quarta-feira, 3 de maio de 2017

Peleja 29/04/17



"Tô indo ali me embrenhar no mato, subir ladeiras até perder o fôlego, descer com o vento na cara, abraçar um pé de cansanção, me enrolar em tiriricas, atravessar mangues e tomar banho de lama...!"

Este foi o prólogo desta história. Mal sabia eu que era quase uma profecia! Foi Peleja pura e aplicada!

A Peleja das Penélopes do Agreste - 29/04/17

Desde 2013 tenho mantido minha dupla com Vand. Marido, companheiro, amigo e parceiro de maluquices. Mas, desta vez, ele foi compor quarteto com os Aventureiros do Agreste. Uma bela oportunidade de correr uma prova longa e com tantos atletas experientes. 

Como ficar de fora não estava nos meus planos, fui logo atrás de equipe. Não demorou para achar parceria. Luciana Kroger, formada na Escola de Aventura do Agreste, valente, mulher, mãe e microempresária, topou correr comigo! Que alegria! Penélopes do Agreste nos 45km!

Devido as correrias do trabalho, nosso planejamento foi por telefone mesmo. Fizemos uma "conference call" e repassamos o checklist: Comida - Tem para a equipe toda dos Aventureiros! Primeiros socorros- Tem! Equipamentos - Tem! Garra, sanguenozóio e disposição? - Tem pra gente e para quem mais precisar! Essa Luciana Kroger é um Almoxarifado ambulante! O que você pensar, a guria já pensou antes e tem até para vender!

Já em Cachoeira, participamos do briefing no cinema da cidade. Lu Kroger demonstrou ser muito esperta na navegação e cheia das tecnologias. Com ela aprendi a usar o escalímetro. Eu, navegadora roots, ainda sou do tempo de medir distância com bússola e linha! Logo vi que já está na hora de modernizar....rsrsrs.

Decidimos que ambas íamos navegar, por isso solicitamos um mapa extra. Cada uma fez suas devidas marcações. Eu fiquei responsável pelo racebook. Lu, pelas medições precisas. Todas as decisões eram estudadas e compartilhadas, como deve ser em uma equipe. Nossa interação foi tão natural que nem parecia que era nossa primeira provas juntas!

Como não poderia deixar de ser, onde eu estiver, falaremos sempre de Segurança. É fundamental uma boa análise de risco para antecipar alternativas caso algo fuja ao planejamento: O que pode dar errado? Em que momento da prova estaremos quando anoitecer? Temos comida, água e iluminação suficiente? Qual é a parte mais difícil do mapa? Onde nossa chance de errar aumenta? O que faremos neste caso? Temos os medicamentos necessários? 

O único item que não previmos foi a questão de segurança pública, mas essa, pegou todos nós de surpresa. Parte triste da história, que explico mais tarde.

Voltemos ao que interessa! A princípio, achei a navegação tranquila. O mapa não tinha muitos detalhes, as trilhas eram "sujas", mas, pareciam bem referenciadas... Tinha rio, tinha curva de nível....Claro que não íamos nos perder!

Tolinha.....Nunca subestime um mapa de fundo branco...

Tá vendo ele ali do lado? Foi nessa delícia que a gente se meteu!

O local da prova: Cachoeira. Cidade do Recôncavo, à beira do Rio Paraguaçu. Rica de história, belas ruínas, igrejas centenárias e uma vegetação super abundante. Uma beleza de lugar, com tudo que um aventureiro gosta: Montanhas, muito mato, mangue, rio, sapo, aranha, mosquito, mais mosquito.......

Cidade outrora próspera, tinha trem de passageiros e tudo. Costumava receber a corte do Imperador. Tem uma ponte com partes importadas de Londres! Um luxo! Mantém seu charme de aristocrata, embora seu povo seja simples e desconfiado.

Na concentração para a largada um sonzaço de primeira! Os auto-falantes berravam a voz aguda do Brian Johnson - era AC/DC dando uma prévia do que seria a prova..

"I'm on my highway to hell, On the highway to hell. Highway to hell. I'm on the highway to hell.... "

Pontualmente às 16:00, largamos correndo em direção ao rio, para cerca de 400 m de travessia. Foi tudo tão rápido que nem deu tempo de ficar nervosa. Quando eu vi, a largada já tinha rolado e eu estava lá, correndo no meio do povo. 

A travessia não foi fácil. Todo mundo embolado na água, com colete, tênis e aquele horror de roupa que a gente usa em corrida. Bons nadadores logo se destacaram. Os mortais comuns, foram logo se distanciando e eu estava entre eles. 

Tinha bastante correnteza para vencer e o rio não é nada limpo neste trecho. Era muito importante não beber água! Procurei me concentrar para não ficar sem fôlego e não me apavorar, mas o deslocamento não foi nada fácil. 

Lu Kroger, minha intrépida parceira, nada bem direitinho. Ainda me deu umas dicas de como nadar "sapinho" de costas! Modalidade nova para mim e bem eficiente. Cansa menos e desloca bastante. Mesmo assim, ainda precisei de uma mão, ou melhor, dos pés do Gaia. Que sujeito bruto! Conseguiu me rebocar um bom pedaço e ainda voltou para ajudar o seu parceiro, o Arnaldo que estava bem para trás nesta hora.

Muito solidária, Lu ficou tensa pelo pessoal que estava com mais dificuldades. Ficamos todos, porque a correnteza era mesmo forte, mas os organizadores têm juízo. Eles estavam lá na margem para ajudar quem precisasse! 

Vamos correr, que ainda tem muita Aventura pela frente!

Confiantes, saímos trotando de volta ao ponto de partida para se equipar e pedalar. Diana nos ofereceu um energético geladinho lá do patrocinador, que engolimos em dois tempos! Estávamos muito empolgadas. Eu já tinha até esquecido a correnteza. Só queria saber de pedalar.

Pedalzinho tranquilo até o Engenho onde estava o PC-1. Ladeirinhas gostosas de subir e de descer. So far, so good.. Nessa vibe, terminaremos a prova em 6 horas (doce ilusão essa minha....). Chegamos na maior animação! Comendo trilha e querendo mais!

Achar o primeiro PC dá um alívio danado! Renovadas as forças, mais uma revisada no mapa e vamos para o próximo desafio: PCV-2 - Uma igrejinha no alto da trilha.

A ladeira do putaquepariu

Vixe... Tem uma subidinha aqui.... uma, duas, três, quatro curvas de nível! Chamando nas panturrilhas, fomos subindo, subindo, subindo..... Afe que vou me estourar antes do quilômetro 10! Assim não dá..... 

Eis que vejo uma curvinha, e um alento! Luuuuu, acho que acaba ali depois da curva! 

- É mentira sua! Responde, malcriada a minha parceira.... Acabando uma ova! Putaquepariu!

Assim, nossa dupla é. Mais Agrestes que Penélopes. Educadas, finas, cultas.....valentes, brabas e palavrudas!

Mas, eram só quatro curvas de nível. Deve estar acabando..... 

- Já contei umas oito! Putaquepariu de novo! Essa desgraça não acaba! A essa altura, já vínhamos empurrando a bike e confabulando quem seria capaz de subir aquela porra toda pedalando... Eu pensei em Maurão, mas Lu Kroger apostou em Alan Pedreira...

Eu quero é prova! Que ladeirazinha miserável! Mandem fotos e vídeos, que só acredito vendo!

Arrependi-me dos meus pecados e palavrões quando achamos a igrejinha. Graças a Deus! Obrigada, Senhor! Deus Abençoe!

Ali, encontramos dois coleguinhas de corrida e eles fizeram essa fotinha simpática pra nóis. 

Após comer e rezar, que amar tá difícil, seguimos para a primeira transição. As ladeiras continuaram, mais descendo que subindo, desafiando minha parceira, que adooooora uma descida! (#sqn....)

O Homem da Mula
Sempre que a trilha encontrava um cruzamento, parávamos para navegar. Isso ajuda a confirmar se estamos no caminho certo. Numa dessas curvas de caminho, encontramos um pitoresco senhor montado em sua mula de carga...Parecia um personagem de livro de Guimarães Rosa....

Oh, moça. "ceis" tão fazendo o quê aqui? Eu tô achando que vocês são estranhas.... - Disse o moço desconfiado, bloqueando a saída da direita com sua mula, meio que sem querer nos deixar passar.

-Estamos numa corrida moço. 

- E esse mapa aí, é pra quê? "Ceis tão indo aonde?"

- Ói moço, temos que achar uns pontos aqui e encontrar nossos amigos. É uma brincadeira....

Muito sério e parecendo preocupado, o homem se limitou a dizer: Hummm.....Mas, num é por aqui não.... O povo seguiu foi pra lá.... Disse o gentil sertanejo apontando o lado certo do estradão, confirmando nossa navegação. Estávamos no caminho certo!

Fico imaginando o que esse moço pensou... Duas doidas. Dois pontos cor-de-rosa, andando na mata, à noite. Sem um jegue! Sem uma mula! Sem um cachorro pra acompanhar! E nessas bicicletinhas aí....Já pensou? Como é que pode??? Num tem o que fazer???? Ehhh laiá...

Refletindo sobre jegues, mulas e vida no interior, seguimos nossa jornada. Achamos o clima meio hostil... Acho que o povo não estava muito curtindo a nossa presença ali, não...mas, enfim. Pedindo proteção a Deus, e licença aos donos da terra, seguimos nosso rumo.

Ainda achamos mais um desconfiado, quando entramos na trilha do PC 03 - Tem certeza que vão entrar aí? Não tem saída! Não tem nada lá.....Mas, entrou uma renca de gente aí.....Não sei o que estão fazendo nesse mato...

- É aqui mesmo, moço! Fique tranquilo! A gente não tá perdida não... Por onde eu passava, dava boa noite pra quem eu visse pela frente. Se a gente se perdesse ia ser fácil de resgatar! Quem? Aquelas duas malucas de rosa?? Passaram por aqui sim, fazendo a maior zuada!

Chegamos na transição já por volta das 19:00. A galera da organização nos recebeu no maior astral! Incrível como a chegada a um PC renova as forças da gente. Eu até esqueci das panturrilhas, dos jegues e do Guimarães Rosa. Mais rápido que depressa tratei de trocar as sapatilhas pelos tênis. Outros corredores cumprimentavam a gente! Afinal, havia pouquíssimas duplas femininas. Só de estar ali, já era uma grande vitória!

Ana Paula Mattos tirou umas fotos ótimas da gente! Olha a nossa cara de feliz!!!
Na saída para o trekking, para a fase do Rogaine, quase a gente se atrapalha. Vimos uma dupla se embrenhando no mato e fomos induzidas a segui-los. Lu Kroger, mais uma vez muito atenta desconfiou... Êpa! Péra... não é por aqui não. Vamos orientar esse mapa, Lucy! E fazer os devidos azimutes. A gente sabe navegar!!!

Nesta etapa teríamos que pegar 4 PCs virtuais. Eram simpáticas plaquinhas escondidas no mato. A navegação à noite, com mapa 1:50.000 e com pouquíssimas referências foi um baita desafio. Valei-me mestre Agnaldo, que aqui não tem azimute certo!
Divertido foi ver a minha bússola ficando doidinha quando passamos perto da cerca elétrica. Efeito do eletromagnetismo.... Se afeta a bússola, será que afeta a gente? 

E o astral (baixo ou alto) de quem está ao nosso redor.. Será que afeta nossa orientação interna???? Sei lá... Fica aí a reflexão...
Uma vez entendido o mapa, tomamos nosso rumo certo para o primeiro PC do trekking. Trilhas muito irregulares exigindo contagem precisa de passos e muita atenção. Lu conta passos como ninguém! Estou impressionada! Ao menor coaxar de sapos eu já me perdia nas contas...Ela fazia as conversões de cabeça e eu só fazia concordar. Quem consegue fazer regra de três em plena trilha e à noite??? Lu Kroger consegue! 

Um pequeno errinho e formos parar em um pedaço de trilha que nos afastava do PC-1, mas logo detectamos o desvio e voltamos para o caminho. Estávamos andando em cima do mapa! Não demorou para achar o PC-1 que estava numa fontezinha. Lindo leve e fresco, esperando por nós. 


Contando passos de forma milimétrica, não demorou muito para acharmos a casa que servia de referência para ao PC-2. A ruína, prevista no mapa foi mais difícil. O mapa tinha uma...mas, no mundo real tinha váaaaarias. Lu chegou a desconfiar que poderia estar mais adiante, mas ficamos ainda na dúvida.

Aí foi minha vez de navegadora roots.... Esqueça o escalímetro, até porque todas as minhas marcações se apagaram...Deixa eu medir esse troço aqui de novo com a bússola... Hummm.... Não é aqui.... Dá mais uns 250 metros... É mais para lá mesmo, Lu!  Sua intuição estava certa! Vamos lá!

Achamos o fantasmagórico casarão abandonado. Parecia cenário de filme de terror, com morcego e tudo! Por puro instinto, resolvi não entrar na ruína pela porta principal. Antes, resolvi dar uma espiadinha no quartinho à esquerda de quem entra. Lá estava nossa querida plaquinha!!!! Que linda!

O bicho pegou com força entre o PC-2 e o PC-3. A trilha deveria vir beirando o rio, mas ela resolveu sair para passear justo na hora que nós mais precisávamos dela!! . Ou foi apagada pelo Curupira.... sei lá... Atacamos tudo o que se parecia com trilha por cima, por baixo, pelo meio, pela diagonal... Depois, tudo de novo no sentido inverso e nada de PC!!

Quando estávamos completamente enganchadas em um matagal de dar gosto, encontramos a dupla dos Caveirões. Dois moços muito simpáticos que se perderam por ali. A trilha era tão íngreme que na hora de descer, teve que rolar um esquibunda! O mato, os mosquitos e outros bichos não identificados iam entrando pela roupa da gente e resolviam ficar por lá. Senti um alien andando nas minhas costas e arranquei-o dali com a mão, sem nem olhar. Não estava muito querendo muito saber de que planeta ele era...

Lu deu umas quinze topadas trilha acima e trilha abaixo. Sempre com o astral em alta, ela repetia "É o que eu sempre digo - até uma topada nos empurra para frente".

Na décima sexta topada, ela só me perguntou: Lucy, o que é mesmo que eu digo sobre topadas?? - Que até uma nos empurra para frente? Perguntei - Não! Essa aqui a gente diz é  putaquepariu mesmo! Putaquepariumeupé!!!!!!!

Intrépidos, íamos rasgando mato com os dentes, se preciso fosse. Estávamos determinados a achar aquele PC. Torturamos todas as trilhas até elas confessarem a localização do PC-3, mas não adiantou. O universo conspirou contra. Não era nosso dia de achar aquele PC.

Estudando o mapa, eu vi que o PC-3 deveria estar numa trilha que nasce no rio e sobe perpendicular a ele, rumo a uma curva de nível. Não poderia estar muito longe do rio. Assim, começamos a farejar o rio pra cima e pra baixo atrás da bendita trilha. Algumas ruínas começaram a aparecer. Eu espremia o mapa até ele me dizer alguma coisa, e nada... Será que esse cocozinho de mosca aqui do mapa não é essa ruína????? 

Já tínhamos desistido de procurar e estávamos rumo ao PC-4, na intenção de, após batê-lo, navegar de volta para o 3. Foi quando encontramos os Caatinga Trekkers. Duas duplas que já tinham pego o PC-4 e estavam fazendo o mesmo que planejávamos. Sem marcar distâncias e sem azimute, resolvemos segui-los. Perde-mo-nos com força! Com muita força mesmo!

Atenção novatos! Nunca percam a fé no mapa e nunca, nunca mesmo abandonem a navegação. Tentativa e erro é mais erro que acerto! Não dá certo não. Reza para Nossa Senhora da Bússola, porque só o Azimute salva!....

Andamos por dentro do rio com lama até a alma. Conchinhas presas nos galhos secos das árvores do mangue formavam esculturas interessantes e pontiagudas. Saí com os dedos feridos e as unhas do pé em frangalhos..

Ficamos quase sete horas em um trekking que deveríamos fazer em 2! Estimo que andamos uns 30 km. Andamos não. Engatinhamos, rastejamos e xingamos.... muito....tudo que foi nome!

Confabulando entre nossos botões, achamos melhor retomar a estratégia original e ir atrás do 4. Os meninos da Caatinga Trekkers resolveram insistir na busca e nós, decidimos seguir o rio. Só esquecemos de combinar com a trilha....A sacana sumiu de novo. Sabe aquele efeito em que a Matrix é reconfigurada?? Pois é... Foi o fim do programa. Não conseguíamos sair do lugar! E quanto mais voltas a gente dava, mais perdidas.... Vimos  a mesma árvore caída umas quinze vezes. Parecia que ela se mexia e ia atrás de nós. Luciana fez amizade com o lixo e já chamava pelo nome: - Oi, garrafa azul! Você por aqui de novo?. E você, pote de margarina? Vem sempre aqui???. 

Ficamos lá, as duas literalmente plantadas no manguezal. Afundando até o joelho e sem ter como se segurar, pois a vegetação seca, saia fácil em nossas mãos bastando tocá-las.

Menos de uma hora depois, ouvimos a voz dos nossos amigos. A essa altura, já éramos uma só equipe. Perdidos, enlameados e chateados! Mas, mesmo assim, dando risada de tudo. Todo mundo se ajudando num clima muito legal. Era como se tivéssemos levando nossas crianças interiores para brincar.

Achar o PC 4 foi uma glória. Vamos agora voltar e buscar o 3? Quem vai é o coelho! Vamos para a transição que já tem quase 10 horas de prova!!!

Chegando lá tivemos uma grande decepção. Os dois últimos PCs, que deveríamos pegar de bike, foram cancelados devido a um triste episódio. Duas colegas foram assaltadas na trilha e a organização, muito sabiamente, havia resolvido cancelar o trecho final e escoltar os atletas de volta para a chegada. Com o fim da prova, aproveitamos para pegar uma carona no carro de apoio e assim poupar os joelhos de Lu Kroger que ficaram muito maltratados pelo excessivo esforço.

Fiquei triste pelas meninas assaltadas. Graças a Deus, nada de mal lhes aconteceu, fora o susto e o prejuízo (levaram as mochilas com vários equipamentos). 

Os organizadores deram seu melhor para nos oferecer uma prova à moda antiga. Mapa desafiador; terreno difícil; Uma prova que requer muita técnica e concentração. Espero que não desanimem devido a esse episódio isolado. Nós não desanimamos! Já estou me preparando para a Mandacaru!

Estamos em um momento muito difícil no Brasil. Nosso povo está dividido. A violência, a desesperança e as drogas têm roubado nosso espaço. Não podemos desanimar. É preciso cobrar do Poder Público o retornos sobre nossos impostos - sim! Eles existem para servir à Sociedade, e não o contrário. Não é à toa que são chamados "servidores públicos". Queremos policiamento. Queremos paz. Queremos direito de ir e vir!

Queremos de volta o prazer de poder ver o sol nascer na trilha, sem medo de nada. Olha que beleza de cidade! Assim que Cachoeira nos recebeu, às 5 da manhã. Mais de 12 horas de prova! Com muito esforço, determinação e muita coragem. Estou orgulhosa da nossa dupla. Nós fizemos bonito! E a cidade nos acolheu com um belo amanhecer.


Apesar do pequeno transtorno, fiquei muito feliz com nossa prova. Nossa navegação estava indo muito bem. Apesar de não termos achado um PC, difícil até para navegadores experientes, nós entendemos o mapa e estávamos na lógica correta. Sei que faltou um pouquinho mais de prática! O que conseguiremos acumulando mais quilometragem. Afinal, ninguém nasce pronto!

Lu Kroger - você é valente, corajosa e tem tudo para ser uma navegadora de primeira linha. Bora cuidar desses joelhos que você tem muita aventura pela frente!

Espero ver mais mulheres nas corridas. Somos muitas e somos fortes. A gente vai ocupar mais este espaço! Espero que em breve a Federação passe a reconhecer e premiar a categoria feminina para que mais navegadoras se joguem nesse lindo mundo da Aventura!

Uma dica da dona da Pousada onde ficamos: Talvez seja uma boa ideia envolver os guias turísticos locais no mapeamento das provas. Eles conhecem bem os lugares onde dá para passar com segurança. E, quem sabe envolvendo a comunidade, ganhamos mais apoio dos locais... Já que do Poder Público não dá para esperar nada mesmo.... Gostei da ideia e compartilho como sugestão.

Aproveito para agradecer a Dona Eliete, da Pousada Serra de Cachoeira - Lugar maravilhoso, muito aconchegante. Equipe de uma doçura ímpar! Tive uma aula de história e de cidadania com essa dona. Ainda volto lá!

Aos organizadores - reclamei um pouquinho do Rogaine, mas é por que o nível estava mesmo mega blaster difícil. Agora, agradeço porque graças às dificuldades, aprendi horrores. Saímos as duas desta prova mais confiantes como navegadoras  - sei que posso falar por mim e por minha companheira de equipe. Estou ainda mais motivada para continuar correndo. Não desanimem e não parem nunca de organizar provas. Queremos mais Pelejas!

A todos os Aventureiros parabéns por mais esta Peleja - em especial ao Vand, por sua estréia super bacana nas corridas longas.

Nos vemos no Mandacaru!!!

terça-feira, 4 de abril de 2017

CT Gantuá 2017 - 25/03/17

Eu aceito. Eu confio. Eu agradeço....

Quarta competição do ano. Depois do Esquenta, da Noite do Perrengue V e da primeira etapa do CAMBO, chegou a hora da Corrida de Mountain Bike do CT Gantuá! 25 de março de 2017. Aniversário da minha mãe. Um belo dia para correr!

A prova foi dividida em três categorias. Em tradução livre, poderíamos chamar assim: 
  • 30km ou Light: Iniciante-é-tua-nega-aqui-tem-que-ser-ciclista;
  • 42 km ou Power: difícil-pra-c@r2lh0-se-não-guenta-pra-que-veio
  • 54 km ou Megapower: mega-ultra-blaster-ph#d@-não-é-pra-qualquer-um-mesmo!.....
Uma multidão de bicicletas até onde a vista alcança. Foi tanta gente que tiveram que dividir a corrida em etapas. Teve gente largando no sábado e no domingo. Mais de trezentas bikes. Uma festa!
Mountain Bike é isso. Um povo diferente. Todo mundo de uniforme. Todo mundo bonito. Era tanto uniforme que parecia o Tour de France do Sertão!


Nossa largada foi no sábado, às 14:00h, naquele calor baiano abençoado. Visual mais lindo não tinha como ter: Castelo Garcia D’ávila – Praia do Forte. Quem sabe o ponto mais alto da vila inteira. Era pirambeira já desde a largada!



É pra descer? Vumbora! A gente tira o bumbum do selim, reza pra não morrer e se joga!

E lá fomos nós. Dois ciclistas de fim de semana. Dois corredores de aventura misturados com os mountainbikers e seus uniformes estilosos. Duas pessoas querendo ver até onde vai essa valentia toda...

A largada, no maior calorão do dia foi um desafio à parte. O lado bom é que os primeiros 5 km foram praticamente só descida e plano. Mas, logo chegaram as subidas... E no asfalto... E no calor...

No squeeze e no camelback, dois litros de água de coco. Os primeiros goles foram deliciosos, mas logo já não aguentava mais nem pensar em beber. O líquido quente e doce revirava o estômago. No meio de uma subida de asfalto, num ato extremo, meu squeeze se jogou para fora da bike. Entregou os pontos... Desistiu de viver!

Segurei no freio, já pensando na prometida desclassificação para quem deixasse lixo no chão (muito correta, por sinal). Foi um desastre! Era ciclista pra todo lado. Todo mundo me xingando. Eu tentando chegar para o canto para liberar passagem e gente me cortando pela direita, já xingando minha mãe, coitada...... Deu desespero!

Sem opção, parei no meio. Atônita! Uma ciclista passa voando, reclamando e berrando – PÁRA NO CANTO, P#rr@!!!! Ao que eu, gentilmente, respondi: - TÔ TENTANDO, DESGRAÇA!!!!!!!!!!

Caraca! Ninguém facilita pra ninguém, por aqui??????? Acho que não.... me lasquei mesmo!

A essa altura, uma alma caridosa que tirava fotos no pé da ladeira resolveu me ajudar: - Deixa pra lá! Vai em frente! Ele salvou meu squeeze que a essa altura já havia rolado morro abaixo e veio trazê-lo para mim.

O stress me desarmou. Fiquei tonta e tive que parar. O pelotão todo passou por nós e eu fiquei ali.. estupefacta... Peguei meu squeeze e sentei na beira do caminho... admirada com a merda que estava acontecendo... Ainda era o quilômetro 8 e eu já estava pedindo socorro??? Como assim??? Não é possível!

O parceiro, coitado, parte preocupado comigo e parte pensando que era o fim da prova. Eu, atordoada, não pensava em nada!

Uma moça se aproxima e pergunta se não quero entrar e descansar.....

Descansar....hummmm.....descansar parece bom....eu ali, sentadinha na sombra........(Oi?????? Eu ouvi DESCANSAR??? No meio de uma competição???? TÁ DOIDA???? Comeu cocô???? – Isso aí foi meu cérebro me dando um sacode e me trazendo de volta à realidade).

– Não moça! Obrigada. Mas, não! Não posso parar! Tenho uma corrida toda pela frente! Só preciso tomar fôlego. E água gelada. Não aguento mais essa água de coco.

Uma mocinha trouxe a água correndo. Tomei a água geladinha gostosamente. Minha alma que andava por aí voltou para o corpo. Aproveitei para conversar brevemente sobre a prova. Descobri que ela é ciclista também. Convidei para a próxima corrida. Todo ano tem! Fica de olho! Ela disse que vai se inscrever. Certamente vai se sair muito bem!

Novamente hidratada, voltei a conseguir pensar com clareza. Incrível o efeito da água gelada. Não basta ser água. Tem que ser gelada! Por que será? Deve ter alguma explicação científica... Mas, não temos tempo para isso agora! Bora pedalar!

Eu estava de volta à prova. Sem mais zique-ziras. Com sangue no olho. Querendo recuperar o atraso. Descendo todas as ladeiras com ousadia. Uma olhadela no ciclocomputador me mostrou 39,5 km/h em uma das descidas. Um recorde para mim, que sou absolutamente medrosa. Mas, que tenho conseguido administrar esse medo cada vez mais. As descidas foram até bem-feitinhas. Mesmo com alguns trechos com valas e pedras soltas.

Por outro lado, meu Deus!!! Quanta subida. Acho que eram três subidas para cada descida! Haja perna. Foi aí que chamei no Pilates, no Reiki, no abdômen e na reza.... Comecei a rezar meu mantra sagrado:

Imagine essa colina derivada em fatias infinitesimais. Logo, cada fatia se aproximará de uma reta e você não sentirá a subida.... Imaginou? Agora, repita comigo: Eu aceito que tenho que subir mais essa ladeira. Eu confio que se eu persistir, ela logo acabará. Eu agradeço por ter conseguido dar mais este giro.”

Repita o processo todo até o topo e se prepare para descer.... Tira o bumbum do selim, chama no quadríceps e começa uma nova reza....: “Santo anjo do Senhor, meu Santo anjo protetor... Me ajude a descer essa piramba.....Eu vim aqui me divertir, não morrer!”

E foi assim a prova toda...

Descidas a mais de 30km/h. Subidas a menos de 10... velocidade média variando entre 12 e 17 km/h. Marido parando para esperar enquanto me dava força para eu pedalar mais rápido. Eu respirando, rezando, murmurando mantras e meditando....

Bora, porra! Você consegue subir...você consegue descer... Toma vergonha, que essa ladeira aí você já desceu antes!

Em dado momento já me conformava em meus pensamentos: Ah... Tá bom... Vamos completar o percurso light e “tá de boas”. É o que temos para hoje... É o que dá para fazer.... Conforme-se... Esse é o melhor que você consegue....

Até que......

- BORA GALERA!!! AINDA DÁ TEMPO!!!! VOCÊS CONSEGUIRAM PEGAR O POWER! CORRE! BORA! BORA! – Era o povo da organização botando pilha na gente. 

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! PORRRRRAAAAAAAAAA!!!!! É POWER!!!!!! C2R2LH0!!!!!! BORAAAAAAAAA!!! – Era eu, educada feito uma mocinha.... só que não....

Só uns 5 km depois é que caiu a ficha... Caceta..... Tô na POWER! Putz! Que massa!....Que merda... e se eu não completar???? E se eu não conseguir?????

Nem pensar, camarada! Chegamos aqui, vamos até o fim. Você vai terminar essa prova, nem que seja amanhã de manhã!!

E toma de subida... E toma de eu aceito, eu confio eu agradeço pela subida.... E toma de santo anjo protetor na descida.... Meu Deus! Não acaba não??? Os dez últimos quilômetros demoraram uma eternidade. Nem toda a reza do mundo bastou e algumas ladeirinhas (bem poucas) eu subi foi empurrando mesmo! Devo me lembrar de trazer panturrilhas extras na próxima prova! Putzgrila!

Vimos alguns acidentes. Pessoas pedalando na contra-mão para pedir ajuda. Uma mocinha caída numa curva de trilha – já devidamente atendida pelos colegas e consciente, graças a Deus. Ítalo, machucado acolá, sendo cuidado pelo seu filho. Aliás, que doce de menino. Muito responsável e todo preocupado em cuidar do pai. Ítalo é um atleta experiente e um bom amigo. Foi quem me ensinou a remar. Jamais esquecerei disso! Espero que se recupere logo. As pirambeiras são traiçoeiras. Mesmo pedalando com cuidado, às vezes nos surpreendem.

Em vários trechos, água geladinha e as pessoas da comunidade servindo a gente. O olhar daquelas pessoas era do mais puro e legítimo espírito de servir ao próximo. Como eles pareciam satisfeitos de estar fazendo aquele trabalho. E quão formosas são as mãos de quem serve água! Gelada então?? Ave Maria! Um luxo!! Deus abençoe essas almas boas.

No alto das pirambeiras mais perigosas e as vezes embaixo delas também, equipes de resgatistas presentes e muito atentos a todos os atletas. Essa corrida foi um primor de organização. Eu tinha que registrar isso para divulgar o excelente trabalho da Gantuá e de toda a equipe que apoiou na prova. Eu me senti bastante segura o tempo todo, tanto no aspecto de segurança pública, como de saúde.  Todos os que tiveram dificuldade receberam atendimento rápido. Parabéns, Gantuá! Trabalho de excelência, como sempre!

Chegamos já de noitinha. Quase os últimos. Ainda vimos algumas pessoas chegando junto conosco. Teve gente da light chegando quase meia hora depois de nós. Não foi uma prova fácil. Completar já foi um grande resultado!

Eu tenho uma alegria imensa de participar dessas corridas. E fico muito feliz de ver como o ciclismo vem crescendo na Bahia. Assim como o esporte de aventura e a orientação. A cada prova, mais atletas. Mais energia boa. Quanto mais gente interagindo com a natureza, menos gente doente. Mais lama, menos antidepressivos. Mais ladeiras, menos colesterol. Mais descidas técnicas, menos crises de pânico e ansiedade.

É sério! O que aprendo no esporte, levo para a vida. E em meio às crises e aos problemas do dia-a-dia, eu me lembro de como tive coragem de descer tal ladeira que antes me amendrontava tanto ou como consegui subir aquela que era tão difícil. Essas analogias me ajudam muito a viver!

De vez em quando, alguém me pergunta: Mas, você ganhou medalha? Minha resposta é sempre: Ainda não foi dessa vez. Porém, posso dizer que ganhei de todo mundo que não foi! Mas, até que rolou uma medalinha bem bonitinha.... de participação. Achei a coisa mais linda!!!!



Ganhei de mim mesma, que até alguns anos era totalmente sedentária e não sabia nem pedalar. Ganhei do medo, que já me paralisou tantas vezes. Ganhei da vergonha de ser a última a chegar. E daí? Eu cheguei! Poderia não ter completado. Poderia nem ter vindo. Mas, vim, corri e completei a prova! Mais uma para o acervo. E com medalha de participação!

Quer ganhar de mim? Vem correr comigo! Mal posso esperar para a próxima

Quer saber como foi? Dá uma espiada no vídeo: Vídeo CT Gantuá 2017 oficial