quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Desafio dos Sertões 2017 -

Piçarrrão – Sento Sé - 08 de setembro de 2017

A edição anterior do Desafio dos Sertões foi em 2015. Nela, corri com Vand, meu parceiro desta e de outras vidas. Naquela prova, fomos vencidos pela Caatinga. O calor e o fim da nossa água fizeram com que desistíssemos de alguns PCs. A prova foi duríssima, mas a experiência inesquecível! A sofrência está relatada neste blog: Desafio dos Sertões 2015

Terminei aquela prova decidida a acertar as contas com o Sertão. Prometi voltar e superar meus reais limites. Promessa feita, promessa cumprida. 2017 e cá estamos nós enfrentando a Caatinga novamente.

Este ano, corri com Luciana Kroger, recém chegada às corridas de Aventura, com enorme potencial de se tornar uma atleta bem completa. Corremos a categoria de 60 km como “Penélopes do Agreste” – parte feminina da equipe dos Aventureiros.

Esta é nossa segunda competição juntas. Nossa outra experiência foi na Peleja, prova realizada em Cachoeira, interior da Bahia, em abril.

Nossos atletas da elite dos Aventureiros do Agreste correram em duas equipes, ambas na prova longa, (de 130 km): Lulu e Vitor como dupla mista e Vand, Gabi, Mauro e Scavuzzi no quarteto. 

Além de pessoas maravilhosas, são lindos....

As fotos da concentração antes da largada mostram o clima de amizade e descontração, características desta equipe, uma das mais tradicionais da Corrida de Aventura. Campeã em simpatia, persistência e coragem. Essa turma aí não desiste nunca!

Desafio dos Sertões - A alma da Corrida de Aventura na Bahia

Foco, Força e Fé

A prova foi organizada por Walter Guerra e uma valorosa equipe. Eles pensaram em cada detalhe e o carinho dos organizadores podia ser visto e sentido por todos os lados. Desde o apoio pré-corrida ajudando a encontrar alojamento para todos, até o patrocínio da Gatorade que garantiu "suquinho de uva temperado" geladinho para todo mundo na largada e na chegada.

Antes do Briefing, no Posto Zé das Moças, assistimos a uma peça montada por um grupo de teatro local. Exaltando a Caatinga e as histórias do nordeste, a meninada deu um show de talento!
 Ao ver aqueles meninos dançando, declamando poesia e contando as lendas do nordeste, confesso que fiquei emocionada. As lágrimas correram soltas... e isso foi só o começo.

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser  (Bráulio Bessa)
Sou o gibão do vaqueiro, sou cuscuz sou rapadura
Sou vida difícil e dura
Sou nordeste brasileiro
Sou cantador violeiro, sou alegria ao chover
Sou doutor sem saber ler, sou rico sem ser granfino
Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser
Da minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado
Do nosso solo rachado, dessa gente maltratada
Quase sempre injustiçada, acostumada a sofrer
Mais mesmo nesse padecer eu sou feliz desde menino
Quanto mais sou nordestino, mais orgulho tenho de ser

Digo que nasci no Rio de Janeiro por um acidente geográfico. Sou nordestina por origens familiares e cultura. Minha mãe é cearense e meu pai, sergipano. Ela, nascida em Boa Viagem – interior do Ceará, perto de Quixeramobim. Ele, ribeirinho de Propriá do São Francisco. As histórias que eles me contavam e as referências que tenho de criação e costumes me trazem muito orgulho dessas origens. 

O desafio dos sertões é uma tradição da Corrida de Aventura. É  objetivo de vida de todo atleta desse esporte. A maior característica da competição é que o adversário é a Caatinga. Baixa umidade, muito calor de dia, ventos secos e frios à noite. Muita poeira, espinhos e pedras. Ambiente inóspito e duro. 

Há cerca de 700 km de Salvador, o local escolhido pela organização este ano foi o município de Sento Sé, próximo a represa de Sobradinho.
A água e a geração de energia vêm da Barragem, um estrangulamento no meio do Velho Chico que formou o (que já foi o) maior lago artificial da América Latina.


Atualmente, o lago conta com menos de 7% de sua capacidade, que vem minguando ano a ano. Sem políticas públicas de otimização do consumo e sem consciência ambiental na nossa população, estamos matando o Sobradinho e ferindo de morte o Rio São Francisco. 
Espero que competições como esta ajudem a conscientizar a Sociedade sobre este drama. Precisamos salvar o Velho Chico.

Para emocionar ainda mais, Waltinho e sua turma montaram um clipe com todas as edições anteriores desta corrida. Apareceu lá o casamento dos Aventureiros Lu e Vitor, em 2014; A nossa participação em 2015 e muitas outras cenas inesquecíveis. A história do Desafio dos Sertões é linda. Escrevo esta resenha com o genuíno desejo de que tenhamos muitas e muitas outras edições. E que esse esporte ajude a dar visibilidade ao sertão e principalmente, que contribua para a preservação da Caatinga. A terra é boa. Sabendo manejar, ela trará muita prosperidade e fartura para aquelas comunidades e também para todo o Brasil.

A Largada

"Te vejo na chegada
Sei que cada pegada minha tem sangue e suor
Porque eu me preocupei em fazer bem
E não em ser melhor"

A inovação este ano veio com a entrega dos mapas praticamente na hora da largada. Com pouco tempo para marcar distâncias e traçar estratégias, a corrida teve que ser feita ponto a ponto. Isso tornou a prova ainda mais desafiadora. Pessoalmente, eu gostei da mudança. Faz com que a gente mergulhe de cabeça na prova e tenha ainda mais atenção no percurso. 

Traçamos nossa estratégia até o PC-1 e quando vimos, já era hora de se posicionar no pórtico de largada. Ainda conversava com Lu Kroger quando escutei a vuvuzela e os fogos de artifício, anunciando o início da batalha. Corri para dar um beijinho de boa sorte no marido e me preparar para a partida.

Quando os fogo estouraram, a manada estourou junto. Saiu todo mundo correndo. Meu coração já batia na garganta, mas eu tinha que poupar fôlego. Sabia que tinha muita prova pela frente. 

Começamos um trotezinho leve, mas constante. Conhecendo minha condição de treino, eu já sabia que se puxasse demais naquele momento faltaria fôlego para a escalaminhada que estava por vir. Lu Kroger, corredora já experiente, estava a todo vapor, mas segurou a onda para me acompanhar.

A navegação para o PC-1 foi bem fácil, pois era só seguir o estradão e a manada....Batido o primeiro, atravessamos o que um dia foi rio, mas hoje virou um charco quase seco. Só serviu para sujar o tênis de lama e ver alguns bichinhos interessantes, como esse simpático guaiamum aí do lado[1]

De acordo com as referências, esse bichinho pode ficar bem grande e a fêmea, na época da desova, fica com o corpo da cor das patinhas. O exemplar que eu vi devia ser uma fêmea e estava bem gordinha.... 

Feita a travessia, era hora de deixar os bichinhos em paz e começar a navegação de verdade.

A Montanha de pedra e o Azimute de ouro - Você precisa de FOCO - um objetivo pra alcançar

A primeira decisão importante era localizar uma estradinha que nos daria acesso a entrada para a trilha do PC-B como mostra o mapinha aí ao lado. 

Na nossa estratégia inicial, pegaríamos o B e retornaríamos para atacar novamente o morro pelo outro lado e pegar os prismas C e A na sequência.

A escala era de 1:100.000, ou seja, cada centímetro no mapa corresponde a 1 quilômetro no terreno. Qualquer milímetro, transposto para o mundo físico já significava uma enorme distância. Isso nos trouxe uma dificuldade inicial, pois para achar a estradinha, primeiro tínhamos que seguir uma trilha aberta ao longo de um rio seco. Achamos o rio, mas estávamos em uma paralela do azimute, fora da trilha, já começando a rasgar mato logo na primeira hora do percurso.

A manada já havia se dispersado, com cada equipe seguindo sua estratégia ou se perdendo mesmo. Várias luzinhas se espalhavam em diferentes pontos. Tínhamos como referências o morro, com a TMA[2] que seria nosso prisma C, piscando feito árvore de natal, mas não achávamos a trilha principal. 

Paramos para analisar o mapa e nossas reais possibilidades de achar ou não a trilha. Decidimos voltar para um ponto conhecido e reiniciar a navegação, quando vimos duas luzes vindo em nossa direção. Era a dupla BB Brindes com Plínio e Ricardo Omar. Duas pessoas iluminadas e atletas muito experientes. Conversamos com eles e decidimos seguir juntos naquele trecho, pois precisávamos de um bom azimute. Ou melhor, precisávamos de um azimute de ouro... 

Plínio, nosso precioso mestre azimútico,  comandou a navegação nesse momento. 

Buscando aprender, mantive meu mapa aberto o tempo todo observando as decisões e procurando participar das discussões, na medida em que conseguia contribuir. Temos que aproveitar essas oportunidades, pois não é todo dia que damos uma sorte dessas!

Essa foi a melhor parte da prova. Um trekking dificílimo, mas gostoso. Mesmo com a navegação precisa do Plínio não foi tão fácil achar a trilha. Muitas equipes andavam perdidas por ali literalmente se batendo pelo mato. Numa dessas, esbarramos com Lulu e Vitor que procuravam a mesma trilha que nós e seguiam pelo caminho que já tínhamos feito, só para descobrir que não era ali. Tentei avisar a Lulu, mas ela preferiu descobrir por si mesma...E descobriu rapidinho, por que é muito esperta!

Por fim, os aventureiros acharam o PC B e nós também.  
Mas aquele era apenas o primeiro PC letra...Ainda faltavam dois... Nessa hora, seguimos a estratégia da BB brindes que era continuar pelo morro mesmo. Isso implicou em muita coragem muita confiança na bússola, pois a trilha acabava e teríamos que rasgar a Caatinga morro acima. Se estivéssemos sozinhas seria bem arriscado, comprometendo não só a prova, como a nossa segurança. Não teríamos conseguido fazer esse trecho sem a BB brindes. Nossa gratidão eterna ao Plínio e ao Omar!

Daí em diante, haja joelho, pernas e braços... Era preciso o corpo todo para escalar aquele morro. E manter a mente firme para não pensar em dor, frio, sede ou fome... Éramos puros Foco e Força!

A essa altura, Lu e Vitor já estavam novamente conosco. Fizemos a escalada todos juntos em um astral super alegre com Lulu falando consigo, comigo e com todos. Vitor, animando a galera com suas frases espirituosas – Vamos gente, só o “cume interessa”. Lu Kroger e eu, procurando manter o ritmo para acompanhar as lendas vivas que estavam ali.

Estávamos brincando de fazer trilha. Todos muito felizes e falantes. Tinha até gente cantando...

Mandacaru quando flora lá na cerca.... ia cantando Plínio afinada e alegremente....Mais um talento descoberto (ou melhor, encoberto pelo mato)

A cantoria foi logo interrompida por lamentos de dor.... aiaiaiaiaiaiai

Era Plínio. De tanto invocar o espírito agreste, ele baixou em um mandacaru gigante em que Plínio segurou com força, confundindo com uma árvore. Com uma das mãos em brasa e cheia de espinhos, o valente corredor teve que comer a dor e seguir adiante. A pedido dele, botei um spray de gelol para ver se o ardidinho da cânfora aliviava a dor das espetadas. Espero que tenha funcionado.

E sobe o morro, que aqui não tem mimimi....

A subida foi gostosa. Como todos haviam se poupado na largada, estávamos com o fôlego em dia. Subimos num só ritmo e não paramos por nada. Ia tudo ficando mais difícil a cada passo. Cada atleta procurava se alimentar e hidratar de forma comedida, para evitar passar mal. Éramos então três equipes em três categorias diferentes - dupla feminina 60 km, dupla mista 130 km e dupla masculina 130 km. Não havia competição, mas sim cooperação e amizade. Confesso que curti subir aquele morro com essa galera. Confesso também que não subiria sem eles...

Parte do percurso eu fiz deitada mesmo, feito uma lagartixa do Agreste. Numa dessas escorreguei e fui de boca ao chão. As unhas dos pés, já em estado lastimável, insistiam em topar e tudo... toco, pedra, pau....Achei que tinha quebrado um dedo, mas não dava tempo de conferir e deixei pra lá...Comi a dor com carbogel e segui adiante.

No meio do sofrimento, encontramos o quarteto Aventureiros já descendo. Deu tempo de pegar umas dicas com eles e de quebra, dar mais um beijinho no marido...Essa é a parte boa de não corrermos juntos. A gente não tem tempo de brigar e se beija mais....(quem nunca brigou com seu parceiro de corrida é por que ainda não correu direito...#ficadica).

Demo-nos conta de que havíamos passado do prisma A, mas não desistimos de continuar a subida. Resolvemos então atacar o “C” – pois a antena estava bem visível e piscante. Daria para pegar o que faltava na volta. 

Escalando aquelas pedras soltas eu já comecei a pensar como seria para descer... Mas, enfim. Na corrida como na vida,  vivamos um PC de cada vez.

Chegando na TMA foi uma festa. Mais fotos para o registro e sem pausar, vamos descer, que ainda tem muito morro pela frente.

Você já fez esqui-bunda nas pedras? Pois é, mais uma modalidade desse esporte que há cada dia me surpreende mais. Tomando cuidado para poupar os joelhos já gastos, eu desci quase tudo de bunda mesmo... Até cair sentada em cima de uma pedra bem em cima daquele ossinho de nome difícil... até hoje sento de ladinho...hehehehe.

Vitor Hugo disparou na frente e rasgando mato com força, ajudou a equipe a localizar o prisma A. 
PC A com participação especial do grande parceiro, Omar!

Quando a descida acabou, percebi que havia deixado mais que calorias naquele morro.... Parte da minha calça havia ficado por lá. Um ventinho gelado e um respeitoso aviso dos colegas me alertou que algo de errado não estava certo em minha compostura...

Numa hora dessa só que nos resta é entrar na brincadeira e rir de si mesma, junto com todo mundo que já ria a litros... Passei a mão para medir o tamanho do estrago e vi que não era muito, mas o suficiente para expor uma parte significativa, da minha também significativa buzanfa.... Ainda bem que era madrugada e estava bem escuro...

Lembrei do meu agasalho, que só tinha levado por que era equipamento obrigatório. Não sinto muito frio quando estou correndo e achei que o casaquinho seria inútil, mas ele se mostrou mais que importante nesse momento. Amarrei o dito cujo na cintura, sob protestos da galera e logo já estava de novo recatada, apesar da torcida ter chiado um pouco...


Mantivemos o trekking forte até voltar a transição. Já era dia quando chegamos no PC 5. Encontramos o quarteto dos Aventureiros se preparando para sair para o próximo trecho. Nessa hora, as equipes se dividiram, pois cada um precisava seguir seu rumo. Nossa categoria era a mais curta e agora só teríamos um trecho de bike pela frente, antes de concluir a prova.  O restante do grupo ainda enfrentaria mais dois trechos, um de bike e um de trekking e, se tudo desse certo, ainda pegariam o remo antes da chegada.

O pedal no areal - Você precisa de força - pra não desistir de lutar

Em comum acordo, no trecho de bike a navegação ficou por minha conta. Procurei medir as distâncias com cuidado, pois essa era a chave desse percurso. A navegação em si não era difícil. Só não poderia vacilar nas escalas. Com a marcação precisa das distâncias, achamos o PC O sem dificuldades. 

O PC O ficava em uma casa, que só depois da prova soube que estava abandonada. Assim que chegamos, eu vi movimento dentro da casa e já passei no portão dando bom dia. Imaginava até encontrar alguém ali para me oferecer um cafezinho... mas, fui alertada por Lu Kroger de que a casa estava vazia.... 
- Oxi, mas eu vi coisa se mexendo lá dentro. Pensei que tinha alguém em casa
- Tem não, doida. A casa está vazia... deve ter sido o vento... 

Dando risada tiramos nossa foto e nos mandamos dali... pelo relato das demais equipes, eu acho que tinha gente ali sim, só não sei se essa "gente" era desse mundo.....hahahahaha

Pela minha estratégia, que só depois da prova vi que não foi a melhor, decidimos voltar dois quilômetros e assim pegar a trilha direto para o PC P. O vento contra, o calor do dia já alto e a areia fofa foram adversários de respeito nessa hora.  Luciana se saiu muito bem em seu brinquedo novo (uma bike de 29 polegadas que trazia a energia de Arnaldo – outro atleta de elite). Em vários trechos, ela abriu uma boa dianteira e eu tive que girar as catraquinhas para acompanhar. 

Marcando as distâncias bem certinho no mapa e seguindo as trilhas corretamente, fiz uma navegação segura e consciente até o P - A melhor até agora. Fiquei muito satisfeita comigo mesma J. Pedalar no areal, contra o vento e trilha acima, depois de 6 horas de trekking não é tarefa fácil. Procurei manter o ritmo e pedalar o máximo possível, evitando empurra-bike, mas houve trechos em que não havia escolha. O pedal foi lento, mas constante. E a parceria da Lu, fundamental!

No PC-P paramos para decidir se pegávamos o PC-N ou não. Este era um PC-bônus que daria uma hora e meia de vantagem para quem o pegasse. Entretanto, atacando esse ponto por ali, teríamos que vencer um estradão de 5 km, na areia, curva de nível acima (sem falar nos 5 km da volta, que mesmo sendo descida, ainda são lentos devido ao areal). Pelo ritmo em que estávamos e com dois dedinhos de água no squeeze, acabamos optando por não pegar o PC-N. Decisão tomada, voltamos para a trilha, rumo a chegada.

Os primeiros seis quilômetros da volta foram uma belezinha. Agora foi minha vez de assumir a dianteira, devido a ter aprimorado a técnica de descidas, mesmo em trechos de areia. Ainda assim, não foi fácil e a bike atolava várias vezes. 

Dá uma olhadinha no naipe do terreno que a gente tinha que passar. Um calor dos infernos e nem uma sombrinha para abrigar.

Eu contava um metro de cada vez e o pedal ia ficando cada vez mais pesado. Ora eu parava, ora Lu parava. Ora era a sede, ora os joelhos. Cada atolada na areia era um "ai". As patelas não gostam de desclipar e reclamaram bastante.

Quando a água acaba - Você precisa de FÉ, pra se manter de pé

No meio do caminho, ainda faltando uns 8 km para a chegada, faltaram-me as forças. Eu parei perto de um espinheiro. Um arremedo de sombra, porque não tinha mais fôlego nem água. Lu parou comigo. Cansada e com dor, ela também estava com sede. Em silêncio, as duas fizeram suas preces. Sem saber que Lu também rezava, eu conversava com Deus.... - Senhor, eu sei que me meti nesse mato por minha conta e risco. Mas, um pequeno milagre não faria mal... Bem que podia passar alguém aqui com água...

Antes que eu terminasse a prece, passou uma caminhonete levantando poeira. A princípio, pensamos que ia embora, mas o veículo voltou de ré e perguntou se estávamos precisando de algo. Eu, desanimada perguntei se ele tinha água, e a resposta foi não.... Comecei a chorar baixinho... - Tudo bem, moço. A gente só estava precisando de água mesmo.... Comovidos, não sei de onde, tiraram uma garrafinha e deram pra gente. Acho que deram a água deles. Agradeci em prantos e bebemos a água com a alegria dos sedentos. Eu parecia uma refugiada de guerra. Empoeirada, rasgada, estrupiada e com sede...

Daqui a pouco, parou uma moto e lá vem uma moça toda sorridente com mais uma garrafinha... E logo, chegou outro carro com mais água....GELADA!!!! Lu Kroger parecia uma criança....Água geladinha....geladinha.....Eu chorava feito besta....

- Gente, eu tô bem... Só estou emocionada. Eu estava fazendo uma prece quando vocês chegaram. Eu estava pedindo água. Foi quando Lu Kroger disse que também estava rezando. E já tinha chamado por seus antepassados nordestinos. Pedindo força para concluir a corrida! Do nada vi que tinha uma câmera, e que estava nos filmando.... Estou curiosa para ver... Não sei se vou rir ou chorar de novo....

Refeitas e alegres, seguimos nosso rumo. Eu só queria chegar. Sabia que a água ia acabar logo e naquele ritmo, ainda teríamos uma hora de pedal-empurra-bike. 

Chegamos em uma cisterna, mas eu nem queria parar - tolo erro. Lu, mais esperta, parou e pedindo licença a uma cabrita que havia chegado primeiro, pôs-se a banhar-se na cisterna. Molhou a cabeça e voltou toda fresquinha, como se tivesse acabado de começar a prova. Ela me chamou para ir, mas eu estava contando os metros. Só a chegada me interessava. Para completar, tinha um boi na fila para beber água e achei melhor não afrontar o dito-cujo....

Foi um erro não ter me banhado com a cabrita...

Faltando quatro quilômetros para a chegada, e já me sentindo fraca, resolvi comer um pedacinho de barra de proteína. A água já estava novamente acabando e eu enjoei violentamente. Tive que parar outra vez e quase achei que não ia mais conseguir... Mas, não tinha como desistir agora.... Já tínhamos feito o percurso  quase todo, virado a noite, subido morro de pedra, pedalado em areia contra o vento... Como desistir agora? Nem pensar.... 

Lu foi atrás de água e me ajudou a recuperar o que sobrava de forças. Onde parávamos, sempre tinha quem oferecesse um copo d'água, um incentivo. Numa das casas havia uma avó e uma neta. A avó nos ofereceu sua água e a netinha, Rose, pô-se a conversar. - Eu acho essas bicicletas bonitas...  Eu tenho oito anos... Uma menina linda. Eu disse a ela que se ela estudar e trabalhar bem direitinho, um dia teria uma bicicleta igual a minha... Eu ainda não sei ler...

Pois aprenda, Rose. Se esforce. Você vai ter que se esforçar o dobro. Para vencer a falta de recursos, a falta de atenção do Estado, a falta de opções e a falta de respeito. E vai ter que se esforçar ainda mais, pelo simples fato de ser uma menina. Mas, valerá a pena. Não desista!

"Tudo o que você precisa é de Foco -  um objetivo pra alcançar; Força, pra nunca desistir de lutar e Fé, pra se manter de pé enquanto puder.
Aqui um em um milhão nasceu pra vencer. Mas nada impede que esse um seja você !
E tudo que você precisa ter é - Foco, força e fé
(Projota)

Com muito esforço, vencemos a trilha final até o vilarejo. Entrando na vila, um grupo de pessoas começou a nos aplaudir. Chamavam-nos de guerreiras. E é o que fomos neste fim de semana. Mas os verdadeiros guerreiros são eles, que vencem a Caatinga todos os dias! 

Quase sem voz, e exausta, eu só pedia que Lu me esperasse para passarmos juntas na chegada. Só voltei a me animar quando vi o pórtico. Aí foi embora o cansaço, a dor, a sede, o enjôo e tudo.... Pedalei com força e alegria! Concluímos a prova e passamos juntas no Pórtico! Eram 13:00. Completamos o percurso em catorze horas!

Fizemos festa para nós mesmas e a alegria era tanta que chamamos a atenção da organização e de quem já descansava na chegada. Logo veio Ana Paula e fez essa linda  e inesquecível foto. Vencemos! Primeiro lugar na categoria duplas mistas/femininas 60 km! Uma corrida para entrar para a história!

                      

O sertão não é pra qualquer um. Ele exige respeito. O sertão molda o caráter. Ensina a ser gente!

Desejo que voinha tenha saúde para terminar de criar a Rose. E que Rose estude, se forme e trabalhe. Desejo que Rose compre uma bicicleta. E que se torne uma Penélope do Agreste.

A essência de um homem de verdade,
vem do pai pra formar um cidadão,
vem da mãe pra lhe dar educação,
e um menino vira homem de caráter.
Macho véi, com muita sinceridade,
Eu lhe digo que aqui no meu sertão,
caráter e honestidade são coisas de criação,
tem família que sofre com sede e fome,
sem dinheiro, sem luxo e sem “sobrenome”,
12 filhos e nem um vira ladrão.
Bráulio Bessa

FOCO, FORÇA e FÉ

Obrigada a Deus pela lição de Fé. Obrigada pelo pequeno Milagre. Obrigada a minha mãe, pelas orações e a Sílvia Prófumo pelo incentivo e vibrações positivas. Obrigada so meu esposo pelo apoio e companheirismo de sempre

Obrigada a Waltinho e equipe por esta prova maravilhosa.
Obrigada a minha parceira Lu Kroger pela força!
Parabéns a todos os atletas pela superação
#DesafiodosSertões2018 - #Partiutreinar



[1] Na hora não tirei foto. Peguei essa aí do google
[2] TMA – Torre de medição anemométrica



[i] Pontos de controle – passagem obrigatória que os atletas tem que localizar se orientando somente com mapa e bússola.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cambo IV Etapa - Campeonato Baiano de Orientação - 03/09/17

CAMBO IV – 03 de setembro de 2017

Quarta etapa do CAMBO – O campeonato Baiano de Orientação. Fazenda Xavante - São Gonçalo dos Campos - Bahia
Local da Largada

Eu invariavelmente tenho dor de barriga antes de qualquer competição. Bate nervosismo, penso em desistir cento e cinquenta vezes. É uma guerra interna entre o desejo de me divertir e o medo de dar tudo errado.

Nessas horas, temos sempre uma escolha a fazer: Ficar em casa vendo um filme de aventura no Netflix, com todo o conforto e segurança na solidão do lar...ou... Sair da cama quentinha em pleno domingo de manhã para se embrenhar no mato, se arranhar na tiririca e se cobrir de lama...junto com mais um monte de gente doida!

Em um dilema como esse, só o que a gente precisa é de alguém para segurar firme em nossos ombros, olhar no fundo dos nossos olhos e dizer com todo amor: “Larga de mimimi. Levanta dessa cama. Vai lá e navegue sua p#rr@!”.

Eu fiz esse exercício de amor aí que acabei de citar e decidi que ia correr. Naturalmente, que mal dormi.... Naturalmente, que tive dor de barriga, e de cabeça, e no joelho... Pensei nos relatórios que ainda tenho que ler e no vôo que ainda tinha que pegar no mesmo dia à noite...Aí choveu horrores... As portas batiam, as janelas rangiam e os fantasmas rondavam minha cama... Você vai chegar em último...É muito lenta... Não vai conseguir enxergar o mapa com essa chuva...Não vai dar tempo de revisar aquele relatório.....Vai perder o avião.....

Esses conflitos internos não são brincadeira. Os médicos chamam isso de “ansiedade”. Tem até remédio... tarja preta... Mas, eu prefiro sair correndo...literalmente. O contato com a natureza acalma e cura. Deveria ser receitado pelo médico: Respire cheiro de mato e pise na lama por duas horas, ao menos uma vez por semana...e pode abandonar os ansiolíticos...

Alguém aí também passa por isso? Sinta-se acolhido(a). Compartilha aí como lida com o  seu nervosismo. Ansiosos - uni-vos!

Por um daqueles acasos que só Kardec explica, Gabi e Mauro nos pediram carona. Foi muito bom. Melhor que isso! Garantiu uma chegada segura ao local da prova, o que reduziu bastante o meu stress. Ainda encontramos Andrea Ulm no caminho e seguimos todos de comboio. Não sei se acertaríamos o caminho sem eles. Além disso, a conversa foi muito boa. Um astral super alegre. Só isso já recompensou a minha decisão de sair da cama.

Antes da largada, houve um momento muito especial. Aquela turba barulhenta de mais de 300 pessoas de repente silenciou o “converseiro” para cantar o Hino Nacional. Completo, com segunda estrofe e tudo! Adulto, velho e criança. Todos juntos em um coro emocionante. Eu sempre fico com a voz embargada na segunda estrofe. Desde de criança. Não sei porque, mas adoro essa parte do Hino: “Mas se ergues da Justiça a clava forte. Verás que um filho teu não foge à luta. Nem teme quem te adora a própria morte...”.

Todos os dias, milhões de brasileiros enfrentam suas próprias lutas. Contra a ansiedade. Contra a depressão; pelo pão de cada dia; enfrentam preconceitos, limitações físicas, dificuldades de acesso. Andando em ônibus lotados, sendo assaltados, aturando governantes corruptos, pagando impostos abusivos. Sobrevivemos. Construímos e prosperamos. Sem apoio. Apesar do Governo. Apesar da violência. Contando somente com a firmeza de propósito e a força dos nossos braços para o trabalho. Se por um lado, uma parte do nosso povo é mal educada e corrupta por natureza, por outro lado, somos muitos do lado do bem! Corajosos, criativos, otimistas e persistentes. Somos brasileiros, e não desistimos nunca, ora pois!
...
Ainda chovia no início da prova e logo os primeiros aventureiros foram ganhando a pista. Mauro, Lulu, Victor, Vand, Andrea.... Eu larguei quase às onze da manhã e Gabi, ainda largou depois de mim. Até chegar nossa vez conversamos longamente sobre tudo. Sobre ser mãe, sobre aceitação, sobre planos, sobre abusos...sobretudo sobre ser mulher no mundo de hoje. O mundo está mudando e nós somos agentes dessa mudança. Que bom viver em um mundo onde certas coisas não são mais aceitas. Mulheres que reagem, não desistam! Não fujam à luta! Estamos construindo um mundo mais seguro para nossas filhas e netas.

Chegou minha vez e entrei no cone de largada já com o coração na boca. Conferi mapa e sinalética e entrei na pista com o compromisso de fazer minha melhor corrida. Qualquer que fosse o resultado, daria o meu melhor. 

Procurei manter a cabeça na prova e me concentrar no mapa. Mas, logo no prisma zero veio meu primeiro desafio. Deu branco! Eu orientei o mapa, acertei “Norte com Norte”, mas o mapa não me dizia nada. Fiquei olhando para aquele monte de linhas, pontos e traços sem saber o que fazer. Respirei fundo e admiti... Deu merda, não vou conseguir sair daqui...Travei!

Um atleta se aproximou e eu tive coragem de pedir ajuda: - Moço, enguicei aqui, não consigo orientar meu mapa... Estou olhando, mas não vejo nada....Ele carinhosamente me ajudou a me situar. E me disse: - Olha, eu vou por aqui... Vem, que teu prisma é o mesmo que o meu... E passou para o outro lado da cerca. Eu o segui, com um olho na trilha outro no mapa e logo consegui me localizar. Ao achar o primeiro prisma, senti um enorme alívio. O medo passou. A corrida começou! Ufa!

De prisma em prisma fui ganhando confiança. Quando dava para correr, corria, quando não dava, andava. Mas sempre seguindo o mapa. Embora muito detalhado, estava bem certinho. E todas as referências estavam onde deveriam estar. Para não errar, eu andava por cima de cada linha daquele mapa e na dúvida, voltava até ter certeza de onde estava pisando.

A turma da organização fez um ótimo trabalho! Cada encontro de cerca, com todas as suas curvas, porteiras e reentrâncias. Cada mandacaru. Cada árvore distinta...tudo no lugar. Todos os detalhes necessários para uma boa navegação. Só faltou desenhar uns bois e porcos passeando em 3D...

Entre o quinto e o sexto prisma uma simpática competidora pediu ajuda... –Ei, você está procurando o 108? Eu ainda estava atrás do 100 (que era meu 5º. Prisma...)[i]. O tal do 108 era o meu próximo e a pessoa vinha atrás falando sem parar....Acho que é pra lá....não... .mais pra cima... Tem um povo indo pra lá, óh! Ói..., tem um prisma ali...

E eu tentando seguir meu azimute... Eu sabia que tinha que atravessar uma cerca e localizar uma outra, que deveria ser cruzada também, mas em campo aberto todas as cercas são iguais, todas as árvores são verdes e se você não tiver cuidado, sai do mapa e vai parar em São Paulo!

Antes de me perder para sempre e levar a falante comigo, voltamos as duas juntas para o prisma anterior para azimutar[ii] novamente, juntas dessa vez. Em alguns momentos, o melhor é ajudar e aceitar ajuda... orgulho demais engorda! E eu estou querendo emagrecer...J

Norte com norte...linha com linha... É para lá...Uma vez definido o sentido, travei a bússola no mapa com o polegar e saí correndo morro acima feito cabrita desembestada. Um olho no mato, outro no mapa! Minha amiga comigo. Mais adiante, encontramos outra competidora. Parada, observando a natureza.... E minha falante companheira perguntando: Ói... Você tá atrás do 108? - Sim, vou bater esse aqui primeiro (tinha um prisma do mapa dela logo em sua frente), em seguida vou atrás dele.... Está naquela direção...E apontou para sudoeste... mas, vou ficar aqui esperando aquela boiada passar...

Minha falante nova amiga perguntou se eu tinha medo de boi... respondi que não e seguimos em frente. Convidei a outra para vir com a gente. – Vamos juntas que é mais seguro...- disse eu. (Sim! Eu tenho medo de boi, mas só quando estou sozinha...rsrs. Cercada de gente eu acho que as vacas vão me respeitar... Mais um daqueles medos que não fazem sentido algum...)

Como o gado estava do outro lado da cerca, subi intrépida e deixei para atravessar só quando estava bem longe dos bovinos... Nova carreira de cabrito montês e mais um prisma para a minha conta.

E lá vem a falante corredora atrás.....(Ai meu Deus.... Ela vai ficar me seguindo agora – pensei aflita). Pessoalmente, não gosto muito que me sigam. Como também não gosto de seguir. É uma responsabilidade enorme! E se eu me perco? Ainda desencaminho alguém! Tentei ganhar distância, mas logo ela me alcançou. Ela tem boas pernas. Corre direitinho, a danada....e navega certo também... Só precisa ganhar mais auto-confiança.

Foram mais três prismas de pique-pega. Até que ganhei uma distânciazinha e cheguei ao 111 (meu décimo prisma) com alguma vantagem. Quando eu pulava a enésima cerca em busca do prisma seguinte, lá vem ela.... pulando a cerca comigo, toda animada atrás do mesmo 111 que eu já tinha pego.... Como eu sabia que ela não tinha batido este ainda, resolvi alertá-la... Com muito amor e com toda a delicadeza que me é peculiar: 

- Você vai aonde, criatura???.... Não vem atrás de mim não que você se dá mal... Teu prisma tá lá atrás. Eu já estou indo atrás de outro. Volta lá.... Pega teu mapa e ...NAVEGA A SUA P#RR@!!!....

E pulei a cerca saindo correndo em seguida... Espero que ela tenha encontrado. E que não tenha ficado chateada comigo....Foi com amor.... O jeito é de Ogra, mas o coração é de mocinha... Eu juro J.

Aqui e ali rola uma ajuda mútua sim. Não tem nada de mais. Você está perto de um prisma e alguém grita – Aêeee. Qual é o número desse prisma??? Você responde (obviamente falando o número certo, né sacana?). - OOOOh.... Tem prisma aí? Tem sim, é ali em baixo, naquela moita/árvore/pedra, dentro do toco, atrás do cumpinzeiro, à direita depois da colmeia de abelhas...enfim...

O bem que você faz, sempre volta para você. No meu caso, voltou na mesma prova. Com o mesmo amor..

Perto de um dos prismas uma atleta viu que eu tinha passado direto e me alertou... Olha, teu prisma não é aí... Você já passou... E seguiu adiante seu rumo sem olhar para trás. Ouvi o conselho e voltei. Ela estava certa! O conselho poupou-me bastante tempo. Nem vi seu nome, mas muito obrigada!

Essas dicas são valiosas. Principalmente quando você está no caminho certo, mas ainda não tem certeza disso. Ajudam a fortalecer a confiança.

Tinha prisma dentro de vala, em buraco, debaixo de cerca, no meio do mato, atrás da moita.... Onde você imaginar, o mapeador imaginou primeiro. Foi uma prova muito bem montada. Fico imaginando as risadas que os mapeadores deram pensando em nosso perrengue....Eu passei cercas tão baixas que arrastei a cara na lama...A cara, a mão, o sicard[iii], o mapa, a bússola... Tinha lama até nas sobrancelhas.

Para bater o meu prisma seguinte eu poderia atravessar um campo cheio de bois ou rodear (ou melhor... “arrudiar”) pelo estradão.... Como a essa altura eu já estava novamente sozinha, obviamente, “arrudiei”. Peguei uma trilha que saía no estradão e após a primeira esquina, quem eu encontro??? Minha amiga???? Não! Errou! Eu ficaria feliz de encontrá-la ali, confesso....

Dei foi de cara com uma boiada que resolveu seguir o mesmo caminho que eu. Cheia de novilhos saltitantes e vacas mal-humoradas... Quem é da roça sabe que onde tem novilho tem vaca braba... Elas pensam que você quer o novilho delas e ficam muito nervosas com a presença de seres humanos.... E eu que nem como carne.....Mas, como explicar isso para as vacas-mães??? Eu não falo bovinês...

Educadamente cumprimentei as vaquinhas e voltei lentamente de ré até me esconder atrás da esquina, à sombra de uma casa....Ai meu Deus.... Vou ter que ficar aqui esperando alguém passar para subir a rua comigo.... Vai demorar horas.... Socorro, Jesus.....

Mal terminei minha prece e lá vem uma moto com dois homens. Nem parei para raciocinar e fui logo pedindo ajuda:  - Boa tarde, pessoal.... Vocês se incomodam de ir bem devagar para dar tempo de andar com vocês? Tem umas vacas lá em cima e eu estou com medo de passar...
- Venha, tenha medo não... Elas não “bolem” com ninguém.... Era “Seu” Antônio, o carona... E fomos juntos pelo meio da manada. As vacas me olhando de soslaio e eu querendo sair correndo dali...No meio da vacarada, pedi licença e segurei no braço do seu Antônio...Ele desceu da moto e foi na minha frente conversando com elas... O motoqueiro ia do lado bem devagar e assim passamos incólumes!

Agradeci ao seu Antônio e aos seu motoca e segui em frente. Não vi mais boi, nem vaca, nem moto. Cada um seguiu seu rumo e só depois do fato é que pensei no que tinha acabado de fazer.... Bah! Deus protege mesmo os inocentes!

Achei a casa, o prisma e um lindo milharal... O fiscal da prova estava lá. Eu, tão azuada nem vi que tinha água... Quando vi, peguei a dele (JJJJJ). Educadamente, ele me mostrou que tinha um monte de copinhos bem na minha frente... Eu não precisava ter entrado na varanda para pegar a água que ainda estava guardada em suas caixas...Ai ai...

A casa ficava no alto e lá de cima era possível ver um monte de gente embolada no mato... Tudo perdido! Disse eu. O fiscal riu... Sabe de nada, inocente. Perdida vai ficar você! Abre teu olho!.. Ele deve ter pensado.

Peguei minha bússola e decidida atravessei o milharal, atrás dos meus três últimos prismas... decidida a não me perder. Foi um pouco difícil achar os prismas 13 e 14, mas os detalhes do mapa e uma ou outra dica quando eu já estava perto me ajudaram bastante.

Em um tempo ainda longo (112 minutos e 53 segundos), consegui completar a prova. Errando pouco, navegando com consciência e com toda a atenção na prova. Foi a melhor das 4 etapas, sem dúvida nenhuma. Normalmente, eu fico em quarto ou quinto lugar com um tempo de 20 a 30 minutos atrás da competidora que chega imediatamente antes de mim. Dessa vez, perdi meu quarto lugar por apenas 5 segundos! E para uma atleta superexperiente que está em primeiro no ranking da nossa categoria (Gabriela Carvalho). Meu objetivo foi alcançado. Foi a prova mais inteira que já fiz. Estou super contente!

E no fim, deu tempo para tudo. Para o avião, para o relatório...Até para jantar! Deu tudo certo!

A corrida de orientação é uma competição contra si mesmo. E eu me venci. Fiquei muito animada com o resultado e principalmente com a forma com que me comportei na prova. Foi uma baita vitória pessoal!

Acho que os psicólogos deveriam receitar Corrida de Orientação para os ansiosos.... É um santo remédio! Desenvolve foco, auto-confiança e controle emocional. Contra ansiedade, azimutes! Contra o pensamento acelerado, foco na trilha. Contra o medo de vacas, mais vacas! E um “Santo Antônio” para dar uma forcinha de vez em quando....

Parabéns aos organizadores pelo mapa e pela  prova. Tudo muito bem feito!
Parabéns aos Aventureiros do Agreste. Todos completaram a pista e ainda tivemos três pódios, com Luciana Freitas em primeiro na Elite; Mauro Abram (45 A) e Vanderlei Ern (45 B), ambos em segundo nas suas respectivas categorias. Um sucesso!

Aventureiros do Agreste - Galera linda que eu amo!

Ansiosa para a quinta prova. #PartiuCMS. Sem pânico, sem “branco”, sem dor de barriga. Com emoção e com amor!



[i] As corridas de orientação costumam ter de 15 a 20 prismas. Cada um deles tem uma numeração específica, que pode variar de 80 a mais de 100. O atleta tem que ter atenção para pegar os prismas na ordem correta e procurar o número que corresponde à categoria do seu mapa. Mapas de categorias diferentes tem prismas com numeração diferentes. Pegar o prisma errado, além de roubar tempo, não vale e você não pontua. Ou você tem foco, ou se foca....rsrsrs.

[ii] “Azimutar” ou “bater azimute” significa orientar o mapa com a bússola para definir o sentido que deve ser seguido em busca de um ponto determinado. É uma técnica básica de navegação. Tive uma dificuldade inicial para aprender, mas até que já estou dominando direitinho.

[iii] Sicard é um dispositivo eletrônico que carregamos preso em um dos dedos da mão nas competições. Serve para marcar os pontos de checagem (prismas). Antigamente, tínhamos que marcar uma folha de papel com picotadores. Hoje, evoluímos bem mais e o avanço dos atletas é medido em tempo real, por meio desses aparelhinhos simpáticos que registram o número e a hora que cada atleta passa pelo prisma.