eu quero comer essa pista com farinha! Só por hoje, eu vou botar pocando!!!

Pisca meu horário de largada. Lu Almeida com seu pé enfaixado e sua voz rouca chama meu nome. Grito bem alto: Presente! 

Hoje vai!!!

Não vi mais ninguém. Era eu e meu mapa. Disparei pelo cone. Parei no prisma zero. Dessa vez vou para o lado certo. Demorei um pouco no prisma 2 por erro de navegação e no prisma 4 porque escolhi o caminho mais longo. Andrea passou serelepe por mim descendo a ladeira em desabalada carreira! Bora, Luuuu!!!! 

Bora tu, que eu vou é navegar - pensei eu

Dessa vez, não tinha como confundir porque o prisma 9 era o último😂. Hoje não ia ter nem engano, nem lapso, nem deslize 😎....

Uma parte dos prismas foi nas ruelas e ladeiras do Bomfim. Ali eu me senti dentro do filme "Cidade Baixa". Estava vendo a hora de esbarrar com o Lázaro Ramos😊😊😊! 

Homens bebiam, mulheres conversavam, crianças brincavam e um monte de doido passava correndo pra cima e pra baixo se esbarrando, caindo, escorregando com seus mapas e bússolas e suas caras amarradas. Senhorinhas debruçadas na janela só observavam. Imagino que fomos assunto para a semana toda.

Enquanto navegava, ficava imaginando o teor da conversa...

- Marrapaiz...Viu aquela lá dos cabelos de molinha? Passou aqui virada no cão! E aquele galego? Parecia até artista, né? Ave Maria.....(aí elas abanam o rosto para espantar o calor e dão aquela gostosa e escancarada risada).
- Mainha, venha cá que eles vão passar de novo! Acho que aquele lá se perdeu, o pobre! Será que ganham alguma coisa? Vai ter medalha? Será que vai passar na televisão?  
- Oxi, minino, que conversa é essa de venha cá, mainha??? Eu lá sou tua pariceira??? Se respeite!
- Oxi, mainha pegou ar...., tava só chamano.... 
-E tu, ninha, não quer correr também? 
- Aonde???? Vou nada! Quem vai é coelho! Só de olhar já me cansei! Ói que vou ali, viu? Vou ali que eu ganho mais!

(Nota: Essa história de baiano preguiçoso é lenda, viu gente? A turma vai atrás do trio elétrico como se não houvesse amanhã e no dia seguinte pega firme no batente como se nada tivesse acontecido).

Fui passando e dando “bom dia vizinha” para todo mundo. Foi a etapa mais divertida, e também a mais ladeiruda 😂😂😂

Cheguei super contente por ter completado a pista, Ainda dei um gás no final, pra sair bonita na foto.😁


Fiquei tão feliz que gritei para uma colega na fila das frutas: - Bora de novo, agora de ré???? 😊😊


Obrigada, Senhor do Bomfim!

Após um almoço agradável e de muita conversa com as amigas Andrea e Lu Freitas, era hora de seguir para Ondina. A pista da tarde prometia muito calor e um gostinho de mato.

ARENA UFBA ONDINA - 16/11/19 - Percurso 3 

UFBA – entre bichos grilos e orientistas

Estudantes cabeludos com seus jeans rasgados se misturavam com atletas de tudo que é lado do planeta. Do Pará ao Rio Grande do Sul, passando por Portugal e Bélgica, éramos todos bichos grilos. Coloridos e espalhados pelo gramado do campus, parecíamos espectadores de um Woodstock baiano.


O campus de Ondina é uma delícia para correr. Tem muitas árvores, espaço e ladeiras. Eu estava torcendo para colocarem um prisma na escadaria que sai lá na Federação, mas acho que o mapeador não quis dar tanta ousadia...#ficaadica para a próxima😄

Este percurso foi um pouco mais longo, com 16 pontos espalhado entre prédios, moitas, matos e uma novidade: teríamos que passar pelo cone de chegada e virar o mapa para fazer a segunda parte. Eu já tinha feito isso na Holanda e estava esperta! Mas, o nervosismo era grande.

Desnecessário, mas imenso, atrapalhante, mãosuante, coraçãodisparante...sei lá... muita emoção envolvida. Acho que todos estávamos meio tensos. Engraçado como essas provas mexem com a gente. Não é necessário ficar nervoso, afinal, é apenas um hobby. Mas, no fim do dia, todo mundo quer fazer bonito, né?




Larguei bem aquecida e focada. Ainda perdi um tempinho nos 5 primeiros prismas, mas depois consegui até um ritmo bonzinho. O medo de errar era forte. Cheguei a ficar com as mãos tremendo quando virei o mapa, com receio de não conseguir me encontrar. Marquei o ponto em que estava para não me perder na virada e procurei me concentrar. Estava tão ligada no mapa que dei uma trombada num corredor que dava uns três de mim 😊😊😊.. Não sei como não caí de bunda no chão....Nem deu tempo de rir, nem de reclamar. Respirei fundo e segui meu rumo... Bora que tá barril!

Apesar da trombada, identifiquei o ponto certinho e segui minha navegação, perseguindo um prisma de cada vez. Não parei para nada!

Na chegada, sabia que não dava pódio, mas estava muito feliz de ter completado a prova toda correndo e de estar inteira. Vand seguia firme em sua navegação. Também cometeu alguns erros, mas tudo isso faz parte do nosso aprendizado. Acho até que a gente aprende mais quando erra.😉

Como é gostoso compartilhar esses momentos com quem a gente gosta! Um dia, quando estivermos bem velhinhos, ainda vamos ter muito o que falar sobre nossos mapas, prismas perdidos e aventuras vividas💔💔💔




ARENA CMS - 17/11/19 - Percurso 4 - Colégio Militar de Salvador 

Última etapa. Um pouco mais autoconfiante, segui a sugestão de Mauro e caprichei ainda mais no aquecimento. Alongamento, respiração, reza... Valia tudo para fazer uma boa prova. Deu muito certo. Valeu, Mauroba!


Fiz uma largada mais tranquila. Curti cada prisma e cada passo. Essa pista foi ainda mais legal porque teve trilhas. As áreas verdes do CMS são lindas. Tinha até umas curvas de nível e uns barranquinhos para gente ficar arfante e sujar o tênis de lama! Se não for para chegar suada, fedida e enlameada nem me chame!

Não me pegue não... me deixe à vontade... deixa eu curtir o Ilê, o charme da liberdade...

Foi minha melhor pista! Muito atenta aos detalhes, fiz o melhor tempo entre os prismas e o que me deu o percurso mais rápido. A questão é que foi a melhor etapa de todo mundo também... Parecia que todos haviam guardado o fôlego para literalmente dar o “sprint” final. 

Américo narrou minha chegada com seu jeito divertido e sua voz de locutor - Lá vem Lucy, dos Aventureiros do Agreste concluindo a pista.....Emocionada, corri ainda mais. 

Que alegria completar mais uma prova, na terra que me adotou, junto aos meus amigos e representando minhas duas equipes do coração! Sou Aventureiros do Agreste! Sou COARI! Sou Penélope! E não desisto nunca!


CAMBOS 2019 - Vai deixar saudade

A organização preparou tudo com esmero. O carinho e o acolhimento eram explícitos no sorriso, na paciência e na qualidade do trabalho, nos menores detalhes. A Bahia deu um belo exemplo de hospitalidade e nos deixou muito orgulhosos! 

Prova segura, com vigilância, fiscais, ambulâncias, bombeiros, tudo a serviço dos atletas. Limpeza, beleza, cor e simpatia! Muito orgulho da Bahia. Nada a reclamar. Tudo a elogiar!

O destaque fica para os narradores, dentre eles, Américo, sem dúvida o mais divertido de todos! Dei muitas risadas com suas piadas. E haja flexão para pagar, hein amigo!



Fiquei em sétimo.... entre sete competidoras... 

Você pode interpretar a frase de dois jeitos. Em um, fiquei em último.  Em outro, estou entre as sete melhores do Brasil 😊😊😊. Prefiro esta opção. Afinal, temos cerca de 20 atletas federadas na categoria D45A. Só sete competiram. E eu estou entre elas 😊😊!

O sentimento é de muito orgulho e muita alegria! A Bahia definiu um novo padrão. Foi lindo! Foi Massa!

Vai dar trabalho para a turma do Ceará, mais sei que o CAMBOR 2020 vai ser lindo também! #PartiuTrairi!




Parabéns a todos os atletas que competiram. Alto nível, ética e qualidade técnica sobraram nessa competição!

Parabéns, novamente, e muita gratidão aos organizadores! Muito orgulho de vocês

Um abraço do tamanho do Pelô para meus amigos, para minha equipe baiana - Aventureiros do Agreste e para minha equipe paraense - COARI. Seu Tenório - valeu pela torcida! Major Gehnsa - sou sua fã forever!

Fechamos o ano com chave de ouro! Mal posso esperar para voltar para as pistas!

Feliz 2020 para todos os Orientistas!

Adsumus!

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Resenha do livro - Na minha pele. (Lázaro Ramos) - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - 2017

Recebi esse livro de uma amiga do trabalho alguns dias antes das minhas férias. Ela me emprestou com tanta gentileza que me dispus a ler com atenção em reconhecimento ao carinho demonstrado. Nem precisei me esforçar muito. O livro é tão bom que li em menos de 48 horas! 

Escrevo essa resenha com o objetivo explícito de fazer propaganda escancarada e gratuita, sim! Gostaria que todo mundo lesse essa obra. Se não o mundo, ao menos o Brasil. Se essas letras estimularem pelo menos mais um leitor, que assim recomende o livro a outro, já ficarei satisfeita.

"É muito mimi...vocês vêem racismo em tudo!" - essa frase foi dita a mim por uma pessoa branca, durante uma discussão acalorada em que eu tentava ensinar-lhe a não se referir aos meus antepassados como escravos. Dizia-lhe eu: "não descendo de escravos, mas de africanos escravizados"...Eu ainda não tinha lido o livro do Lázaro e já concordava com ele quanto a essa terminologia. A briga foi feia e eu perdi, como frequentemente perco ao tentar erguer a voz contra a opressão do racismo. Pelo olhar do outro, ou estou exagerando ou criando caso. Via de regra, sou convidada a abaixar a cabeça e a me resignar. As coisas são o que são...

Cresci ouvindo que tudo o que é feio e ruim vem "do lado de lá". Desafortunadamente, eu sou a cara do lado de lá! Puxei para "o outro lado"....nasci "assim"...com esse cabelo ruim e essa cara, esse jeito, esse temperamento .... tudo coisa de preto!



No confronto aberto, sempre me dou mal. Por isso, entre Malcom X e Martin Luther King Jr prefiro a não-violência deste último. Evito polêmicas e detesto bate-boca. Outro ponto em comum identificado com Lázaro. 

Não tive oportunidade de assistir a peça "Do topo da montanha", dirigida e encenada por ele, mas tenho certeza de que foi linda, pois se baseia em um dos discursos mais impressionantes que já foram escritos pelo citado reverendo que é uma referência de ser humano para mim, como também o é para o autor de "Na minha pele".

Voltando ao livro, Lázaro faz uma agradável conversa com o leitor. Conta suas experiências e, usando sua trajetória como pano de fundo, nos faz perceber quão sutil, dissimulado e insidioso o racismo pode ser. 

Coisas que antes eu julgava serem defeitos meus, meramente psicológicos, como a frequente sensação de inadequação, de não-pertencimento e até de menos-valia são reveladas no livro como traços do perverso racismo que vigora em nosso país. Coisas que só quem veste a pele negra entende. 

Termino a leitura com uma vontade imensa de tomar um café com o autor. Ou melhor, um Carmenère chileno. E conversar horas a fio sobre as experiências que eu vivi e ainda vivo, validando e reforçando tudo o que ele coloca em seu livro. 

Concluo que muitas vezes sou racista comigo mesma, quando deixo o olhar desconfiado do outro me ferir. Quando deixo de me posicionar por achar inadequado ou quando me sinto envergonhada de ser quem sou e estar onde estou apenas por que tantos outros como eu, ou até melhores, ainda não conseguiram chegar.

Obrigada, Lázaro Ramos. 
Obrigada por tratar desse assunto com leveza e profundidade. Com amor e respeito. Eu  me via feia e inferior refletida nos olhos do preconceito. Você me ajudou a vestir a minha pele e ficar mais à vontade nela. Que seu livro seja lido em todos os bairros de periferia, escolas públicas e particulares, bancos de praças, filas de banco...viagens de avião, de trem e de barco...e até de "Tomaquêeee"*.

Notas:

Sou negra de pele clara. Embranquecida pela mestiçagem. 
Recentemente escrevi o texto " Em cima do muro mestiço" que trata um pouco dessas reflexões. Foi dias antes de ler o livro do Lázaro e traz as minhas percepções sobre ser mestiça. Acho uma condição bem difícil essa de ser misturada. Não ser nem preta nem branca é bem complicado. Não tenho as facilidades da raça dominante, porque não sou branca o suficiente... (ah, esse cabelo....). Nem sempre meu ativismo como negra é visto como legítimo, porque sou branca demais pra ser preta. O texto está no link: 
*Lázaro Ramos insere essa expressão em seu livro. Não vou explicar para não dar spoiler...para saber o que significa, recomendo que leia o livro.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Drenthe2days 2019 - a resenha

Orientando-se em rotas nunca dantes navegadas.

As férias, já marcadas para outubro, estavam se aproximando. Fizemos contas, juntamos dinheiro e tomamos a decisão: O plano era visitar as fazendas da Holanda e aprender umas dicas de agricultura orgânica com o segundo maior exportador de legumes do mundo(1). De quebra, um passeio de trem pela Europa centro-oriental. 

Inquieta como sempre, fui procurar algo a mais para fazer. Entre um site e outro, encontrei essa corrida chamada Drenthe2days, na Holanda, bem no nosso período de férias!!!! Um misto de empolgação e medo me atingiu. Será que a gente dá conta? 

Sou amante de viagens e de esportes. Pratico Orientação e Corridas de Aventura há dez anos e apesar do tempo, ainda me vejo iniciante. Mesmo após tantas corridas, sei que não sou grande coisa como atleta. Mas, pensei eu, isso não importa. Se o esporte fosse só para campeões só poderia haver três competidores por categoria. Um para cada medalha!

Ainda bem que não é assim. Deixo as medalhas para os mais preparados. Vou lá ver qual é a desses holandeses! Combinado com o marido, também atleta amador fizemos nossa inscrição. Ambos com poucas oportunidades de treinar durante o período. Vand com muito trabalho no sítio e eu me recuperando de duas cirurgias (uma em cada olho) o que também me deixou com compromissos de  trabalho e estudo acumulados. Como sempre, fomos com a cara (de pau) e a coragem que nos é peculiar.😊

Assim, com o coração leve e sem muitas cobranças chegaram as tão esperadas férias! Aproveitamos bastante as duas primeiras semanas com escala na casa do filho em São Paulo, depois agradáveis viagens de trem e longuíssimas caminhadas por Praga, Bratislava e Budapeste. Estimo que caminhamos o equivalente a 100km nos 10 primeiros dias de viagem. Nem vou comentar, porque isso dá uma resenha à parte!

Vamos então para a nossa corrida. Chegamos a Appelscha (2), local das provas, no dia 24 à tardinha, depois de 10 h de trem de Budapeste para Praga, duas horas de avião de Praga para Amsterdã*, mais 2h de trem para Assen, mais meia hora de ônibus.....e mais 3km de caminhada até o camping onde alugamos um chalezinho....

Até o ônibus o Vand estava curtindo a viagem. Andar de transporte público na Europa nem é tão ruim assim. Mas, andar 3 km no frio arrastando mala não estava em seus planos. Para a nossa sorte, quando o resmungador do Vand ia disparar nível alto, passou um carro com duas simpáticas holandesas que nos ofereceram carona. Nem deu tempo de reclamar muito....

O chalé parecia uma casinha de bonecas. Muito bonitinho. Appelscha é uma vila da província de Friesland. Não entendi direito onde entra Drenthe na história, mas tem a ver com o local, pois se trata de uma província vizinha. A competição acontece todos os anos. A organização de prova é alternada entre os três principais clubes da região e vem gente de vários países da Europa para competir. Este ano, além dos europeus havia japoneses e brasileiros. Nesse caso...nós😊. Sim! Éramos os únicos brasileiros e os únicos latino-americanos....Baita responsa!
Bandeira do Brasil fincada no panteão 

A competição foi montada da seguinte forma: na noite do dia 25 houve um warm-up (aquecimento). Tratou-se de uma brincadeira de Sprint de revezamento no parque de diversões perto da área da prova oficial. Cada componente da dupla recebeu um mapa com 27 prismas diferentes. Na primeira bateria saía um dos componentes e sua missão era pegar os prismas bem rápido e voltar para que seu parceiro completasse seu mapa. 

Se fosse de dia, seria moleza. Mas...era uma noite fria. Soprava um vento gelado... 😂😂😂😂😂😂....Já está parecendo história de halloween...

O fato é que o parque de diversões lembrava mesmo um cenário de filme de terror, com as sombras dos brinquedos tremulando numa escuridão abissal! Um frio de renguear cusco, como se diz no Sul ou de lascar como se diz na Bahia! Um breu completo! Se não fosse o simpático organizador que nos emprestou a lanterna de cabeça eu não iria enxergar nem minha mão, quem dirá o mapa!

You're playing with the big boys now...

Meu nome foi chamado na primeira bateria e larguei com o coração na boca! Procurando manter a calma, até consegui me achar mesmo no escuro. Dei um perdido ou dois em alguns prismas mais difíceis o que me fez perder um tempo precioso. Por todos os lados eu via atletas correndo feito lebres.  Tinha prisma pendurado em escada, atrás de carrossel, no alto de tobogã e até na guarita do guarda! 

Eram  muitos pontos e eu teria que concluir em uns 30 minutos para o Vand conseguir entrar na pista. Não monitorei o tempo e não consegui ser rápida o bastante. Desse modo, mesmo pegando todos os prismas, não deu tempo do Vand correr.

Apesar do acontecido, ele não se zangou. Até se animou em fazer a pista sozinho no dia seguinte só para ver como era, já que nossa largada oficial seria só à tarde. De minha parte, senti um misto de satisfação e frustração. Satisfeita por ter achado todos, apesar da dificuldade para enxergar, ainda mais no escuro. Frustrada por não ter conseguido dar oportunidade ao Vand de fazer o mapa dele.

Enfim. Jantinha e soninho que no dia seguinte tem mais. O sábado acordou ainda mais frio.  O aplicativo de celular anunciava 7 graus. O orvalho baixava ainda mais a sensação térmica. Com o friozinho, abortamos a ideia de refazer o sprint e preferimos ficar no edredom até mais tarde. Ameaçava chover. O Sol se recusava a dar as caras.

Dia 1 - percurso médio - entre 3 e 4 km - corrida oficial válida pelo WOC (World Orienteering Championship)

Essa pista foi mais técnica, com bastante azimute e um pouquinho de altimetria em alguns trechos. 

Aqui valem alguns comentários sobre a bússola: A nossa é do Hemisfério Sul. Appelscha fica no Hemisfério Norte. Sendo assim, há uma diferença na declinação do mapa, que é a distância entre o Norte magnético e o Norte geográfico. No nosso caso, essa diferença estava em torno de uns 10 graus para a esquerda. Para distâncias bem curtas (20-40 m) isso não é tão significativo, mas quanto maior a distância, maior o erro. 

Comecei bem animada achando logo os três primeiros prismas. No caminho para o 4, topei com Vand que havia largado antes e estava atrás do seu sétimo ponto na maior empolgação. 

Não sei se perdi a concentração, se foi minha ansiedade ou inabilidade mesmo. Só sei que o dia escureceu de vez para mim.  Eu me perdi miseravelmente entre o prisma 5 e 6 que dependiam somente de um bom azimute. Tentei dar a volta no morrinho para ver se achava o prisma do outro lado. Aí...deu ruim....Acho que entrei em um portal mágico ou tropecei num gnomo, ou pisei no pé de uma fada e ela se zangou comigo....Só sei que após completar a volta eu estava em uma trilha completamente diferente e eu nunca mais achei a trilha certa! Depois de andar em círculos por mais de uma hora sem saber onde eu estava, decidi voltar. Mas....para onde?
Pequena amostra do parque. Foto tirada fora do local de prova.

Não é possível determinar para onde ir se você não souber onde está! Assim é na vida, como na Orientação!

Que remédio?

Orientei o mapa e apontei para o Norte. Afinal, a chegada estava naquela direção. Andei por mais uma hora nesse sentido até finalmente sair em uma rua paralela ao parque, próximo do cone de chegada. Bati mais dois prismas, já perto da chegada e terminei a prova. 

Cansada e bem triste. Encontrei Vand assistindo a premiação. Ele havia se saído muito bem, pois pegou todos os prismas. Porém, para o padrão desta prova, seu tempo foi alto. O campeão fechou os 27 pontos em surpreendentes 30 minutos! Poucos passaram de uma hora. Vand passou de duas... e eu de três...só que no meu caso, sem achar quase nada!

Participamos do delicioso jantar da organização junto com a galera. Era um festival de massas e todos estavam muito animados conversando entre si. Vand e eu apenas observávamos. Refletíamos sobre o dia, sobre como a comida estava boa e sobre como nosso esporte é bom para integrar as famílias. Havia avós, filhos, netos, cachorros. Em cada mesa um núcleo familiar ou um grupo de amigos. Conversa leve, astral bacana. Como é bom estar aqui, pensei eu.

Eu me lembrei de uma experíência que tive quando estava na sétima série....Na época, achava os meninos do 2o. ano muito inteligentes e queria participar das rodinhas de conversas com eles. Para isso, fiz amizade com o camarada da Xerox. Ele emprestava emblemas para quem tinha esquecido. Convenci-o a me emprestar um de duas estrelinhas para que me servissem de passaporte para aqueles assuntos tão interessantes...** 

É óbvio que todos sabiam que eu não era da turma, mas mesmo assim, me acolheram. Eu consegui entrar naquela atmosfera, pelo menos por um curto período de tempo. Afinal, a realidade sempre nos chama de volta! 

Pois foi assim que eu me senti naquela noite. Uma criança na roda de gente crescida. Uma colegial na festa da faculdade. Pensei em tantos atletas, muito melhores que eu, que poderiam estar aqui representando o Brasil com muito mais legitimidade e trazendo resultados mais expressivos. Pensei em minhas limitações e em porque havia decidido entrar ali. Pensando bem, será que foi certo? Somos os únicos representantes de um continente em uma competição que vale pelo campeonado mundial de orientação...e o que tenho para oferecer? Nada. Tivera eu me inscrito como atleta individual, não envergonharia ninguém, além de mim mesma.

Foi assim que fui dormir. Com vergonha. Caiu a máscara e o emblema. Fantasmas da autocobrança me assombravam....Não sou digna de estar aqui. Não sou digna de representar os atletas de Orientação do Brasil. Deixei uma referência ruim. Nosso país é muito melhor que isso, mas infelizmente, por minha causa, não havia como provar.

Fui dormir com esses fantasmas. Dormi mal. Rezei bastante. Busquei serenidade. Pedi perdão a Deus por estar envergonhada, o que só pode ser fruto do meu próprio orgulho. Afinal, a única pessoa incomodada com meu resultado pífio era eu. 

Dia 2: Percurso longo 6-8 km. 

The Sun rises for everyone. Don't give up! 
Hora de virar a página!

Acordei bem mais serena. Com o pé na realidade, ciente dos meus limites e agradecida pela oportunidade de estar ali, aprendendo. Vesti com orgulho meu uniforme. E fui correr com o que tenho e com o que sou.

Conversei bastante com alguns competidores. Queria saber de tudo. Fiz as mesmas perguntas para todos, com a genuína curiosidade dos aprendizes aplicados.

Ouvi coisas bem interessantes. Um rapaz de uns 30 disse competir desde os 7 anos de idade. Falou que considera que está sempre aprendendo e que o percurso estava difícil mesmo. Sua esposa pratica há dez anos e eles pretendem iniciar sua filha, que ainda é um bebê, assim que possível. Essa história se repetiu várias vezes. Uma mulher de 35 disse que aprendeu com os pais que ainda correm e fazem parte da organização do evento. Outro me disse que compete ou treina todo fim de semana. Pela facilidade de transporte na Europa,  um outro me disse que dá para visitar muitos países seguindo o esporte. 

Observei meninas suecas correndo de shortinho enquanto eu usava três camadas de roupa. Ingleses, holandeses, alemães, croatas, belgas, franceses, japoneses....crianças, homens, mulheres de todas as idades. Um privilégio estar entre eles. Todos muito simples e acolhedores. Felizes de ter brasileiros entre eles. Sempre nos recebiam com um amplo sorriso: Brasil? Ah! Brasil! Futebol, samba, carnaval, festa, churrasco... Essas são as palavras que vêm logo na sequência, após falarem Brasil bem alto e no meio de um largo sorriso. Alguns já correram em nossas terras. É assim que nos vêem. Um povo alegre, caloroso, que fala alto e gosta de festa😊.

Como chegamos cedo, deu tempo para essa resenha toda.

Nesse dia minha pista tinha 20 pontos, espalhados em 6.8 km, se seguidos pela menor distância, o que não era possível, dada minha dificuldade com o azimute. O mapa do Vand tinha 27 pontos em 8 km. 

A largada foi no meio da floresta. Ônibus pegavam a gente na Arena e levavam para o ponto de partida a cada 10 minutos. Vand largou por volta das 10 e eu, exatamente às 11:03. Aqui nada atrasa. Tem hora para começar e para terminar. Eles colocam a turma que tem chance de pódio para largar primeiro, assim, a premiação não demora. Tudo bem organizado.

Larguei consciente e com a  meta de achar os prismas, mesmo que fosse a última a chegar. Comecei bem. Serena e focada, segui as trilhas evitando azimutar em distâncias longas por conta do erro que já mencionei. Fui pegando um prisma de cada vez, com calma e consciência. De novo, próximo ao meu terceiro prisma, encontrei o Vand. Acho que é paixão, mas esse gaúcho até hoje tem esse poder de me desconcentrar. Ele estava já pensando em desistir, pois estava perdido. Como nossos prismas eram bem diferentes eu nem pude ajudar. Disse a ele para não desanimar e tentei me manter na prova. Parei, respirei e me orientei de novo. Achei o prisma três e logo depois o 4, o que me deu novo fôlego. Novamente, me atrapalhei para achar o quinto ponto. Uma alma boa e igualmente perdida apareceu. Era um atleta experiente que buscava o mesmo prisma. Eu me senti até aliviada de ver que gente grande também se perde 😂😂😂😂. Mas, também pensei que talvez ele fosse a Providência divina me dando uma mãozinha....

Por sugestão minha voltamos ao prisma 4, pois parecia que estávamos já fora do mapa. Ele foi dando as dicas de terreno, da vegetação e do azimute. Eu bem atenta para aprender...Estávamos perto do ponto indicado no mapa, mas nada de prisma. Comecei a olhar em volta e vi um ao longe. Eu acho que é aquele ali... Ele não levou muita fé, mas insisti em ir olhar e.... voilá! Prisma 5 pra conta! Fiquei bem contente de ter cooperado com a navegação.😊

Pegamos juntos o prisma 6 que estava bem próximo e azimutamos para o sétimo que estava bem mais longe. Daí, deixei que ele tomasse distância para fazer sua corrida. Afinal, ele é um bom corredor e eu já tinha abusado demais. Segui meu mapa e logo achei o prisma. Animada, fui seguindo minha estratégia de seguir pela trilha, contar passos e azimutar somente quando estivesse há menos de 50 m do ponto. Contei com a ajudinha de um organizador no prisma 10, numa passagem subterrânea, que era o ponto onde tínhamos que virar o mapa. Minha estratégia deu certo até o prisma 14.

Ali, procurando pelo 15 contei passos e fiz tudo direitinho. Não achei e resolvi voltar. Mas, os gnomos não deixaram e a fada parecia ainda estar muito brava comigo! Fui me perder sabe onde? Exatamente onde havia me perdido no dia anterior. Reconheci o local, mas não consegui sair dele. Comecei de novo a andar em círculos. 

Entrei no país das fadas e ficaria lá para sempre se não fossem outras duas almas e seus cachorros que apareceram para me ajudar.

Where are you from? Brazil? Ah, Brazil.......isso, futebol, samba...😂😂😂

Conversamos sobre o esporte, sobre o mapa, sobre o que eu estava fazendo ali tão longe de casa e sobre como é a floresta no Brasil. O papo estava ótimo, mas eu estava vendo a hora da Cruz Vermelha(3) começar as buscas atrás de mim. Precisava achar o caminho para o fim da prova. Com a ajuda dos simpáticos senhores eu cheguei na mesma rua do dia anterior e corri para a chegada, marcando o ponto enquanto o organizador segurava já o prisma para guardar. Peraaêeeeeeee. Deixa pelo menos eu bater a chegada! Pedi esbaforida!

Todos os prismas haviam sido recolhidos. Estavam desmontando a arena. Ainda fizeram festa para mim!!!! Hey! Você conseguiu!!!! Fui recebida com palmas😊😊😊😊. Uma organizadora veio me cumprimentar. Perguntou se eu estava bem. Meu marido me recebeu afetuoso e preocupado. Ele tinha desistido e estava ali somente para me esperar.

Sim. Eu estava me sentindo muito bem. Satisfeita e feliz. Nenhum sentimento de frustração ou vergonha. Muito pelo contrário. Estava genuinamente feliz com o que havia conquistado. Peguei 14 de 20 prismas em uma prova difícil e acima das minhas capacidades. Consegui navegar, contar passos, identificar a vegetação e reconhecer todas as referências do mapa. Consegui até fazer azimute mesmo com o desvio da bússola! Fiz o meu melhor, dentro das minhas possibilidades. Progredi nos últimos três dias e mal posso esperar por uma próxima oportunidade de fazer isso de novo.

Agradeço pela torcida e pela camaradagem dos amigos do Brasil, que nos apoiaram mesmo sabendo das nossas limitações. Espero com essa participação conseguir incentivar outros atletas. É possível entrar na festa. Não há impedimentos. Esse é um esporte em que você pode ou não ganhar medalhas, mas com certeza você nunca perde! Ganhei mais coragem, experiência, amigos, novos rumos, novos cheiros, novas terras, novas marcas nos pés e na alma.

Obrigada Drenthe2days! Que ano que vem outros brasileiros possam agitar nossa bandeira em sua terra. 

Aproveito para convidá-los para o campeonato brasileiro de Sprint que este ano acontecerá na Bahia em novembro: CamBOS 2019. Sim! Bahia, Brasil, carnaval, churrasco, futebol, festa.....isso tudo aí e mais um pouco!

Somos um povo festeiro e acolhedor. Também sabemos organizar boas provas e temos ótimos atletas por aqui! Vocês serão todos muito bem vindos!

Agradeço aos dois clubes que representei nessa corrida:
* Meu clube de filiação Aventureiros do Agreste
* Meu clube no Pará que nos adotou com o maior carinho do mundo: COARI

As mensagens de incentivo de vocês foram muito especiais. Obrigada!

Obrigada aos organizadores da Drenthe2days 2019 e parabéns pelo belo trabalho. Espero que o google translator os ajude a ler esses agradecimentos😊.

Mensagem final para a Orientação no Brasil:

Participar desta competição foi bom para ver que o nosso esporte é realmente universal. Mesmo sem entender uma palavra em holandês não foi difícil participar porque as regras são as mesmas. As corridas de que participamos, tanto na Bahia como no Pará estão seguindo direitinho as regras da IOF. Acredito que seja assim também nos demais Estados. 

Em que os europeus estão mais adiantados que nós? Primeiramente, o esporte já tem 100 anos por lá. Existem muitos clubes e muitos campeonatos. As pessoas começam a praticar em torno dos 7 anos e todos so fins de semana tem algum evento de orientação em algum lugar. Isso dá a eles mais experiência e habilidade. Porém, acredito que estamos no caminho certo. Trabalhos educativos vem sendo realizados por muitas instituições, tais como Escola de Aventura do Agreste, clube Carcará, Caatinga Trekkers e COARI, só para citar os que conheço. Sem falar no trabalho de base feito por professores como nossa querida Jamille Almeida e mestres Renato, Luiz Agnaldo, Tenório, Riva...enfim, tanta gente que não conseguirei citar todos. Tenham certeza de que seu trabalho de formiguinha está dando frutos. Nosso esporte está crescendo e há de crescer ainda mais!

Adsumus!

Fotos: Todas tiradas fora do local de prova, pois não corri com o celular. Mas, dá para sentir o gostinho:









Notas:


2) Appelcha é uma pequena vila na província de Friesland. Se traduzido para português, seu nome seria "macieira". https://en.m.wikipedia.org/wiki/Appelscha.

3) O evento contou com o apoio de uma equipe da Cruz Vermelha para primeiros socorros e resgate em caso de necessidade.

*Falha de logística da minha parte. Entramos na Europa por Amsterdam,  pois ali seria o destino final e facilitaria nossos traslados. A ideia entao era dar um giro pela Europa e voltar ao ponto de partida. De Amsterdam para Praga decidimos ir de avião. Foi aí que eu errei. Comprei o bilhete ida-volta. Tivesse eu comprado só a ida, poderíamos voltar de Buda direto para Amsterdãm de trem. A viagem ficaria menos quebrada, embora longa. Enfim, eu até achei divertido. Li, dormi, tirei foto e descansei!

** Estudei no Colégio Pedro II, no Centro da cidade do Rio de Janeiro entre 1983-1989. Lá, usávamos emblemas grampeados no bolso da blusa. Eram numerais até a oitava série e estrelinhas no ensino médio. Lá recebi educação, valores e fiz amigos. Até hoje, o segundo ano é o meu favorito. S2

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Em cima do muro mestiço

Eu moro em cima do muro.

Da esquerda - sou dos defensores dos animais; da preservação do meio-ambiente; do vegetarianismo; do combate à fome e à miséria.

Da direita - Defendo o trabalho; Defendo o Estado mínimo - ou a inexistência de um Estado ineficiente; Defendo menos impostos e mais iniciativa privada. Defendo a livre iniciativa. Defendo a propriedade; a liberdade de expressão e a produção de riqueza pelo trabalho.

Minha cor? Não sei....

"Já me disseram que eu sou branco demais pra ser preto. Já me disseram que eu sou preto demais pra ser branco" (PROJOTA)

Só sei que não posso desfilar no Ilê Aiyê...Tampouco, jamais fui convidada para o camarote do Harém...

Os detectores de melanina sempre funcionam para mim.... aeroporto, banco...shopping de luxo.

Impressão? Mania de perseguição? "mimimi"?... Não é nada disso... Se você nunca passou por esses sutis constrangimentos, você nunca vai entender....

Eu tenho o sangue galego de íbericos ancestrais. Sangue Celta corre em minhas veias, de bruxas e magos de um tempo imemorial que cruzaram o oceano levando seus costumes para Portugal.

Eu tenho sangue preto de negros valentes. Daqueles que corriam descalços vestidos de palha. Fortes e orgulhosos. Guerreiros. Homens e mulheres de extraordinária força física e mental. Sangue que suportou a violência do exílio, do cativeiro e do trabalho forçado.

Aqueles,  escravizaram estes. Em minhas veias, corre um sangue contraditório. Corre o ódio e a arrogância. Corre a resignação e a revolta. Corre o banzo e a saudade.

Tenho no DNA as marcas do chicote. Mas, também, os calos de quem o carregou por tantos anos. Tenho na mão direita ainda a chibata que fere minhas próprias espaldas.

Uma inclinação inata pelas artes, pelos pratos e talheres. Pela fina culinária.
Um amor visceral por correr pelo mato, abraçar as árvores e falar com os animais.
O conhecimento natural do uso das ervas.
A conexão com as energias cósmicas.

Está tudo aqui. No mesmo caldeirão.

Qual é a minha raça? Branca? negra? - Nem uma, nem outra. É uma... e também a outra....

Nessa mistura de cores, não dá para ser racista. Nem para um lado, nem para o outro.

Somos elos. Conexões. Viemos para dar as mãos. De um lado e de outro. Viemos para reconciliar. Patrão e empregado. Proprietário e colono. Coronel e escravo. Homem e mulher. Senhora e mucama. Sinhazinha e cunhã....

O mestiço é uma criação divina para prover o perdão.

Perdão pelas chibatadas...Perdão pelo rancor produzido por elas.
Perdão pelos maus tratos...Perdão pelo ódio que esses maus tratos geraram...

O mestiço reconcilia os povos. Casa marabás com mamelucos. Une mouros e ibéricos. Aplaina os orgulhos e suaviza as opiniões.

Somos um país de mestiços! Agora, vamos largar de brigas tolas e fazer uma grande festa, unindo nossas cores, costumes e crenças.

Daqui de cima do muro vislumbro o país mais belo do mundo!


Marabá - Gonçalves Dias

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!