terça-feira, 21 de julho de 2020

De onde venho

Estou fazendo cursos online sobre psicologia e espiritualidade. 

Efeitos da quarentena, dirá o leitor apressado.
Está sobrando tempo, dirá o juiz da vida alheia, afiado.

A verdade é que nunca trabalhei tanto na vida. Ao mesmo tempo, nunca estive tão ávida por aprender. É como se sentisse que o tempo está se esgotando enquanto tenho ainda muito o que descobrir. Então, sem deixar de cumprir com meus deveres e de dar atenção aos meus, ainda acho espaço para os estudos.

Em um dos cursos EAD que eu frequento, a tutora pediu para cada aluno escrever um resumo de si, informando quem é, com quem está, de onde vem e para onde vai...essas coisas, para integrar a turma.

Comecei a escrever e descrição fluiu espontaneamente. Dei liberdade aos dedos e quase já não tinha controle sobre eles. Eu nunca psicografei e não sei como deve ser, mas imagino que a sensação deve ser parecida.

Eu gostei do texto e resolvi trazer para cá, guardando assim como recordação. Fiz algumas revisões para encaixar na proposta do blog e deixar menos pessoal, mas o contexto é o mesmo.

Quem sou?
Sou um espírito curioso que viveu muitas vidas e que ainda tem muito o que aprender. Nesta vida sou mulher, preta e nordestina de pai e mãe, embora tenha nascido carioca 😊. Sou mãe de um filho desde que ele decidiu vir ao mundo e de uma filha, desde que nossos mundos se encontraram. Eu sei quem "estou" nesta vida, pois conheço bem meu personagem atual. Mas, ainda não sei completamente quem sou. 

Com quem estou? 
Estou com quem escolhi estar e com quem atraí por pensamentos, sentimentos e atitudes. Estou com quem amo. Estou com quem tem algo a me ensinar. Estou com quem posso compartilhar o que sei do mundo. 

O que sei do mundo? 
Quando eu me achava muito sabida, tropecei na minha ignorância. Quanto mais busco aprender, mais lacunas descubro em meu saber. Quero a biblioteca do Umberto Eco. Aquela dos livros que ainda não foram lidos. É lá que reside o verdadeiro Saber.

De onde venho? 
Do batuque dos tambores d'África. Das matas impenetráveis da Amazônia. Das velhas e frias montanhas de Portugal. Este espírito já foi senhor e já foi escravo. Já foi livre e já foi selvagem. Foi homem, mulher, planta, bicho e pedra. Já foi poeira cósmica. Vem do nada. Do vácuo. Vem da essência. Do Divino. Vem da água, fogo, terra e ar. Vem do infinito e para ele voltará.

E você? Quem é? Com quem está? De onde vem? O que sabe e quer compartilhar?


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 4 - Ártemis

São tempos estranhos esses... As estações parecem estar fora da ordem...

Afrodite também foi convidada para o baile. Acordou cedo. Tomou seu banho de flores e passou horas escolhendo o vestido que usará à noite. Diverte-se tocando os tecidos e imaginando as possíveis combinações. Sapatos, bolsas, maquiagem, jóias, cabelos. Tudo perfeitamente harmonizado. Ela não tem dúvidas. Poderá usar qualquer cor, desde que seja vermelho. Equilibra-se graciosamente em seu salto mais alto. Elegante, leve e trigueira. Fatal e linda. 

- Como será que está o clima hoje? O mundo anda tão estranho que as estações parecem estar se atropelando. Era para já ser verão a essa altura. Então eu poderia colocar um vestido leve e esvoaçante. Mas, o tempo parece que vai virar. Ouço trovoadas. As árvores andam agitadas. Parece que vai chover. Sinto cheiro das folhas de outono...

Ela não tem pressa. Sabe que a qualquer hora que chegar vai ser bem vinda. Generosa e vaidosa, deixará que suas irmãs brilhem antes dela, pois quando chegar, sabe que todas as atenções serão suas. Abre um vinho. Está pronta.  Mas não sai de casa. Não ainda... Deixa sua impetuosa irmã passar na sua frente. Ela sempre foi ciumenta mesmo...

Enquanto isso,  segue o baile...

Um redemoinho de vento. Folhagens formam uma espiral infinita no jardim. De cima para baixo, as folhas vão desenhando uma silhueta. É uma mulher. Vestida de folhas. Tem um diadema em forma de Lua na cabeça. Traz um arco às suas costas, com uma aljava cheia de flechas de madeira.

Com um ar confiante e pés feitos de plantas trançadas, ela sorri. Olha a sua volta. Cumprimenta a todos com uma leve deferência. Apenas acena com a cabeça. Não se curva. Não baixa a guarda.

Muito prazer. Sou Ártemis.Venho das florestas ancestrais. Do tempo em que a humanidade honrava a natureza. Danço sobre o fogo, pulo os penhascos, luto como os lobos, os ursos me servem.

Para dançar comigo, tire seus sapatos. Sinta o crepitar das folhas secas do outono debaixo dos seus pés. Sangre-os nos espinhos, torne-os grossos nas pedras, galhos e troncos. 

Uma chuva muito fina começa a cair. Uma brisa perfumada e fresquinha percorre o jardim. Folhas amarelas e vermelhas formam um tapete suave e colorido. Um a um, pouco a pouco, os convidados vão se aproximando. A orquestra se ajeita para a próxima música. 


Uma senhora rechonchuda e sorridente, tanto quanto falante e espontânea, é a primeira a tirar os sapatos - Já não via a hora de me livrar desses saltos! Suja os pezinhos redondos na primeira poça d´água, mas não se intimida. As crianças, ainda suadas da ciranda de Perséfone, aproveitam a deixa para se sujarem mais um pouco. Algumas mulheres apenas observam divertidas. As meninas porém, por ainda não terem aprendido o que é vergonha, atiram-se ao baile.

Todos se divertem. A melodia envolve a floresta que circunda a casa do baile. Os corpos entram em sintonia com a música e a harmonia prevalece. As árvores parecem dançar com o vento ao som do violino. Pássaros passam em revoada em um balé lindíssimo. 

Ártemis coloca uma flor no cabelo de cada menina. Beija as mais velhas acena às jovens. Recolhe seu arco e se vai, flutuando sobre as folhas secas de um outono fora de hora.