terça-feira, 12 de novembro de 2019

Resenha do livro - Na minha pele. (Lázaro Ramos) - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - 2017

Recebi esse livro de uma amiga do trabalho alguns dias antes das minhas férias. Ela me emprestou com tanta gentileza que me dispus a ler com atenção em reconhecimento ao carinho demonstrado. Nem precisei me esforçar muito. O livro é tão bom que li em menos de 48 horas! 

Escrevo essa resenha com o objetivo explícito de fazer propaganda escancarada e gratuita, sim! Gostaria que todo mundo lesse essa obra. Se não o mundo, ao menos o Brasil. Se essas letras estimularem pelo menos mais um leitor, que assim recomende o livro a outro, já ficarei satisfeita.

"É muito mimi...vocês vêem racismo em tudo!" - essa frase foi dita a mim por uma pessoa branca, durante uma discussão acalorada em que eu tentava ensinar-lhe a não se referir aos meus antepassados como escravos. Dizia-lhe eu: "não descendo de escravos, mas de africanos escravizados"...Eu ainda não tinha lido o livro do Lázaro e já concordava com ele quanto a essa terminologia. A briga foi feia e eu perdi, como frequentemente perco ao tentar erguer a voz contra a opressão do racismo. Pelo olhar do outro, ou estou exagerando ou criando caso. Via de regra, sou convidada a abaixar a cabeça e a me resignar. As coisas são o que são...

Cresci ouvindo que tudo o que é feio e ruim vem "do lado de lá". Desafortunadamente, eu sou a cara do lado de lá! Puxei para "o outro lado"....nasci "assim"...com esse cabelo ruim e essa cara, esse jeito, esse temperamento .... tudo coisa de preto! 

No confronto aberto, sempre me dou mal. Por isso, entre Malcom X e Martin Luther King Jr prefiro a não-violência deste último. Evito polêmicas e detesto bate-boca. Outro ponto em comum identificado com Lázaro. 

Não tive oportunidade de assistir a peça "Do topo da montanha", dirigida e encenada por ele, mas tenho certeza de que foi linda, pois se baseia em um dos discursos mais impressionantes que já foram escritos pelo citado reverendo que é uma referência de ser humano para mim, como também o é para o autor de "Na minha pele".

Voltando ao livro, Lázaro faz uma agradável conversa com o leitor. Conta suas experiências e, usando sua trajetória como pano de fundo, nos faz perceber quão sutil, dissimulado e insidioso o racismo pode ser. 

Coisas que antes eu julgava serem defeitos meus, meramente psicológicos, como a frequente sensação de inadequação, de não-pertencimento e até de menos-valia são reveladas no livro como traços do perverso racismo que vigora em nosso país. Coisas que só quem veste a pele negra entende. 

Termino a leitura com uma vontade imensa de tomar um café com o autor. Ou melhor, um Carmenère chileno. E conversar horas a fio sobre as experiências que eu vivi e ainda vivo, validando e reforçando tudo o que ele coloca em seu livro. 

Concluo que muitas vezes sou racista comigo mesma, quando deixo o olhar desconfiado do outro me ferir. Quando deixo de me posicionar por achar inadequado ou quando me sinto envergonhada de ser quem sou e estar onde estou apenas por que tantos outros como eu, ou até melhores, ainda não conseguiram chegar.

Obrigada, Lázaro Ramos. 
Obrigada por tratar desse assunto com leveza e profundidade. Com amor e respeito. Eu  me via feia e inferior refletida nos olhos do preconceito. Você me ajudou a vestir a minha pele e ficar mais à vontade nela. Que seu livro seja lido em todos os bairros de periferia, escolas públicas e particulares, bancos de praças, filas de banco...viagens de avião, de trem e de barco...e até de "Tomaquêeee"*.

Notas:

Sou negra de pele clara. Embranquecida pela mestiçagem. 
Recentemente escrevi o texto " Em cima do muro mestiço" que trata um pouco dessas reflexões. Foi dias antes de ler o livro do Lázaro e traz as minhas percepções sobre ser mestiça. Acho uma condição bem difícil essa de ser misturada. Não ser nem preta nem branca é bem complicado. Não tenho as facilidades da raça dominante, porque não sou branca o suficiente... (ah, esse cabelo....). Nem sempre meu ativismo como negra é visto como legítimo, porque sou branca demais pra ser preta. O texto está no link: 
*Lázaro Ramos insere essa expressão em seu livro. Não vou explicar para não dar spoiler...para saber o que significa, recomendo que leia o livro.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Drenthe2days 2019 - a resenha

Orientando-se em rotas nunca dantes navegadas.

As férias, já marcadas para outubro, estavam se aproximando. Fizemos contas, juntamos dinheiro e tomamos a decisão: O plano era visitar as fazendas da Holanda e aprender umas dicas de agricultura orgânica com o segundo maior exportador de legumes do mundo(1). De quebra, um passeio de trem pela Europa centro-oriental. 

Inquieta como sempre, fui procurar algo a mais para fazer. Entre um site e outro, encontrei essa corrida chamada Drenthe2days, na Holanda, bem no nosso período de férias!!!! Um misto de empolgação e medo me atingiu. Será que a gente dá conta? 

Sou amante de viagens e de esportes. Pratico Orientação e Corridas de Aventura há dez anos e apesar do tempo, ainda me vejo iniciante. Mesmo após tantas corridas, sei que não sou grande coisa como atleta. Mas, pensei eu, isso não importa. Se o esporte fosse só para campeões só poderia haver três competidores por categoria. Um para cada medalha!

Ainda bem que não é assim. Deixo as medalhas para os mais preparados. Vou lá ver qual é a desses holandeses! Combinado com o marido, também atleta amador fizemos nossa inscrição. Ambos com poucas oportunidades de treinar durante o período. Vand com muito trabalho no sítio e eu me recuperando de duas cirurgias (uma em cada olho) o que também me deixou com compromissos de  trabalho e estudo acumulados. Como sempre, fomos com a cara (de pau) e a coragem que nos é peculiar.😊

Assim, com o coração leve e sem muitas cobranças chegaram as tão esperadas férias! Aproveitamos bastante as duas primeiras semanas com escala na casa do filho em São Paulo, depois agradáveis viagens de trem e longuíssimas caminhadas por Praga, Bratislava e Budapeste. Estimo que caminhamos o equivalente a 100km nos 10 primeiros dias de viagem. Nem vou comentar, porque isso dá uma resenha à parte!

Vamos então para a nossa corrida. Chegamos a Appelscha (2), local das provas, no dia 24 à tardinha, depois de 10 h de trem de Budapeste para Praga, duas horas de avião de Praga para Amsterdã*, mais 2h de trem para Assen, mais meia hora de ônibus.....e mais 3km de caminhada até o camping onde alugamos um chalezinho....

Até o ônibus o Vand estava curtindo a viagem. Andar de transporte público na Europa nem é tão ruim assim. Mas, andar 3 km no frio arrastando mala não estava em seus planos. Para a nossa sorte, quando o resmungador do Vand ia disparar nível alto, passou um carro com duas simpáticas holandesas que nos ofereceram carona. Nem deu tempo de reclamar muito....

O chalé parecia uma casinha de bonecas. Muito bonitinho. Appelscha é uma vila da província de Friesland. Não entendi direito onde entra Drenthe na história, mas tem a ver com o local, pois se trata de uma província vizinha. A competição acontece todos os anos. A organização de prova é alternada entre os três principais clubes da região e vem gente de vários países da Europa para competir. Este ano, além dos europeus havia japoneses e brasileiros. Nesse caso...nós😊. Sim! Éramos os únicos brasileiros e os únicos latino-americanos....Baita responsa!
Bandeira do Brasil fincada no panteão 

A competição foi montada da seguinte forma: na noite do dia 25 houve um warm-up (aquecimento). Tratou-se de uma brincadeira de Sprint de revezamento no parque de diversões perto da área da prova oficial. Cada componente da dupla recebeu um mapa com 27 prismas diferentes. Na primeira bateria saía um dos componentes e sua missão era pegar os prismas bem rápido e voltar para que seu parceiro completasse seu mapa. 

Se fosse de dia, seria moleza. Mas...era uma noite fria. Soprava um vento gelado... 😂😂😂😂😂😂....Já está parecendo história de halloween...

O fato é que o parque de diversões lembrava mesmo um cenário de filme de terror, com as sombras dos brinquedos tremulando numa escuridão abissal! Um frio de renguear cusco, como se diz no Sul ou de lascar como se diz na Bahia! Um breu completo! Se não fosse o simpático organizador que nos emprestou a lanterna de cabeça eu não iria enxergar nem minha mão, quem dirá o mapa!

You're playing with the big boys now...

Meu nome foi chamado na primeira bateria e larguei com o coração na boca! Procurando manter a calma, até consegui me achar mesmo no escuro. Dei um perdido ou dois em alguns prismas mais difíceis o que me fez perder um tempo precioso. Por todos os lados eu via atletas correndo feito lebres.  Tinha prisma pendurado em escada, atrás de carrossel, no alto de tobogã e até na guarita do guarda! 

Eram  muitos pontos e eu teria que concluir em uns 30 minutos para o Vand conseguir entrar na pista. Não monitorei o tempo e não consegui ser rápida o bastante. Desse modo, mesmo pegando todos os prismas, não deu tempo do Vand correr.

Apesar do acontecido, ele não se zangou. Até se animou em fazer a pista sozinho no dia seguinte só para ver como era, já que nossa largada oficial seria só à tarde. De minha parte, senti um misto de satisfação e frustração. Satisfeita por ter achado todos, apesar da dificuldade para enxergar, ainda mais no escuro. Frustrada por não ter conseguido dar oportunidade ao Vand de fazer o mapa dele.

Enfim. Jantinha e soninho que no dia seguinte tem mais. O sábado acordou ainda mais frio.  O aplicativo de celular anunciava 7 graus. O orvalho baixava ainda mais a sensação térmica. Com o friozinho, abortamos a ideia de refazer o sprint e preferimos ficar no edredom até mais tarde. Ameaçava chover. O Sol se recusava a dar as caras.

Dia 1 - percurso médio - entre 3 e 4 km - corrida oficial válida pelo WOC (World Orienteering Championship)

Essa pista foi mais técnica, com bastante azimute e um pouquinho de altimetria em alguns trechos. 

Aqui valem alguns comentários sobre a bússola: A nossa é do Hemisfério Sul. Appelscha fica no Hemisfério Norte. Sendo assim, há uma diferença na declinação do mapa, que é a distância entre o Norte magnético e o Norte geográfico. No nosso caso, essa diferença estava em torno de uns 10 graus para a esquerda. Para distâncias bem curtas (20-40 m) isso não é tão significativo, mas quanto maior a distância, maior o erro. 

Comecei bem animada achando logo os três primeiros prismas. No caminho para o 4, topei com Vand que havia largado antes e estava atrás do seu sétimo ponto na maior empolgação. 

Não sei se perdi a concentração, se foi minha ansiedade ou inabilidade mesmo. Só sei que o dia escureceu de vez para mim.  Eu me perdi miseravelmente entre o prisma 5 e 6 que dependiam somente de um bom azimute. Tentei dar a volta no morrinho para ver se achava o prisma do outro lado. Aí...deu ruim....Acho que entrei em um portal mágico ou tropecei num gnomo, ou pisei no pé de uma fada e ela se zangou comigo....Só sei que após completar a volta eu estava em uma trilha completamente diferente e eu nunca mais achei a trilha certa! Depois de andar em círculos por mais de uma hora sem saber onde eu estava, decidi voltar. Mas....para onde?
Pequena amostra do parque. Foto tirada fora do local de prova.

Não é possível determinar para onde ir se você não souber onde está! Assim é na vida, como na Orientação!

Que remédio?

Orientei o mapa e apontei para o Norte. Afinal, a chegada estava naquela direção. Andei por mais uma hora nesse sentido até finalmente sair em uma rua paralela ao parque, próximo do cone de chegada. Bati mais dois prismas, já perto da chegada e terminei a prova. 

Cansada e bem triste. Encontrei Vand assistindo a premiação. Ele havia se saído muito bem, pois pegou todos os prismas. Porém, para o padrão desta prova, seu tempo foi alto. O campeão fechou os 27 pontos em surpreendentes 30 minutos! Poucos passaram de uma hora. Vand passou de duas... e eu de três...só que no meu caso, sem achar quase nada!

Participamos do delicioso jantar da organização junto com a galera. Era um festival de massas e todos estavam muito animados conversando entre si. Vand e eu apenas observávamos. Refletíamos sobre o dia, sobre como a comida estava boa e sobre como nosso esporte é bom para integrar as famílias. Havia avós, filhos, netos, cachorros. Em cada mesa um núcleo familiar ou um grupo de amigos. Conversa leve, astral bacana. Como é bom estar aqui, pensei eu.

Eu me lembrei de uma experíência que tive quando estava na sétima série....Na época, achava os meninos do 2o. ano muito inteligentes e queria participar das rodinhas de conversas com eles. Para isso, fiz amizade com o camarada da Xerox. Ele emprestava emblemas para quem tinha esquecido. Convenci-o a me emprestar um de duas estrelinhas para que me servissem de passaporte para aqueles assuntos tão interessantes...** 

É óbvio que todos sabiam que eu não era da turma, mas mesmo assim, me acolheram. Eu consegui entrar naquela atmosfera, pelo menos por um curto período de tempo. Afinal, a realidade sempre nos chama de volta! 

Pois foi assim que eu me senti naquela noite. Uma criança na roda de gente crescida. Uma colegial na festa da faculdade. Pensei em tantos atletas, muito melhores que eu, que poderiam estar aqui representando o Brasil com muito mais legitimidade e trazendo resultados mais expressivos. Pensei em minhas limitações e em porque havia decidido entrar ali. Pensando bem, será que foi certo? Somos os únicos representantes de um continente em uma competição que vale pelo campeonado mundial de orientação...e o que tenho para oferecer? Nada. Tivera eu me inscrito como atleta individual, não envergonharia ninguém, além de mim mesma.

Foi assim que fui dormir. Com vergonha. Caiu a máscara e o emblema. Fantasmas da autocobrança me assombravam....Não sou digna de estar aqui. Não sou digna de representar os atletas de Orientação do Brasil. Deixei uma referência ruim. Nosso país é muito melhor que isso, mas infelizmente, por minha causa, não havia como provar.

Fui dormir com esses fantasmas. Dormi mal. Rezei bastante. Busquei serenidade. Pedi perdão a Deus por estar envergonhada, o que só pode ser fruto do meu próprio orgulho. Afinal, a única pessoa incomodada com meu resultado pífio era eu. 

Dia 2: Percurso longo 6-8 km. 

The Sun rises for everyone. Don't give up! 
Hora de virar a página!

Acordei bem mais serena. Com o pé na realidade, ciente dos meus limites e agradecida pela oportunidade de estar ali, aprendendo. Vesti com orgulho meu uniforme. E fui correr com o que tenho e com o que sou.

Conversei bastante com alguns competidores. Queria saber de tudo. Fiz as mesmas perguntas para todos, com a genuína curiosidade dos aprendizes aplicados.

Ouvi coisas bem interessantes. Um rapaz de uns 30 disse competir desde os 7 anos de idade. Falou que considera que está sempre aprendendo e que o percurso estava difícil mesmo. Sua esposa pratica há dez anos e eles pretendem iniciar sua filha, que ainda é um bebê, assim que possível. Essa história se repetiu várias vezes. Uma mulher de 35 disse que aprendeu com os pais que ainda correm e fazem parte da organização do evento. Outro me disse que compete ou treina todo fim de semana. Pela facilidade de transporte na Europa,  um outro me disse que dá para visitar muitos países seguindo o esporte. 

Observei meninas suecas correndo de shortinho enquanto eu usava três camadas de roupa. Ingleses, holandeses, alemães, croatas, belgas, franceses, japoneses....crianças, homens, mulheres de todas as idades. Um privilégio estar entre eles. Todos muito simples e acolhedores. Felizes de ter brasileiros entre eles. Sempre nos recebiam com um amplo sorriso: Brasil? Ah! Brasil! Futebol, samba, carnaval, festa, churrasco... Essas são as palavras que vêm logo na sequência, após falarem Brasil bem alto e no meio de um largo sorriso. Alguns já correram em nossas terras. É assim que nos vêem. Um povo alegre, caloroso, que fala alto e gosta de festa😊.

Como chegamos cedo, deu tempo para essa resenha toda.

Nesse dia minha pista tinha 20 pontos, espalhados em 6.8 km, se seguidos pela menor distância, o que não era possível, dada minha dificuldade com o azimute. O mapa do Vand tinha 27 pontos em 8 km. 

A largada foi no meio da floresta. Ônibus pegavam a gente na Arena e levavam para o ponto de partida a cada 10 minutos. Vand largou por volta das 10 e eu, exatamente às 11:03. Aqui nada atrasa. Tem hora para começar e para terminar. Eles colocam a turma que tem chance de pódio para largar primeiro, assim, a premiação não demora. Tudo bem organizado.

Larguei consciente e com a  meta de achar os prismas, mesmo que fosse a última a chegar. Comecei bem. Serena e focada, segui as trilhas evitando azimutar em distâncias longas por conta do erro que já mencionei. Fui pegando um prisma de cada vez, com calma e consciência. De novo, próximo ao meu terceiro prisma, encontrei o Vand. Acho que é paixão, mas esse gaúcho até hoje tem esse poder de me desconcentrar. Ele estava já pensando em desistir, pois estava perdido. Como nossos prismas eram bem diferentes eu nem pude ajudar. Disse a ele para não desanimar e tentei me manter na prova. Parei, respirei e me orientei de novo. Achei o prisma três e logo depois o 4, o que me deu novo fôlego. Novamente, me atrapalhei para achar o quinto ponto. Uma alma boa e igualmente perdida apareceu. Era um atleta experiente que buscava o mesmo prisma. Eu me senti até aliviada de ver que gente grande também se perde 😂😂😂😂. Mas, também pensei que talvez ele fosse a Providência divina me dando uma mãozinha....

Por sugestão minha voltamos ao prisma 4, pois parecia que estávamos já fora do mapa. Ele foi dando as dicas de terreno, da vegetação e do azimute. Eu bem atenta para aprender...Estávamos perto do ponto indicado no mapa, mas nada de prisma. Comecei a olhar em volta e vi um ao longe. Eu acho que é aquele ali... Ele não levou muita fé, mas insisti em ir olhar e.... voilá! Prisma 5 pra conta! Fiquei bem contente de ter cooperado com a navegação.😊

Pegamos juntos o prisma 6 que estava bem próximo e azimutamos para o sétimo que estava bem mais longe. Daí, deixei que ele tomasse distância para fazer sua corrida. Afinal, ele é um bom corredor e eu já tinha abusado demais. Segui meu mapa e logo achei o prisma. Animada, fui seguindo minha estratégia de seguir pela trilha, contar passos e azimutar somente quando estivesse há menos de 50 m do ponto. Contei com a ajudinha de um organizador no prisma 10, numa passagem subterrânea, que era o ponto onde tínhamos que virar o mapa. Minha estratégia deu certo até o prisma 14.

Ali, procurando pelo 15 contei passos e fiz tudo direitinho. Não achei e resolvi voltar. Mas, os gnomos não deixaram e a fada parecia ainda estar muito brava comigo! Fui me perder sabe onde? Exatamente onde havia me perdido no dia anterior. Reconheci o local, mas não consegui sair dele. Comecei de novo a andar em círculos. 

Entrei no país das fadas e ficaria lá para sempre se não fossem outras duas almas e seus cachorros que apareceram para me ajudar.

Where are you from? Brazil? Ah, Brazil.......isso, futebol, samba...😂😂😂

Conversamos sobre o esporte, sobre o mapa, sobre o que eu estava fazendo ali tão longe de casa e sobre como é a floresta no Brasil. O papo estava ótimo, mas eu estava vendo a hora da Cruz Vermelha(3) começar as buscas atrás de mim. Precisava achar o caminho para o fim da prova. Com a ajuda dos simpáticos senhores eu cheguei na mesma rua do dia anterior e corri para a chegada, marcando o ponto enquanto o organizador segurava já o prisma para guardar. Peraaêeeeeeee. Deixa pelo menos eu bater a chegada! Pedi esbaforida!

Todos os prismas haviam sido recolhidos. Estavam desmontando a arena. Ainda fizeram festa para mim!!!! Hey! Você conseguiu!!!! Fui recebida com palmas😊😊😊😊. Uma organizadora veio me cumprimentar. Perguntou se eu estava bem. Meu marido me recebeu afetuoso e preocupado. Ele tinha desistido e estava ali somente para me esperar.

Sim. Eu estava me sentindo muito bem. Satisfeita e feliz. Nenhum sentimento de frustração ou vergonha. Muito pelo contrário. Estava genuinamente feliz com o que havia conquistado. Peguei 14 de 20 prismas em uma prova difícil e acima das minhas capacidades. Consegui navegar, contar passos, identificar a vegetação e reconhecer todas as referências do mapa. Consegui até fazer azimute mesmo com o desvio da bússola! Fiz o meu melhor, dentro das minhas possibilidades. Progredi nos últimos três dias e mal posso esperar por uma próxima oportunidade de fazer isso de novo.

Agradeço pela torcida e pela camaradagem dos amigos do Brasil, que nos apoiaram mesmo sabendo das nossas limitações. Espero com essa participação conseguir incentivar outros atletas. É possível entrar na festa. Não há impedimentos. Esse é um esporte em que você pode ou não ganhar medalhas, mas com certeza você nunca perde! Ganhei mais coragem, experiência, amigos, novos rumos, novos cheiros, novas terras, novas marcas nos pés e na alma.

Obrigada Drenthe2days! Que ano que vem outros brasileiros possam agitar nossa bandeira em sua terra. 

Aproveito para convidá-los para o campeonato brasileiro de Sprint que este ano acontecerá na Bahia em novembro: CamBOS 2019. Sim! Bahia, Brasil, carnaval, churrasco, futebol, festa.....isso tudo aí e mais um pouco!

Somos um povo festeiro e acolhedor. Também sabemos organizar boas provas e temos ótimos atletas por aqui! Vocês serão todos muito bem vindos!

Agradeço aos dois clubes que representei nessa corrida:
* Meu clube de filiação Aventureiros do Agreste
* Meu clube no Pará que nos adotou com o maior carinho do mundo: COARI

As mensagens de incentivo de vocês foram muito especiais. Obrigada!

Obrigada aos organizadores da Drenthe2days 2019 e parabéns pelo belo trabalho. Espero que o google translator os ajude a ler esses agradecimentos😊.

Mensagem final para a Orientação no Brasil:

Participar desta competição foi bom para ver que o nosso esporte é realmente universal. Mesmo sem entender uma palavra em holandês não foi difícil participar porque as regras são as mesmas. As corridas de que participamos, tanto na Bahia como no Pará estão seguindo direitinho as regras da IOF. Acredito que seja assim também nos demais Estados. 

Em que os europeus estão mais adiantados que nós? Primeiramente, o esporte já tem 100 anos por lá. Existem muitos clubes e muitos campeonatos. As pessoas começam a praticar em torno dos 7 anos e todos so fins de semana tem algum evento de orientação em algum lugar. Isso dá a eles mais experiência e habilidade. Porém, acredito que estamos no caminho certo. Trabalhos educativos vem sendo realizados por muitas instituições, tais como Escola de Aventura do Agreste, clube Carcará, Caatinga Trekkers e COARI, só para citar os que conheço. Sem falar no trabalho de base feito por professores como nossa querida Jamille Almeida e mestres Renato, Luiz Agnaldo, Tenório, Riva...enfim, tanta gente que não conseguirei citar todos. Tenham certeza de que seu trabalho de formiguinha está dando frutos. Nosso esporte está crescendo e há de crescer ainda mais!

Adsumus!

Fotos: Todas tiradas fora do local de prova, pois não corri com o celular. Mas, dá para sentir o gostinho:









Notas:


2) Appelcha é uma pequena vila na província de Friesland. Se traduzido para português, seu nome seria "macieira". https://en.m.wikipedia.org/wiki/Appelscha.

3) O evento contou com o apoio de uma equipe da Cruz Vermelha para primeiros socorros e resgate em caso de necessidade.

*Falha de logística da minha parte. Entramos na Europa por Amsterdam,  pois ali seria o destino final e facilitaria nossos traslados. A ideia entao era dar um giro pela Europa e voltar ao ponto de partida. De Amsterdam para Praga decidimos ir de avião. Foi aí que eu errei. Comprei o bilhete ida-volta. Tivesse eu comprado só a ida, poderíamos voltar de Buda direto para Amsterdãm de trem. A viagem ficaria menos quebrada, embora longa. Enfim, eu até achei divertido. Li, dormi, tirei foto e descansei!

** Estudei no Colégio Pedro II, no Centro da cidade do Rio de Janeiro entre 1983-1989. Lá, usávamos emblemas grampeados no bolso da blusa. Eram numerais até a oitava série e estrelinhas no ensino médio. Lá recebi educação, valores e fiz amigos. Até hoje, o segundo ano é o meu favorito. S2

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Em cima do muro mestiço

Eu moro em cima do muro.

Da esquerda - sou dos defensores dos animais; da preservação do meio-ambiente; do vegetarianismo; do combate à fome e à miséria.

Da direita - Defendo o trabalho; Defendo o Estado mínimo - ou a inexistência de um Estado ineficiente; Defendo menos impostos e mais iniciativa privada. Defendo a livre iniciativa. Defendo a propriedade; a liberdade de expressão e a produção de riqueza pelo trabalho.

Minha cor? Não sei....

"Já me disseram que eu sou branco demais pra ser preto. Já me disseram que eu sou preto demais pra ser branco" (PROJOTA)

Só sei que não posso desfilar no Ilê Aiyê...Tampouco, jamais fui convidada para o camarote do Harém...

Os detectores de melanina sempre funcionam para mim.... aeroporto, banco...shopping de luxo.

Impressão? Mania de perseguição? "mimimi"?... Não é nada disso... Se você nunca passou por esses sutis constrangimentos, você nunca vai entender....

Eu tenho o sangue galego de íbericos ancestrais. Sangue Celta corre em minhas veias, de bruxas e magos de um tempo imemorial que cruzaram o oceano levando seus costumes para Portugal.

Eu tenho sangue preto de negros valentes. Daqueles que corriam descalços vestidos de palha. Fortes e orgulhosos. Guerreiros. Homens e mulheres de extraordinária força física e mental. Sangue que suportou a violência do exílio, do cativeiro e do trabalho forçado.

Aqueles,  escravizaram estes. Em minhas veias, corre um sangue contraditório. Corre o ódio e a arrogância. Corre a resignação e a revolta. Corre o banzo e a saudade.

Tenho no DNA as marcas do chicote. Mas, também, os calos de quem o carregou por tantos anos. Tenho na mão direita ainda a chibata que fere minhas próprias espaldas.

Uma inclinação inata pelas artes, pelos pratos e talheres. Pela fina culinária.
Um amor visceral por correr pelo mato, abraçar as árvores e falar com os animais.
O conhecimento natural do uso das ervas.
A conexão com as energias cósmicas.

Está tudo aqui. No mesmo caldeirão.

Qual é a minha raça? Branca? negra? - Nem uma, nem outra. É uma... e também a outra....

Nessa mistura de cores, não dá para ser racista. Nem para um lado, nem para o outro.

Somos elos. Conexões. Viemos para dar as mãos. De um lado e de outro. Viemos para reconciliar. Patrão e empregado. Proprietário e colono. Coronel e escravo. Homem e mulher. Senhora e mucama. Sinhazinha e cunhã....

O mestiço é uma criação divina para prover o perdão.

Perdão pelas chibatadas...Perdão pelo rancor produzido por elas.
Perdão pelos maus tratos...Perdão pelo ódio que esses maus tratos geraram...

O mestiço reconcilia os povos. Casa marabás com mamelucos. Une mouros e ibéricos. Aplaina os orgulhos e suaviza as opiniões.

Somos um país de mestiços! Agora, vamos largar de brigas tolas e fazer uma grande festa, unindo nossas cores, costumes e crenças.

Daqui de cima do muro vislumbro o país mais belo do mundo!


Marabá - Gonçalves Dias

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

domingo, 11 de agosto de 2019

Campeonato Paraense de Orientação – III Etapa CamPAOri – Percurso Floresta

Benevides, 04 de agosto de 2019

Uma pausa para a História.

Nesse esporte conhecemos lugares lindos, que talvez nem chamassem nossa atenção fora do contexto das corridas de orientação. Benevides é um desses casos. 

Para conhecer melhor a região que nos recebeu nesta etapa, fui consultar o bom e velho "Oráculo": - OK, Google, fale-me de Benevides, no Pará..."

Situada à nordeste de Belém, tendo população atual estimada em cerca de 61 mil habitantes, Benevides foi a segunda cidade do país a libertar os escravos (não só negros, mas também pardos e índios) quatro anos antes da Lei Áurea. Hoje, contribui com a economia do Pará sendo o maior produtor de flores tropicais e plantas ornamentais do Estado.  Tudo isso com apenas 187 quilômetros quadrados de área!

É também onde fica a "Reserva das Chácaras" um pedacinho de paraíso. Um verdadeiro portal mágico que nos transporta da cidade diretamente para a floresta mais querida do planeta.


Chegamos no sábado à tarde, junto com seu Tenório e família. Lá, encontramos outros amigos, de tudo que é canto desse país. Para confraternizar, fizemos um belo churrasco gaúcho, com farofa do Pará. Uma legítima festa brasileira! 

Eu, como sou vegetariana mas não besta, tratei de defender meu lado, levando batata doce, banana, abacaxi e cenoura. Eu que não vou passar fome, né? No fim, teve gente curtindo meu churrasco veggie, que eu sei! 😋. 

Depois da janta, cada um foi atrás da sua rede. Dormimos o sono dos justos embalados pela floresta. Nenhum ruído de carro. Só brisa, cheiro de mato e de terra... Um lugar de cura para o corpo e o espírito.

III Etapa CamPAOri - Percurso Floresta:

De manhã cedo, um café bem quentinho com gostinho de fazenda...Ai que me deu até vontade de morar ali. Que delícia! Para quem gosta de natureza, #ficaadica, o Recanto é maravilhoso. Os donos são super simpáticos, a comida é boa e os quartos são simples e aconchegantes. Pretendo voltar em breve, só para passear!

Na concentração, uns aqueciam, outros alongavam. Outros rezavam... Outros não faziam nada...Teve gente dando aquela revisadinha de última hora na simbologia. Muitas selfies, muitas fotos... Tudo pronto para mais uma prova!

Banner para relembrar a simbologia
Simbologia ISOM 2017
A etapa foi organizada conforme as regras da CBO, com tudo a que temos direito: largada e chegada balizados, atletas devidamente uniformizados, lista de partida impressa, briefing e execução do Hino Nacional. Tudo como manda o figurino. 

Chamou minha atenção a disciplina dos adolescentes que participam das corridas. Meninos e meninas muito bem educados e atentos o tempo todo para as orientações dos seus professores. #Orgulho!😊


O mapa dava conta de um terreno bastante variado. Ora teríamos áreas abertas, ora mata nativa de corrida lenta, tudo entremeado por trilhas, tiriricas e igarapés. A maior parte dos prismas está em áreas claras, mas ainda há muito verde escuro para explorar. Quanto mais escuro o verde, mais densa é a mata. Rezo para que a Reserva das Chácaras preserve a área de floresta nativa, que é de uma beleza incrível! Um verdadeiro santuário.
Mapa da terceira etapa CamPAOri 2019

Uma pausa para a língua portuguesa...

Sobre orientar-se...

A orientação faz parte da nossa linguagem e nem nos damos conta disso! Quer ver, só? Diga-me se já ouviu frases como essas: Fulano está desorientado. Fiquei desnorteada! Menino, se orienta

Uma vez ouvi uma explicação bacana sobre como essas expressões entraram na nossa língua(1). No passado, o objetivo dos navegadores era encontrar as rotas das especiarias, que ficavam à leste da Europa. Por isso, apontavam suas bússolas para o Oriente. Ou seja - orientavam seus mapas. Daí, surgiu a expressão "Orientar-se - Colocar-se na direção desejada".

Porém, por uma questão física (magnética para ser mais precisa), todos os imãs apontam para o norte da Terra - o norte magnético. Por isso, ao alinhar bússola e mapa na mesma direção e sentido, estamos "norteando". Quando estamos "desnorteados" significa que perdemos a direção.

Após esse breve passeio pela história, pela geografia e pelo português... voltemos ao que interessa! Ao mapa, orientistas!

A corrida

O mapa da minha categoria tinha 23 prismas, distribuídos em 4,4 km, desde que eu conseguisse andar nas menores distâncias entre eles (linhas cor de rosa). Isso significaria pular algumas cercas, escalar algumas árvores, chafurdar no charco, escalar barrancos e comer bastante mato.... 😕... Melhor não, né??

No nosso esporte, aprendemos rápido que a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma linha reta. É preciso ler os símbolos, conhecer o terreno e escolher uma estratégia. Isso fará a diferença entre vencer e se perder.

Na largada, parti na direção errada. Distraída e sem me nortear direito, não comecei muito bem. Isso tira a gente do sério e pode comprometer toda a prova! Aos poucos, porém, busquei me acalmar e trazer minha mente de volta ao momento presente (lembram do "minfulness" da corrida anterior? Pois...era do que eu estava precisando). 

Outra dificuldade foi a matemática. Eu estava acostumada com os mapas múltiplos de 5.000. Escalas 1:10.000; 1:25.000; 1:50.000 são fáceis de gerenciar. Mas, 1:4.000...Foi a primeira vez que me recordo de correr com essa escala. Nesse caso, significa que cada centímetro no mapa equivale a 40 metros no terreno... 

A conta é simples. Já calibrei minha caminhada e sei que para cada 100 metros eu gasto 56 passos. Se neste mapa eu tenho uma referência que está há 2 cm de distância da minha localização atual, logo, eu precisarei andar 80 metros. Neste caso, vou gastar quantos passos??? E se forem 3 cm?? E cinco?

Ai, minha nossa senhora da álgebra! Haja "X" pra calcular!!!!

Imagine-se sob um sol escaldante, em terreno irregular, com titiricas, sede e ainda tendo que achar "x" de cabeça!!! É muita pressão para o meus pobres neurônios!😣

Eis que esse tal de cérebro é um bicho esperto. Quando muito demandado ele prioriza e escolhe onde vai colocar atenção. No meu caso, ele desligou a calculadora e por mais que eu me esforçasse, as contas não saíam de jeito nenhum! Foi assim que procurando o prisma 4 fui parar no 16...  Perdi a conta dos passos e por isso, teria que voltar um enorme trecho, por pura distração! Eu sei, eu sei! Não tem lógica!!!

Nesse prisma encontrei a Major Gehnsa surgindo do mato exatamente em cima daquele prisma. Ela vinha correndo, como uma gazela. E eu ainda perdida nas matemáticas... Bateu um baita constrangimento! (...Se o mapa dela estiver parecido com o meu, ela deve estar terminando a prova e eu não concluí sequer um terço!). Foi frustrante ver que tinha errado tanto e perdido tanto tempo!  

Expirei vergonha e inspirei dignidade. Bora pra frente que é para onde se anda. Se é para voltar, vamos logo e não percamos tempo! Obviamente que não registrei o prisma, mas ao menos já saberia reencontrá-lo quando fosse preciso. Desisti de medir distâncias e contar passos. Concentrei-me nas referências do mapa e no azimute, feito corretamente dessa vez😊. Lembrei também do Lécio, que me ensinou o E.S.A.O.N. (Estacione, Sente-se, Alimente-se, Oriente-se, Navegue). Pois, acreditem! Funciona! Deve funcionar para os problemas da vida também...quem sabe?

Parei ali, no meio do nada. Vi uns atletas correndo para lá e para cá, mas não me vi. Continuei atenta. Subitamente, vi marcas no chão...entradas de trilha... curvas de nível...de repente o mapa parecia ter virado 3D. Tudo começava a fazer sentido! Estava orientada, afinal!

Fiz o caminho de volta prestando atenção e registrando mentalmente a localização dos demais prismas. No caminho, meu esposo passou por mim e só ganhou um "oi" (sempre rola um beijinho nesses encontros, mas naquele momento eu estava com a faca nos dentes e não podia perder o foco!)

Achei o prisma 4 e daí foi só fazer o percurso já conhecido para registrar os prismas na ordem correta, como manda a regra. Unha no mapa, olho na trilha, fui comendo tudo com farinha! Sem me permitir mais distrações, ainda passei por um simpático atleta que disse estar ansioso para ler meu relato da corrida😊 (Ai, meu Deus, quanta responsabilidade!! Espero não decepcionar!)

Na trilha do Prisma 8, Jane passou por mim, animada - Bora que tá perto!!!  Não sei se ela reparou, mas eu estava cantarolando sozinha - Vou beirando o igarapé, beirando o igarapé, beirando o igarapé... vou passando pelo rio, passando pelo rio, passando pelo rio... Deve ter me achado meio doida. 😂😂😂. Cada atleta tem suas métodos de concentração, o meu é falar sozinha, ué...😂😂

Sobre compartilhar dificuldades...


No caminho para o prisma 10 encontrei o Victor. Cansado e já um pouco desanimado. Cada um no seu mapa, conseguimos nos achar entre cercas, buracos e charcos.

Aprendi uma coisa legal com o Victor. Nossos mapas eram iguais, mas cada um lia coisas diferentes. Eu, com minha experiência em corridas de aventura, me fixei nos encontros de trilhas e cercas, usando-as como referência. Meu amigo Victor, com muito conhecimento de geografia, escolhia suas rotas pelo tipo de vegetação. Enquanto eu procurava uma cerca para me guiar ele já saía andando.... 

Aonde você vai, menino? Como sabe que é nessa direção?
-  Ué, veja no mapa. O terreno mudou de verde para laranja. É por aqui!  E era mesmo! Obrigada, Victor!

Seguimos em paralelo, cada um com seu mapa, atrás dos mesmos prismas. Eu preocupada com ele, pois o menino estava muito quieto e andava muito devagar, visivelmente fatigado. Eu puxava conversa e ele nem respondia... Embora seus passos fossem lentos, eram firmes e contínuos. Não demorava nada e ele já estava junto comigo, graças à sua habilidade de ler o terreno e encontrar passagens mais fáceis.  Foram longas caminhadas e muitas cercas para contar e pular. Prismas 10, 11, 12, 13, 14, 15...já pertinho da chegada...só que não!

Não acredito que o prisma 16 está do outro lado! Vamos ter que voltar tudo ?!!! - reclamou Victor - Sim, respondi eu!😆 E se achar ruim, vai andar mais, porque o 17 está mais longe ainda!😈

A essa altura minha sede já estava atingindo nível hard. Então, resolvi apelar. Victor reclamava de fome. Sem um centavo no bolso, bati numa casa e pedi...

 - Pessoal, estou sem dinheiro. Eu e meu amigo aqui precisamos de um copo d´água. Podem nos ajudar?

Um viva à solidariedade!

Ai, gente!!!!! Água geladinha.... não tem preço. Não me vem com coca-cola, que eu quero é água!!! A família foi super gentil! Tomamos água à vontade, agradecemos muito ao pessoal e saímos animados. o pior já tinha passado. Só faltava um terço da prova!

Incrível como a água revigora a gente. Parece que a alma volta para o corpo! Já conseguia até fazer conta de cabeça e brincar!!!! Victor já sorria e falava! Mágica! Saí falando alto e perturbando o Victor - Bora que o soldado aqui é tu!! 

Ele aceitou a provocação e saiu correndo. E e eu correndo atrás... -Péra aí, moleque! Aonde é que você vai sem mim? Vai tirar onda agora???. E o povo rindo da gente!

Quase que boto os bofes pra fora tentando alcançar o menino que corria como se tivesse acabado de começar a prova, obviamente rindo da minha lerdeza.😂😂😂😂

A chegada:

Como andávamos juntos, mas cada um era responsável por sua navegação, nem sempre a gente via o caminho do outro. E assim fomos nós, concentrados e focados...16, 17, 18, 19, 20...

Na direção para o prisma 21 eu adotei uma estratégia e o Victor outra, e eu nem percebi. Quando dei por mim, não o via mais. Escolhi vir pela estrada e ele resolveu vir cortando por dentro da vegetação, onde a distância era menor, porém a corrida era mais lenta, piorada pelas curvas de nível. Eu sabia que ele ia conseguir. Era área aberta e ele navegava bem. Além disso, a água o ajudou a recuperar as forças. Segui em frente. Voltamos a nos ver no penúltimo prisma. Estava acabando. Estávamos exaustos, mas conseguimos!

Não tinha mais como errar! Era só partir pro abraço. Cheguei esbaforida, suada, fedida, arranhada e feliz! Consegui! 100% de aproveitamento. 23 prismas bem navegados! Mereço comemorar.

Minha pista durou bem mais de 2 horas. Foi um tempo ruim. Mas, por incrível que pareça, foi minha melhor prova aqui no Pará. Foi a prova de floresta que fiz com mais consciência, escolhendo as estratégias e sabendo o que estava fazendo.

Agradeço ao Tenente Riva pelos mapas difíceis que ele faz. Isso tem ajudado a gente a se desenvolver. E ao seu Tenório que parece se divertir muitíssimo em escondê-los pelo mato! A divina Providência pelos encontros precisos e na hora certa. À família que nos deu água, ao meu esposo que sempre me incentiva, aos novos meus amigos paraenses. E ao Victor pela companhia e pelo aprendizado que compartilhamos!

O meu pódio continua solitário. De um certo modo, é até bom, porque aproveito para melhorar meu tempo 😜. Quando as competidoras chegarem, vou dar trabalho a elas! 

  

Vand, meu companheiro de clube e de vida, está progredindo bastante.  Já está conseguindo pegar pódio em uma categoria bastante competitiva - além de ter mais atletas, eles são mais jovens, sendo consequentemente mais ágeis. Nesse caso, a experiência e a estratégia compensam o fôlego. Vand é muito tranquilo e corre com muita concentração. Aprendo bastante com ele, todos os dias.

Às vezes nos perguntam porque viajamos mais de 1000 km para correr 5. Não é pela corrida, gente. É pelos amigos que fazemos, pela história que aprendemos. É pelo cheiro da terra, pelos arranhões e quedas. Pela lama que fica entranhada nos dedos. Pela alegria de completar. Pela certeza da vitória, mesmo quando não dá pódio. 

Em toda prova, no final, tenho aquela gostosa sensação: Venci meus limites, mais uma vez! Dei mais um passo. Se hoje meu tempo não foi tão bom como eu gostaria, ainda posso comemorar porque consegui pegar todos os prismas, com consciência. E assim vamos evoluindo. Um prisma de cada vez. Um dia de cada vez. Uma prova de cada vez!

Para minha vida, levo a persistência para não desistir. A flexibilidade de replanejar quando as coisas não saem exatamente como queremos. A paciência e a humildade para aprender com os mais jovens. A coragem para me permitir colocar um olhar diferente para o mesmo cenário (valeu, Victor!). A resistência e o foco para superar a fome e sede. A solidariedade para apoiar um companheiro e compartilhar um copo d´água. A gratidão pelas coisas simples da vida.

Agradeço ao Seu Tenório e Dona Graça pela hospitalidade de sempre. Aquela sopinha de domingo a noite estava maravilhosa! Deus lhes abençoe sempre e lhes dê saúde para que continuem sendo hospitaleiros e amorosos com todos!

Que a Orientação continue crescendo e nos ajudando a ser a cada dia pessoas melhores!

Notas:
1- Mario Sergio Cortella, numa das suas intervenções sempre agradáveis no Jornal da Cultura.

domingo, 14 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 3 - Deméter

Deméter vai ao baile...

Foi difícil para ela aceitar o convite, porque precisava cuidar das crianças que são muitas. Mas, aceitou porque soube que Perséfone estaria lá e ela tinha muitas saudades da sua filha.

Deméter não tem um vestido de baile e seus cabelos estão bagunçados.
- São as crianças - ela diz. - Estou sem tempo - Comenta sorrindo.
Ela é linda assim mesmo, com seu cabelo desgrenhado e sua roupa amassada.

Afrodite lhe empresta um vestido e penteia seus cabelos. Deméter está deslumbrante. Ela vai só observar. Precisa voltar cedo. Tem que cuidar da plantação.
Ela chega discretamente. Não quer ser anunciada e não pede uma música para si.

Ela entra no exato instante em que a ciranda começa. Perséfone no meio, as meninas em volta e as mulheres no círculo maior. A música é alegre. Deméter chora.

Ela não está triste, mas emocionada. A maior alegria de uma mãe é ver seus filhos felizes. Perséfone dança como se não houvesse amanhã. Como se não existisse o Hades e o tormento da prisão. O salão brilha. Todos estão alegres.

Deméter observa as suas meninas. Estende os seus braços de proteção materna. Pronuncia algumas palavras e canta baixinho.....


Honra teu pai e tua mãe...

Uma brisa leve agita o jardim e espalha pólen para todo lado. Ninguém vê, mas nesse instante milhares de flores são fecundadas. São o prenúncio dos frutos que logo iremos colher.

Deméter permanece observando discreta. Está a postos, para quem precisar.

Nota: Procurando referências, achei esse texto bastante interessante: Deméter

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 2 - Perséfone

"Você já viu a Morte, Harry? Somente quem já viu a morte consegue ver os testrálios" - assim dizia Luna Lovegood em Harry Potter e a Ordem da Fênix - ( J. K. Rowling - escritora e diva)

Capítulo 2 - Perséfone vai ao baile, vestida de Primavera.

Luna chega à grande mansão. Há testrálios no jardim. Há um pouco de bagunça no ambiente. Esse jardim já foi mais bonito... Parece que um bando de dragões passou por aqui, desfolhando tudo. Há galhos e árvores caídas por toda parte. Há também criaturas invisíveis, habitantes das mentes perturbadas dessa casa. Elas voam ao redor das cabeças dos seus donos. Mas, eles não podem ver.

Luna tem boa intuição. Ela se faz de tola para não se dar a conhecer. Tem uma conexão muito forte com o Invisível, mas prefere manter isso em segredo. Para que mostrar o que ninguém quer ver...

Luna é a encarnação perfeita de Perséfone. A deusa dos mistérios. A bela jovem eterna que esconde uma profunda dor, também eterna. Aquela que foi levada ao inferno e sobreviveu. Raptada, teve sua inocência interrompida pelo tenebroso Hades. Seu hálito é de alecrim, seus cabelos e olhos são de mel. Quando ela passa, as flores se abrem, também se abrem os olhos e os sorrisos...tudo que ainda tem luz brilha em sua presença. Ela é capaz de acender o Sol depois de uma noite gelada.


Perséfone entra no salão e uma valsa alegre começa a tocar. É a primavera.
As mulheres maduras abrem espaço para as donzelas e fazem um grande círculo de proteção ao redor delas. Jovens e barulhentas adolescentes dão as mãos e dançam alegremente. Dispensam os homens, que ficam de fora da roda olhando. Admirando. Sem poder se aproximar. Não é seu tempo. É a hora delas.


Perséfone baila sozinha no meio da roda e de seu vestido saem pequenas estrelas que iluminam ainda mais o salão. Em torno dela, uma roda de meninas gira em ciranda. As mulheres estão no circulo maior e marcam o passo da valsa. Vistas de cima, formam um imenso caracol colorido.



Passou a chuva. Ainda está tudo meio caótico. Nada permanece igual após uma valsa com Hécate. Mas, a alegria das meninas enche o coração de todos de esperança. Ninguém mais se lembra da dor. Uma fênix renasce das cinzas do jardim e voa em direção ao infinito. Ninguém repara. Luna vê com o canto do olho e sorri discretamente.

As meninas cantam. As mulheres batem palmas.
Sobrevivemos ao caos.
Conquistamos a Força.
Criamos Coragem.
Renovamos a Esperança.
Estamos prontas para mais uma dança.

Nota: as fotos foram copiadas de pesquisas no google image.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 1 - Hécate

"E eis que o homem criou deuses à sua imagem e semelhança" (Friedrich Nietzsche)

Começo essa série com uma frase controversa, dita por um filósofo que tinha problemas de relacionamento com seu pai e que acabou morrendo louco. No entanto, havia uma certa razão no seu pensar desvairado.

Parafraseando esse meu amigo alemão, eu diria que o homem, no auge da sua inteligência, se valeu da mitologia para explicar a própria complexidade. Os deuses criados foram para trazer compreensão sobre muitas coisas... tais como as emoções, os poderes da natureza e as fases da vida. Muito se pode aprender com a Mitologia - A filha da Filosofia e irmã da Poesia.

Nessa série em 7 capítulos, vamos dançar com as deusas. Você vem comigo? Então calce seus sapatos vermelhos e deixe a Música te levar. Vem dançar comigo na ciranda das deusas.
...
O baile começa. Uma chuva de açoite aparece do nada. Um vento gelado agita os vestidos das damas. Lá fora se ouvem trovões. O céu escurece e subitamente é iluminado por relâmpagos. De repente, o silêncio. A chuva para. O tempo também.

Uma mariposa voa pelo salão e se transforma numa linda mulher madura. Longos cabelos negros e grisalhos. Um vestido de veludo negro e verde. Olhos negros fundos como o abismo e misteriosos como a noite. Uma valsa começa a tocar. É o inverno, de Vivaldi. Ela se apresenta. E todos a reverenciam em silêncio.

Meu nome é Hécate.
Sou a destruição e a morte. Trago temporais e catástrofes.
Sou a hecatombe. O caos. A dor.
Trago o desespero e o medo. A fúria e a revolta. A raiva e a loucura.
Ensinei Iansã a dançar. A Hela dei meus cabelos e Morrigan comigo aprendeu a voar pela noite.
Brenthis Hecate
Sou a noite fria que tens que enfrentar para ver a luz da manhã.
Sou o terror e o medo que tu vais ter que vencer se pretendes continuar a viver.
Sou a escuridão e a força que te empurraram para fora do ventre da tua mãe. Sou a luz que cega teus olhos. O ar que invade teus pulmões a força. O fôlego que te falta. O fôlego que te falta. Sou o que te falta.
Sou a força. A força que tu tiras nem sabes de onde, para virar o mundo ao avesso por aquele a quem amas. É a mesma força do ódio e das matanças. É a força da Guerra. A Força que te dou é o que tu fazes dela.
Sou eu. O desmantelo que precede os começos. O caos e o berço da criação.

Se quiseres dar um passo adiante, vais ter que passar por mim...
Dá-me tua mão e vem girar comigo nessa espiral sem fim.


Se por mim passares e eu não conseguir te despedaçar, te darei a manhã depois da chuva e porei teu barco em  mar sereno. Não faltará força em teu braço nem coragem em teu coração.

Teria Nietszche dançado com Hécate numa noite sombria? Teria ele abandonado o baile antes do tempo? Se entrares nessa dança, segue a música até o final. Não se abandona uma Hécate no meio da valsa.

Aguarde a próxima música...