quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

CAMBO 2017 - Campeonato Baiano de Orientação - É de BRONZE

CAMBO V - 19o. Batalhão de Caçadores - Salvador - Final do Campeonato baiano de Orientação

A caça aos prismas chegou ao final no dia 12 de novembro de 2017. Era a quinta e última etapa do campeonato baiano de orientação. Nossa Equipe - Aventureiros do Agreste - compareceu em peso.

Equipe Aventureiros do Agreste
Depois de não conseguir encontrar um PC sequer na corrida de Aventura do CT da Gantuá no fim de semana anterior (narrado aqui) meu nervosismo atingiu o grau máximo na noite do dia 11. Deu dor de barriga e tudo. Mal dormi... ou dormi mal... ou ambas as alternativas estavam certas.

Hoje, no entanto, o esporte é outro. A Corrida de Orientação envolve distâncias mais curtas e tem somente trekking. Além disso, e a técnica de navegação é um pouco diferente, embora ajude muito nas Corridas de Aventura. Se lá eu não estava tão bem, aqui havia chance de pódio.

Eu já tinha feito as quatro etapas anteriores do CAMBO e a regularidade estava contando a meu favor. Entretanto, precisava fazer uma boa prova e chegar pelo menos em terceiro lugar, nesta etapa, para garantir o bronze no campeonato.

Mentalmente, fiz um catálogo dos erros que já cometi nesse esporte: Já tinha rasgado mato sem precisar; Já tinha ignorado o azimute; Já tinha confundido cerca com rede elétrica, já tinha até perdido uma bússola no meio da corrida...

Hoje nenhum desses erros seria cometido de novo! Até poderia aceitar novos erros, desde que viessem acompanhados de alguns bons acertos.

Essa é uma das coisas que o esporte de aventura me ensinou. Tudo está em nossas mãos. Somos responsáveis pelos nossos fracassos e pelos nossos sucessos. E a gente aprende mais com os erros que com os acertos. Na vida é assim também! Com o tempo, a gente aprende que a vitória é feita de mãos calejadas por derrotas.

E assim eu fui, buscando acertar. Parando para navegar a cada ponto encontrado. Correndo o que podia entre um e outro. Sem pensar muito na chegada, minha corrida era por um prisma de cada vez. Fui com atenção e foco. Era como se não existissem outros competidores. Só o mapa, a bússola e eu.

De vez em quando, um conhecido passava correndo e me trazia para o mundo físico. Trocava uma ideia com alguém, conferia meu mapa e ia no meu ritmo. - Corre Lucy - Você é Carcaraaaaaá!!!! Gritou um velho amigo dessa equipe que admiro muito. Ele saiu correndo...Eu sorri, parei para conferir o mapa mais uma vez e só depois corri, confiante, na direção certeira de mais um prisma.

Sou Carcará de alma, pois com eles aprendi (ou melhor, ainda estou aprendendo) a navegar. Mas, também sou Aventureiros do Agreste, minha equipe do coração. Eu queria navegar melhor e correr mais rápido como esses meus amigos. Queria trazer mais pódios para a equipe. Porém, até hoje, apesar do meu esforço, isso não tinha sido possível.

Hoje porém, poderia ser diferente! Mas, naquele momento nada era certo. O que eu podia fazer era cuidar para não errar e completar a prova em um tempo decente. Foca na trilha, que é melhor!

A cada etapa eu vinha melhorando, mas, as competidoras da minha categoria também. E num ritmo melhor que o meu. Qualquer vacilo e já era! Nada é fácil por aqui...

Respirei fundo e continuei minha prova, no meu fôlego. Pensando que qualquer que fosse o resultado, eu teria feito o meu melhor. E se o meu melhor me colocasse fora do pódio, era porque ainda precisava melhorar mais.

De prisma em prisma, fui ficando mais confiante e cada vez mais atenta. Mantendo um ritmo constante. Apenas algum pequeno atraso em um dos prismas, mas nada que me tirasse da corrida.

Na chegada, era só uma corridinha e pronto! Era o último quilômetro da última etapa! Escutava o som dos tênis nas folhas secas e mirava a chegada. Sorrindo, falava sozinha....Acabou! Peguei todos os prismas. Fiz o que pude! O que tiver que ser, será!

Entreguei meu sicard e peguei minha fichinha com meus tempos. Estava bem. Inteira e feliz. Todos os prismas capturados em um tempo mais que decente. Na TV, onde a organização projetava os resultados em tempo real, eu aparecia em terceiro. Que alegria! Contida, porém - Ainda tinha gente na pista, então não soltei fogos de imediato. Achei melhor ficar na minha e esperar o resultado oficial.

Mais tarde, quando vi que todas as minhas parceiras de categoria já tinham chegado, pude comemorar meu primeiro pódio depois de tantos anos. Tive alguns outros poucos no início da jornada de orientista, mas eram tempos de poucos atletas. Agora, era de verdade! Eu não era a terceira entre três! Era bronze de valor!
#GirlPower - Comemorando com Marina - minha parceira na corrida da Chapada

Ainda tinha chance de também ficar com o terceiro lugar no campeonato todo, não somente nesta etapa. Mas, isso dependeria do resultado das outras atletas, que vinham melhorando a cada ciclo. Tentei fazer as matemáticas e os "nove fora" de cabeça, mas não estava confiando nos meus cálculos. Preferi esperar a chamada do organizador para ter certeza. Vai que.... deixa pra lá...

E como demorou... Tanto que quase alguns atletas desanimaram de esperar. O esporte de orientação cresceu muito nos últimos anos. São muitas categorias para premiar. Era preciso paciência.

Eu, tão apreensiva que estava, não arredaria pé até ter certeza de que a sonhada medalha seria minha.

E veio a primeira chamada: Lucy Helena Silva de Jesus - Terceiro Lugar - quinta etapa do CAMBO 2017 - Categoria D 45B!

Que alegria!!!! Meu coração pulava da boca.
Para muitos, isso não é nada demais... Apenas uma medalha de terceiro lugar em um esporte amador. Para mim, e para quem ama o esporte, isso significa muita coisa!

Mais tarde, veio a chamada dos vencedores do campeonato baiano de orientação - edição 2017. E lá estava eu de novo no pódio. Medalha de bronze! Compartilhando o pódio com Gabi (ouro) e Normalice (prata). Essas meninas são feríssimas!


Foi um momento muito especial para mim. Não foi fácil chegar até ali. Minha atividade principal na vida não é o esporte. Mas, sim um trabalho bastante intenso em uma empresa privada. Com muitas viagens e muitas horas de dedicação, dentro e fora do horário comercial. O esporte é meu lazer, meu hobby, meu escape. E nem sempre sobra tempo para o lazer. Mesmo assim, fechei o ano com a satisfação de ter dado mais um passo consistente rumo ao equilíbrio.

Saúde-Lazer-Trabalho-Família-Estudos-Lar-Casamento-Filho....São tantas responsabilidades que às vezes nem sabemos qual priorizar. Hoje em dia, creio que todo mundo passa por isso. Não é fácil e fica sempre aquela sensação de que estamos devendo algo.

Mas, a gente vai tentando. Às vezes deixa um dos pratos cair, às vezes se dedica demais a uma área deixando outra parte desassistida...Às vezes a gente larga tudo pra lá e se joga no sofá....Agradando uns, desagradando outros... De vez em quando errando, acertando algumas vezes.

2017 se vai. O trabalho que podia ser feito, foi feito. O CAMBO me trouxe uma medalha e um troféu. As corridas de Aventura ainda não trouxeram pódio, mas muitas experiências e muitos novos amigos.

Eu agradeço por tudo que passou. Aos amigos, colegas, incentivadores ou não. Agradeço às dificuldades e aos erros cometidos. Agradeço ao calor do sertão e às duras ladeiras. Aos erros e aos acertos.

Agradeço ao mestre Luiz Agnaldo pelos ensinamentos na Orientação e aos meus amigos da equipe Aventureiros do Agreste pela alegria da convivência e pelos aprendizados mútuos.

Penélopes Campeãs: Lulu - Ouro - Categoria Elite; Gabi - Ouro D-45B; Lucy - Bronze - D-45B 

2018 vem aí. Com mais desafios. Novos acertos e novos erros. Novos campeonatos. Novas competições. Mais trabalho, mais responsabilidades. Novas oportunidades de acertar e de aprender. Novas chances de buscar o sonhado equilíbrio.

Quer conhecer um pouco do nosso mundo de aventuras? Trabalha demais e precisa de um incentivo para fazer atividades físicas? Está sozinho por aí e precisa fazer bons amigos? Já faz esporte e quer aprender algo diferente?

Vem aí a quinta turma da Escola de Aventura do Agreste. Vem se divertir com a gente!
Quinta turma - Escola de Aventura do Agreste
Aventureiros do Agreste - Retroceder NUNCA, Render-se JAMAIS, Divertir-se SEMPRE!

Feliz 2018!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Corrida do CT da Gantuá 2017 - Final do Campeonato Baiano de Corridas de Aventura

Tenho muito pra contar...Dizer que aprendi...

Mucugê – Chapada Diamantina – 03/11/17

Essa cidadezinha fica bem no coração da Bahia e tem menos de 20 mil habitantes. É um dos meus refúgios favoritos no universo. Em minha opinião, poderia ser chamada de "A Princesinha da Chapada" mas, soube por um blog que é conhecida como a "Machu Picchu" brasileira. Se vocês visitarem as ruínas do garimpo, no Parque do Projeto Sempre Viva, vão entender porquê.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mucug%C3%AA
Foi em Mucugê que os primeiros diamantes foram encontrados, no final do século XIX atraindo riqueza para uns...cobiça, ambição e morte para outros. Hoje o garimpo é proibido e a economia local passou por um período de declínio lá pela década de 1980. Da década de 1990 para cá, a Chapada se reinventou. Alguns dos antigos trabalhadores se transformaram em guias turísticos, foi criado o Museu do Garimpo, e foram chegando os bichos-grilo, os fazendeiros e os corredores de aventura...

Diana e Alan se mudaram para lá, levando com eles  empreendedorismo e muita coragem. Sua empresa, a Gantuá Multisports Eco Adventure cresce ano após ano e já se tornou uma referência em esportes de aventura na Bahia.

Eu participo sempre que posso das provas promovidas por eles, como o CT de Mountain Bike, edições de 2015 e 2017 e a Corrida do CT na Praia do Forte que fiz em 2014. As histórias dessas aventuras estão nos links marcados no texto. Gosto de recordar, porque é isso que fica de bom dessa vida doida que a gente leva.

Este ano, tudo conspirou a favor e consegui finalmente fazer a única prova do campeonato baiano que ainda não tinha participado. Tudo para ser uma grande festa. Última etapa do Baiano de Corrida de Aventura. Pela primeira vez eu tinha participado de todas as provas. Já tinha motivos para estar feliz por antecedência.

A viagem de ida supertranquila, sem nenhum transtorno. Deixei minhas bagagens prontas no domingo anterior, pois na segunda antes da prova viajei para o Rio Grande do Sul a trabalho. Eu chegaria na quarta à noite, com plano de ir para a Chapada Diamantina na quinta de manhã. Ao voltar, no domingo, já tinha que ter a mala pronta para novamente partir para o Rio de Janeiro, de novo a trabalho. Descansada, bem disposta e com um sorriso no rosto, porque é assim que se faz!

Quem fica acompanhando minhas postagens no facebook deve pensar que levo uma vida de Penélope. Sempre de rosa, sempre sorrindo, pedalando e andando pelos matos.... A verdade é que nem só de diversão vivem as pessoas e eu também tenho meus trancos e barrancos como todo mundo. Acontece, que sou daquela turma do copo meio cheio. Em tudo, prefiro focar no lado bom. Pensamento de abundância, sempre!

Assim sendo, não tenho tempo para reclamar nem ficar cansada. Isso atrasa a vida da gente. É preciso viver intensamente cada momento. Com tudo o que ele nos traz. Cansaço, tristeza, enxaqueca? Tenho tempo não... marca aí no outlook para o mês que vem, que neste estou com todos os horários ocupados! 

Como ia dizendo, tudo conspirou a favor. Chegamos cedo a Mucugê. A cidade estava linda, como sempre. Diana e Alan montaram um evento memorável. Altíssimo nível de organização. Teve pórtico lindo. Teve receptivo para os atletas, cobertura da imprensa, apoio das pousadas, do comércio local, da Prefeitura e até da Natureza.

Estranhamente, invernou em Mucugê em pleno novembro. Choveu todas as noites e durante o dia ficou bem fresquinho, com uma leve garoa mantendo a temperatura bem amena. Até o Prefeito se admirou e agradeceu aos atletas por trazerem a chuva! Como sempre passo muito mal no calor, achei uma benção divina que o tempo tivesse virado desse jeito.

Nossa corrida estava marcada para o dia 3 de novembro, sexta-feira. No dia 4 haveria a Ultra Maratona de montanha, onde os Aventureiros do Agreste foram representados pela Luciana Freitas, nossa Lulu, que marcou seu lugar no pódio!

Na corrida de Aventura, representando a equipe Aventureiros do Agreste, tivemos o quarteto, com Vand, Michelly, Gladimir e Gabriel e a dupla mista com Vitor e Andreia correndo pela Power, defendendo nosso pódio no campeonato. Na categoria light, fomos as Penélopes Lucy e Marina.

Incrível como todas as condições foram favoráveis. O clima, a interação entre os atletas, até minha mochila estava ótima. Fiz a melhor arrumação de todos os tempos, com hidratação abundante, alimentação de sobra e quase sem peso. Os kits de sementes, frutas secas e castanhas da Mãe Terra que comprei recentemente foram perfeitos! Tem um remix que mistura cacau com castanhas que é uma delícia! 

Durante o briefing, estudamos o mapa e traçamos a melhor estratégia que julgamos ter. Combinamos as rotas e distâncias. Eu ia navegar e Marina ia se responsabilizar por contar passos. 

Rabiscamos nossa estratégia no mapa e largamos felizes junto com a tropa toda. Pelo nosso planejamento, partiríamos a pé para subir o Cruzeirão, pegando a trilha logo atrás do cemitério Bizantino. Dali, após a selfie no cruzeiro,  pegaríamos o PCV 2, que era um prisma, no caminho para outro cruzeiro, que era nosso terceiro PC. Dali, voltaríamos para a transição e seguiríamos em busca dos PCs de bike. Só faltou combinar com os prismas....rsrsrsrs

No calor da prova, concordei em fazer a rota para o prisma 5 ao contrário, pois julgamos que aquela trilha seria mais fácil de achar. Nossa ideia era subir a trilha toda e começar a pegar os prismas na volta, na ordem certa, como orientado pelos organizadores. Não foi uma boa ideia...Não mesmo! :(

O primeiro desafio foi subir o Cruzeirão. Marina é uma pessoa do nível do mar, como o nome sugere. E não estava acostumada às trilhas. Essa foi sua primeira corrida de aventura e apesar da empolgação, faltou ar. O céu “preteou” e nossa Penélope precisou tomar fôlego no meio da subida. Os demais atletas se afastaram da gente e logo ficamos completamente sós. Eu, Marina e a montanha. Subimos respeitando o ritmo, pois a saúde está acima de qualquer outra coisa. Eu procurava animar minha parceira, mostrando a belíssima vista da cidade e dizendo a cada passo que só faltava mais um pouquinho.

E de pouquinho em pouquinho nossa valente Penélope foi vencendo a Montanha. Eu imagino como foi difícil pois já passei muito mal nessas subidas. A gente pensa que vai morrer! Mas, a guria é valente, viu?? Ela se esforçou muito e sei que deu o seu melhor.

Quando estávamos perto do topo tive uma ideia para recobrar o ânimo da minha amiga. Eu já vislumbrava o cruzeirão, mas Marina ainda não conseguia ver. Ele estava lindo atrás da última curva de nível e cercado de nuvens. Sabia que aquilo era uma conquista e Marina merecia celebrar!

- Marina, se prepare – você está prestes a ver a cena mais linda da sua vida! 
- Hein???
- Pensa rápido, qual é a sua música favorita? Rápido, rápido, já pensou? Então, pode começar a cantar!

(Marina fez cara de confusa, mas entrou logo na brincadeira e lembrou da música, ainda escalando pedras ofegante).

♫Ah... Se o mundo inteiro me pudesse ouvir. Tenho muito pra contar. Dizer que aprendi.....♫


E cantando junto convidei Marina a dar um passo a mais.... Agora, olha para cima.... Veja se não é a cena mais linda deste dia?
Entre nuvens e atrás das pedras aparecia o nosso cruzeiro. Nosso primeiro PC! Primeira escalaminhada da Marina. Primeira superação. Primeiro desafio vencido!

Cantamos a música toda, até onde lembramos da letra. Ninguém lembrava mais do esforço da subida. A corrida começava ali! Marina ficou emocionada, e tenho certeza que isso a ajudou a tomar fôlego.  Dali em diante ela não passou mal de novo e começamos um trekking forte em busca do segundo prisma.

Ah, o PCV 2......aquele f&lh# da p#t@...

♬E na vida a gente tem que entender....Que um nasce pra sofrer...Enquanto o outro ri♬

Bom, tem dia da caça e dia do caçador. Tem dia do orientista e dia do prisma. Esse definitivamente era o dia do f&lh# da p#t@ do saci que roubou meu prisma! Todo mundo achou aquela miséria.... só que não....

Fizemos o azimute certo. Interpretamos o mapa. Olhamos ao redor. Eu confio na geografia. Ela não mente e sempre me ajuda na navegação. O prisma tinha que estar no fim do morro 1 antes da descida do vale que nos separava do morro 2. À esquerda, víamos a cidade, a curva do rio e as curvas de nível. À direita, o abismo. O prisma tinha que estar ali, em algum lugar.

Procuramos muito. Varremos cada polegada daquele chão. Resolvemos subir a trilha para o segundo cruzeiro e depois voltar para tentar achar o prisma no caminho inverso... nada! Todos os outros atletas já tinham passado. Não encontramos vestígios de prisma nem tínhamos a quem pedir ajuda.

Duas horas depois, surgiram algumas pessoas fazendo trilha. Resolvi apelar. Gente, vocês viram um negócio que parece um balãozinho de São João, branco e laranja, escondido atrás de uma moita? O nome dele é prisma, e eu preciso encontrá-lo! Um distinto senhor em forma de barril com uma camisa laranja se ofereceu para ajudar! Olha! Eu sou um prisma! Dando muitas risadas agradeci a tentativa, mas infelizmente ele não era o prisma que queríamos...

Os trilheiros se comoveram com nosso desespero, mas não poderiam nos ajudar e seguiram seu caminho. Eu varria a trilha por cima e Marina por baixo. Paramos, lemos o mapa de novo e invertemos as posições. Enquanto Marina varria a parte da esquerda, eu subi um pouco mais à direita. Procurava observar pegadas nos poucos pontos onde havia terra. Logo sumiram os pés de gente... e apareceram outras pegadinhas bem interessantes....com três dedinhos... de felinos....

Comecei a descer correndo e chamei por Marina.

- Marinaaaaa
- O que foi? Achou?
- Nãaaaao...., mas achei umas patas de felinos...
- E o que isso quer dizer?
- Quer dizer que vamos sair daqui...AGORA!

E descemos correndo de volta à trilha principal.

Começamos a procurar na parte mais baixa da trilha. Rezei, respirei, meditei, li o mapa de novo e de novo. Estávamos no lugar certo. Mas, cadê o prisma?

Minutos mais tarde dois distintos cavalheiros se apresentaram para ajudar. Expliquei nossa situação e mostrei o mapa. Estamos aqui. Precisamos achar esse ponto aqui ó! Eu, míope, cara de pau e sem noção, não reconheci as figuras..... Perguntei o nome de um deles na inocência e ele me respondeu: Meu nome é Sidnei. (Gente, era o Sidnei Togumi*!!!!! Eu tão azuada não reconheci na hora!)

Enfim, Togumi revisou o azimute comigo. Orientou-nos a voltar mais um pouco para a parte mais alta da trilha e depois, descer varrendo novamente. Estava certo. Só podia ser ali.
Togumi e seu companheiro de trilha seguiram seu rumo. Se fosse um vídeogame, Marina e eu já teríamos gasto todas as vidas e todas as dicas do pônei, da fada ou do mago.... Nada adiantou. Empacamos naquela fase!

O aprendizado mais amargo desse episódio é que mesmo tendo tudo a nosso favor, às vezes simplesmente não conseguimos. Tínhamos fôlego, o clima estava ótimo, o mapa estava claro, o azimute estava certo, pessoas maravilhosas surgiram para nos ajudar... E mesmo assim, não achamos o prisma. Fico pensando o que o Universo queria me ensinar naquele momento. Por que, mesmo fazendo tudo certo, às vezes as coisas dão errado? Por quê? Por quê? Por queeeeeeeeeê?

Já estávamos há quatro horas naquela montanha. Era momento de tomar uma decisão. Eu pedia a Natureza que me desse uma pista. Se esse prisma está aqui, eu tenho que achá-lo. Eu sei caçar prisma! Já faço isso há anos!

Mas, não achamos. Engolimos a frustração e decidimos descer. Ainda tinha muita corrida pela frente. Voltamos para a transição. Eu muito frustrada, mas procurando manter o astral em alta. Afinal, estamos aqui para nos divertir. Não para sofrer. Meu copo mental caiu e quebrou. Não estava mais cheio nem vazio...não tinha mais copo...Tive que mentalizar outro e achar com o quê encher!

Subimos e descemos o cruzeiro seguinte. Aproveitamos para botar a conversa em dia, xingar uma meia dúzia de palavrões e aproveitar a vista, sempre sensacional. A descida do cruzeiro até que foi bem legal. Ensinei Marina a cair de bunda com classe (como uma "diva" ela me disse) e trocamos mil e quinhentas ideias sobre a vida. Trail terapêutico, eu diria!

Voltamos para a largada, onde era a transição, decididas a fazer melhor o trecho de bike.  

Ainda vimos o quarteto dos aventureiros batendo sua segunda transição. Eles nem viram a gente, de tão empolgados. Eu não quis atrapalhar. Estávamos muito muiiiiito atrasadas! Mas, ainda tinha muita prova pela frente! 

Pegamos a bike e fomos atrás da trilha para os prismas 5 a 10. Intuitivamente, acabamos pegando o “caminho errado” que na verdade estava certo. E quase mudamos nossa estratégia para pegar os prismas no sentido certo. Porém, quando me dei conta, avisei a Marina que logo me alertou o que havíamos combinado. Decidimos então voltar e pegar o estradão que ficava perto da descida do segundo cruzeiro.

Um estradão bonito e técnico. Bastante pedra e um pouco de areia. Deve ter sido palco de algum Brasil Ride. Fiquei feliz de ter conseguido pedalar ali, pois não era nada fácil. Principalmente, porque no sentido que fizemos, era subida.

Primeiro, passamos pelo que deveria ser a entrada da trilha do prisma 8. Registramos mentalmente, mas deixamos para lá, pois ele só nos interessava na volta. Tínhamos que achar uma trilha à direita, contornar uma montanha e só então começar a pegar os prismas 5, 6, 7 e 8, no caminho de volta.

Uma distração e acabamos passando da trilha certa. Entramos numa outra trilha, 300 metros adiante. Essa, nos conduziu a um matagal fechado que não tinha mais como pedalar. Víamos a montanha, mas nada de trilha. Começamos a carregar as bikes. O azimute batia certo e a geografia também. Era só contornar o morro. Se tivéssemos condições de rasgar o mato, dava para acessar por ali. Mas, não tinha como. Achamos muitas pegadas e marcas de bike, indicando que teve gente se perdendo por ali, mas elas logo sumiam, indicando que eles tinham desistido desse caminho.

Eu ia seguindo as pegadas e marcas de bike, que não eram poucas, mas a maioria dos pés estava no sentido inverso, pois as pessoas normais fizeram a trilha no sentido certo! De tanto olhar para o chão, achei mais uma marquinha interessante.....

-Marina, está vendo essa pegada? É de gente, não é?
- É sim! Tênis ou sapatilha
- E essa aqui? É de quê?????
- É de onça!?!?!?! Kkkkkk E essa é bem gorda!

Começamos a elocubrar se nossa amiga onça estaria com fome. E se ela aparecesse? O que a gente faria?

- Lucy, você está com seu canivete?
- Sim! 
(A essa altura eu já tinha tirado da mochila e estava com ele ao alcance da mão, como se isso fosse adiantar de alguma coisa em caso de.... você sabe...onça!)
- E se..... aparecer alguém.....tipo... um bicho...
- Não se preocupe! Não vai aparecer nenhum bicho – disse com disfarçada firmeza . Vamos atrás dessa trilha logo enquanto é dia! (Preocupações reais invadindo minha mente).

Nos batemos muito nessa trilha, até que desconfiamos que não era essa. Precisávamos voltar para o estradão e achar a trilha certa. Voltar como? O mato se fechara ao nosso redor.

Marina salvou o dia quando viu uma placa da Gantuá lá do outro lado, onde seria o fim do estradão que procurávamos. Era só atravessar o mato e chegar lá.... só que não... não tinha passagem nem rasgando a canivetes!

Ela então sugeriu que passássemos por dentro do rio, o que acabou sendo a melhor solução. Botamos as bikes no ombro e logo conseguimos sair no banco de areia que nos dava acesso ao belo estradão, que seria palco da Ultramaratona do dia seguinte. Todo balizado bonitinho....

Estudamos o mapa e achamos o ponto em que estávamos. Voltamos a navegar! Ainda teimamos um pouco com aquela trilha, que estava no mapa e deveria dar acesso ao morro, mas não era ela. Prestando bastante atenção, finalmente achamos a trilha certa. Marina viu que tinha até umas fitinhas sinalizando discretamente a entrada da danada!

Muito felizes, finalmente achamos nossa trilha certa. Um belo single trekking bastante técnico, mas quase todo pedalável. Começamos a prestar atenção aos pontos para pegar na volta. Será que aquela é a lapa do prisma 7? Qual delas? Tem pelo menos umas três por aqui!

Comecei a duvidar de mim mesma. Como é que pode a pessoa não achar um prisma sequer? Até agora não sei!

Em seguida, pela distância, pensei no prisma 6. Deve ser uma pedra destacada das outras... Tudo que há naquele trecho são pedras. Todas distintas! Todas poderiam ter um prisma!

Eram quase quatro horas da tarde quando ainda faltava um quilômetro e meio para o prisma 5, quando então deveríamos voltar e atacar os outros prismas. Estava chovendo fraquinho e escurecendo muito rápido.

- Marina, são quase quatro horas. Precisamos sair dessa trilha antes do anoitecer. Precisamos tomar uma decisão difícil!

Nós tínhamos iluminação, comida e água. Mas, também, tínhamos juízo. Eu sabia que ninguém mais ia passar por ali, pois os outros atletas já estavam muito longe. A trilha era fechada e seria difícil alguém nos achar em caso de problemas. Foi a decisão mais difícil que já tive que tomar em corridas de aventura. Mas, considerando as circunstâncias, e sentindo-me responsável por toda aquela situação, achei mais prudente sugerir que voltássemos.

Marina concordou e com a doçura que lhe é peculiar, ainda me disse, que mesmo não tendo achado nada, a experiência tinha valido a pena. Eu quis chorar, mas não era hora. Precisávamos chegar antes do anoitecer. Esse era o foco agora. Ia ter que me lembrar de marcar no outlook a hora de chorar. Teria que adiar isso para mais tarde.

Sugeri a Marina que tentasse pedalar, pois assim, chegaríamos mais rápido. Havia trechos difíceis em que eu tinha que descer da bike, mas boa parte era pedalável. Marina se esforçou o quanto pôde e pedalou bem, mas, o terreno era bem técnico e ela está ainda aprendendo. Devido a isso, acabou tomando três quedinhas. Graças a Deus, nada grave, mas deu para colecionar uns roxos. A cada queda, ela engolia o choro, sacudia a poeira e seguia em frente como se nada tivesse acontecido. Uma autêntica Penélope do Agreste!

Prisma nóis num acha, mas é cada selfie que nóis tira!
Como já estávamos voltando e a corrida já estava perdida mesmo, o negócio foi descontrair. Conversamos, cantamos, xingamos, imaginamos histórias, ....pedalamos o que dava e tiramos selfies....

Em dado momento, Marina se queixou de dor.

- Ai... tá doendo tudo.... (reclamou Marina)

Aproveitei a deixa para extravasar uma nova cantoria...Pedi licença poética para o Renato e abri a garganta no meio do mato


♫Tudo é dor... E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor... Quando o Sol bater na janela do seu quarto ♫ Lembra e vê Que o caminho é um só..♫ ...Por que chorar, se podemos começar tudo de novo. Agora mesmo!

Marina agora sabe coisas de mim que nem minha mãe sabe, graças a essas quase oito horas de convivência. Eu também estou sabendo um monte! Mas, não conto pra ninguém! O que se fala na trilha, fica lá...Só as pedras por testemunha....

E Alan Pedreira, da Gantuá! Que apareceu do nada seguindo a gente no final.... Alan, você não ouviu nada, hein! Bico calado! :):):):)

O que levo dessa corrida é o aprendizado. Fiz uma nova amizade, aprendi que mesmo com todas as condições favoráveis, nem sempre tudo sai como gostaríamos. Aprendi que preciso navegar mais para aprimorar a técnica. Desanimada? Jamais. Já saí da prova pensando em treinar para as próximas! No domingo seguinte era a final do campeonato de orientação e eu precisava ir lá e provar para mim mesma que ainda sei achar prismas!

Vamos melhorar a navegação e continuar treinando.  Cada corrida é uma nova oportunidade de fazer melhor. Na próxima, vamos pegar a p#rr@ toda!

Marina foi batizada no mato. Venceu o Cruzeirão, o medo de pedalar e o medo de onça! Continue treinando que você tem muito futuro. 

Conviver com essa galera não tem preço. Alegria, raça, amizade, companheirismo. Minha vida é outra desde que conheci vocês. Muito melhor! Amo cada dia mais!

Chegada do quarteto - Medalha de Bronze na prova e Prata no campeonato
O Pódio dos Aventureiros
A galera mais alto astral do planeta!


Aventureiros do Agreste - Retroceder NUNCA, Render-se JAMAIS, Divertir-se SEMPRE!

* Sidnei Togumi - Representante da Confederação Brasileira de Atletismo para Corridas em Montanha e Trilha. Grande atleta e gente boa! (https://sportlife.com.br/blogs/)

Nota de fim:  A menção aos produtos da Mãe Terra foi uma propaganda espontânea. É só porque gosto dos produtos mesmo. Não temos patrocínio dessa empresa.