quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A montanha deve estar dentro de você

A montanha deve estar dentro de você...

Caso contrário, continuará a viver agosto esperando setembro...Janeiro esperando dezembro... E não haverá férias suficientes...

Esse negócio de intercalar meses infinitos de trabalho com dias curtinhos de férias dá um cansaço danado. Isso não deveria ser assim....

Trabalho e lazer não deveriam ser momentos estanques separados por meses de espera. Mas, será que dá para conciliar prazer e labor?

Na verdade, deveria haver prazer no labor. E pausas semanais, diárias e dentro de cada dia.  As vezes nos falta um minuto para pensar. Dois para um café. Cinco para um amigo... Vamos deixando tudo para depois.

O dia é regulado pelo relógio: Uma hora para comer. Oito para trabalhar...Quatro para se deslocar. O que sobra é para dormir...E depois, levantar... E trabalhar...dormir...acordar...trabalhar....

Não! Isso não pode ser assim!

O segredo está no equilíbrio. Como dizia o sábio que escreveu o livro de Eclesiastes:  "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Eclesiastes 3:1"

Esse camarada sabia das coisas. Há tempo de plantar e de colher. Há tempo de trabalhar duro e há tempo de aproveitar os frutos desse trabalho. A terra precisa de pausas entre um plantio e outro. Deus descansou no sétimo dia. Quem é você para pensar que não precisa de férias?

Quem é você eu não sei, mas eu... já estou com a mochila nas costas!

Destino: Ruínas de Machu Pichu - Peru.
Promessa de longas subidas, falta de fôlego, frio e belíssimas paisagens.

Fiz essa viagem em julho de 2016. Levei seis meses para terminar o post. Deixei no rascunho, maturando, guardadinho, pegando poeira. Hoje, quando reli tive a gostosa sensação de estar lá novamente. É como abrir um velho álbum de fotografias. E reviver as lembranças. Só tem seis meses. Mas, parece que foi há anos...

Foram quatro dias de trilhas, encaixados em uma breve pausa no meio de um ano de trabalho intenso. A cada dia, uma experiência diferente. Inesquecível. Valeu cada minuto!

Dia 1 - o downhill de 3 mil metros...

Morro de medo de downhill. Em asfalto então....vixe! Já travei de um jeito que nem santo nem diabo me faziam pedalar. Pânico. A sensação de não conseguir controlar a bike me tirava do sério... Eu disse tirava?? Sim! Pois, depois desse downhill acho que meu medo caiu da ribanceira. E ficou por lá mesmo. Estabacado!
  

Fizemos o caminho inca guiados pelo Hostel "Loki". Coisa de doido! Ou de Aventureiro do Agreste, o que dá no mesmo.

Logo no primeiro dia, pegamos uma van pela manhã bem cedinho. Após subidas intermináveis em uma estrada que contorna as montanhas, paramos a uma altitude de 4600 metros para conhecer nossas bikes. Fizeram-nos vestir uma tonelada de EPIs. Só de ver já dava medo. Então o guia fez o primeiro briefing do dia, alertando a turma sobre os perigos da estrada e dando uma última oportunidade de desistir e seguir o trecho de ônibus. Ninguém desistiu... Não seria eu, perrengueira de 4 temporadas a desistir! Ora pois!

Daí, foi uma hora de ladeira abaixo. Literalmente. Curvas acentuadas a direita e a esquerda. De um lado - a vala! Cotovelos e costelas quebradas. Do outro - o vale - e a morte certa!

Na manha, na técnica e na concentração, venci o medo e desci. Nas primeiras curvas, quis chamar por mamãe, mas logo estava íntima do lugar e até me atrevi a fazer algumas ultrapassagens. A vista sensacional; o som do vento na cara... Uma rara sensação de liberdade e de domínio da própria existência. Inesquecível!

Coragem não é o contrário de medo. Coragem é ir...com medo e tudo!



Dia 2 - Sebo nas canelas.

O dia seguinte começou bem cedo. Um delicioso café da manhã e pé na trilha.... trilha e mais trilha... Andamos o dia inteiro subindo ladeiras pedregosas. O fôlego faltava as vezes. Uma paradinha para respirar e logo estávamos prontos de novo. Reclamar? Nem pensar. Só havia um lugar no tempo e no espaço em que eu queria estar... Ali mesmo. Naquelas montanhas.


Essa trilha me fez pensar como muitas vezes o caminho é ainda mais importante que a chegada. Às vezes desejamos tanto chegar a algum lugar que nem prestamos atenção nas flores que pisamos pelo caminho. Ao invés de pisá-las, resolvi admirá-las. E não só as flores, mas também as folhas e os frutos...e os troncos...e as pedras... Não tinha pressa. A montanha já estava dentro de mim. Pacha Mamma nos mostrava o caminho.



Dia 3 - A conquista do céu

O dia 3 reservou algumas experiências novas. Era o dia do rapel. Eu pensei que seria um rapel rápido. Sair de um ponto e chegar ao outro. Simples assim. Como os que fazemos em corridas de aventura na Bahia..... Só que não...

Eram cinco trechos. Muito altos e muito longos. Senti muito medo. Pensei em desistir. Verifiquei os cabos, rodízios, talabartes. Observei o guia e suas credenciais. Vi os turistas descendo. Alguns, de cabeça para baixo. Gente doida! Fui ficando para trás e pensando que seria a única caruara a amarelar. Medo é uma merda! Se deixar, trava a gente. Se deixar....

Mas, não deixei! Com a perna bamba e o coração na boca, atrevi-me. Fui com medo e tudo. De olhos bem abertos, apreciando a paisagem.

Não  sei precisar a altitude nem a velocidade, mas o grito dos rodízios no cabo de aço davam uma noção de quão rápidos estávamos. O vento zunindo no ouvido. As pessoas pequeninas nas pontas. As montanhas e o vale sagrado a nos observar. Uma sensação ímpar. Mais um medo abandonado. Deixei o medo cair... displicentemente...E não foi dessa vez que morri....

As fotos ilustram onde fui me meter...o protagonista aí é o Vand. O ruim de ser a fotógrafa é não conseguir sair nas fotos...



Dia 4 - Chegando a Machu Pichu.

O dia 4 começou ainda mais cedo. Deveríamos sair do hostal as 4:15. Por um azar o despertador não funcionou. Pulei da cama as 4:30. Nosso grupo já havia saído. Acordei meu companheiro e sem muito tempo para pensar, nos arrumamos e saímos feito loucos. Eram 4:40. Eu já pensava em todas as possíveis alternativas. Vou perder a entrada para Machu Pichu? Terei que voltar amanhã? Nunca mais verei nosso grupo? Que merda eu fiz com esse despertador? Fizemos o trekking mais rápido do oeste e ainda conseguimos achar parte do grupo, já na fila para entrar. Era o Jonathan. Um alemão gente boa e conversador. Ele me conheceu no escuro. Hey!! Come on! We are here! Ufa! Que alívio!

Valeu a pena não desistir. Também valeu a pena não perder tempo reclamando do celular ou se perguntando quem errou. Espero me lembrar disso quando perder outras horas pela vida afora. Refletir sobre os erros é importante. Deixar-se paralisar é tolice!

Fizemos em 20 minutos o que a maioria das pessoas levaria 40. O fôlego, já estava lá atrás, quando o portão abriu e a verdadeira trilha começou.....

Subidas e mais subidas. De vez em quando, um trecho plano. Engano... Era só a estrada que circundava a montanha. Era atravessar e continuar a subir. Ainda achamos várias outras pessoas espalhadas do nosso grupo. As inglesas de perna comprida. As irlandesas de cabelos vermelhos. Os canadenses que estavam sempre na frente. Os alemães que estavam sempre atrás.... Era gente de tudo quanto é cor e sotaque....

Quando chegamos a entrada do parque, o dia já havia amanhecido. Ainda fazia frio. Nosso guia, o Broly, fez uma festa quando nos viu! Hey! Brazilians! You made it!!!!! Come on!!!



Soube que os antigos acreditavam que as montanhas eram antigos espíritos protetores. Eles tinham razão em acreditar nisso. Afinal, a sensação de proteção é real. As montanhas nos observam, sabendo da nossa pequenez e fragilidade. Sabendo que passaremos e elas ficarão. Assim como milhares antes de nós e outros milhares ainda por vir.

O Sol é outra divindade dos povos dali. Como não adorar o Sol? Um frio de lascar a noite e de madrugada. De repente, eis que ele surge radiante, por detrás dos montes. Traz luz e calor. Sim, até eu quis abraçar o Sol.

Fiquei feliz de ter conseguido chegar até ali. ... Uma bela e reparadora viagem. Mantenho guardada com carinho na lembrança. Um passeio inesquecível.




Que a montanha nos dê a força necessária para o labor de cada dia, que nos permitirá novas pausas.

Lord, don't move the mountain. Give me strenght to climb it.
(Senhor, não mova a montanha - Dê-me forças para escalar! - Antiga canção gospel)

Se puder, viaje. Se não puder, leia um livro. Feche os olhos. Sonhe! Viaje mentalmente. Vá até o bairro vizinho. Conheça uma nova praça. Mexa-se! 

Feliz 2017! 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Um canto para Morro de São Paulo

Refletido no verde esmeralda do mar vejo um Sol onipresente. Sinto um calor onipotente.
No chão, a areia é fina como farinha. Conchinhas arranham meus pés.
Não tenho caminho, nem destino. Só a vontade de caminhar.

Morro de Amores


O sossego mora aqui.
Não há tempo para a pressa. Não há vagas para a ansiedade. O deprimido perdeu o último catamarã.
Observo o mundo à miha volta: Uma moça medita no mirante. Um pescador joga sua rede. Um idoso Frei reza pela Vida.

Morro de Paz


Um peixe pulou fora d'água só para me avisar: Você veio aqui descansar!
Até a rede social é lenta. Rede aqui? Só para pescar. Mas, eu prefiro peixe vivo.

Morro de Alegria


O silêncio é quebrado pela conversa dos pássaros e pelo motor dos barcos. Cantos belos e estranhos, misturados numa atmosfera verde. Quente. Quieta.

Morro de Preguiça

A Paz se mudou para cá, verão desses. Veio de mala e cuia. Trouxe o marido, Sossego e a filha Confiança. Aqui, a família cresceu. Meditação, Contemplação e Preservação cresceram juntas, morenas e nuas nessas areias sem fim.

Mas, um dia. A Sombra veio passar férias aqui. Não a sombra das árvores, mas a sombra do mal. A Sombra dos homens. Filha do Sinistro e da Violência. Do Desmatamento e da Devastação.
Morro de Tristeza


Hoje a Paz luta para sobreviver. Entre garrafas pet e conchinhas. Entre latas e peixinhos. Entre drogas e armas. Entre pontas de cigarros e incêndios criminosos. Entre copos e mentes vazias. A Beleza ainda mora aqui. Mas, até quando?

Raízes de árvores sustentam os muros de uma história perdida. Guias locais ainda nos lembram: Aqui jaz o Passado sombrio, pai de um Presente devastador, avô de um Futuro incerto.

Morro de Saudades...


Que o verde esmeralda deste mar não se perca em esgotos.
Que a areia fina dessas praias se sujem somente de algas e folhas.
Que haja peixe e ostra. Frutas e frutos.
Que haja Paz e Contemplação.

Que o Sol e a Lua abençoem Morro.

Morro de São Paulo

Preserve o Belo.