domingo, 14 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 3 - Deméter

Deméter vai ao baile...

Foi difícil para ela aceitar o convite, porque precisava cuidar das crianças que são muitas. Mas, aceitou porque soube que Perséfone estaria lá e ela tinha muitas saudades da sua filha.

Deméter não tem um vestido de baile e seus cabelos estão bagunçados.
- São as crianças - ela diz. - Estou sem tempo - Comenta sorrindo.
Ela é linda assim mesmo, com seu cabelo desgrenhado e sua roupa amassada.

Afrodite lhe empresta um vestido e penteia seus cabelos. Deméter está deslumbrante. Ela vai só observar. Precisa voltar cedo. Tem que cuidar da plantação.
Ela chega discretamente. Não quer ser anunciada e não pede uma música para si.

Ela entra no exato instante em que a ciranda começa. Perséfone no meio, as meninas em volta e as mulheres no círculo maior. A música é alegre. Deméter chora.

Ela não está triste, mas emocionada. A maior alegria de uma mãe é ver seus filhos felizes. Perséfone dança como se não houvesse amanhã. Como se não existisse o Hades e o tormento da prisão. O salão brilha. Todos estão alegres.

Deméter observa as suas meninas. Estende os seus braços de proteção materna. Pronuncia algumas palavras e canta baixinho.....


Honra teu pai e tua mãe...

Uma brisa leve agita o jardim e espalha pólen para todo lado. Ninguém vê, mas nesse instante milhares de flores são fecundadas. São o prenúncio dos frutos que logo iremos colher.

Deméter permanece observando discreta. Está a postos, para quem precisar.

Nota: Procurando referências, achei esse texto bastante interessante: Deméter

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 2 - Perséfone

"Você já viu a Morte, Harry? Somente quem já viu a morte consegue ver os testrálios" - assim dizia Luna Lovegood em Harry Potter e a Ordem da Fênix - ( J. K. Rowling - escritora e diva)

Capítulo 2 - Perséfone vai ao baile, vestida de Primavera.

Luna chega à grande mansão. Há testrálios no jardim. Há um pouco de bagunça no ambiente. Esse jardim já foi mais bonito... Parece que um bando de dragões passou por aqui, desfolhando tudo. Há galhos e árvores caídas por toda parte. Há também criaturas invisíveis, habitantes das mentes perturbadas dessa casa. Elas voam ao redor das cabeças dos seus donos. Mas, eles não podem ver.

Luna tem boa intuição. Ela se faz de tola para não se dar a conhecer. Tem uma conexão muito forte com o Invisível, mas prefere manter isso em segredo. Para que mostrar o que ninguém quer ver...

Luna é a encarnação perfeita de Perséfone. A deusa dos mistérios. A bela jovem eterna que esconde uma profunda dor, também eterna. Aquela que foi levada ao inferno e sobreviveu. Raptada, teve sua inocência interrompida pelo tenebroso Hades. Seu hálito é de alecrim, seus cabelos e olhos são de mel. Quando ela passa, as flores se abrem, também se abrem os olhos e os sorrisos...tudo que ainda tem luz brilha em sua presença. Ela é capaz de acender o Sol depois de uma noite gelada.


Perséfone entra no salão e uma valsa alegre começa a tocar. É a primavera.
As mulheres maduras abrem espaço para as donzelas e fazem um grande círculo de proteção ao redor delas. Jovens e barulhentas adolescentes dão as mãos e dançam alegremente. Dispensam os homens, que ficam de fora da roda olhando. Admirando. Sem poder se aproximar. Não é seu tempo. É a hora delas.


Perséfone baila sozinha no meio da roda e de seu vestido saem pequenas estrelas que iluminam ainda mais o salão. Em torno dela, uma roda de meninas gira em ciranda. As mulheres estão no circulo maior e marcam o passo da valsa. Vistas de cima, formam um imenso caracol colorido.



Passou a chuva. Ainda está tudo meio caótico. Nada permanece igual após uma valsa com Hécate. Mas, a alegria das meninas enche o coração de todos de esperança. Ninguém mais se lembra da dor. Uma fênix renasce das cinzas do jardim e voa em direção ao infinito. Ninguém repara. Luna vê com o canto do olho e sorri discretamente.

As meninas cantam. As mulheres batem palmas.
Sobrevivemos ao caos.
Conquistamos a Força.
Criamos Coragem.
Renovamos a Esperança.
Estamos prontas para mais uma dança.

Nota: as fotos foram copiadas de pesquisas no google image.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 1 - Hécate

"E eis que do alto da sua soberba, o homem criou deus à sua imagem e semelhança" (Friedrich Nietzsche)

Começo essa série com uma frase controversa, dita por um filósofo que tinha problemas de relacionamento com seu pai e que acabou morrendo louco. No entanto, havia uma certa razão no seu pensar desvairado.

Parafraseando esse meu amigo alemão, eu diria que o homem, no auge da sua inteligência, se valeu da mitologia para explicar a própria complexidade. Os deuses criados foram para trazer compreensão sobre muitas coisas... tais como as emoções, os poderes da natureza e as fases da vida. Muito se pode aprender com a Mitologia - A filha da Filosofia e irmã da Poesia.

Nessa série de textos possíveis, vamos dançar com as deusas. Você vem comigo? Então calce seus sapatos vermelhos e deixe a Música te levar. Vem dançar comigo na ciranda das deusas.
...
O baile começa. Uma chuva de açoite aparece do nada. Um vento gelado agita os vestidos das damas. Lá fora se ouvem trovões. O céu escurece e subitamente é iluminado por relâmpagos. De repente, o silêncio. A chuva para. O tempo também.

Uma mariposa voa pelo salão e se transforma numa linda mulher madura. Longos cabelos negros e grisalhos. Um vestido de veludo negro e verde. Olhos negros fundos como o abismo e misteriosos como a noite. Uma valsa começa a tocar. É o inverno, de Vivaldi. Ela se apresenta. E todos a reverenciam em silêncio.

Meu nome é Hécate.
Sou a destruição e a morte. Trago temporais e catástrofes.
Sou a hecatombe. O caos. A dor.
Trago o desespero e o medo. A fúria e a revolta. A raiva e a loucura.
Ensinei Iansã a dançar. A Hela dei meus cabelos e Morrigan comigo aprendeu a voar pela noite.
Brenthis Hecate
Sou a noite fria que tens que enfrentar para ver a luz da manhã.
Sou o terror e o medo que tu vais ter que vencer se pretendes continuar a viver.
Sou a escuridão e a força que te empurraram para fora do ventre da tua mãe. Sou a luz que cega teus olhos. O ar que invade teus pulmões a força. O fôlego que te falta. O fôlego que te falta. Sou o que te falta.
Sou a força. A força que tu tiras nem sabes de onde, para virar o mundo ao avesso por aquele a quem amas. É a mesma força do ódio e das matanças. É a força da Guerra. A Força que te dou é o que tu fazes dela.
Sou eu. O desmantelo que precede os começos. O caos e o berço da criação.

Se quiseres dar um passo adiante, vais ter que passar por mim...
Dá-me tua mão e vem girar comigo nessa espiral sem fim.


Se por mim passares e eu não conseguir te despedaçar, te darei a manhã depois da chuva e porei teu barco em  mar sereno. Não faltará força em teu braço nem coragem em teu coração.

Teria Nietszche dançado com Hécate numa noite sombria? Teria ele abandonado o baile antes do tempo? Se entrares nessa dança, segue a música até o final. Não se abandona uma Hécate no meio da valsa.

Aguarde a próxima música...