quinta-feira, 29 de março de 2018

Noite do Perrengue 6 - 24 de março de 2018

Noite do Perrengue 6 - Feliz Ano Novo!

Os preparativos

O campeonato sempre começa com a Noite do Perrengue. Para nós aventureiros, só agora é ano novo! E este promete, com tanta gente boa inscrita!

O primeiro desafio foi montar equipe. Com o foco nas provas curtas e também visando trazer mais mulheres para as corridas, mantive a proposta de correr em dupla feminina. Agora, era achar a dupla!
Optei por levar uma novata, numa corrida noturna, sendo totalmente responsável pela navegação. Só precisava combinar com as partes interessadas... O que não foi difícil! Bárbara topou o desafio e começou logo a se preparar. Fez a quinta turma da Escola de Aventura do Agreste, o curso de orientação do Carcará e se jogou nos treinos.

Por meu lado, empolgada com os resultados de 2017 procurei logo me organizar para treinar certinho também. Antes de me jogar disciplinadamente nos treinos orientados pela Thays Medrado, fui atrás de entender como meu corpo e mente funcionam. Fiz descobertas incríveis! Gente, façam uma tal de ergoespirometria. É muito legal saber do que seu corpo é capaz para estimulá-lo da forma certa. Fiquei feliz de saber que meu coração está bombando! 

A Largada

Entramos na corrida bem empolgadas. Na largada, o coração já batia a mil. Quando vi todo mundo saindo correndo feito estouro de boiada, não me restou alternativa, senão correr também. Bárbara parecia estar mais calma do que eu e ela é quem me passava tranquilidade nos primeiros metros.

Equilbrando a adrenalina e entrando no mapa, logo controlei a ansiedade e já estava navegando de forma consciente. Enquanto eu acompanhava o mapa observando atentamente as referências, Bárbara contava passos.

Sem dificuldades, batemos o PC-1 e decidimos voltar pela mesma trilha para atacar o PC-2 seguindo a cerca do condomínio. 

Foi uma estratégia de navegação um pouco diferente do restante da tropa, mas que acabou sendo boa. Rapidinho batemos o PC-2. Ainda encontramos com muitos amigos, como o Quarteto dos Aventureiros, a dupla da Escola do Agreste (Lu e Marina – minhas antigas parceiras) e muitas outras pessoas maravilhosas.  

A trilha tinha um lindo visual, apesar de ser à noite. A Lua iluminava nosso caminho e nem achei difícil andar na areia... Difícil mesmo foi tirar o selfie com tanta gente se batendo! Algumas fotos ficaram tão horríveis que nem tenho coragem de postar!

Para achar o PC-3 muita gente preferiu seguir pela praia. Apesar de aparentemente ser mais perto, o deslocamento pela areia é sempre mais lento, por melhor que seja o corredor. Como na areia eu sou uma tartaruga, convenci Bárbara a voltar pela mesma trilha e literalmente invadir o condomínio. Isso nos rendeu algumas cercas puladas... Foi engraçado, mas fluiu bem. Uma vez dentro do condomínio, foi só seguir o mapa e contar ruas. Tudo certinho até agora!

Quando vimos o casal D’Aventura na rotatória, fiquei super feliz. Saí correndo e gritando como eles são lindos. Carol e Tiago olharam para mim sem entender nada... 
–Eita não sei nem quem é! Disse Carol. 
- Ah, são as Penélopes! Dos Aventureiros... Respondeu Tiago. 

Enquanto conversávamos, chegou o segurança do condomínio...-Ei, vocês pularam a cerca, né? Ele foi super gentil, mas polidamente acho que nos deu um carão! Confessei meu crime e saí correndo antes que ele decretasse minha prisão preventiva por invasão de propriedade!

Assinamos o PC e saímos mega felizes para a transição. Bárbara estava contentíssima com minha navegação! Eu também, é claro!...Pelo menos até ali..

Na transição, era hora de pegar as bikes e navegar no escuro. O mapa estava bem feito, mas as letrinhas miúdas demais não estavam colaborando com minha presbiopia... e olha que corri de óculos de grau!

Achar o PC 5 não foi difícil. O mapa estava bem referenciado neste ponto. Achei pitoresca a escolha do PC - placa da Rua das Corujas - no meio do mato.. e à noite... Nossas caras ficaram ótimas! 

Deu um trabalhinho para achar a trilha para o PC-6, porque parecia que a trilha era um pouquinho mais adiante. As distâncias pareciam não bater muito bem, apesar de termos ajustado os cálculos para a nova escala do mapa. Alguma coisa errada não me parecia certa....

Algumas duplas nos alcançaram por ali e ficamos navegando juntos e debatendo o mapa por um tempinho. Resolvemos voltar para uma referência conhecida e acabamos achando a trilha graças a uma pessoa que não parava de gritar! Não é aí não... Tá todo mundo indo pro lado errado! Já passou um monte de gente perdida! É pra lá.... lá....lá pra cima, pessoal!

Eu não vi a pessoa que gritava. Nem tampouco confiava no que ele dizia...A voz saia de um quintal enorme de uma casa igualmente grande. Cachorros latiam e azimutes não batiam...O mapa parecia não concordar com o homem, mas.... ele insistiu tanto que resolvemos dar uma espiadinha...E não é que ele estava certo? Esse PC nos rendeu uma foto pra lá de psicodélica...

Depois de bater o PC-6, o 7 parecia bem fácil... era só seguir a trilha, passar pelo povoado, achar a nova trilha e... Pá! ....só que não...

Cadê a porra da trilha???

No mapa só tinha uma, mas no mundo físico havia pelo menos umas cinco! Entramos em quatro trilhas erradas até finalmente achar a única que nos interessava. Eu, raciocinando em voz alta, conversando com o mapa mais para buscar validação dos meus companheiros do que para mostrar que estava certa. Alguns, apenas escutando e nos seguindo. Outros, fazendo sua navegação em silêncio e ignorando solenemente a minha voz, a minha presença, a minha existência enfim...

Numa das erradas, cabamos indo parar na placa do Gran Palladium, na Estrada do Coco. O povo começou a voltar e tentar de novo pegar outra trilha enquanto eu esbravejava com todo mundo, feito profeta no deserto! - Péra aí, gente! Vamos navegar! A placa é uma referência! Não adianta sair por aí na tentativa e erro! Vamos nos localizar primeirooooooo...... e quando vi só eu falava. Bárbara observava. Todos se foram, exceto um casal super simpático que conhecemos no caminho. Eu perguntei os nomes umas três vezes, e três vezes esqueci... Acredito que eram Marcelo e Aline. Perdoem se eu tiver errado seus nomes mais uma vez...rsrsrs.

Adoráveis e educados, concordaram em comparar seus mapas comigo. Chamou minha atenção o jeito atencioso e carinhoso com que ele tratava sua parceira. Achei que formaram uma dupla fantástica!

Eles também estavam procurando há algum tempo. Resolvemos voltar um pouco, até achar uma bendita ponte, que estava no mapa e que nos ajudaria a localizar a trilha certa. Depois de muitas voltas, acabamos encontrando. O PC estava na trilha. Era um single bem legal e achamos um bolo de atletas misturados. Gente de tudo que é lugar. Tinha paranaense, paulista e baiano. Uma festa brasileira! 

Em dado momento, do nada, a Bárbara resolveu parar. Todos paramos também e eu olhava o mapa intrigada. Pela distância, ele deveria estar bem aqui... Enquanto eu pensava, um dos competidores que estava com a gente, sorrindo apontou. - Olha o PC ali gente! Ao lado da Bárbara. Ela parou bem em cima! Santa intuição!
Eles retomaram sua corrida e os perdemos de vista. Mais adiante ainda os encontramos de novo algumas outras vezes. Foram ótimas companhias em todos os momentos.

Depois de pegar o PC-7 não demoramos tanto para achar o PC-8. Isso deu um pouco de alívio. Ainda estávamos na prova e ainda tinha muita gente no percurso. Isso mostrava que estávamos em um ritmo bom....

Sem luz...
Na busca do PC-8 meu farol da bike apagou do nada. Ainda era perto de meia-noite. O farol de cabeça iluminava mal e porcamente... Pedalar no escuro já é difícil. Imagina agora pedalar e navegar sem luz, tendo que enxergar essas letrinhas miúdas aí....
O temido PC-9

Saindo do PC-8, decidimos descer de volta para a Estrada do Coco e atacar o PC 9. Distraídas, passamos ao lado do PC-15 mas nem demos confiança para ele... Ainda não era sua vez. A Estrada estava um breu. Não com facilidade, acabamos achando a entrada para o PC 9 junto com um bolo de gente e nosso anjo da guarda entre eles.

Enquanto eu explicava para a Bárbara o que eu pensava estar entendendo do mapa, Caco apareceu do nada e me corrigiu educadamente e me trouxe de volta ao planeta Terra. 

Seguimos com a tropa, mas logo nos adiantamos um pouco quando encontramos Leo e Tati e os meninos da R2. Foi quando nos perdemos de vez!

Pegamos uma paralela do azimute que nos colocou em outra dimensão. Tipo um buraco de minhoca ou uma dobra do tempo... Perdi a noção de quantas horas ficamos ali rodando no mesmo lugar. 

Paramos para um PASOCOLA, que consiste em Parar, Acalmar, Sentar, Orar, Comer, Orientar, Lembrar e finalmente Andar... Só que para nós só funcionou o PASOC... o OLA ainda demorou um tempinho....

Já desanimados, decidimos voltar para a Estrada do Coco, seguir para a transição e lá decidir o que fazer. O PC-9 não era longe da transição. Seria mais fácil atacar por ali. Ainda não foi fácil achar  a transição, mas uma dupla dos Aventureiros do Agreste apareceu na hora certa. Bem perto da entrada do PC-14. A transição estaria exatamente do lado oposto ao que eles iriam entrar. Obrigada pela companhia, pessoal! A ajuda sempre aparece na hora certinha!

Quando já estávamos cansados, sem luz e quase sem água, o anjo da guarda apareceu novamente. Caco nos encontrou perto da transição e perguntou como estávamos.Estávamos lascados! Leo e Thati, mais 3 meninos. Bárbara e eu. Um total de 7 aventureiros exaustos, cabisbaixos e desanimados....

Vocês querem pegar o PC-9??? 

Nossa! Meu olho brilhou na hora. Esqueci a sede e o cansaço! Todo mundo se animou e saímos correndo, seguindo o padrinho! Bora pegar saporra!

Ele  nos guiou até o PC 9 e de lá até a transição, sumindo no mundo para ajudar mais alguém.

Pela cara da minha parceira vocês avaliam nosso estado de ânimo..Se o PC-9 fosse gente, acho que Bárbara batia nele...rsrsrs.

O enduro a pé foi moleza. Depois de tudo o que passamos, foi até um alívio fazer essa parte de trekking. Estávamos renovados. Dividimos as tarefas entre a equipe que agora era de 5 pessoas. Léo, Lucas, Feu, Bárbara e eu. Os meninos deveriam caçar PC. Léo contava passos. Eu acompanhava a planilha e Bárbara validava o percurso.

Graças a ela voltamos ao caminho certo. Quase vacilamos perto da bomba verde. Acreditam que tinha outra bomba d´água bem pertinho? Só que azul e fora do azimute. Bárbara deu uma bronca em todo mundo e logo estávamos no caminho certo de novo! - Bah, vocês não viram o vídeo do Gaia!??!!!!


Concluído o enduro, abastecemos novamente a água na transição. Ainda tinha muita equipe no mato. Umas 15 de a acordo com a organização. Oba! Estamos bem! Vamos seguir.

Contra azimute.
PC12
Um dos erros mais comuns do navegador é o contra azimute. Isso acontece quando você orienta o mapa bem certinho, só que ao contrário....E segue feliz da vida no sentido oposto ao correto.

Peguei um contra azimute na descida da transição o que me rendeu mais uma bronca de Bárbara para me colocar na linha! Depois da participação certeira dela no enduro, resolvi ouvir a opinião da guria, que novamente estava certa. Sem dificuldades, agora na rota certa, achamos a Pousada da Maga e fizemos uma das fotos mais legais! Quem diria que já estávamos no mato há
quase 12 horas???

Logo em seguida achamos o PC-13, que ainda era virtual e o PC-14 - um "PC gente", que estava no Polomar. Esse – já era nosso velho conhecido! Já tínhamos passado por ele umas três vezes!

Do PC-14, supercontentes, seguimos alegres para o PC-16. Ora pedalando, ora empurrando no areal e na restinga, contando ruas e prestando muita atenção no caminho, sem dificuldades achamos o PC-17 e atravessamos uma linda duna rumo ao PC-18, já pensando na chegada...


Péra aê........... e o PC-15?? P#t@ que pariu!

Bárbara – esquecemos o PC-15! Ele estava apagadinho ali....bem no cantinho do mapa. Passamos umas três vezes ao lado dele.... e o deixamos para trás. Apagamos da visão e da memória....sh!t!

Não deixei minha parceira pensar, senão a bronca ia comer solta de novo... Voltei a duna toda de novo e quando olhei para trás, lá vinha ela triste....seguindo o caminho de volta.

Mas, não teve bronca. Ela também acreditou que valia a pena pegar esse PC. Nosso objetivo era completar a prova, independente do tempo. E que estávamos indo bem. Achamos Caco novamente guiando umas pessoas até o PC-18, mas determinadas, voltamos todo o caminho até o PC-15. Dessa vez, eu vinha pedalando mais atrás. Bem atenta para não deixar passar nenhuma referência. Vi Bárbara parar, novamente do nada. Cheguei silenciosamente e parei atrás dela, só para mostrar que de e novo ela tinha parado de costas, bem na frente do PC. Pense numa pessoa que tem faro, gente!

Depois, seria fácil! Era só voltar para a Estrada do Coco e....perder a entrada do PC-18!

Vi que a distância não estava batendo e voltei logo avisando Bárbara. Estávamos quase ao lado do PC, mas para pegar a entrada da trilha teríamos que voltar um bom pedaço. 

Avistamos o pessoal lá embaixo do barranco, já se preparando para voltar para a chegada. Sob orientação do Caco, vencemos o barranco, o que nos economizou quase um quilômetro de subida. 

Descer aquele Barranco carregando a bike foi um momento especial da prova! Tem que ser do Agreste mesmo!

A turma se mandou e nós seguimos nossa rota. Batido o PC-18 agora era voltar para a chegada. Não sem antes subir novamente o barranco arrastando as bikes e o corpo que já pedia café... Eu já queria até almoço, se tivesse!


Bora Penélopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeees!

Chegamos suadas, cansadas e felizes, as 9:00 da manhã. Ainda sobrou fôlego para fazer uma bagunça na chegada, anunciando aos berros que concluímos a prova. A minha sexta noite do Perrengue. A primeira da Bárbara. Inesquecível para as duas!

Concluímos a prova!. Vencemos nosso próprio desafio. Batemos nossa meta! Que venham as próximas! Mal posso esperar!

Obrigada Thays Medrado pelas orientações, ao nutricionista Naum pelas dicas de alimentação e a Sílvia Profumo que está me ajudando a manter a cabeça no lugar.

Obrigada a Bárbara pela paciência, parceria e perseverança. Obrigada por ter confiado em mim e por ter uma intuição tão boa! Continue exercitando essa intuição que você vai longe!

Especial agradecimento ao Caco Fonseca que trabalhou como um verdadeiro Anjo da Guarda. Se a Fórmula 1 tem o Carro-madrinha, a Corrida de Aventura já tem seu atleta-padrinho. Muito obrigada mesmo! Incrível como você apareceu nas horas mais críticas. Virei sua fã!

Arnaldo, Gaia e equipe NP-6 - Melhor edição de todos os tempos! Parabéns!

Notas:
*PASOCOLA - Acrônimo desenvolvido por escoteiros para ajudar as pessoas a se localizarem quando estiverem perdidas no mato Vale para tudo! Tem um vídeo bem legal no youtube ensinando a técnica. É do canal DESBRAVATUBE. Vale a pena conferir.
* Veja aí nossa navegação: GPS Track NP-6 Penélopes do Agreste
* Fotos oficiais do evento: https://www.adventuremag.com.br/corrida-de-aventura/2018/galeria-de-fotos-do-np6-noite-do-perrengue-2018/

quarta-feira, 28 de março de 2018

Noite do Perrengue 5 e o Campeonato baiano de Corrida de Aventura 2017


Até hoje não escrevi o release da noite do Perrengue 5. Fiquei devendo...Foi uma corrida maravilhosa, que com certeza merecia um relato. Representou muito, mas daquela vez, preferi guardar as reflexões e os aprendizados só para mim.

O campeonato baiano de 2017 começou em 11/03, com a NP-5. Última prova que corri como dupla mista.

Todo o restante do campeonato de 2017 eu fiz em dupla feminina, como Penélopes do Agreste. Corri a Peleja e o Desafio dos Sertões com Lu Kroger e a corrida do CT da Gantuá com Marina Cunha. Essa última, com direito a trilha sonora e tudo! Duas parceiras maravilhosas com quem aprendi e compartilhei muito. Três corridas memoráveis. Inesquecíveis.

As Penélopes fecharam o ano de 2017 em 17º. lugar de um total de 36 duplas no campeonato baiano. Isso com uma prova a menos. Se somados os pontos da Noite do Perrengue, subiríamos para 13º. Além disso, como corremos o Desafio dos Sertões, válido pelo campeonato brasileiro, ficamos em 28º de um total de 37 duplas no ranking nacional - não são as mesmas duplas do baiano. Nesse ranking tem gente de São Paulo, Bahia, DF, Ceará e Paraná. Dentre essas, apenas 5 duplas são baianas e as Penélopes do Agreste estão entre elas! Fiquei bem contente quando vi o resultado. Isso com apenas uma prova válida pelo campeonato brasileiro! Obrigada, Lu Kroger! Olha aí nossa conquista!
Ranking FBCA - Federação Baiana de Corrida de Aventura
Ranking RBCA - Ranking Brasileiro de Corrida de Aventura

Com o objetivo de adquirir mais habilidade na navegação, ainda fiz todo o CAMBO (campeonato baiano de orientação) o que me rendeu o terceiro lugar na categoria D-45B, trazendo também uma progressão para uma categoria superior, a D-45 A. Ou seja, o ano foi muito bom. E tudo começou na NP-5....

Que venha 2018!



terça-feira, 27 de março de 2018

As Sabiás


As Sabiás

Peço licença poética para chamar o sabiá de sabiá-menina. Daqui em diante, elas serão “as sabiás”.
Eu nunca vi sabiás voando em bando. Elas parecem seres solitários. Voam solo, ou em duplas, ou em pequenas famílias. Fazem pequenos ninhos. Ciscam, pulam, voam e cantam. Vivem simplesmente.
Aprendi que o sabiá é o pássaro símbolo do Brasil. E que sabiá significa "aquele que reza muito". Talvez seja por seu canto, que mais parece uma melodia celestial...

Eu conheci algumas sabiás. E hoje quero falar sobre elas.

Era uma vez uma sabiá. Ela ciscava, pulava, voava e cantava livre. Um dia, um homem a viu e achou muito linda. Ele quis a sabiá só para ele e a colocou numa gaiola. Em pouco tempo, a sabiá não cantava mais. Desaprendeu a ciscar. Comia só o que ele lhe dava, pela janelinha da gaiola. Ela engordou, e logo suas asas não aguentavam mais o peso do seu corpo. Para garantir que ela não fugiria, o homem cortou a pontinha das suas asas. Aí, ela não conseguiu mais voar, nem cantar, nem pular, nem ciscar.

Era uma vez uma sabiá que sabia ciscar. Ela se juntou com outra que sabia cantar. E ambas aprenderam a voar com uma outra companheira. Elas juntaram outras sabiás sábias. Cada uma sabia uma coisa diferente. Elas formaram uma comunidade. E criaram códigos para se comunicar. Criaram uma linguagem nova, que somente elas entendiam. Um canto suave que mais parecia uma reza...

O bando começou a crescer. Embora elas continuassem livres para voar por onde quisessem, sempre achavam um jeito de se reunir, bem longe dos predadores. Cada uma ensinava à outra o que melhor sabia.

Uma delas, era mestra em abrir gaiolas. Outra, tinha um faro aguçado para predadores. Uma terceira, cantava muito alto e era quem dava os alarmes de segurança. Juntas, elas saíram pelo mundo abrindo gaiolas e resgatando sabiás-cativas.

As sabiás recém-libertas eram muito frágeis. A qualquer momento poderiam fraquejar e serem novamente aprisionadas. As sábias-sabiás lhes ensinaram tudo de novo. Curaram suas asas, ensinaram como ciscar, como pular, como voar e como cantar. Além disso, ensinaram também como farejar o predador, como abrir fechaduras e como dar alarmes.

Desse modo, elas criaram uma grande comunidade de sabiás livres. Cada uma aprendeu o seu próprio e específico canto de liberdade. E elas cantam bem alto, quando estão felizes. E ainda mais alto, sempre que se sentem ameaçadas. E quando esse canto ecoa no céu, todas as outras prontamente aparecem em seu socorro. Elas usam suas habilidades para curar umas às outras. Elas se ajudam e se amam. Elas se abençoam mutuamente.

Elas são sabiás-sábias. Vivem suas vidas simplesmente. Ao seu modo, cantam, ciscam, pulam e voam livres. Sem medo de nada.

E nunca mais uma sabiá se tornou cativa novamente. E seus homens aprenderam que não precisam de gaiolas. Entenderam que onde estiver seu ninho, aí estará sua sabiá. E ela estará ali por seu livre arbítrio. E ela cantará para ele. Espontaneamente

E todas as sabiás se tornaram sábias, livres e felizes para sempre!

Texto dedicado às Sabiás que tenho encontrado por aí... A Sílvia Profumo, as Sabiás da Moporã e as Sabiás da Comunidade Sou Mulher. 

Obrigada por me ensinarem a voar.

Para saber mais sobre a sabiá: http://www.wikiaves.com.br/sabia-laranjeira