quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Corrida do CT da Gantuá 2017 - Final do Campeonato Baiano de Corridas de Aventura

Tenho muito pra contar...Dizer que aprendi...

Mucugê – Chapada Diamantina – 03/11/17

Essa cidadezinha fica bem no coração da Bahia e tem menos de 20 mil habitantes. É um dos meus refúgios favoritos no universo. Em minha opinião, poderia ser chamada de "A Princesinha da Chapada" mas, soube por um blog que é conhecida como a "Machu Picchu" brasileira. Se vocês visitarem as ruínas do garimpo, no Parque do Projeto Sempre Viva, vão entender porquê.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mucug%C3%AA
Foi em Mucugê que os primeiros diamantes foram encontrados, no final do século XIX atraindo riqueza para uns...cobiça, ambição e morte para outros. Hoje o garimpo é proibido e a economia local passou por um período de declínio lá pela década de 1980. Da década de 1990 para cá, a Chapada se reinventou. Alguns dos antigos trabalhadores se transformaram em guias turísticos, foi criado o Museu do Garimpo, e foram chegando os bichos-grilo, os fazendeiros e os corredores de aventura...

Diana e Alan se mudaram para lá, levando com eles  empreendedorismo e muita coragem. Sua empresa, a Gantuá Multisports Eco Adventure cresce ano após ano e já se tornou uma referência em esportes de aventura na Bahia.

Eu participo sempre que posso das provas promovidas por eles, como o CT de Mountain Bike, edições de 2015 e 2017 e a Corrida do CT na Praia do Forte que fiz em 2014. As histórias dessas aventuras estão nos links marcados no texto. Gosto de recordar, porque é isso que fica de bom dessa vida doida que a gente leva.

Este ano, tudo conspirou a favor e consegui finalmente fazer a única prova do campeonato baiano que ainda não tinha participado. Tudo para ser uma grande festa. Última etapa do Baiano de Corrida de Aventura. Pela primeira vez eu tinha participado de todas as provas. Já tinha motivos para estar feliz por antecedência.

A viagem de ida supertranquila, sem nenhum transtorno. Deixei minhas bagagens prontas no domingo anterior, pois na segunda antes da prova viajei para o Rio Grande do Sul a trabalho. Eu chegaria na quarta à noite, com plano de ir para a Chapada Diamantina na quinta de manhã. Ao voltar, no domingo, já tinha que ter a mala pronta para novamente partir para o Rio de Janeiro, de novo a trabalho. Descansada, bem disposta e com um sorriso no rosto, porque é assim que se faz!

Quem fica acompanhando minhas postagens no facebook deve pensar que levo uma vida de Penélope. Sempre de rosa, sempre sorrindo, pedalando e andando pelos matos.... A verdade é que nem só de diversão vivem as pessoas e eu também tenho meus trancos e barrancos como todo mundo. Acontece, que sou daquela turma do copo meio cheio. Em tudo, prefiro focar no lado bom. Pensamento de abundância, sempre!

Assim sendo, não tenho tempo para reclamar nem ficar cansada. Isso atrasa a vida da gente. É preciso viver intensamente cada momento. Com tudo o que ele nos traz. Cansaço, tristeza, enxaqueca? Tenho tempo não... marca aí no outlook para o mês que vem, que neste estou com todos os horários ocupados! 

Como ia dizendo, tudo conspirou a favor. Chegamos cedo a Mucugê. A cidade estava linda, como sempre. Diana e Alan montaram um evento memorável. Altíssimo nível de organização. Teve pórtico lindo. Teve receptivo para os atletas, cobertura da imprensa, apoio das pousadas, do comércio local, da Prefeitura e até da Natureza.

Estranhamente, invernou em Mucugê em pleno novembro. Choveu todas as noites e durante o dia ficou bem fresquinho, com uma leve garoa mantendo a temperatura bem amena. Até o Prefeito se admirou e agradeceu aos atletas por trazerem a chuva! Como sempre passo muito mal no calor, achei uma benção divina que o tempo tivesse virado desse jeito.

Nossa corrida estava marcada para o dia 3 de novembro, sexta-feira. No dia 4 haveria a Ultra Maratona de montanha, onde os Aventureiros do Agreste foram representados pela Luciana Freitas, nossa Lulu, que marcou seu lugar no pódio!

Na corrida de Aventura, representando a equipe Aventureiros do Agreste, tivemos o quarteto, com Vand, Michelly, Gladimir e Gabriel e a dupla mista com Vitor e Andreia correndo pela Power, defendendo nosso pódio no campeonato. Na categoria light, fomos as Penélopes Lucy e Marina.

Incrível como todas as condições foram favoráveis. O clima, a interação entre os atletas, até minha mochila estava ótima. Fiz a melhor arrumação de todos os tempos, com hidratação abundante, alimentação de sobra e quase sem peso. Os kits de sementes, frutas secas e castanhas da Mãe Terra que comprei recentemente foram perfeitos! Tem um remix que mistura cacau com castanhas que é uma delícia! 

Durante o briefing, estudamos o mapa e traçamos a melhor estratégia que julgamos ter. Combinamos as rotas e distâncias. Eu ia navegar e Marina ia se responsabilizar por contar passos. 

Rabiscamos nossa estratégia no mapa e largamos felizes junto com a tropa toda. Pelo nosso planejamento, partiríamos a pé para subir o Cruzeirão, pegando a trilha logo atrás do cemitério Bizantino. Dali, após a selfie no cruzeiro,  pegaríamos o PCV 2, que era um prisma, no caminho para outro cruzeiro, que era nosso terceiro PC. Dali, voltaríamos para a transição e seguiríamos em busca dos PCs de bike. Só faltou combinar com os prismas....rsrsrsrs

No calor da prova, concordei em fazer a rota para o prisma 5 ao contrário, pois julgamos que aquela trilha seria mais fácil de achar. Nossa ideia era subir a trilha toda e começar a pegar os prismas na volta, na ordem certa, como orientado pelos organizadores. Não foi uma boa ideia...Não mesmo! :(

O primeiro desafio foi subir o Cruzeirão. Marina é uma pessoa do nível do mar, como o nome sugere. E não estava acostumada às trilhas. Essa foi sua primeira corrida de aventura e apesar da empolgação, faltou ar. O céu “preteou” e nossa Penélope precisou tomar fôlego no meio da subida. Os demais atletas se afastaram da gente e logo ficamos completamente sós. Eu, Marina e a montanha. Subimos respeitando o ritmo, pois a saúde está acima de qualquer outra coisa. Eu procurava animar minha parceira, mostrando a belíssima vista da cidade e dizendo a cada passo que só faltava mais um pouquinho.

E de pouquinho em pouquinho nossa valente Penélope foi vencendo a Montanha. Eu imagino como foi difícil pois já passei muito mal nessas subidas. A gente pensa que vai morrer! Mas, a guria é valente, viu?? Ela se esforçou muito e sei que deu o seu melhor.

Quando estávamos perto do topo tive uma ideia para recobrar o ânimo da minha amiga. Eu já vislumbrava o cruzeirão, mas Marina ainda não conseguia ver. Ele estava lindo atrás da última curva de nível e cercado de nuvens. Sabia que aquilo era uma conquista e Marina merecia celebrar!

- Marina, se prepare – você está prestes a ver a cena mais linda da sua vida! 
- Hein???
- Pensa rápido, qual é a sua música favorita? Rápido, rápido, já pensou? Então, pode começar a cantar!

(Marina fez cara de confusa, mas entrou logo na brincadeira e lembrou da música, ainda escalando pedras ofegante).

♫Ah... Se o mundo inteiro me pudesse ouvir. Tenho muito pra contar. Dizer que aprendi.....♫


E cantando junto convidei Marina a dar um passo a mais.... Agora, olha para cima.... Veja se não é a cena mais linda deste dia?
Entre nuvens e atrás das pedras aparecia o nosso cruzeiro. Nosso primeiro PC! Primeira escalaminhada da Marina. Primeira superação. Primeiro desafio vencido!

Cantamos a música toda, até onde lembramos da letra. Ninguém lembrava mais do esforço da subida. A corrida começava ali! Marina ficou emocionada, e tenho certeza que isso a ajudou a tomar fôlego.  Dali em diante ela não passou mal de novo e começamos um trekking forte em busca do segundo prisma.

Ah, o PCV 2......aquele f&lh# da p#t@...

♬E na vida a gente tem que entender....Que um nasce pra sofrer...Enquanto o outro ri♬

Bom, tem dia da caça e dia do caçador. Tem dia do orientista e dia do prisma. Esse definitivamente era o dia do f&lh# da p#t@ do saci que roubou meu prisma! Todo mundo achou aquela miséria.... só que não....

Fizemos o azimute certo. Interpretamos o mapa. Olhamos ao redor. Eu confio na geografia. Ela não mente e sempre me ajuda na navegação. O prisma tinha que estar no fim do morro 1 antes da descida do vale que nos separava do morro 2. À esquerda, víamos a cidade, a curva do rio e as curvas de nível. À direita, o abismo. O prisma tinha que estar ali, em algum lugar.

Procuramos muito. Varremos cada polegada daquele chão. Resolvemos subir a trilha para o segundo cruzeiro e depois voltar para tentar achar o prisma no caminho inverso... nada! Todos os outros atletas já tinham passado. Não encontramos vestígios de prisma nem tínhamos a quem pedir ajuda.

Duas horas depois, surgiram algumas pessoas fazendo trilha. Resolvi apelar. Gente, vocês viram um negócio que parece um balãozinho de São João, branco e laranja, escondido atrás de uma moita? O nome dele é prisma, e eu preciso encontrá-lo! Um distinto senhor em forma de barril com uma camisa laranja se ofereceu para ajudar! Olha! Eu sou um prisma! Dando muitas risadas agradeci a tentativa, mas infelizmente ele não era o prisma que queríamos...

Os trilheiros se comoveram com nosso desespero, mas não poderiam nos ajudar e seguiram seu caminho. Eu varria a trilha por cima e Marina por baixo. Paramos, lemos o mapa de novo e invertemos as posições. Enquanto Marina varria a parte da esquerda, eu subi um pouco mais à direita. Procurava observar pegadas nos poucos pontos onde havia terra. Logo sumiram os pés de gente... e apareceram outras pegadinhas bem interessantes....com três dedinhos... de felinos....

Comecei a descer correndo e chamei por Marina.

- Marinaaaaa
- O que foi? Achou?
- Nãaaaao...., mas achei umas patas de felinos...
- E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que vamos sair daqui...AGORA!

E descemos correndo de volta à trilha principal.

Começamos a procurar na parte mais baixa da trilha. Rezei, respirei, meditei, li o mapa de novo e de novo. Estávamos no lugar certo. Mas, cadê o prisma?

Minutos mais tarde dois distintos cavalheiros se apresentaram para ajudar. Expliquei nossa situação e mostrei o mapa. Estamos aqui. Precisamos achar esse ponto aqui ó! Eu, míope, cara de pau e sem noção, não reconheci as figuras..... Perguntei o nome de um deles na inocência e ele me respondeu: Meu nome é Sidnei. (Gente, era o Sidnei Togumi*!!!!! Eu tão azuada não reconheci na hora!)

Enfim, Togumi revisou o azimute comigo. Orientou-nos a voltar mais um pouco para a parte mais alta da trilha e depois, descer varrendo novamente. Estava certo. Só podia ser ali.
Togumi e seu companheiro de trilha seguiram seu rumo. Se fosse um vídeogame, Marina e eu já teríamos gasto todas as vidas e todas as dicas do pônei, da fada ou do mago.... Nada adiantou. Empacamos naquela fase!

O aprendizado mais amargo desse episódio é que mesmo tendo tudo a nosso favor, às vezes simplesmente não conseguimos. Tínhamos fôlego, o clima estava ótimo, o mapa estava claro, o azimute estava certo, pessoas maravilhosas surgiram para nos ajudar... E mesmo assim, não achamos o prisma. Fico pensando o que o Universo queria me ensinar naquele momento. Por que, mesmo fazendo tudo certo, às vezes as coisas dão errado? Por quê? Por quê? Por queeeeeeeeeê?

Já estávamos há quatro horas naquela montanha. Era momento de tomar uma decisão. Eu pedia a Natureza que me desse uma pista. Se esse prisma está aqui, eu tenho que achá-lo. Eu sei caçar prisma! Já faço isso há anos!

Mas, não achamos. Engolimos a frustração e decidimos descer. Ainda tinha muita corrida pela frente. Voltamos para a transição. Eu muito frustrada, mas procurando manter o astral em alta. Afinal, estamos aqui para nos divertir. Não para sofrer. Meu copo mental caiu e quebrou. Não estava mais cheio nem vazio...não tinha mais copo...Tive que mentalizar outro e achar com o quê encher!

Subimos e descemos o cruzeiro seguinte. Aproveitamos para botar a conversa em dia, xingar uma meia dúzia de palavrões e aproveitar a vista, sempre sensacional. A descida do cruzeiro até que foi bem legal. Ensinei Marina a cair de bunda com classe (como uma "diva" ela me disse) e trocamos mil e quinhentas ideias sobre a vida. Trail terapêutico, eu diria!

Voltamos para a largada, onde era a transição, decididas a fazer melhor o trecho de bike.  

Ainda vimos o quarteto dos aventureiros batendo sua segunda transição. Eles nem viram a gente, de tão empolgados. Eu não quis atrapalhar. Estávamos muito muiiiiito atrasadas! Mas, ainda tinha muita prova pela frente! 

Pegamos a bike e fomos atrás da trilha para os prismas 5 a 10. Intuitivamente, acabamos pegando o “caminho errado” que na verdade estava certo. E quase mudamos nossa estratégia para pegar os prismas no sentido certo. Porém, quando me dei conta, avisei a Marina que logo me alertou o que havíamos combinado. Decidimos então voltar e pegar o estradão que ficava perto da descida do segundo cruzeiro.

Um estradão bonito e técnico. Bastante pedra e um pouco de areia. Deve ter sido palco de algum Brasil Ride. Fiquei feliz de ter conseguido pedalar ali, pois não era nada fácil. Principalmente, porque no sentido que fizemos, era subida.

Primeiro, passamos pelo que deveria ser a entrada da trilha do prisma 8. Registramos mentalmente, mas deixamos para lá, pois ele só nos interessava na volta. Tínhamos que achar uma trilha à direita, contornar uma montanha e só então começar a pegar os prismas 5, 6, 7 e 8, no caminho de volta.

Uma distração e acabamos passando da trilha certa. Entramos numa outra trilha, 300 metros adiante. Essa, nos conduziu a um matagal fechado que não tinha mais como pedalar. Víamos a montanha, mas nada de trilha. Começamos a carregar as bikes. O azimute batia certo e a geografia também. Era só contornar o morro. Se tivéssemos condições de rasgar o mato, dava para acessar por ali. Mas, não tinha como. Achamos muitas pegadas e marcas de bike, indicando que teve gente se perdendo por ali, mas elas logo sumiam, indicando que eles tinham desistido desse caminho.

Eu ia seguindo as pegadas e marcas de bike, que não eram poucas, mas a maioria dos pés estava no sentido inverso, pois as pessoas normais fizeram a trilha no sentido certo! De tanto olhar para o chão, achei mais uma marquinha interessante.....

-Marina, está vendo essa pegada? É de gente, não é?
- É sim! Tênis ou sapatilha
- E essa aqui? É de quê?????
- É de onça!?!?!?! Kkkkkk E essa é bem gorda!

Começamos a elocubrar se nossa amiga onça estaria com fome. E se ela aparecesse? O que a gente faria?

- Lucy, você está com seu canivete?
- Sim! 
(A essa altura eu já tinha tirado da mochila e estava com ele ao alcance da mão, como se isso fosse adiantar de alguma coisa em caso de.... você sabe...onça!)
- E se..... aparecer alguém.....tipo... um bicho...
- Não se preocupe! Não vai aparecer nenhum bicho – disse com disfarçada firmeza . Vamos atrás dessa trilha logo enquanto é dia! (Preocupações reais invadindo minha mente).

Nos batemos muito nessa trilha, até que desconfiamos que não era essa. Precisávamos voltar para o estradão e achar a trilha certa. Voltar como? O mato se fechara ao nosso redor.

Marina salvou o dia quando viu uma placa da Gantuá lá do outro lado, onde seria o fim do estradão que procurávamos. Era só atravessar o mato e chegar lá.... só que não... não tinha passagem nem rasgando a canivetes!

Ela então sugeriu que passássemos por dentro do rio, o que acabou sendo a melhor solução. Botamos as bikes no ombro e logo conseguimos sair no banco de areia que nos dava acesso ao belo estradão, que seria palco da Ultramaratona do dia seguinte. Todo balizado bonitinho....

Estudamos o mapa e achamos o ponto em que estávamos. Voltamos a navegar! Ainda teimamos um pouco com aquela trilha, que estava no mapa e deveria dar acesso ao morro, mas não era ela. Prestando bastante atenção, finalmente achamos a trilha certa. Marina viu que tinha até umas fitinhas sinalizando discretamente a entrada da danada!

Muito felizes, finalmente achamos nossa trilha certa. Um belo single trekking bastante técnico, mas quase todo pedalável. Começamos a prestar atenção aos pontos para pegar na volta. Será que aquela é a lapa do prisma 7? Qual delas? Tem pelo menos umas três por aqui!

Comecei a duvidar de mim mesma. Como é que pode a pessoa não achar um prisma sequer? Até agora não sei!

Em seguida, pela distância, pensei no prisma 6. Deve ser uma pedra destacada das outras... Tudo que há naquele trecho são pedras. Todas distintas! Todas poderiam ter um prisma!

Eram quase quatro horas da tarde quando ainda faltava um quilômetro e meio para o prisma 5, quando então deveríamos voltar e atacar os outros prismas. Estava chovendo fraquinho e escurecendo muito rápido.

- Marina, são quase quatro horas. Precisamos sair dessa trilha antes do anoitecer. Precisamos tomar uma decisão difícil!

Nós tínhamos iluminação, comida e água. Mas, também, tínhamos juízo. Eu sabia que ninguém mais ia passar por ali, pois os outros atletas já estavam muito longe. A trilha era fechada e seria difícil alguém nos achar em caso de problemas. Foi a decisão mais difícil que já tive que tomar em corridas de aventura. Mas, considerando as circunstâncias, e sentindo-me responsável por toda aquela situação, achei mais prudente sugerir que voltássemos.

Marina concordou e com a doçura que lhe é peculiar, ainda me disse, que mesmo não tendo achado nada, a experiência tinha valido a pena. Eu quis chorar, mas não era hora. Precisávamos chegar antes do anoitecer. Esse era o foco agora. Ia ter que me lembrar de marcar no outlook a hora de chorar. Teria que adiar isso para mais tarde.

Sugeri a Marina que tentasse pedalar, pois assim, chegaríamos mais rápido. Havia trechos difíceis em que eu tinha que descer da bike, mas boa parte era pedalável. Marina se esforçou o quanto pôde e pedalou bem, mas, o terreno era bem técnico e ela está ainda aprendendo. Devido a isso, acabou tomando três quedinhas. Graças a Deus, nada grave, mas deu para colecionar uns roxos. A cada queda, ela engolia o choro, sacudia a poeira e seguia em frente como se nada tivesse acontecido. Uma autêntica Penélope do Agreste!

Prisma nóis num acha, mas é cada selfie que nóis tira!
Como já estávamos voltando e a corrida já estava perdida mesmo, o negócio foi descontrair. Conversamos, cantamos, xingamos, imaginamos histórias, ....pedalamos o que dava e tiramos selfies....

Em dado momento, Marina se queixou de dor.

- Ai... tá doendo tudo.... (reclamou Marina)

Aproveitei a deixa para extravasar uma nova cantoria...Pedi licença poética para o Renato e abri a garganta no meio do mato


♫Tudo é dor... E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor... Quando o Sol bater na janela do seu quarto ♫ Lembra e vê Que o caminho é um só..♫ ...Por que chorar, se podemos começar tudo de novo. Agora mesmo!

Marina agora sabe coisas de mim que nem minha mãe sabe, graças a essas quase oito horas de convivência. Eu também estou sabendo um monte! Mas, não conto pra ninguém! O que se fala na trilha, fica lá...Só as pedras por testemunha....

E Alan Pedreira, da Gantuá! Que apareceu do nada seguindo a gente no final.... Alan, você não ouviu nada, hein! Bico calado! :):):):)

O que levo dessa corrida é o aprendizado. Fiz uma nova amizade, aprendi que mesmo com todas as condições favoráveis, nem sempre tudo sai como gostaríamos. Aprendi que preciso navegar mais para aprimorar a técnica. Desanimada? Jamais. Já saí da prova pensando em treinar para as próximas! No domingo seguinte era a final do campeonato de orientação e eu precisava ir lá e provar para mim mesma que ainda sei achar prismas!

Vamos melhorar a navegação e continuar treinando.  Cada corrida é uma nova oportunidade de fazer melhor. Na próxima, vamos pegar a p#rr@ toda!

Marina foi batizada no mato. Venceu o Cruzeirão, o medo de pedalar e o medo de onça! Continue treinando que você tem muito futuro. 

Conviver com essa galera não tem preço. Alegria, raça, amizade, companheirismo. Minha vida é outra desde que conheci vocês. Muito melhor! Amo cada dia mais!

Chegada do quarteto - Medalha de Bronze na prova e Prata no campeonato
O Pódio dos Aventureiros
A galera mais alto astral do planeta!


Aventureiros do Agreste - Retroceder NUNCA, Render-se JAMAIS, Divertir-se SEMPRE!

* Sidnei Togumi - Representante da Confederação Brasileira de Atletismo para Corridas em Montanha e Trilha. Grande atleta e gente boa! (https://sportlife.com.br/blogs/)

Nota de fim:  A menção aos produtos da Mãe Terra foi uma propaganda espontânea. É só porque gosto dos produtos mesmo. Não temos patrocínio dessa empresa. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Desafio dos Sertões 2017 -

Piçarrrão – Sento Sé - 08 de setembro de 2017

A edição anterior do Desafio dos Sertões foi em 2015. Nela, corri com Vand, meu parceiro desta e de outras vidas. Naquela prova, fomos vencidos pela Caatinga. O calor e o fim da nossa água fizeram com que desistíssemos de alguns PCs. A prova foi duríssima, mas a experiência inesquecível! A sofrência está relatada neste blog: Desafio dos Sertões 2015

Terminei aquela prova decidida a acertar as contas com o Sertão. Prometi voltar e superar meus reais limites. Promessa feita, promessa cumprida. 2017 e cá estamos nós enfrentando a Caatinga novamente.

Este ano, corri com Luciana Kroger, recém chegada às corridas de Aventura, com enorme potencial de se tornar uma atleta bem completa. Corremos a categoria de 60 km como “Penélopes do Agreste” – parte feminina da equipe dos Aventureiros.

Esta é nossa segunda competição juntas. Nossa outra experiência foi na Peleja, prova realizada em Cachoeira, interior da Bahia, em abril.

Nossos atletas da elite dos Aventureiros do Agreste correram em duas equipes, ambas na prova longa, (de 130 km): Lulu e Vitor como dupla mista e Vand, Gabi, Mauro e Scavuzzi no quarteto. 

Além de pessoas maravilhosas, são lindos....

As fotos da concentração antes da largada mostram o clima de amizade e descontração, características desta equipe, uma das mais tradicionais da Corrida de Aventura. Campeã em simpatia, persistência e coragem. Essa turma aí não desiste nunca!

Desafio dos Sertões - A alma da Corrida de Aventura na Bahia

Foco, Força e Fé

A prova foi organizada por Walter Guerra e uma valorosa equipe. Eles pensaram em cada detalhe e o carinho dos organizadores podia ser visto e sentido por todos os lados. Desde o apoio pré-corrida ajudando a encontrar alojamento para todos, até o patrocínio da Gatorade que garantiu "suquinho de uva temperado" geladinho para todo mundo na largada e na chegada.

Antes do Briefing, no Posto Zé das Moças, assistimos a uma peça montada por um grupo de teatro local. Exaltando a Caatinga e as histórias do nordeste, a meninada deu um show de talento!
 Ao ver aqueles meninos dançando, declamando poesia e contando as lendas do nordeste, confesso que fiquei emocionada. As lágrimas correram soltas... e isso foi só o começo.

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser  (Bráulio Bessa)
Sou o gibão do vaqueiro, sou cuscuz sou rapadura
Sou vida difícil e dura
Sou nordeste brasileiro
Sou cantador violeiro, sou alegria ao chover
Sou doutor sem saber ler, sou rico sem ser granfino
Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser
Da minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado
Do nosso solo rachado, dessa gente maltratada
Quase sempre injustiçada, acostumada a sofrer
Mais mesmo nesse padecer eu sou feliz desde menino
Quanto mais sou nordestino, mais orgulho tenho de ser

Digo que nasci no Rio de Janeiro por um acidente geográfico. Sou nordestina por origens familiares e cultura. Minha mãe é cearense e meu pai, sergipano. Ela, nascida em Boa Viagem – interior do Ceará, perto de Quixeramobim. Ele, ribeirinho de Propriá do São Francisco. As histórias que eles me contavam e as referências que tenho de criação e costumes me trazem muito orgulho dessas origens. 

O desafio dos sertões é uma tradição da Corrida de Aventura. É  objetivo de vida de todo atleta desse esporte. A maior característica da competição é que o adversário é a Caatinga. Baixa umidade, muito calor de dia, ventos secos e frios à noite. Muita poeira, espinhos e pedras. Ambiente inóspito e duro. 

Há cerca de 700 km de Salvador, o local escolhido pela organização este ano foi o município de Sento Sé, próximo a represa de Sobradinho.
A água e a geração de energia vêm da Barragem, um estrangulamento no meio do Velho Chico que formou o (que já foi o) maior lago artificial da América Latina.


Atualmente, o lago conta com menos de 7% de sua capacidade, que vem minguando ano a ano. Sem políticas públicas de otimização do consumo e sem consciência ambiental na nossa população, estamos matando o Sobradinho e ferindo de morte o Rio São Francisco. 
Espero que competições como esta ajudem a conscientizar a Sociedade sobre este drama. Precisamos salvar o Velho Chico.

Para emocionar ainda mais, Waltinho e sua turma montaram um clipe com todas as edições anteriores desta corrida. Apareceu lá o casamento dos Aventureiros Lu e Vitor, em 2014; A nossa participação em 2015 e muitas outras cenas inesquecíveis. A história do Desafio dos Sertões é linda. Escrevo esta resenha com o genuíno desejo de que tenhamos muitas e muitas outras edições. E que esse esporte ajude a dar visibilidade ao sertão e principalmente, que contribua para a preservação da Caatinga. A terra é boa. Sabendo manejar, ela trará muita prosperidade e fartura para aquelas comunidades e também para todo o Brasil.

A Largada

"Te vejo na chegada
Sei que cada pegada minha tem sangue e suor
Porque eu me preocupei em fazer bem
E não em ser melhor"

A inovação este ano veio com a entrega dos mapas praticamente na hora da largada. Com pouco tempo para marcar distâncias e traçar estratégias, a corrida teve que ser feita ponto a ponto. Isso tornou a prova ainda mais desafiadora. Pessoalmente, eu gostei da mudança. Faz com que a gente mergulhe de cabeça na prova e tenha ainda mais atenção no percurso. 

Traçamos nossa estratégia até o PC-1 e quando vimos, já era hora de se posicionar no pórtico de largada. Ainda conversava com Lu Kroger quando escutei a vuvuzela e os fogos de artifício, anunciando o início da batalha. Corri para dar um beijinho de boa sorte no marido e me preparar para a partida.

Quando os fogo estouraram, a manada estourou junto. Saiu todo mundo correndo. Meu coração já batia na garganta, mas eu tinha que poupar fôlego. Sabia que tinha muita prova pela frente. 

Começamos um trotezinho leve, mas constante. Conhecendo minha condição de treino, eu já sabia que se puxasse demais naquele momento faltaria fôlego para a escalaminhada que estava por vir. Lu Kroger, corredora já experiente, estava a todo vapor, mas segurou a onda para me acompanhar.

A navegação para o PC-1 foi bem fácil, pois era só seguir o estradão e a manada....Batido o primeiro, atravessamos o que um dia foi rio, mas hoje virou um charco quase seco. Só serviu para sujar o tênis de lama e ver alguns bichinhos interessantes, como esse simpático guaiamum aí do lado[1]

De acordo com as referências, esse bichinho pode ficar bem grande e a fêmea, na época da desova, fica com o corpo da cor das patinhas. O exemplar que eu vi devia ser uma fêmea e estava bem gordinha.... 

Feita a travessia, era hora de deixar os bichinhos em paz e começar a navegação de verdade.

A Montanha de pedra e o Azimute de ouro - Você precisa de FOCO - um objetivo pra alcançar

A primeira decisão importante era localizar uma estradinha que nos daria acesso a entrada para a trilha do PC-B como mostra o mapinha aí ao lado. 

Na nossa estratégia inicial, pegaríamos o B e retornaríamos para atacar novamente o morro pelo outro lado e pegar os prismas C e A na sequência.

A escala era de 1:100.000, ou seja, cada centímetro no mapa corresponde a 1 quilômetro no terreno. Qualquer milímetro, transposto para o mundo físico já significava uma enorme distância. Isso nos trouxe uma dificuldade inicial, pois para achar a estradinha, primeiro tínhamos que seguir uma trilha aberta ao longo de um rio seco. Achamos o rio, mas estávamos em uma paralela do azimute, fora da trilha, já começando a rasgar mato logo na primeira hora do percurso.

A manada já havia se dispersado, com cada equipe seguindo sua estratégia ou se perdendo mesmo. Várias luzinhas se espalhavam em diferentes pontos. Tínhamos como referências o morro, com a TMA[2] que seria nosso prisma C, piscando feito árvore de natal, mas não achávamos a trilha principal. 

Paramos para analisar o mapa e nossas reais possibilidades de achar ou não a trilha. Decidimos voltar para um ponto conhecido e reiniciar a navegação, quando vimos duas luzes vindo em nossa direção. Era a dupla BB Brindes com Plínio e Ricardo Omar. Duas pessoas iluminadas e atletas muito experientes. Conversamos com eles e decidimos seguir juntos naquele trecho, pois precisávamos de um bom azimute. Ou melhor, precisávamos de um azimute de ouro... 

Plínio, nosso precioso mestre azimútico,  comandou a navegação nesse momento. 

Buscando aprender, mantive meu mapa aberto o tempo todo observando as decisões e procurando participar das discussões, na medida em que conseguia contribuir. Temos que aproveitar essas oportunidades, pois não é todo dia que damos uma sorte dessas!

Essa foi a melhor parte da prova. Um trekking dificílimo, mas gostoso. Mesmo com a navegação precisa do Plínio não foi tão fácil achar a trilha. Muitas equipes andavam perdidas por ali literalmente se batendo pelo mato. Numa dessas, esbarramos com Lulu e Vitor que procuravam a mesma trilha que nós e seguiam pelo caminho que já tínhamos feito, só para descobrir que não era ali. Tentei avisar a Lulu, mas ela preferiu descobrir por si mesma...E descobriu rapidinho, por que é muito esperta!

Por fim, os aventureiros acharam o PC B e nós também.  
Mas aquele era apenas o primeiro PC letra...Ainda faltavam dois... Nessa hora, seguimos a estratégia da BB brindes que era continuar pelo morro mesmo. Isso implicou em muita coragem muita confiança na bússola, pois a trilha acabava e teríamos que rasgar a Caatinga morro acima. Se estivéssemos sozinhas seria bem arriscado, comprometendo não só a prova, como a nossa segurança. Não teríamos conseguido fazer esse trecho sem a BB brindes. Nossa gratidão eterna ao Plínio e ao Omar!

Daí em diante, haja joelho, pernas e braços... Era preciso o corpo todo para escalar aquele morro. E manter a mente firme para não pensar em dor, frio, sede ou fome... Éramos puros Foco e Força!

A essa altura, Lu e Vitor já estavam novamente conosco. Fizemos a escalada todos juntos em um astral super alegre com Lulu falando consigo, comigo e com todos. Vitor, animando a galera com suas frases espirituosas – Vamos gente, só o “cume interessa”. Lu Kroger e eu, procurando manter o ritmo para acompanhar as lendas vivas que estavam ali.

Estávamos brincando de fazer trilha. Todos muito felizes e falantes. Tinha até gente cantando...

Mandacaru quando flora lá na cerca.... ia cantando Plínio afinada e alegremente....Mais um talento descoberto (ou melhor, encoberto pelo mato)

A cantoria foi logo interrompida por lamentos de dor.... aiaiaiaiaiaiai

Era Plínio. De tanto invocar o espírito agreste, ele baixou em um mandacaru gigante em que Plínio segurou com força, confundindo com uma árvore. Com uma das mãos em brasa e cheia de espinhos, o valente corredor teve que comer a dor e seguir adiante. A pedido dele, botei um spray de gelol para ver se o ardidinho da cânfora aliviava a dor das espetadas. Espero que tenha funcionado.

E sobe o morro, que aqui não tem mimimi....

A subida foi gostosa. Como todos haviam se poupado na largada, estávamos com o fôlego em dia. Subimos num só ritmo e não paramos por nada. Ia tudo ficando mais difícil a cada passo. Cada atleta procurava se alimentar e hidratar de forma comedida, para evitar passar mal. Éramos então três equipes em três categorias diferentes - dupla feminina 60 km, dupla mista 130 km e dupla masculina 130 km. Não havia competição, mas sim cooperação e amizade. Confesso que curti subir aquele morro com essa galera. Confesso também que não subiria sem eles...

Parte do percurso eu fiz deitada mesmo, feito uma lagartixa do Agreste. Numa dessas escorreguei e fui de boca ao chão. As unhas dos pés, já em estado lastimável, insistiam em topar e tudo... toco, pedra, pau....Achei que tinha quebrado um dedo, mas não dava tempo de conferir e deixei pra lá...Comi a dor com carbogel e segui adiante.

No meio do sofrimento, encontramos o quarteto Aventureiros já descendo. Deu tempo de pegar umas dicas com eles e de quebra, dar mais um beijinho no marido...Essa é a parte boa de não corrermos juntos. A gente não tem tempo de brigar e se beija mais....(quem nunca brigou com seu parceiro de corrida é por que ainda não correu direito...#ficadica).

Demo-nos conta de que havíamos passado do prisma A, mas não desistimos de continuar a subida. Resolvemos então atacar o “C” – pois a antena estava bem visível e piscante. Daria para pegar o que faltava na volta. 

Escalando aquelas pedras soltas eu já comecei a pensar como seria para descer... Mas, enfim. Na corrida como na vida,  vivamos um PC de cada vez.

Chegando na TMA foi uma festa. Mais fotos para o registro e sem pausar, vamos descer, que ainda tem muito morro pela frente.

Você já fez esqui-bunda nas pedras? Pois é, mais uma modalidade desse esporte que há cada dia me surpreende mais. Tomando cuidado para poupar os joelhos já gastos, eu desci quase tudo de bunda mesmo... Até cair sentada em cima de uma pedra bem em cima daquele ossinho de nome difícil... até hoje sento de ladinho...hehehehe.

Vitor Hugo disparou na frente e rasgando mato com força, ajudou a equipe a localizar o prisma A. 
PC A com participação especial do grande parceiro, Omar!

Quando a descida acabou, percebi que havia deixado mais que calorias naquele morro.... Parte da minha calça havia ficado por lá. Um ventinho gelado e um respeitoso aviso dos colegas me alertou que algo de errado não estava certo em minha compostura...

Numa hora dessa só que nos resta é entrar na brincadeira e rir de si mesma, junto com todo mundo que já ria a litros... Passei a mão para medir o tamanho do estrago e vi que não era muito, mas o suficiente para expor uma parte significativa, da minha também significativa buzanfa.... Ainda bem que era madrugada e estava bem escuro...

Lembrei do meu agasalho, que só tinha levado por que era equipamento obrigatório. Não sinto muito frio quando estou correndo e achei que o casaquinho seria inútil, mas ele se mostrou mais que importante nesse momento. Amarrei o dito cujo na cintura, sob protestos da galera e logo já estava de novo recatada, apesar da torcida ter chiado um pouco...


Mantivemos o trekking forte até voltar a transição. Já era dia quando chegamos no PC 5. Encontramos o quarteto dos Aventureiros se preparando para sair para o próximo trecho. Nessa hora, as equipes se dividiram, pois cada um precisava seguir seu rumo. Nossa categoria era a mais curta e agora só teríamos um trecho de bike pela frente, antes de concluir a prova.  O restante do grupo ainda enfrentaria mais dois trechos, um de bike e um de trekking e, se tudo desse certo, ainda pegariam o remo antes da chegada.

O pedal no areal - Você precisa de força - pra não desistir de lutar

Em comum acordo, no trecho de bike a navegação ficou por minha conta. Procurei medir as distâncias com cuidado, pois essa era a chave desse percurso. A navegação em si não era difícil. Só não poderia vacilar nas escalas. Com a marcação precisa das distâncias, achamos o PC O sem dificuldades. 

O PC O ficava em uma casa, que só depois da prova soube que estava abandonada. Assim que chegamos, eu vi movimento dentro da casa e já passei no portão dando bom dia. Imaginava até encontrar alguém ali para me oferecer um cafezinho... mas, fui alertada por Lu Kroger de que a casa estava vazia.... 
- Oxi, mas eu vi coisa se mexendo lá dentro. Pensei que tinha alguém em casa
- Tem não, doida. A casa está vazia... deve ter sido o vento... 

Dando risada tiramos nossa foto e nos mandamos dali... pelo relato das demais equipes, eu acho que tinha gente ali sim, só não sei se essa "gente" era desse mundo.....hahahahaha

Pela minha estratégia, que só depois da prova vi que não foi a melhor, decidimos voltar dois quilômetros e assim pegar a trilha direto para o PC P. O vento contra, o calor do dia já alto e a areia fofa foram adversários de respeito nessa hora.  Luciana se saiu muito bem em seu brinquedo novo (uma bike de 29 polegadas que trazia a energia de Arnaldo – outro atleta de elite). Em vários trechos, ela abriu uma boa dianteira e eu tive que girar as catraquinhas para acompanhar. 

Marcando as distâncias bem certinho no mapa e seguindo as trilhas corretamente, fiz uma navegação segura e consciente até o P - A melhor até agora. Fiquei muito satisfeita comigo mesma J. Pedalar no areal, contra o vento e trilha acima, depois de 6 horas de trekking não é tarefa fácil. Procurei manter o ritmo e pedalar o máximo possível, evitando empurra-bike, mas houve trechos em que não havia escolha. O pedal foi lento, mas constante. E a parceria da Lu, fundamental!

No PC-P paramos para decidir se pegávamos o PC-N ou não. Este era um PC-bônus que daria uma hora e meia de vantagem para quem o pegasse. Entretanto, atacando esse ponto por ali, teríamos que vencer um estradão de 5 km, na areia, curva de nível acima (sem falar nos 5 km da volta, que mesmo sendo descida, ainda são lentos devido ao areal). Pelo ritmo em que estávamos e com dois dedinhos de água no squeeze, acabamos optando por não pegar o PC-N. Decisão tomada, voltamos para a trilha, rumo a chegada.

Os primeiros seis quilômetros da volta foram uma belezinha. Agora foi minha vez de assumir a dianteira, devido a ter aprimorado a técnica de descidas, mesmo em trechos de areia. Ainda assim, não foi fácil e a bike atolava várias vezes. 

Dá uma olhadinha no naipe do terreno que a gente tinha que passar. Um calor dos infernos e nem uma sombrinha para abrigar.

Eu contava um metro de cada vez e o pedal ia ficando cada vez mais pesado. Ora eu parava, ora Lu parava. Ora era a sede, ora os joelhos. Cada atolada na areia era um "ai". As patelas não gostam de desclipar e reclamaram bastante.

Quando a água acaba - Você precisa de FÉ, pra se manter de pé

No meio do caminho, ainda faltando uns 8 km para a chegada, faltaram-me as forças. Eu parei perto de um espinheiro. Um arremedo de sombra, porque não tinha mais fôlego nem água. Lu parou comigo. Cansada e com dor, ela também estava com sede. Em silêncio, as duas fizeram suas preces. Sem saber que Lu também rezava, eu conversava com Deus.... - Senhor, eu sei que me meti nesse mato por minha conta e risco. Mas, um pequeno milagre não faria mal... Bem que podia passar alguém aqui com água...

Antes que eu terminasse a prece, passou uma caminhonete levantando poeira. A princípio, pensamos que ia embora, mas o veículo voltou de ré e perguntou se estávamos precisando de algo. Eu, desanimada perguntei se ele tinha água, e a resposta foi não.... Comecei a chorar baixinho... - Tudo bem, moço. A gente só estava precisando de água mesmo.... Comovidos, não sei de onde, tiraram uma garrafinha e deram pra gente. Acho que deram a água deles. Agradeci em prantos e bebemos a água com a alegria dos sedentos. Eu parecia uma refugiada de guerra. Empoeirada, rasgada, estrupiada e com sede...

Daqui a pouco, parou uma moto e lá vem uma moça toda sorridente com mais uma garrafinha... E logo, chegou outro carro com mais água....GELADA!!!! Lu Kroger parecia uma criança....Água geladinha....geladinha.....Eu chorava feito besta....

- Gente, eu tô bem... Só estou emocionada. Eu estava fazendo uma prece quando vocês chegaram. Eu estava pedindo água. Foi quando Lu Kroger disse que também estava rezando. E já tinha chamado por seus antepassados nordestinos. Pedindo força para concluir a corrida! Do nada vi que tinha uma câmera, e que estava nos filmando.... Estou curiosa para ver... Não sei se vou rir ou chorar de novo....

Refeitas e alegres, seguimos nosso rumo. Eu só queria chegar. Sabia que a água ia acabar logo e naquele ritmo, ainda teríamos uma hora de pedal-empurra-bike. 

Chegamos em uma cisterna, mas eu nem queria parar - tolo erro. Lu, mais esperta, parou e pedindo licença a uma cabrita que havia chegado primeiro, pôs-se a banhar-se na cisterna. Molhou a cabeça e voltou toda fresquinha, como se tivesse acabado de começar a prova. Ela me chamou para ir, mas eu estava contando os metros. Só a chegada me interessava. Para completar, tinha um boi na fila para beber água e achei melhor não afrontar o dito-cujo....

Foi um erro não ter me banhado com a cabrita...

Faltando quatro quilômetros para a chegada, e já me sentindo fraca, resolvi comer um pedacinho de barra de proteína. A água já estava novamente acabando e eu enjoei violentamente. Tive que parar outra vez e quase achei que não ia mais conseguir... Mas, não tinha como desistir agora.... Já tínhamos feito o percurso  quase todo, virado a noite, subido morro de pedra, pedalado em areia contra o vento... Como desistir agora? Nem pensar.... 

Lu foi atrás de água e me ajudou a recuperar o que sobrava de forças. Onde parávamos, sempre tinha quem oferecesse um copo d'água, um incentivo. Numa das casas havia uma avó e uma neta. A avó nos ofereceu sua água e a netinha, Rose, pô-se a conversar. - Eu acho essas bicicletas bonitas...  Eu tenho oito anos... Uma menina linda. Eu disse a ela que se ela estudar e trabalhar bem direitinho, um dia teria uma bicicleta igual a minha... Eu ainda não sei ler...

Pois aprenda, Rose. Se esforce. Você vai ter que se esforçar o dobro. Para vencer a falta de recursos, a falta de atenção do Estado, a falta de opções e a falta de respeito. E vai ter que se esforçar ainda mais, pelo simples fato de ser uma menina. Mas, valerá a pena. Não desista!

"Tudo o que você precisa é de Foco -  um objetivo pra alcançar; Força, pra nunca desistir de lutar e Fé, pra se manter de pé enquanto puder.
Aqui um em um milhão nasceu pra vencer. Mas nada impede que esse um seja você !
E tudo que você precisa ter é - Foco, força e fé
(Projota)

Com muito esforço, vencemos a trilha final até o vilarejo. Entrando na vila, um grupo de pessoas começou a nos aplaudir. Chamavam-nos de guerreiras. E é o que fomos neste fim de semana. Mas os verdadeiros guerreiros são eles, que vencem a Caatinga todos os dias! 

Quase sem voz, e exausta, eu só pedia que Lu me esperasse para passarmos juntas na chegada. Só voltei a me animar quando vi o pórtico. Aí foi embora o cansaço, a dor, a sede, o enjôo e tudo.... Pedalei com força e alegria! Concluímos a prova e passamos juntas no Pórtico! Eram 13:00. Completamos o percurso em catorze horas!

Fizemos festa para nós mesmas e a alegria era tanta que chamamos a atenção da organização e de quem já descansava na chegada. Logo veio Ana Paula e fez essa linda  e inesquecível foto. Vencemos! Primeiro lugar na categoria duplas mistas/femininas 60 km! Uma corrida para entrar para a história!

                      

O sertão não é pra qualquer um. Ele exige respeito. O sertão molda o caráter. Ensina a ser gente!

Desejo que voinha tenha saúde para terminar de criar a Rose. E que Rose estude, se forme e trabalhe. Desejo que Rose compre uma bicicleta. E que se torne uma Penélope do Agreste.

A essência de um homem de verdade,
vem do pai pra formar um cidadão,
vem da mãe pra lhe dar educação,
e um menino vira homem de caráter.
Macho véi, com muita sinceridade,
Eu lhe digo que aqui no meu sertão,
caráter e honestidade são coisas de criação,
tem família que sofre com sede e fome,
sem dinheiro, sem luxo e sem “sobrenome”,
12 filhos e nem um vira ladrão.
Bráulio Bessa

FOCO, FORÇA e FÉ

Obrigada a Deus pela lição de Fé. Obrigada pelo pequeno Milagre. Obrigada a minha mãe, pelas orações e a Sílvia Prófumo pelo incentivo e vibrações positivas. Obrigada so meu esposo pelo apoio e companheirismo de sempre

Obrigada a Waltinho e equipe por esta prova maravilhosa.
Obrigada a minha parceira Lu Kroger pela força!
Parabéns a todos os atletas pela superação
#DesafiodosSertões2018 - #Partiutreinar

A emoção está resumida neste vídeo: Desafio dos Sertões 2017 - oficial



[1] Na hora não tirei foto. Peguei essa aí do google
[2] TMA – Torre de medição anemométrica



[i] Pontos de controle – passagem obrigatória que os atletas tem que localizar se orientando somente com mapa e bússola.