terça-feira, 12 de novembro de 2019

Resenha do livro - Na minha pele. (Lázaro Ramos) - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - 2017

Recebi esse livro de uma amiga do trabalho alguns dias antes das minhas férias. Ela me emprestou com tanta gentileza que me dispus a ler com atenção em reconhecimento ao carinho demonstrado. Nem precisei me esforçar muito. O livro é tão bom que li em menos de 48 horas! 

Escrevo essa resenha com o objetivo explícito de fazer propaganda escancarada e gratuita, sim! Gostaria que todo mundo lesse essa obra. Se não o mundo, ao menos o Brasil. Se essas letras estimularem pelo menos mais um leitor, que assim recomende o livro a outro, já ficarei satisfeita.

"É muito mimi...vocês vêem racismo em tudo!" - essa frase foi dita a mim por uma pessoa branca, durante uma discussão acalorada em que eu tentava ensinar-lhe a não se referir aos meus antepassados como escravos. Dizia-lhe eu: "não descendo de escravos, mas de africanos escravizados"...Eu ainda não tinha lido o livro do Lázaro e já concordava com ele quanto a essa terminologia. A briga foi feia e eu perdi, como frequentemente perco ao tentar erguer a voz contra a opressão do racismo. Pelo olhar do outro, ou estou exagerando ou criando caso. Via de regra, sou convidada a abaixar a cabeça e a me resignar. As coisas são o que são...

Cresci ouvindo que tudo o que é feio e ruim vem "do lado de lá". Desafortunadamente, eu sou a cara do lado de lá! Puxei para "o outro lado"....nasci "assim"...com esse cabelo ruim e essa cara, esse jeito, esse temperamento .... tudo coisa de preto! 

No confronto aberto, sempre me dou mal. Por isso, entre Malcom X e Martin Luther King Jr prefiro a não-violência deste último. Evito polêmicas e detesto bate-boca. Outro ponto em comum identificado com Lázaro. 

Não tive oportunidade de assistir a peça "Do topo da montanha", dirigida e encenada por ele, mas tenho certeza de que foi linda, pois se baseia em um dos discursos mais impressionantes que já foram escritos pelo citado reverendo que é uma referência de ser humano para mim, como também o é para o autor de "Na minha pele".

Voltando ao livro, Lázaro faz uma agradável conversa com o leitor. Conta suas experiências e, usando sua trajetória como pano de fundo, nos faz perceber quão sutil, dissimulado e insidioso o racismo pode ser. 

Coisas que antes eu julgava serem defeitos meus, meramente psicológicos, como a frequente sensação de inadequação, de não-pertencimento e até de menos-valia são reveladas no livro como traços do perverso racismo que vigora em nosso país. Coisas que só quem veste a pele negra entende. 

Termino a leitura com uma vontade imensa de tomar um café com o autor. Ou melhor, um Carmenère chileno. E conversar horas a fio sobre as experiências que eu vivi e ainda vivo, validando e reforçando tudo o que ele coloca em seu livro. 

Concluo que muitas vezes sou racista comigo mesma, quando deixo o olhar desconfiado do outro me ferir. Quando deixo de me posicionar por achar inadequado ou quando me sinto envergonhada de ser quem sou e estar onde estou apenas por que tantos outros como eu, ou até melhores, ainda não conseguiram chegar.

Obrigada, Lázaro Ramos. 
Obrigada por tratar desse assunto com leveza e profundidade. Com amor e respeito. Eu  me via feia e inferior refletida nos olhos do preconceito. Você me ajudou a vestir a minha pele e ficar mais à vontade nela. Que seu livro seja lido em todos os bairros de periferia, escolas públicas e particulares, bancos de praças, filas de banco...viagens de avião, de trem e de barco...e até de "Tomaquêeee"*.

Notas:

Sou negra de pele clara. Embranquecida pela mestiçagem. 
Recentemente escrevi o texto " Em cima do muro mestiço" que trata um pouco dessas reflexões. Foi dias antes de ler o livro do Lázaro e traz as minhas percepções sobre ser mestiça. Acho uma condição bem difícil essa de ser misturada. Não ser nem preta nem branca é bem complicado. Não tenho as facilidades da raça dominante, porque não sou branca o suficiente... (ah, esse cabelo....). Nem sempre meu ativismo como negra é visto como legítimo, porque sou branca demais pra ser preta. O texto está no link: 
*Lázaro Ramos insere essa expressão em seu livro. Não vou explicar para não dar spoiler...para saber o que significa, recomendo que leia o livro.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Drenthe2days 2019 - a resenha

Orientando-se em rotas nunca dantes navegadas.

As férias, já marcadas para outubro, estavam se aproximando. Fizemos contas, juntamos dinheiro e tomamos a decisão: O plano era visitar as fazendas da Holanda e aprender umas dicas de agricultura orgânica com o segundo maior exportador de legumes do mundo(1). De quebra, um passeio de trem pela Europa centro-oriental. 

Inquieta como sempre, fui procurar algo a mais para fazer. Entre um site e outro, encontrei essa corrida chamada Drenthe2days, na Holanda, bem no nosso período de férias!!!! Um misto de empolgação e medo me atingiu. Será que a gente dá conta? 

Sou amante de viagens e de esportes. Pratico Orientação e Corridas de Aventura há dez anos e apesar do tempo, ainda me vejo iniciante. Mesmo após tantas corridas, sei que não sou grande coisa como atleta. Mas, pensei eu, isso não importa. Se o esporte fosse só para campeões só poderia haver três competidores por categoria. Um para cada medalha!

Ainda bem que não é assim. Deixo as medalhas para os mais preparados. Vou lá ver qual é a desses holandeses! Combinado com o marido, também atleta amador fizemos nossa inscrição. Ambos com poucas oportunidades de treinar durante o período. Vand com muito trabalho no sítio e eu me recuperando de duas cirurgias (uma em cada olho) o que também me deixou com compromissos de  trabalho e estudo acumulados. Como sempre, fomos com a cara (de pau) e a coragem que nos é peculiar.😊

Assim, com o coração leve e sem muitas cobranças chegaram as tão esperadas férias! Aproveitamos bastante as duas primeiras semanas com escala na casa do filho em São Paulo, depois agradáveis viagens de trem e longuíssimas caminhadas por Praga, Bratislava e Budapeste. Estimo que caminhamos o equivalente a 100km nos 10 primeiros dias de viagem. Nem vou comentar, porque isso dá uma resenha à parte!

Vamos então para a nossa corrida. Chegamos a Appelscha (2), local das provas, no dia 24 à tardinha, depois de 10 h de trem de Budapeste para Praga, duas horas de avião de Praga para Amsterdã*, mais 2h de trem para Assen, mais meia hora de ônibus.....e mais 3km de caminhada até o camping onde alugamos um chalezinho....

Até o ônibus o Vand estava curtindo a viagem. Andar de transporte público na Europa nem é tão ruim assim. Mas, andar 3 km no frio arrastando mala não estava em seus planos. Para a nossa sorte, quando o resmungador do Vand ia disparar nível alto, passou um carro com duas simpáticas holandesas que nos ofereceram carona. Nem deu tempo de reclamar muito....

O chalé parecia uma casinha de bonecas. Muito bonitinho. Appelscha é uma vila da província de Friesland. Não entendi direito onde entra Drenthe na história, mas tem a ver com o local, pois se trata de uma província vizinha. A competição acontece todos os anos. A organização de prova é alternada entre os três principais clubes da região e vem gente de vários países da Europa para competir. Este ano, além dos europeus havia japoneses e brasileiros. Nesse caso...nós😊. Sim! Éramos os únicos brasileiros e os únicos latino-americanos....Baita responsa!
Bandeira do Brasil fincada no panteão 

A competição foi montada da seguinte forma: na noite do dia 25 houve um warm-up (aquecimento). Tratou-se de uma brincadeira de Sprint de revezamento no parque de diversões perto da área da prova oficial. Cada componente da dupla recebeu um mapa com 27 prismas diferentes. Na primeira bateria saía um dos componentes e sua missão era pegar os prismas bem rápido e voltar para que seu parceiro completasse seu mapa. 

Se fosse de dia, seria moleza. Mas...era uma noite fria. Soprava um vento gelado... 😂😂😂😂😂😂....Já está parecendo história de halloween...

O fato é que o parque de diversões lembrava mesmo um cenário de filme de terror, com as sombras dos brinquedos tremulando numa escuridão abissal! Um frio de renguear cusco, como se diz no Sul ou de lascar como se diz na Bahia! Um breu completo! Se não fosse o simpático organizador que nos emprestou a lanterna de cabeça eu não iria enxergar nem minha mão, quem dirá o mapa!

You're playing with the big boys now...

Meu nome foi chamado na primeira bateria e larguei com o coração na boca! Procurando manter a calma, até consegui me achar mesmo no escuro. Dei um perdido ou dois em alguns prismas mais difíceis o que me fez perder um tempo precioso. Por todos os lados eu via atletas correndo feito lebres.  Tinha prisma pendurado em escada, atrás de carrossel, no alto de tobogã e até na guarita do guarda! 

Eram  muitos pontos e eu teria que concluir em uns 30 minutos para o Vand conseguir entrar na pista. Não monitorei o tempo e não consegui ser rápida o bastante. Desse modo, mesmo pegando todos os prismas, não deu tempo do Vand correr.

Apesar do acontecido, ele não se zangou. Até se animou em fazer a pista sozinho no dia seguinte só para ver como era, já que nossa largada oficial seria só à tarde. De minha parte, senti um misto de satisfação e frustração. Satisfeita por ter achado todos, apesar da dificuldade para enxergar, ainda mais no escuro. Frustrada por não ter conseguido dar oportunidade ao Vand de fazer o mapa dele.

Enfim. Jantinha e soninho que no dia seguinte tem mais. O sábado acordou ainda mais frio.  O aplicativo de celular anunciava 7 graus. O orvalho baixava ainda mais a sensação térmica. Com o friozinho, abortamos a ideia de refazer o sprint e preferimos ficar no edredom até mais tarde. Ameaçava chover. O Sol se recusava a dar as caras.

Dia 1 - percurso médio - entre 3 e 4 km - corrida oficial válida pelo WOC (World Orienteering Championship)

Essa pista foi mais técnica, com bastante azimute e um pouquinho de altimetria em alguns trechos. 

Aqui valem alguns comentários sobre a bússola: A nossa é do Hemisfério Sul. Appelscha fica no Hemisfério Norte. Sendo assim, há uma diferença na declinação do mapa, que é a distância entre o Norte magnético e o Norte geográfico. No nosso caso, essa diferença estava em torno de uns 10 graus para a esquerda. Para distâncias bem curtas (20-40 m) isso não é tão significativo, mas quanto maior a distância, maior o erro. 

Comecei bem animada achando logo os três primeiros prismas. No caminho para o 4, topei com Vand que havia largado antes e estava atrás do seu sétimo ponto na maior empolgação. 

Não sei se perdi a concentração, se foi minha ansiedade ou inabilidade mesmo. Só sei que o dia escureceu de vez para mim.  Eu me perdi miseravelmente entre o prisma 5 e 6 que dependiam somente de um bom azimute. Tentei dar a volta no morrinho para ver se achava o prisma do outro lado. Aí...deu ruim....Acho que entrei em um portal mágico ou tropecei num gnomo, ou pisei no pé de uma fada e ela se zangou comigo....Só sei que após completar a volta eu estava em uma trilha completamente diferente e eu nunca mais achei a trilha certa! Depois de andar em círculos por mais de uma hora sem saber onde eu estava, decidi voltar. Mas....para onde?
Pequena amostra do parque. Foto tirada fora do local de prova.

Não é possível determinar para onde ir se você não souber onde está! Assim é na vida, como na Orientação!

Que remédio?

Orientei o mapa e apontei para o Norte. Afinal, a chegada estava naquela direção. Andei por mais uma hora nesse sentido até finalmente sair em uma rua paralela ao parque, próximo do cone de chegada. Bati mais dois prismas, já perto da chegada e terminei a prova. 

Cansada e bem triste. Encontrei Vand assistindo a premiação. Ele havia se saído muito bem, pois pegou todos os prismas. Porém, para o padrão desta prova, seu tempo foi alto. O campeão fechou os 27 pontos em surpreendentes 30 minutos! Poucos passaram de uma hora. Vand passou de duas... e eu de três...só que no meu caso, sem achar quase nada!

Participamos do delicioso jantar da organização junto com a galera. Era um festival de massas e todos estavam muito animados conversando entre si. Vand e eu apenas observávamos. Refletíamos sobre o dia, sobre como a comida estava boa e sobre como nosso esporte é bom para integrar as famílias. Havia avós, filhos, netos, cachorros. Em cada mesa um núcleo familiar ou um grupo de amigos. Conversa leve, astral bacana. Como é bom estar aqui, pensei eu.

Eu me lembrei de uma experíência que tive quando estava na sétima série....Na época, achava os meninos do 2o. ano muito inteligentes e queria participar das rodinhas de conversas com eles. Para isso, fiz amizade com o camarada da Xerox. Ele emprestava emblemas para quem tinha esquecido. Convenci-o a me emprestar um de duas estrelinhas para que me servissem de passaporte para aqueles assuntos tão interessantes...** 

É óbvio que todos sabiam que eu não era da turma, mas mesmo assim, me acolheram. Eu consegui entrar naquela atmosfera, pelo menos por um curto período de tempo. Afinal, a realidade sempre nos chama de volta! 

Pois foi assim que eu me senti naquela noite. Uma criança na roda de gente crescida. Uma colegial na festa da faculdade. Pensei em tantos atletas, muito melhores que eu, que poderiam estar aqui representando o Brasil com muito mais legitimidade e trazendo resultados mais expressivos. Pensei em minhas limitações e em porque havia decidido entrar ali. Pensando bem, será que foi certo? Somos os únicos representantes de um continente em uma competição que vale pelo campeonado mundial de orientação...e o que tenho para oferecer? Nada. Tivera eu me inscrito como atleta individual, não envergonharia ninguém, além de mim mesma.

Foi assim que fui dormir. Com vergonha. Caiu a máscara e o emblema. Fantasmas da autocobrança me assombravam....Não sou digna de estar aqui. Não sou digna de representar os atletas de Orientação do Brasil. Deixei uma referência ruim. Nosso país é muito melhor que isso, mas infelizmente, por minha causa, não havia como provar.

Fui dormir com esses fantasmas. Dormi mal. Rezei bastante. Busquei serenidade. Pedi perdão a Deus por estar envergonhada, o que só pode ser fruto do meu próprio orgulho. Afinal, a única pessoa incomodada com meu resultado pífio era eu. 

Dia 2: Percurso longo 6-8 km. 

The Sun rises for everyone. Don't give up! 
Hora de virar a página!

Acordei bem mais serena. Com o pé na realidade, ciente dos meus limites e agradecida pela oportunidade de estar ali, aprendendo. Vesti com orgulho meu uniforme. E fui correr com o que tenho e com o que sou.

Conversei bastante com alguns competidores. Queria saber de tudo. Fiz as mesmas perguntas para todos, com a genuína curiosidade dos aprendizes aplicados.

Ouvi coisas bem interessantes. Um rapaz de uns 30 disse competir desde os 7 anos de idade. Falou que considera que está sempre aprendendo e que o percurso estava difícil mesmo. Sua esposa pratica há dez anos e eles pretendem iniciar sua filha, que ainda é um bebê, assim que possível. Essa história se repetiu várias vezes. Uma mulher de 35 disse que aprendeu com os pais que ainda correm e fazem parte da organização do evento. Outro me disse que compete ou treina todo fim de semana. Pela facilidade de transporte na Europa,  um outro me disse que dá para visitar muitos países seguindo o esporte. 

Observei meninas suecas correndo de shortinho enquanto eu usava três camadas de roupa. Ingleses, holandeses, alemães, croatas, belgas, franceses, japoneses....crianças, homens, mulheres de todas as idades. Um privilégio estar entre eles. Todos muito simples e acolhedores. Felizes de ter brasileiros entre eles. Sempre nos recebiam com um amplo sorriso: Brasil? Ah! Brasil! Futebol, samba, carnaval, festa, churrasco... Essas são as palavras que vêm logo na sequência, após falarem Brasil bem alto e no meio de um largo sorriso. Alguns já correram em nossas terras. É assim que nos vêem. Um povo alegre, caloroso, que fala alto e gosta de festa😊.

Como chegamos cedo, deu tempo para essa resenha toda.

Nesse dia minha pista tinha 20 pontos, espalhados em 6.8 km, se seguidos pela menor distância, o que não era possível, dada minha dificuldade com o azimute. O mapa do Vand tinha 27 pontos em 8 km. 

A largada foi no meio da floresta. Ônibus pegavam a gente na Arena e levavam para o ponto de partida a cada 10 minutos. Vand largou por volta das 10 e eu, exatamente às 11:03. Aqui nada atrasa. Tem hora para começar e para terminar. Eles colocam a turma que tem chance de pódio para largar primeiro, assim, a premiação não demora. Tudo bem organizado.

Larguei consciente e com a  meta de achar os prismas, mesmo que fosse a última a chegar. Comecei bem. Serena e focada, segui as trilhas evitando azimutar em distâncias longas por conta do erro que já mencionei. Fui pegando um prisma de cada vez, com calma e consciência. De novo, próximo ao meu terceiro prisma, encontrei o Vand. Acho que é paixão, mas esse gaúcho até hoje tem esse poder de me desconcentrar. Ele estava já pensando em desistir, pois estava perdido. Como nossos prismas eram bem diferentes eu nem pude ajudar. Disse a ele para não desanimar e tentei me manter na prova. Parei, respirei e me orientei de novo. Achei o prisma três e logo depois o 4, o que me deu novo fôlego. Novamente, me atrapalhei para achar o quinto ponto. Uma alma boa e igualmente perdida apareceu. Era um atleta experiente que buscava o mesmo prisma. Eu me senti até aliviada de ver que gente grande também se perde 😂😂😂😂. Mas, também pensei que talvez ele fosse a Providência divina me dando uma mãozinha....

Por sugestão minha voltamos ao prisma 4, pois parecia que estávamos já fora do mapa. Ele foi dando as dicas de terreno, da vegetação e do azimute. Eu bem atenta para aprender...Estávamos perto do ponto indicado no mapa, mas nada de prisma. Comecei a olhar em volta e vi um ao longe. Eu acho que é aquele ali... Ele não levou muita fé, mas insisti em ir olhar e.... voilá! Prisma 5 pra conta! Fiquei bem contente de ter cooperado com a navegação.😊

Pegamos juntos o prisma 6 que estava bem próximo e azimutamos para o sétimo que estava bem mais longe. Daí, deixei que ele tomasse distância para fazer sua corrida. Afinal, ele é um bom corredor e eu já tinha abusado demais. Segui meu mapa e logo achei o prisma. Animada, fui seguindo minha estratégia de seguir pela trilha, contar passos e azimutar somente quando estivesse há menos de 50 m do ponto. Contei com a ajudinha de um organizador no prisma 10, numa passagem subterrânea, que era o ponto onde tínhamos que virar o mapa. Minha estratégia deu certo até o prisma 14.

Ali, procurando pelo 15 contei passos e fiz tudo direitinho. Não achei e resolvi voltar. Mas, os gnomos não deixaram e a fada parecia ainda estar muito brava comigo! Fui me perder sabe onde? Exatamente onde havia me perdido no dia anterior. Reconheci o local, mas não consegui sair dele. Comecei de novo a andar em círculos. 

Entrei no país das fadas e ficaria lá para sempre se não fossem outras duas almas e seus cachorros que apareceram para me ajudar.

Where are you from? Brazil? Ah, Brazil.......isso, futebol, samba...😂😂😂

Conversamos sobre o esporte, sobre o mapa, sobre o que eu estava fazendo ali tão longe de casa e sobre como é a floresta no Brasil. O papo estava ótimo, mas eu estava vendo a hora da Cruz Vermelha(3) começar as buscas atrás de mim. Precisava achar o caminho para o fim da prova. Com a ajuda dos simpáticos senhores eu cheguei na mesma rua do dia anterior e corri para a chegada, marcando o ponto enquanto o organizador segurava já o prisma para guardar. Peraaêeeeeeee. Deixa pelo menos eu bater a chegada! Pedi esbaforida!

Todos os prismas haviam sido recolhidos. Estavam desmontando a arena. Ainda fizeram festa para mim!!!! Hey! Você conseguiu!!!! Fui recebida com palmas😊😊😊😊. Uma organizadora veio me cumprimentar. Perguntou se eu estava bem. Meu marido me recebeu afetuoso e preocupado. Ele tinha desistido e estava ali somente para me esperar.

Sim. Eu estava me sentindo muito bem. Satisfeita e feliz. Nenhum sentimento de frustração ou vergonha. Muito pelo contrário. Estava genuinamente feliz com o que havia conquistado. Peguei 14 de 20 prismas em uma prova difícil e acima das minhas capacidades. Consegui navegar, contar passos, identificar a vegetação e reconhecer todas as referências do mapa. Consegui até fazer azimute mesmo com o desvio da bússola! Fiz o meu melhor, dentro das minhas possibilidades. Progredi nos últimos três dias e mal posso esperar por uma próxima oportunidade de fazer isso de novo.

Agradeço pela torcida e pela camaradagem dos amigos do Brasil, que nos apoiaram mesmo sabendo das nossas limitações. Espero com essa participação conseguir incentivar outros atletas. É possível entrar na festa. Não há impedimentos. Esse é um esporte em que você pode ou não ganhar medalhas, mas com certeza você nunca perde! Ganhei mais coragem, experiência, amigos, novos rumos, novos cheiros, novas terras, novas marcas nos pés e na alma.

Obrigada Drenthe2days! Que ano que vem outros brasileiros possam agitar nossa bandeira em sua terra. 

Aproveito para convidá-los para o campeonato brasileiro de Sprint que este ano acontecerá na Bahia em novembro: CamBOS 2019. Sim! Bahia, Brasil, carnaval, churrasco, futebol, festa.....isso tudo aí e mais um pouco!

Somos um povo festeiro e acolhedor. Também sabemos organizar boas provas e temos ótimos atletas por aqui! Vocês serão todos muito bem vindos!

Agradeço aos dois clubes que representei nessa corrida:
* Meu clube de filiação Aventureiros do Agreste
* Meu clube no Pará que nos adotou com o maior carinho do mundo: COARI

As mensagens de incentivo de vocês foram muito especiais. Obrigada!

Obrigada aos organizadores da Drenthe2days 2019 e parabéns pelo belo trabalho. Espero que o google translator os ajude a ler esses agradecimentos😊.

Mensagem final para a Orientação no Brasil:

Participar desta competição foi bom para ver que o nosso esporte é realmente universal. Mesmo sem entender uma palavra em holandês não foi difícil participar porque as regras são as mesmas. As corridas de que participamos, tanto na Bahia como no Pará estão seguindo direitinho as regras da IOF. Acredito que seja assim também nos demais Estados. 

Em que os europeus estão mais adiantados que nós? Primeiramente, o esporte já tem 100 anos por lá. Existem muitos clubes e muitos campeonatos. As pessoas começam a praticar em torno dos 7 anos e todos so fins de semana tem algum evento de orientação em algum lugar. Isso dá a eles mais experiência e habilidade. Porém, acredito que estamos no caminho certo. Trabalhos educativos vem sendo realizados por muitas instituições, tais como Escola de Aventura do Agreste, clube Carcará, Caatinga Trekkers e COARI, só para citar os que conheço. Sem falar no trabalho de base feito por professores como nossa querida Jamille Almeida e mestres Renato, Luiz Agnaldo, Tenório, Riva...enfim, tanta gente que não conseguirei citar todos. Tenham certeza de que seu trabalho de formiguinha está dando frutos. Nosso esporte está crescendo e há de crescer ainda mais!

Adsumus!

Fotos: Todas tiradas fora do local de prova, pois não corri com o celular. Mas, dá para sentir o gostinho:









Notas:


2) Appelcha é uma pequena vila na província de Friesland. Se traduzido para português, seu nome seria "macieira". https://en.m.wikipedia.org/wiki/Appelscha.

3) O evento contou com o apoio de uma equipe da Cruz Vermelha para primeiros socorros e resgate em caso de necessidade.

*Falha de logística da minha parte. Entramos na Europa por Amsterdam,  pois ali seria o destino final e facilitaria nossos traslados. A ideia entao era dar um giro pela Europa e voltar ao ponto de partida. De Amsterdam para Praga decidimos ir de avião. Foi aí que eu errei. Comprei o bilhete ida-volta. Tivesse eu comprado só a ida, poderíamos voltar de Buda direto para Amsterdãm de trem. A viagem ficaria menos quebrada, embora longa. Enfim, eu até achei divertido. Li, dormi, tirei foto e descansei!

** Estudei no Colégio Pedro II, no Centro da cidade do Rio de Janeiro entre 1983-1989. Lá, usávamos emblemas grampeados no bolso da blusa. Eram numerais até a oitava série e estrelinhas no ensino médio. Lá recebi educação, valores e fiz amigos. Até hoje, o segundo ano é o meu favorito. S2