domingo, 16 de novembro de 2014

Consumismo

Quando observamos o mundo atual sob uma perspectiva histórica, temos que reconhecer que o mundo evoluiu. O ser humano evoluiu.

Desde que percebemos que era possível usar uma pedra com ponta como ferramenta e que batendo essa mesma pedra em outra fazíamos fogo, aprendemos a dominar a Natureza. Subjugamos os animais. Viramos deuses!

Infelizmente, por alguma razão que só os antropólogos saberiam explicar, o homem sempre utilizou seus novos conhecimentos primeiramente para a guerra e só depois para a melhoria da Sociedade.

Assim, nossa primeira ferramenta de pedra toscamente lascada virou arma para caçar animais e para matar inimigos. O fogo, para mostrar domínio e poder. E assim caminhou a humanidade...

Desenvolvemos o motor, criamos aviões...de guerra. Descobrimos o TNT... inventamos a dinamite. Descobrimos a radiação... inventamos a bomba. Depois, é claro, veio a Revolução Industrial (a reboque da indústria bélica, esta bem mais antiga). Também vieram os aviões comerciais, os explosivos para a mineração e os equipamentos médicos de radioterapia.

Para toda essa máquina girar, seja na guerra, seja na paz, é preciso que alguém compre o que outro alguém produziu. Essa é a lógica do Capitalismo. No início, produzíamos itens que julgávamos essenciais, como roupas para proteger do frio, ferramentas para o trabalho, armas para a defesa, alimentos para a sobrevivência.

Anos depois, ninguém vive mais sem internet. Todos tem uma necessidade visceral pelo smartphone da moda. É impossível imaginar a vida sem celular. Sem cafeteira elétrica. Sem máquina de lavar...Temos dois, três, quatro aparelhos de celular por pessoa.

Inserimos a Classe C no mercado consumidor. Hoje é possível comprar uma moto, mesmo não tendo dinheiro para pagar o IPVA ou tirar a habilitação! E quando o Poder Público age, a população se rebela. (Morte de motociclista que evadiu de blitz causa revolta no RJ).

Ouvi alguns depoimentos no rádio. De pessoas que se queixavam da ação da polícia. "Eles apreendem nossas motos, só porque a gente não tem habilitação." Depois, temos que tirar a moto do Detran e pagar multa. Quem não tem dinheiro para pagar IPVA, como vai pagar a multa do Detran?

Boa pergunta! Acho que as concessionárias deveriam exigir a apresentação de CNH válida para a compra de veículos. Como alguém compra um veículo motorizado sem ter carteira, sai dirigindo por aí e acha que está tudo certo?


O lado bom da sociedade de consumo é que ela produz e de certa forma até distribui a riqueza. As pessoas trabalham, produzem e por isso são remuneradas. Assim, conseguem consumir. Então tem que trabalhar mais, produzir mais, para então... consumir mais. É aí que começam os problemas. O capitalismo requer consumo sempre crescente, para que a produção sempre aumente, e logo, a máquina permaneça girando. Acontece que esse balanço não fecha, porque para produzir, é necessário consumir recursos e esses recursos não são infinitos.

Enquanto esse modelo persistir, continuaremos a degradar o meio-ambiente e em um curto espaço de tempo não haverá mais produção, nem consumo, nem riqueza... Voltaremos a era da pedra lascada e teremos que começar tudo de novo. Em um planeta inóspito, estéril e hostil. Quem sabe assim, voltando ao ponto de partida, conseguiremos criar algo novo...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O menino e o moinho

Uma vez era um moinho.

Ele morava solitário no alto de uma colina. Se ventasse, girava. Se não ventasse, contemplava.

Era uma vez um menino. Ele corria solitário pelos prados daquelas terras. Tinha mãe, tinha pai e tinha irmãos. Mas, não tinha amigos da sua idade. A escola era longe. Só via os coleguinhas na classe. Depois, era só o prado.

Não era só. Sua casa era um mundo de gente. Barulhenta e sempre animada tinha toalha de mesa colorida. Muita comida na mesa. Tudo plantado ali mesmo. Macarronada, só no domingo. Arroz doce de sobremesa também.

A avó tinha sempre um avental verde. A mãe, estava sempre com a barriga molhada, de lavar roupa. A irmã mais velha tinha uns óculos enormes. Vivia estudando. Queria ser professora.

Um irmão ira para a roça com o pai. O outro, consertava coisas. As vezes quebrava coisas, só para ver como funcionavam. Depois, montava tudo novamente. De outro jeito, pois era criativo o rapaz.

O menino não podia subir a colina. Era muito longe. Sua mãe tinha medo. Dos andarilhos que roubam crianças num saco. De animais que andam a espreita de meninos perdidos. Assim ela dizia. E ele acreditava.

Mas, quem já foi menino sabe. A colina mais alta, a cachoeira mais longe, a estrada mais perigosa. É ali que menino quer ir. É corajoso. Sabe se virar. É valente. Com um grito e um pedaço de pau espanta qualquer lobo metido a besta.

Era um sábado. Não tinha escola. Tinha só que ajudar a lavar a louça. Arrumar a pia. Deixar tudo limpinho que a mãe tinha que cuidar do menor. A irmã tinha que estudar matemática. O irmão tinha que colher mandioca e o outro tinha que consertar a lareira, pois logo vai vir o inverno. O  pai.... Bom, o pai tinha que tirar uma soneca, afinal, ninguém é de ferro!

Todo mundo tinha alguma coisa para fazer naquela casa. Não sobrava muito tempo para o menino.

O menino lavou a louça impaciente. Secou os pratos. Correu pra rua. O vento do outono derrubava folhas. E lá longe, o menino ouvia um som diferente. Havia uma sombra que acendia e apagava, sempre ao entardecer.

Aquela tarde vermelha estava propícia a uma aventura. O sol estava forte, embora fosse abril. O céu estava claro e sem nuvens. São três horas da tarde. Todos estão muito ocupados para dar falta do menino.... Era o momento perfeito.

Munido do seu cavalo de pau e do seu badoque, o menino corre pelos prados. Os pés descalços batem em seu bumbum enquanto corre. Como corre esse guri! O vento balança seu cabelo. As vezes, precisa fechar os olhos, por causa da poeira. Você já correu contra o vento? Então sabe como é.

Hoje vou desvendar esse mistério. E ele correu. Correu. E correu. Arfando, parou para respirar e apoiou as mãozinhas sujas nos joelhos. Ufa. Que longe! Ele tinha 9 anos e muita esperteza.

Até agora não vi lobo, nem andarilho, nem ninguém. Onde estão todos? Será que todo mundo tira um cochilo depois do almoço, que nem o meu pai? Minha mãe devia tirar um cochilo também... Se o bebê deixasse. Como chora esse irmãozinho....É muito chato! Só pensa em comer, dormir e chorar.

A casinha branca do vale vai ficando pequenina. A colina, vai ficando grande. Cada vez maior. E no alto dela, algo que parece um castelo. E no alto dele, algo que parece uma torre. E no alto dela.... Um enorme moinho!

Caramba! O que é isso???

Um barulho estranho de molas e engrenagens enferrujadas lhe assusta. O vento uiva. As folhas voam. Uma folha gruda em seu rosto. Ele tenta tirar, irritado. Logo outras colam em sua testa, roupa, braços e pernas.

Parece que o tempo vai virar.....

Ele ouve uma voz..... Muito grave e muito lenta.....

- O que faz aqui, guri? Onde está sua mãe?

Ele procura. Olha para um lado e para o outro.... Não vê ninguém. Corajoso, responde:
- Eu não tenho medo de você. Estou com meu cavalo  e estou armado! (Ninguém precisava saber que a arma era um badoque e o cavalo... bem, você já sabe...)

- Hahahahhaha...... Riu alto a voz. Depois, bem baixinho disse: -Ei, psiu.........e o vento silvou mais forte. - Olhe para cima.

O menino olhou. E eis que o moinho lhe piscou um olho!

- Como assim? Você fala?

- Claro que eu falo! Ora essa, não vê que eu tenho boca?

- Quem é você? Ou melhor.... O que é você?

- Eu! Sou um moinho de vento! Sou muito importante. Sem mim, não tem água nessas redondezas. Mas, não faço nada sozinho... Eu e o vento formamos uma equipe!

- Arre! Esse vento encheu meu olho de cisco e minha cara de folha.

- Sim, meu caro rapaz. Este mesmo vento anuncia a chegada da chuva, seca sua roupa na corda e me ajuda encher essa enorme caixa d'água. Você quer ver como funciona?

O moinho então começou a explicar ao menino como funcionam suas engrenagens, como a rotação do seu eixo faz com que ele encha umas cacimbas enormes que depois são viradas em outro reservatório, assim que chegam a parte mais alta da engrenagem.

O menino, encantado com o engenho, ficou de boca aberta. Queria mostrar ao seu irmão...Aquele que conserta coisas. Precisava voltar correndo para casa e contar para todos.

Ele se despediu do seu novo amigo, prometendo voltar em breve. Mas, o moinho lhe pediu um favor:

 -Você quer ser meu amigo, menino? Eu vivo aqui sozinho. Não tenho com quem conversar. Gostei de você. Quero que volte para eu lhe contar mais histórias. Mas, tem uma condição! Não pode contar para ninguém que conversou comigo. Sou um moinho encantado. Se os adultos souberem do meu segredo, vão querer me destruir.

- Claro que vamos ser amigos! E não vou deixar ninguém lhe destruir! Vou lhe proteger com meu badoque! E mostrou orgulhoso sua arma secreta e seu saquinho de pedras que pegou no rio.

O menino se despediu do seu novo amigo e voltou correndo para casa. Só pensava em contar a novidade. Ele conheceu um moinho falante!... Mas, logo se lembrou que teria que guardar segredo....

- Irmão! Irmão! Você já foi no alto daquela colina? Perguntou ele, escondido da mãe....

- Eu fui sim. Mas, faz muito tempo. Eu era guri assim, que nem tu!

- E então? O que viu lá?

- Ah, mano. Não tem nada lá para você ver. Apenas um moinho chato e velho que nem funciona direito.

- Mas, ele me disse que....

O menino pôs a mão na boca.

O irmão olhou para ele desconfiado. - O que foi que você disse?

- Nada não... E saiu correndo.

Todos os sábados após o almoço o menino fugia para ver o moinho. Eles conversavam, riam e brincavam. O moinho contava histórias de cavaleiros que passaram por ali há muitos e muitos anos. Falava dos temporais que já vira. Raios, relâmpagos, trovões. Ele quase pegou fogo uma vez. E teve que jogar água em si mesmo, porque ali não tem bombeiro para salvá-lo. O vento ajudou, trazendo chuva do mar.

O moinho-herói era um grande amigo do menino. Eram muitas histórias. Sua voz retumbante lhe enchia de alegria. Suas tardes de sábado eram cheias de aventuras. Como ele sempre foi lépido, a família nem desconfiava que ele estivesse tão longe. Ele era hábil na arte de se esconder.

Quando pensavam que estava na cozinha, estava no pomar. Quando não, no galinheiro. Já se escondeu embaixo da cama e no telhado. Sua mãe estava ocupada demais com o bebê chorão para se incomodar com ele. Assim, o menino foi se apegando ao seu novo amigo, sem que ninguém sentisse sua falta em casa.

Em um determinado sábado, o moinho estava triste.

- O que foi, senhor moinho? Por que está triste?

- Por que você vai crescer, menino. E não vai mais se lembrar de mim.

- Nunca! Jamais se abandona um companheiro de batalhas! Seremos sempre amigos e eu vou vir lhe visitar sempre!

Conversaram um pouco mais e logo se despediram.

- Adeus, meu pequeno amigo - Suspirou o moinho.

Essa noite o menino demorou para dormir. Ficou deitado na grama do quintal olhando para o céu. Aquele céu pontilhado que só existe no interior. Tentou contar estrelas. Mas, sua avó disse que aponta para as estrelas fica cm verruga no nariz....Adormeceu... E sonhou...

Ele era um jovem cavaleiro e seu cavalo era o mais bonito da vila. Era um herói e todos lhe respeitavam. Mas, uma notícia terrível chegou. Os inimigos iriam invadir a vila, para roubar o moinho. Estava faltando água no vilarejo vizinho. Eles precisavam da força do moinho para salvá-los.

Intrépido, o menino montou seu cavalo, saiu em defesa do seu amigo....e caiu da cama!

O cheiro de café fresco lhe desperta. É domingo. Todo mundo já levantou. E...quem sentar na mesa por último é mulher do padre..... Correndo, se juntou aos seus irmãos. Ninguém riu da sua brincadeira. Eram ou grandes demais ou pequenos de mais para entender...

Ele comeu o pão assado no forno a lenha. Ouviu o choro do irmão menor. Escutou a irmã declamando poesia - o pai adorava quando ela fazia isso. Em seguida, cada um foi para seus afazeres.

A lareira estava quase pronta; a roupa já estava quase seca no varal; a roça limpa. Tudo como sempre foi. Tudo normal para um domingo de manhã....

O pai chama o menino. Todos estão na sala. É uma reunião solene.

Meu filho. Temos uma coisa muito importante para lhe dizer. O padre conseguiu uma vaga para você em uma escola muito boa, lá da capital. É muito longe, por isso, você vai para lá hoje mesmo. O padre já vem lhe buscar. Vai ter que morar lá. Não vamos nos ver muito, porque é longe e não temos muito dinheiro.

Vai ser bom para você, acredite. A mãe, segurava o choro. A irmã, enciumada, chorava a cântaros. Ela queria ir, mas internato naquela época era só para meninos. Menina de família estudava em casa (quando estudava).

Os irmãos, nunca gostaram de estudar mesmo...Mas, ficaram tristes. Todos ficariam com saudades. Mas, o menino era muito esperto. Merecia uma chance. Ia ser o único da família a virar doutor!

- Pai, posso te pedir uma coisa?
- Pode, filho.
- Deixa eu ir me despedir do meu amigo....
- Que amigo?
- O moinho de vento. Ele pediu para ser meu amigo - O pai sorriu.
- Ele "lhe pediu"???? Que bobagem menino, moinhos de vento não falam!

- Esse fala, pai. Ele falou comigo. Pediu para guardar segredo. Mas, agora que vou embora, não posso sair sem me despedir do meu amigo.

O pai, que já foi menino, entendeu o sofrimento dele.

- Está bem. Mas, vamos juntos. Quero ver esse moinho falar comigo.

Quando chegaram no alto da colina. Quase não ventava. As pás do moinho moviam-se preguiçosamente. Nem giravam. Só se mexiam, e voltavam logo ao ponto de partida. Um silêncio triste enchia a tarde.

O pai tentou convencer o menino: - Está vendo! É só um moinho velho. Ele não fala. Vamos voltar para casa.

- Não! Só um minuto.

O menino ficou na pontinha dos pés, para tentar tocar a pá que estava mais perto dele. E disse baixinho: - Adeus, meu bom amigo. Um dia eu volto para lhe ver.

O moinho fechou os olhos e fez silêncio. E o menino se foi.

Os anos passaram. Inverno, verão, outono, primavera. Veio a chuva de granizo, veio a ventania. Veio o sol forte, veio o temporal.

O moinho, triste, já não falava com ninguém. Aos poucos, suas pás foram se quebrando, e a engrenagem não funcionava mais.

Ninguém mais precisava de moinhos, pois o progresso chegou e com ele, outras formas de bombear água.

Os pais do menino morreram. A irmã se casou e mudou-se para outra cidade. Os irmãos, também se casaram. Todos se espalharam pelo mundo.

O menino, estudou com afinco. Mas, nunca esqueceu do seu amigo. Com o tempo, ficou convencido de que seu pai tinha razão. Moinhos não falam...

Ele se formou. Virou doutor. Engenheiro, para ser mais preciso. Especializou-se em mecanismos de bombeio de água. Aprendeu novas técnicas. Viajou pelo mundo.

Um dia, rico, voltou para sua terra. Não era mais a mesma terra.

No lugar dos prados, muitas casas, A água chegava por uns canos. E a colina, que parecia tão alta, era agora apenas um morro. Estranho como as coisas parecem diminuir, enquanto a gente cresce.

Inexplicavelmente, ninguém comprou a colina. Era quase o único ponto verde em toda aquela redondeza.

O doutor engenheiro sentiu seu coração de menino voltar a pulsar. Sem entender porque, ele correu. E correu. E correu. E ofegante, chegou ao alto do morro.

Lá, ele encontrou uma paisagem desolada. A água parada, com muito lodo. As caçambas quebradas. E o moinho que ainda tentava fazer força para girar seu eixo, sem sucesso.

O barulho de engrenagens enferrujadas lhe pareceu familiar....Ele olhou para o velho moinho, e teve a impressão de que o moinho olhava para ele.

Não pensou nem meia vez. Comprou todo o terreno e se pôs a reconstruir o seu castelo. Todos pensavam que ele era louco. Afinal, quem precisa de um moinho nos dias de hoje???

Pois ele fez, e ao final do trabalho, pôs seu engenho para funcionar. O vento sorriu e jogou folhas em seu rosto. As pás começaram a girar, primeiro lentamente, como se não se lembrassem mais do movimento. Depois, vigorosamente. E as caçambas subiam, viravam e desciam. Chuá, chuá, chuá...
Era a água limpa enchendo o reservatório.

Aquela água, abastecia sua casa e regava sua horta.

Educado, bem apessoado e com uma bela casa, logo o menino-engenheiro achou noiva. E casou, e teve um menino......

- Papai, posso te falar uma coisa?

- Claro meu filho.

- Ontem o moinho me contou uma história...

- Que bobagem, menino. Moinhos não falam! - Disse o pai enquanto olhava para sua esposa, que já estava desconfiada do excesso de imaginação do seu filho.

Abraçando o menino, levou-o para fora e disse - Meu filho, guarde esse segredo: O maior dom de uma criança é sua imaginação. Dê asas a ela e vá correndo brincar com seu amigo! Mas, não conte para ninguém, que adulto não entende dessas coisas de ser criança.

O pai olhou para cima e piscou o olho. O moinho, agradecido, piscou de volta. E do cantinho pareceu sair algo... Será uma lágrima?

Claro que não! Que bobagem! Moinhos não choram!





sábado, 8 de novembro de 2014

Carta a uma bactéria - Cara Mrs Coli - me deixe em paz!

A cistite de repetição é uma doença séria. Acomete milhares de mulheres no mundo todo. A medicina ainda não encontrou uma explicação plausível para o fenômeno. Por isso, o tratamento é sempre na consequência - a infecção. Receitam antibióticos, analgésicos e um monte de dicas tolas que não resolvem nada.

Primeiro você fica pensando que a culpa é sua. Não se lava direito, prende o xixi, não toma água...
Aí, você faz tudo que os médicos mandam.... E continua tendo cistite.... E eles não sabem mais o que fazer. Cumprido o protocolo, te mandam para casa, para adoecer de novo.

Já tive 9, em dois anos. As oito primeiras foram tratadas com antibióticos. Duas subiram para os rins. Na verdade, todos os meses sinto os sintomas, na semana que antecede o ciclo menstrual. Sempre. Deve ter alguma coisa a ver com o ciclo, mas os médicos não sabem explicar por que.

Consultei um renomado urologista. Fiz o tratamento de 4 meses com macrodantina. Um mês após o tratamento, lá estava ela de novo. A ardência. O incômodo. O médico me disse que não havia mais nada a ser feito. Eu deveria me acostumar. Tenho uma cistopatia que me acompanhará para sempre... palavras dele.

Estou na nona crise. Não fui a emergência. Mudei de médico. Estou iniciando um tratamento homeopático associado com psicológico. A doença nasce em nossa mente. E é lá que deve ser curada. Pelo menos, é o que estou tentando agora.

Bom, ao que parece, estou saindo da crise. Tive uma semana difícil, sendo os dois últimos dias especialmente horríveis, mas hoje estou melhor. Acredito que o remédio homeopático esteja dando resultado. Mas, vamos ver...

Se alguém que ler esse post estiver passando, por essa experiência, deixe seu recado. Eu gostaria de aprender com você. Quem sabe, podemos aprender como passar por isso juntas?

O que você tem feito? Como lida com a doença? Tem algum tratamento novo que queira compartilhar? Quer só desabafar, porque também não aguenta mais? Fique a vontade. Pode postar de forma anônima se quiser.

Abaixo, uma carta que escrevi a bactéria que insiste em me atazanar o juízo:


A sra Scherichia Coli,

Se vamos ter que conviver, que seja então de modo pacífico. A senhora não multiplica suas colônias e eu não lhe xingo mais de rameira, desgraçada, miserável...

Foram oito brigas nos últimos dois anos. Nosso primeiro encontro, todavia, vai longe em minha lembrança. Acho que foi na primeira infância. Mas, na verdade não me lembro.
Depois, quando me casei pela primeira vez, você apareceu. Seis meses depois, voltou a insurgir-se contra mim, comprometendo meu rim e ameaçando meu filho, que era apenas um feto de três meses de vida. Ele venceu e eu também.

Muitos anos se passaram e eu esqueci da sua existência. Vivi feliz. Trabalhei, estudei, dancei, namorei, viajei, criei meu filho e em seguida, ele terminou de se criar sem mim... Por que as crianças são assim. Independentes e intrépidas.

Nesse meio tempo, aprendi a andar de bicicleta, viajei mais um pouco, estudei mais ainda, viajei mais, namorei menos. Vivi, fui feliz. Muito feliz. Casei-me novamente. E fiquei ainda mais feliz.

Fiz 40. E na volta daquela linda viagem a Chapada você me pegou de novo. Ou peguei você. Já não sei onde termina a presa e onde começa o predador. Há dois anos você me açoita. Há dois anos me tortura e me pune não sei eu por quê.

O que tenho que aprender com a senhora, Madame Coli? És tão pequena. Tão frágil, tão fácil de matar...... Tão cruel, tão insidiosa. Assassina.

Não satisfeita de dominares minha uretra, por duas vezes mais atacaste meu rim. Numa delas, quase a sepse me leva. Venci de novo. De novo e de novo. Cada uma das 8 vezes acreditei que seria a última.

Hoje você voltou. Estou cansada de lutar. Já vi que revidar seus açoites não vai dar em nada. Estou esgotada. Levanto a bandeira branca. Vamos conversar?

O que a senhora quer de mim, Madame Coli? O que ainda tenho que fazer, que ainda não tenha feito? Banho? Asseio? Água? Assento? Reza? Alimentação? Terapia? Abstinência? Repouso? ...

Nada. Nada adiantou. És cruel como um carrasco nazista. Não te apiedas do bom nem do mal, ainda que arrependido. Não tens sentimento. Simplesmente invades, replicas, multiplicas. Com milhões de mitoses malditas.

Maldita.

Qual é o teu propósito? Qual é a tua função no universo? Por que não me deixas em paz?

Madame E. Coli. Odeio-te com a fúria do meu fígado. Odeio-te com as toxinas do meu rim. Odeio-te e quero que morras para sempre. Não suporto mais vê-la se multiplicando em mil placas de Petri asquerosas. Seu cheiro fermenta minha alma de ódio.

Quero que desapareças das minhas vistas, da minha pele, do meu corpo, da minha alma.

Ser abjeto, vou te matar.... ou hei de morrer tentando.

E olha o que ela me respondeu.... Ousada!

Não, sra Lucy. Você não vai me matar. Você é uma boa pessoa. É inteligente e sabe que as coisas não são bem assim. Vivemos em simbiose. Nós duas. Matar uma pressupõe destruir a outra. Você quer viver. Pedalar. Amar. Ser feliz... Não é??

Então deixa-me ser o que simplesmente sou. Uma bactéria. Deixe sua raiva ser como eu. Infinitamente pequena. Desprezível. Invisível. Não me dê um poder que eu não tenho.

Não sou boa nem má. Vilã nem mocinha. Sou só um ser vivo tentando conviver em harmonia.... com você.

Para entender essa desgraça: Dr Drauzio Varela - Cistite

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Hoje foi dia de folga

Quem trabalha no Pólo Petroquímico de Camaçari tem direito a algumas folgas ao longo do ano. Não é benevolência não... Todo mundo trabalha alguns minutos por mês para conquistar esse benefício.

Essas folgas são ótimas, pois dá para resolver um monte de coisas. Ir ao médico, ao banco, ao cartório, levar o cachorro no veterinário, fazer as unhas, enfim. A gente enfia tanta coisa que falta folga para tanta atividade!

A minha folga não foi diferente das outras. Acordei no mesmo horário de sempre, ou seja, as 6:00, e caí pra dentro....

Levar o marido no trabalho, afinal, temos um carro só que não é divisível por dois! Colocar roupa na máquina de lavar, brigar com os cachorros que cavaram meu canteiro de flores (de novo!), colocar roupa na corda, arrumar a mala para mais uma viagem a trabalho, agendar a faxineira, ligar pro banco, pra mãe e pro filho ...ufa!

Ler os emails do trabalho para não ficar atrasada com as últimas notícias e dar aquela última olhada nas reservas. Está tudo certo com o vôo? Que horas é o embarque? E o táxi, já está programado? Tudo certinho. Checklist todo preenchidinho... Oba, vai dar tempo de dar uma corridinha de manhã antes de começar o segundo turno....

Fiz minha corridinha básica de 5 km em 30 minutos. Achei meu tempo ótimo. Foi melhor ainda, porque eu só tinha 30 minutos mesmo! (rs)... Mais uma meta batida hoje. Mais um "tic" no checklist.

Vamos aproveitar para almoçar cedo, porque ainda falta o cartório e aquela reunião de trabalho com a consultoria.... (Ué, você me pergunta, hoje não é dia de folga??) É....respondo eu, mas é o único dia que dá para encaixar a dita reunião importante....

Volto correndo suada, tomo aquele banho e degusto calmamente as sobras do almoço de domingo. Pimentão recheado com soja ao molho curry e penne ao sugo com saladinha de alface americana para acompanhar. De sobremesa, um chocolatinho, que ninguém é de ferro!

Agora é hora de ir ali no cartório fazer um upgrade na união estável. Depois de casar em Santiago, é hora de tornar nosso compromisso público e notório! Já é a terceira visita ao cartório. Estamos tentando casar no civil há uns dois meses! Cheguei lá acreditando que dessa vez vai!

Vai nada.... Ahhh, cadê a xerox autenticada das identidades?? Mas, moça, as originais estão aqui. Precisa mesmo autenticar?? Claro que precisa! Disse-me a "moça" com aquele sorriso de servidor-público-querendo-embaçar-sua-tarde.... E não é só isso... Você tem que trazer o noivo também! Afinal, ninguém casa sozinho, não é mesmo?! Sem noivo, você não vai dar entrada em nada! E não se esqueça de pagar o DARJ, que a propósito, não pode ser pago do Banco do Brasil...

Ok...Faltam duas horas para minha reunião importante...Só tenho que ir ali do outro lado da Estrada do Coco autenticar essas cópias em outro cartório (por que esse não faz esse serviço), voltar para o lado de cá e roubar o Vand do trabalho, pagar o DARJ em qualquer lugar que não seja o meu banco, voltar correndo pro cartório e rezar para a "moça" estar de bom humor....

Chego eu no outro cartório...Já tem cópia de tudo? Ihhh, moço! Faltou este documento....
Pegue esta senha e vai ali no final da rua tirar xerox, depois volta aqui.... Tá bom..... Senha 261.... O balcão está na 250! Ai, meu Deus! Minha reunião vai pro brejo!

Corre, tira cópia... Dá o dinheiro trocado para facilitar as coisas, volta, espera........

Volta, pega o marido.... Ih!!! Esqueci de pagar o DARJ.... Não paga no Banco do Brasil!!! Merda! (Com o perdão da má palavra). Existem cinquenta mil agências do Banco do Brasil e uma ou outra da Caixa Econômica. Todas lotadas. Todas as lotéricas sumiram do mapa e da minha memória.

Meu fiel e adorado marido se lembra que dá para pagar nas Casas Bahia! Bendita seja! Só que o dinheiro não dá.... Paramos, adivinha?? No Banco do Brasil, é claro! Para sacar o dinheiro e correr para a Casas Bahia mais próxima.

Ainda deu tempo de dar um abraço apertado na minha amiga Vânia que por acaso estava ali para comprar um armário para sua filha. Enquanto eu papeava, Vand já se meteu na fila para pagar os boletos.

Voltamos correndo para o cartório animados! Agora vai! Só que não....

Ao chegar a "moça" não estava. Uma outra mocinha nos sugeriu esperar sentados.... Um outro atendente que parecia ser o chefe examinou nossos papéis em busca de algum motivo para nos emperrar o dia... Sem sucesso, disse apenas que faltava uma frase mágica na minha certidão. Sem essa frase seria impossível fazer o casamento do jeito que queríamos....Ai meu Deus! É mais fácil ser preso que casar! (Lembrem-se de que desacato a funcionário público "no exercício da sua função" pode render 2 anos de reclusão....Melhor ficar quieta).

A "moça" finalmente apareceu com seu sorriso malévolo e nos convidou para sentar. Examinou a papelada e demonstrou que nosso esforço de fazer a união estável, visando reduzir a burocracia foi inútil...Ela nem olhou para o nosso contrato!

Mesmo assim, conseguimos registrar tudo e finalmente dar entrada nos papéis. Ainda posso levar algum outro comprovante para suprir a falta da tal "frase mágica", mas terá que ser outro dia. Pensa que acabou??? Nada disso...Ainda tem que pegar as assinaturas das testemunhas, com reconhecimento de firma e tudo! Depois, voltar lá, olhar para a moça de sorriso malvado, e pedir educada e gentilmente que ela nos atenda. Afinal, ela não está ali para nos servir. Quem quer casar somos nós, não ela, ora pois!

Devolvi o Vandi ao trabalho dele e cheguei atrasada na minha reunião importante. Sorte que avisamos aos interessados que era por uma boa causa.

Depois da reunião, corri de volta para o trabalho dele e o resgatei para que ele me levasse ao aeroporto. Pegamos um mega engarrafamento, mas meu intrépido motorista-marido conseguiu chegar a tempo. De Salvador, conexão para BH e mais de  uma hora de espera pelo vôo que está atrasado.... Destino final de hoje: Campinas. Previsão de chegada: Só amanhã.....Quando minha folga terá terminado e uma semana cheinha de trabalho me aguardará.

É, hoje foi mais um dia de folga! Ufa! Cansei!

sábado, 2 de agosto de 2014

Nosso Caminho de Santiago. O casamento dos peregrinos.

Diário do Caminho - 30 de julho de 2014

Chegamos muito cansados ontem. Mas, depois de um bom banho ainda sobrou energia para visitar a cidade e pegar nossas Compostellanas (Certificado de conclusão da Peregrinação). Na Oficina dos Peregrinos, onde se pegam os certificados, descobrimos várias coisas muito interessantes:
  • O sobrenome do Vand  (Ern) não é Alemão e sim Holandês! Assim nos garantiu a atendente, que é da Holanda e tem certeza absoluta que os Ern também são!
  • O nome dele em latim é Ernest, que quer dizer "honesto".
  • O meu ficou Luciam e pelo que pesquisei, quer dizer "amada".
  • Por acaso este ano se comemoram 800 anos da peregrinação de São Francisco de Assis a Santiago. E em homenagem, o convento franciscano também entregou certificados comemorativos.
  • Descobrimos também que haveria uma oração pela Paz as 19h na Capela do convento dos franciscanos e combinamos de ir participar. Os franciscanos são muito simpáticos. Gosto da simplicidade deles. 

Olha o Honesto Holandês recebendo o seu certificado!


O casamento Peregrino

Dizem que o Caminho começa quando você decide fazê-lo. E também que quando você sai portão afora, tudo começa a fluir. Isso foi verdade para nós.

Alguns dias antes de viajar eu fiz uma oração. Atualmente eu não sigo uma religião definida, mas acredito em Deus e creio que ele ouve as preces das pessoas. Pedi a Deus que nos iluminasse, pois estávamos tomando uma decisão séria e definitiva. O casamento para nós significa um compromisso para toda a vida. Sinceramente desejamos ficar juntos até quando durar nosso tempo na terra e além, se isso for possível.

Pois bem. Naquela noite sonhei que alguém lia a Bíblia para mim. Eu não me lembrava do conteúdo, mas guardei bem a referência. Era o Evangelho de Mateus, capítulo 6. Ao acordar, fui correndo procurar uma bíblia para ler o que estava escrito. É a passagem em que Jesus ensina a oração do Pai Nosso. É também onde Jesus orienta a fazer o bem sem alarde e a não guardar tesouros na terra, mas sim no céu...

Guardei na memória esse trecho. Entendi que era uma orientação e que seu significado ficaria mais claro ao longo do caminho.

De fato, nessa peregrinação aprendi que é possível ser feliz vivendo de forma simples. Que ajudar os outros traz um grande prazer, mesmo que ninguém fique sabendo depois e que ser uma pessoa decente vale mais que ter muito dinheiro.

Enfim, voltando ao casamento....

Nós planejamos nos casar na missa dos peregrinos, na Catedral  de Santiago, ao meio-dia. Não tínhamos a menor ideia de como fazer isso. Obviamente que não combinamos nada com a igreja...

Um sonho meio doido, de dois aventureiros mais doidos ainda. Um casamento  sem recepção e  sem rapapés. Mas, teve igreja enfeitada, muitos convidados e até coral cantando!







O importante para nós era a simbologia do momento. Passamos 5 dias pedalando, em um ritual de autoconhecimento e de compreensão mútua. Tivemos que ajudar um ao outro, ter paciência, ter carinho e muita coragem. Fomos ajudados e incentivados por pessoas amigas, em todos os momentos em que precisamos. Exato como imagino que um casamento deva ser.

Agora, era o momento de selar nosso compromisso. Passamos pelas provações. Fomos aprovados. Fomos fortes na fé e alegres na esperança.

Assistimos a cerimônia em pé. A igreja estava lotada de peregrinos vindos de toda a parte do mundo. O sermão foi sobre o significado da peregrinação. O padre leu um trecho da Bíblia, que não me recordo mais. Porém, me lembro bem de outra citação que fez no final: Onde estiver seu tesouro, ali estará seu coração... Fiquei emocionada com a coincidência e entendi que foi o modo que Deus utilizou para nos dizer que nos abençoava.

Quando a missa terminou, um grupo de jovens começou a cantar. As pessoas foram saindo e surgiram vários lugares nos bancos próximos ao altar. Escolhemos um banco discreto na terceira fileira e fizemos nossos votos. Prometemos amor e paciência um com o outro. Companheirismo na saúde, na doença, na riqueza e na pobreza. Nós dois choramos. Foi muito bonito.

Colocamos nossas alianças e agradecemos juntos a Deus por aquele momento tão especial.


Nosso casamento foi lindo. Do jeito que a gente queria e abençoado por Deus. Sou realmente grata a Deus por ter nos acompanhado e ensinado tantas coisas. 

A noite, fomos a capelinha dos franciscanos rezar pela Paz. Foi tudo muito simples. Parecia uma reunião da Igreja primitiva. O padre pediu para algumas pessoas lerem uma mensagem em vários idiomas. Eu li em português. Uma húngara, uma francesa e uma americana leram em suas línguas.  A mensagem dizia algo assim: "Os peregrinos tem um segredo. Este segredo é que a estrada não termina aqui. Na verdade, é agora que começa o verdadeiro Caminho. A sua vida. Segue fazendo o bem. Quanto mais melhor. E lembre-se de que o Amor sustém a vida".

Depois, todos demos as mãos e pedimos a Deus por Paz. Oramos todos juntos a oração do Pai Nosso, cada um na sua língua, ao mesmo tempo. Foi lindo. O padre leu a oração de São Francisco de Assis. Todos se abraçaram desejando Paz. O padre cumprimentou cada um dos peregrinos e nos despediu em Paz. 

Cada um de nós ganhou uma pedrinha com uma setinha amarela, símbolo que nos acompanhou por toda a jornada. Ele disse que essa pedrinha simbolizava a nossa vida e que ela está agora em nossas mãos. 


Abençoados e em Paz, o Sr e a Sra Ern vão aproveitar o restante das férias por aí...

Sou peregrino, sou peregrino - vivo em caminho, vivo em caminho.

Bom Caminho! Ultreya!

Nosso Caminho de Santiago - Dia 5

Diário do Caminho. 29 de julho de 2014.

A nossa última noite no Caminho foi muito tranquila no albergue dos peregrinos.

Estamos no Albergue da Potela, em Barros, no caminho para Caldas de Rey. Um lugarejo metido dentro de um bosque de pinheiros. Uma sensação ee Paz invade a gente quando se passa por aqui.

Os que vão a pé acordam bem cedo. As 4:30 já se ouvia barulho de mochilas se abrindo. A despedida acontece na cozinha, onde um mapa estampado na parede ilustra as infinitas rotas que vão dar em Santiago. Uns comem banana, outros pão seco. Ninguém fala. São as regras do lugar. O respeito pelo descanso alheio é um valor por aqui.
Acordei cedo, pois estava ansiosa para por o pé na estrada. Porém, só saímos quando o dia amanheceu, pois não estamos equipados para pedalar a noite e além disso, faz muito frio nessa região. Resolvemos não comer nada no albergue para procurar uma padaria. Engolimos duas bolachas de amendoim secas que tínhamos na bagagem e nos jogamos na estrada.

O vento frio invadia os pulmões. Cheguei a pensar em por o casaco, mas o céu azul e o Sol que subia alegre pelo horizonte me convenceram de que não seria necessário. Estávamos já quase em Caldas de Rey quando finalmente achamos um lugar para comer. Era um albergue particular. Frutas, suco de laranja, torradinhas e café com leite. Um luxo só! O dono do albergue ainda insistiu para que levássemos frutas do seu quintal.

Enquanto comíamos, chegaram os simpáticos ciclistas portugueses em seus uniformes azuis. Eram quatro homens de meia idade e riso inteiro. Ainda não falei deles, não é mesmo? Eles saíram de Porto, como nós, mas só nos encontramos pela primeira vez em Tuy. Trocamos animados "Bom Caminhos". Passamos pedalando e eles descansando. Ficamos felizes de ver gente da nossa tribo.Desde o San do capacete rosa que não víamos ciclistas no Caminho.

Não muito tempo depois, numa daquelas subidas, lá vem os portugas passando por nós. Eu suspirei um "olá" sem fôlego. Eles nos disseram "força". E passaram por nós mais uma vez.

Não sabemos em que momento eles ficaram para trás, mas o certo é que chegamos no café primeiro que eles. Conversamos um pouco sobre as belezas do caminho e as pedras de Rubiães. Eles se admiraram por termos vindo do Brasil para fazer o Caminho. Ficamos brincando sobre quem chegaria primeiro em Santiago, enquanto devorávamos mais um café.

Terminamos antes e pusemos o pé na estrada, nos despedindo mais uma vez dos portugas. Bom Caminho par todos!

O trecho final é bem mais fácil que todos os anteriores. Não tem escaladas, nem trilhas de pedra. O cansaço acumulado é que se torna um adversário difícil. Para completar, ventava forte e contra o nosso deslocamento. Ainda há muitas ladeiras nesse pedaço, o que cansa ainda mais. Entre um trecho e outro de asfalto, passamos por bosques muito bonitos e trilhas de sobra e água fresca.

Mas, como tudo o que sobe, desce, olha lá eu de novo descendo ladeiras de cascalho.... Decidi que hoje ia descer tudo, então, comecei a repetir meu manto sagrado, tirei o bumbum do selim e mandei bala: "só existe um metro e meio a minha frente...só existe um metro e meio a minha frente...um metro e meio...não olha pra frente....mais um metro e meio...olha a curva.... opa, pedra solta...solta o freio, só um pouquinho....ufa! Acabou! Devo ter repetido esse ritual umas cem mil vezes! De metro e meio em metro e meio, vencemos 40km antes do almoço.

Chegamos a vila de Esclavitud. Hora do almoço e da siesta....
 

Depois de comer o pedal sempre fica mais pesado. A cabeça manda, mas o corpo não obedece. Já começava a duvidar que íamos conseguir chegar antes do anoitecer. Vencemos 40, mas ainda faltavam 23km.

Parando aqui e ali para tomar fôlego, seguimos viagem, decididos a chegar em Santiago em no máximo duas horas.

O Caminho colaborou conosco. As trilhas ficaram mais abertas, as ladeiras mais suaves e as descidas mais divertidas. Só o trecho urbano era complicado, porque a sinalização é escassa e o caminho confuso. Mesmo assim, era possível esbarrar em monumentos históricos quase engolidos pela modernidade, como a capelinha de Madalena que quase escapa da nossa vista:

Estamos chegando! A cada pilar qur marcava o caminho, um cantava a distância para o outro. Faltam 11km.... Faltam 7.... Faltam 3....

Os últimos 2km pareceram infinitos. Precisamos parar para tômar fôlego e lógico, para tirar fotos. Na última parada, o calor já derretia os cérebros e os ânimos. Todas as setas sumiram. Era hora de tomar um sorvete e reorientar  navegação. O alegre sorveteiro nos devolveu a esperança.... "La Catedral está mui cerca....Sigue por aquella calle y ya está. Resta sólo 1 km!!!!!

Foi o sorvete mais gostoso que já tomamos. Animados, subimos nas magrelas e percorremos nosso último quilômetro no Caminho de Santiago de Compostella!


Encontramos com muitos peregrinos chegando. Todos com caras de cansados, mas com uma alegria linda de se ver. Satisfação e felicidade. É por isso que a Capela fica no Monte do Gozo. Pois, é onde esquecemos de toda a dificuldade e concluímos que tudo valeu a pena.

Ao entrar na rua da Catedral, quem encontramos????? Os Portugas!!!! Foi uma alegria geral. Eles tinham acabado de chegar. Estavam muito felizes por termos conseguido. Iam passar mais um tempinho na cidade e logo voltar a sua terra. Foi a última vez que nos vimos. Que Deus proteja nossos amigos. São muito gente boa!

Quando entramos na praça da Catedral, deu vontade de invadir a igreja com bicicleta e tudo! Que alegria!!!!!
 

Contive minha ansiedade e consegui entrar educadamente para agradecer a Deus pelo Caminho e para ver a bela obra de arte que é a Catedral. Fiquei tão emocionada que esqueci de pegar o carimbo mais importante do percurso! Aquele que nos confere o título oficial de Peregrinos! Tive que deixar para depois do banho, porque agora foi hora de procurar abrigo e repousar bem direitinho.

Amanhã a gente vai casar em Santiago.......uhuuuuuuu!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 4

Hoje o dia foi emocionante! Batemos nosso record e fechamos a jornada com 63 km. Santiago se aproxima a cada pedalada.

A noite passada foi quente. Nem uma folha mexia na Galícia. O Sol, teimoso, foi se deitar lá pelas dez. Foi difícil pegar no sono, não só pelo calor, mas também porque cada vez que eu fechava os olhos, via trilhas e mais trilhas de pedra, estreitas, todas descendo num downhill infinito. Acordava assustada achando que ia tomar uma queda a qualquer momento.

As seis da manhã o tempo já estava bem mais fresquinho. Era hora de se preparar para mais um dia de pedaladas. A meta era chegar a Pontevedra (47km desde Tuy). Se conseguíssemos chegar cedo, pretendíamos dar mais uma esticadinha no Caminho para tentar ganhar algum tempo.

Pois o dia nos saiu melhor que a encomenda! Confesso que os primeiros 20 km foram preguiçosos. O corpo não doía, mas as pernas simplesmente não obedeciam ao comando. Embora tenhamos acordado cedo, precisamos esperar o moço da hospedaria acordar para liberar nossas bikes. Com isso, só pudemos sair as 9. Isso contribuiu com nossa preguiça.

Até as panturrilhas acordarem levou tempo. Mas, não teve jeito. Tivemos que nos jogar morro acima e ladeira abaixo sem reclamações. Afinal, isso é uma peregrinação e não um passeio no Ibirapuera, ora pois!! Quando chegamos a Porriño era muito cedo para almoçar, então resolvemos passar sebo nas panturrilhas e seguir adiante.

Chegamos em Mós, há 9km de Redondela um pouco antes do almoço. O plano era almoçar em Redondela, que fica na metade do caminho até Pontevedra, nossa meta do dia. Acontece que esses nove quilometrinhos são feitos de ladeiras intermináveis e sinuosas, morro acima. Parte das nossas pernas ficaram nos pedregais de Rubiães ontem. Com o que sobrou não ia dar para subir sem sustança!

Resolvemos comer por ali mesmo num barzinho que não servia almoço. A dona, muito simpática, improvisou um menu composto de macarrão e molho de tomate com pão e azeite. Nada mal para dois peregrinos.

Pausa para o almoço:


Descansamos um pouquinho numa pracinha para logo encarar o morrão.

Depois de subir, subir, subir e subir... Vem o descer! Tudo! De uma vez só...
Eis que me deparei com uma ladeirona de asfalto ultra inclinada e cheia de curvas. Vand desceu e sumiu da minha vista em um segundo... Eu, tive um acesso de pânico e travei. Não consegui. Desci a ladeira empurrando a bike e enxugando as lágrimas, vendo peregrinos a pé me ultrapassarem.

Troço estranho é o medo. Não há razão para tê-lo, mas mesmo assim ele vem e te domina. Que coisa!

O caminho todo é entrecortado por bosques, trechos de rodovia, ladeiras subindo e descendo, vias de areia, de barro, de cascalho... Ou seja, tem para todos os gostos!

Numa dessas trilhinhas tomei um susto danado! Passei na frente de um portão que se abriu num estrondo e de lá saiu um cachorro correndo e latindo em minha direção. Pulei da bike na hora e a usei de escudo. Eis que da casa me sai uma senhorinha em seu avental de cozinha a bradar com o cão em galego. Aproveitei a deixa para descer a trilha a toda, só parando no final. Até agora minha perna treme! Incrível como um medo pode te ajudar a superar outro! Não é que eu desci a ladeira????

Pois bem, passado o susto, seguimos viagem por mais trechos de lindos bosques. Todo esse teecho é protegido pela Virxem da Guía, ou Virgem do Caminho, protetora dos peregrinos e das crianças, conforme a fé local.

Chegamos em Redondela por volta de 13h. É uma cidade grande, cheia de carros e gente para todos os lados. A sinalização é confusa, o que nos fez perder o caminho algumas vezes. A sorte é que sempre aparece alguém na hora H para nos ajudar. Sorte não. São as bençãos do Caminho.

Em um dos trechos de Rodovia, desses que não tem ciclofaixa e passam caminhões a toda, eu desejei ardentemente uma rota fora da estrada. Era um trecho bastante perigoso. Eu calculava mentalmente os riscos de uma queda ali. A direita havia a vala e um provável braço quebrado. A esquerda, a rodovia e uma morte instantânea... Decidi que era melhor não cair e tratei de ficar bem direitinha no caminho do meio!

Em dado momento, encontramos duas sinalizações contraditórias. Uma apontava para seguir a rodovia e a outra indicava uma trilhinha ladeando um rio. Enquanto decidíamos o que fazer, um Galego se aproximou e explicou que os dois caminhos estão certos, mas o da margem do rio nos tiraria da "carretera" (rodovia). Era tudo o que queríamos! Agradecemos a Deus e a Virxem e descemos a trilha.

Ainda houve outros momentos de rodovia, o que sempre me deixa muito tensa. Mas, todos bem curtos. A maior parte do caminho foi ou por trilhas perto de propriedades rurais ou por dentro de bairros residenciais com muitas, muitas ladeiras infindáveis de asfalto, outras de terra, cascalho ou areia.


Depois do meu último xilique e aprendida a lição com o cão perseguidor de ciclistas medrosas, resolvi inventar uma técnica antipânico. Consistem em colocar a bike na marcha mais pesada nas descidas e olhar somente um metro e meio adiante. Isso te dará a ilusão de ótica de estar pedalando no plano. Só funciona se não olhar muito a frente. Se eu vir uma curva acentuada, um capacete sumir morro abaixo ou o fim da ladeira, já era. Não vou de jeito nenhum! Pois bem, a técnica antipavor funcionou. Desci um ladeirão comprido pra xuxu, olhando de metro em metro. Controlei a respiração e assim fui. Só desci da bike mesmo quando dona prudência mandava, afinal, há que se ter juízo!

Um pouco antes de Pontevedra, encontramos essa linda igrejinha antiga, dedicada a Santa Marta. Havia umas pessoas limpando e ornamentando a capelinha para a festa da santa, que por acaso é amanhã.

Pois, num instante chegamos cedo a Pontevedra e fomos invadidos por um ânimo novo. Já havíamos percorrido cerca de 50km, mas ainda queríamos mais!



Decidimos pedalar até o próximo albergue, que só chegaria uns 13 km depois de muitas ladeirinhas sobe-desce. Achamos um simpático albergue ce gente muito educada em Portela.

Havia um grupo composto de portugueses, espanhóis, franceses e uma americana. Todos nos esperaram tomar banho para o jantar. Antes da comida, o responsável pela casa pediu a um dos peregrinos que fizesse uma oração. Tudo muito agradável. Ah, e ainda tinha comida para vegetarianos, pois o dito senhor é da minha tribo!

Assim concluímos nosso objetivo de hoje, tendo vencido vários desafios. A autoestrada, o cão e as ladeiras...


As pessoas já dormem e quase não roncam. Daqui do quarto ouço o vento batendo no bosque de pinheiros que está la fora e a respiração compassada de peregrinos cansados.

Agora vou dormir também, que amanhã tem mais pedal.


domingo, 27 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 3

28 de julho de 2014.

Deixamos 140 km para trás... Faltam 118 para Santiago de Compostela.

A noite em Ponte de Lima foi um tanto pitoresca. Escolhemos ficar no albergue municipal, desenhado para peregrinos. A ducha é coletiva, assim como o quarto. E bota coletivo nisso. Mais de 20 pessoas espalhadas em caminhas de napa sem lençóis. Não há toalhas também. Os peregrinos precisam levar tudo. O lugar é bem limpo. Ainda se pode lavar a própria roupa ( a mão, é claro!). E se tiver sua própria comida, pode se servir a vontade na mesinha de madeira.

Os peregrinos são sempre muito simpáticos e atenciosos. Em nosso quarto havia portugueses, norte-americanos, um sul-coreano loiro e um alemão que andava marchando. Mesmo de sanďálias, parecia que estava de coturnos.

Na hora de dormir, outra experiência antropológica... Quando as pessoas se cansaram de andar para lá e para cá, começaram a cochichar, para logo em seguida roncar em turnos... Era só um parar para o outro entrar logo em seguida, em uma sinfonia bem sincronizada de sons guturais.

Ah, tinha também o sino da igreja que insistiu em tocar até a 1 da manhã, para voltar a tocar as 6....

Entre um cochilo e outro tive sonhos complexos. Era estranho, pois me deparava com cenas do passado bem difíceis. Mas, o final foi feliz. Eu via várias pessoas deste mesmo tempo antigo se despedindo de mim de forma bem amigável. Concluí que estou deixando o passado para trás. Senti-me em Paz. Efeitos do Caminho?

Ainda refletindo sobre a noite, desisti de tentar dormir ao sino das seis horas, sentindo-me animada para mais um dia. Nem parecia que tinha passado uma noite tão turbulenta. Dei um alegre bom dia aos meus colegas de quarto, enquanto Vand já se aprontava para mais um longo dia. Arrumamos as bikes, tomamos um café com pão quentinho e rumamos para Rubiães as 7:20.

A manhã estava fresca e muito agradável. Saímos junto com vários peregrinos de todos os lugares. Eles iam a pé, com suas enormes mochilas e seus cajados.

A rota até Rubiães é a mais difícil do Caminho. Os Peregrinos experientes dizem que só há dois modos de fazer o percurso de bike. Ou ela estará ao seu lado, ou as suas costas! São 19km de serra, que vão ficando mais e mais difíceis conforme avançamos.

Os últimos trechos são duros até para quem vai a pé. São subidas de pedra que lembram Igatu, na Chapada Diamantina, mas um pouco mais difíceis.

Os peregrinos que estavam a pé ganharam alguma vantagem sobre nós, porque era preciso carregar as bikes morro acima. No trecho final, dois amáveis peregrinos italianos se ofereceram para nos ajudar. Só assim conseguimos subir as duas bikes nesse que foi o trecho mais difícil de todos.

Ainda voltamos a nos encontrar várias vezes, pois o Caminho ora ficava pedalável, ora escalável!

Depois do sacrifício, vem a recompensa! Chegamos a Rubiães antes das 10h! Paramos em um pequeno bar a beira do caminho onde nos informaram que dali era ladeira abaixo! Uhuuuuu!

Cheguei a me empolgar nas primeiras ladeiras, mas logo comecei a sentir saudades das subidas! Lá pela hora do almoço eu não tinha mais pernas, nem equilíbrio, de tanto sacudir por pedras soltas e ladeiras íngremes.

Para quem for fazer o Caminho Português, é importante ter um suprimento extra de água e comida ao seguir para Rubiães. O trecho é bem duro e requer paradas para comer e se hidratar. Matamos as últimas bananas e nossa água acabou. Ainda levou cerca de uma hora para acharmos água novamente. Esse pedaço é bem rústico, passando por belos single trecks e bastante mato. Não há fontes de água nem civilização.

Após esse trecho que mais parecia uma corrida de aventura, chegamos a um belo povoado, chamado São Bento da Porta Aberta. Ali encontramos essa linda igreja que virou hospedaria. A casa da Capela:

Várias descidas depois, chegamos a Fontoura que já pertence a Valença do Minho, ao meio-dia. A fome e o calor dominavam nossos corpos e mentes. Mesmo parando para comer a cada 1,5h, meu corpo pedia por arroz com feijão. Comemos um belo prato peregrino e descansamos um pouco numa cama de folhas secas e espinhos, no meio da trilha seguinte.



E haja ladeira abaixo e montanha acima!

Chegamos ao centro de Valença do Minho onde descansamos um pouco no parque que fica ao lado da Fortaleza da cidade. Muralhas imensas e muito antigas. Uma cigana nos vendeu quatro pêssegos por 1 euro. Outro feirante vendia artesanato e vinho.

Esse trecho era muito urbano e por isso ruim para pedalar. Ruas com carros e calçadas com pedestres. Eu já queria voltar para a trilha.

Foi com enorme alegria que cruzamos a fronteira e chegamos a Tuy, na Galícia. Eram 16:00 quando a Espanha nos recebeu com muito calor e muitas bandeiras. Portugal ficava para trás, com seu caminho de pedras e suas belas paisagens. O Rio Minho sob nossos pés enquanto cruzamos a Ponte Internacional seguia seu curso caudaloso e imponente.

Tuy nos aguardava com suas escadarias de pedra e enormes igrejas. Aqui, o j vira x. A virgem é virxem e a junta comercial vira Xunta. Vocé pode falar galego, português ou espanhol que dá no mesmo. Todo mundo se entende.

Aos poucos as setas foram ficando cada vez mais raras, sendo substituídas por vieiras de ladrilhos. Vieiras são conchinhas, símbolos do Caminho de Santiago.

A cidade foi feita para a eternidade. Observem esses prédios. São muito altos e parecem indestrutíveis.



Passeamos um pouco, mas logo fomos buscar pousada para os pés. O dia foi longo, mas muito gratificante. Agora é hora de descansar as perninhas, que ainda falta muito chão!

¡Buen Camino!

sábado, 26 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 2

Hoje foi um dia bem puxado. Fizemos cerca de 44 km de muitas ladeiras, ora de pedra, ora de asfalto. Algumas trilhas bem técnicas e muito calor.

Saímos de Arcos pela manhã sob uma agradável neblina. Como se diz lá no Sul "neblina baixa, sol que racha". Foi no que deu! Um céu azul de dar vertigem e um belo dia de sol. Cheguei a ter miragens com as setas amarelas que existem para indicar o caminho. Uma delas apareceu em um muro, só para imediatamente sumir, tão logo fixei os olhos nela. Cansaço e calor. Experiências que maltratam o corpo, mas ajudam a limpar a mente.

Essas setas tem provocado um efeito muito bom em mim. Como precisamos delas para não perder o rumo, acabo me obrigando a manter o pensamento no momento presente. É um ótimo remédio para a ansiedade. Eu só via e pensava no próximo metro a minha frente. Assim, deu para curtir a paisagem, o vento no rosto nas descidas e as agradáveis sombras das oliveiras. Sem pensar em nada do mundo confuso do nosso dia-a-dia.

A brisa fresca amorteceu um pouco o calor. As fontes de água limpa que encontramos com facilidade ajudaram a manter a hidratação. Não tivemos dificuldades em achar comida boa e barata. Tudo o que precisamos está aqui. Ao nosso dispor.

Parece que aos poucos a urbanidade vai saindo da gente, conforme as paisagens vão ficando mais e mais agrícolas. Muitas plantações de milho e muitas igrejinhas antigas por todo lado. Aqui e ali, alguns peregrinos a pé e bem poucos de bike.

Há trechos em que se fica por quase duas horas sem ver uma viva alma. Só escuto as cigarras e o som das correntes mudando de marcha... É que vem aí mais uma subida daquelas.

Houve momentos de muito cansaço, mas o visual compensou o esforço.
 


O trecho da manhã levou cerca de 20 km. Paramos para almoçar em Tamel. Um pouco depois de Barcelos. Ali tem um albergue municipal muito simpático. Preparamos a nossa própria comida, sem pagar nada e usando o que estivesse na geladeira.

Ficou uma delícia e ainda pudemos relaxar um pouco para a outra parte do dia.

Olha a pinta da cozinheira!

Rolou um spaguetti com ovo frito e salada de alface com tomate. O Vand pescou uma lata de atum na geladeira e garantiu seu aporte de proteína para a segunda etapa. 

Tentamos tirar um cochilo depois do almoço, mas a atendente do albergue não deixou. A simpática senhorinha estava tão feliz de nos receber que não parava de puxar assunto, ignorando solenemente meus olhos piscantes e cabeça pendente de sono...

Debaixo de um calor quase nordestino, nos imbuímos de coragem para mais um trecho. Eram mais 23 km até Ponte de Lima. O primeiro trecho era passeio comparado a este. Nem na ladeira do perrengue tinha tanta pedra! 

Valei-me meus treinos da Sapiranga! Ai, minha Nossa Senhora das pernas fortes!! Vamos subir!!! Agora, vamos descer! E eu... proibida de desmontar da bike sob pena de muitas broncas do noivo, desci ladeiras e mais ladeiras abaixo....Algumas pareciam intermináveis, mas não eram.... sempre terminavam no pé de uma nova subida....

Finalmente chegamos a bela Ponte de Lima. 
 
Exaustos, paramos no albergue dos peregrinos em busca de banho, cama e sono.

O banho e a cama já conseguimos... agora o sono, só depois que os outros 50 peregrinos resolverem dormir!

Soube que o trecho de amanhã é o mais difícil de todos! É Serra acima!

A meta é chegar em Tuy, na fronteira com a Espanha.

Que sejamos fortes na fé e alegres na esperança em nosso caminhar de peregrinos.

Bom Caminho!


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 1

Eu não sabia, mas, hoje, 25 de julho, é dia da Festa de Santiago de Compostella! Excelente dia para começarmos nossa aventura.

Depois de duas noites e um dia em Porto, usufruindo da hospitalidade de amigos, passeando, comendo e dormindo bem, chegou a hora de por o pedal na estrada.

Cansados dos passeios, decidimos dormir mais perto da "largada". A ideia era acordar cedo, mas ninguém escutou o despertador e acabamos nos levantando as 9! Daí, até arrumar tudo, desembalar as bikes, comer e sair, foi-se um tempo precioso.

Chegamos ao ponto inicial da rota que escolhemos, a Praça da Ribeira, por volta das 11:30. No trecho até ali, conhecemos o Sam, que pretendia fazer o Caminho em dois dias, mas estava perdido em busca do seu ponto inicial, a Sé Catedral.
Sam e seu capacete rosa nos acompanharam ate a Sé Catedral. Ali paramos para pedir a Deus proteção. Sam pegou seu mapa e seguiu adiante, pois estava ávido por percorrer seus 100km do dia. Deus lhe ajude e Nossa Senhora da panturilha lhe dê forças!

Nós partimos da Praça da Ribeira, porque havíamos escolhido a rota do litoral. Os peregrinos dessa rota costumavam desembarcar a beira do Rio Douro e seguir até Santiago por terra, a pé ou a cavalo. Queríamos repetir seus feitos em nossos camelos de alumínio. Porém, todo mundo precisa passar pela Sé, se fizer o caminho português. É ali que se pegam os mapas e as credenciais dos peregrinos. Lá se ganha o primeiro carimbo no passaporte. Conosco não seria diferente.
Difícil foi sair de Porto. Muito trânsito, sinalização confusa e muito empurra bike. Ainda bem que pudemos contar com a solidariedade dos portenses. Especialmente dos mais idosos. Todos foram muito solícitos em ajudar. Devido a essas dificuldades iniciais, acabamos gastando 4 horas até a Maia, nossa primeira referência, apenas há 12 km de Porto!

Paramos ali para almoçar. Pátio Santa Luzia. Comida boa, barata e atendimento muito agradável. Ganhamos o segundo carimbo e seguimos viagem rumo ao que pensávamos ser o litoral....

Passamos por Gião e Vilarinho, trechos do Caminho Central. Chegamos a Vila do Conde por volta das 18h e só então descobrimos que estávamos muito, muito longe do litoral. Seguimos adiante já pensando em encontrar uma pousada e repensar a navegação quando nos deparamos com um verdadeiro oásis. Era a Quinta São Miguel, em Arcos. De novo estávamos no Caminho Central. Concluímos que a rota da Costa não seria o nosso Caminho e decidimos seguir pelo interior.

Depois de sair da zona urbana o roteiro vai ficando mais e mais bonito. São milharais, vinhas, casarões antigos, algumas trilhas de terra e muitas ladeiras de paralelepípedos. Tudo muito lindo.

De Maia até Arcos são cerca de 30 km, que fizemos em 3 horas. Uma velocidade bem melhor que a do trecho inicial, mas ainda abaixo do que podemos fazer.

Um longo banho e uma deliciosa sopa acompanhada de pão caseiro e uma taça de vinho português nos revigoraram a alma.

A meta amanhã é almoçar em Barcelos e dormir em Ponte de Lima. Em albergue, pois já estamos mimados demais!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nosso Caminho para Santiago - Prólogo rumo a Lisboa

Promessas que você faz a si mesma, se esquece e só volta a se lembrar quando é tarde demais...

Nunca mais viajo de classe econômica....Não viajo mais a noite.....

A lembrança da promessa quebrada me vem apertada em um assento que quase não reclina em meio a milhões de ruídos insones....

E por falar em ruídos... Troço difícil é calar o pensamento. Como a mente é tagarela!

Basta uma turbulência, para imaginar o avião caindo e minha família sabendo da minha morte pelo jornal nacional....Basta lembrar da insônia, para que ela, intrépida, me lembre que jamais vou dormir de novo....

Sempre fui assim. Imaginativa demais. Minha mente sempre tentando me roubar o momento presente. Construo roteiros complicadíssimos a partir de uma simples ideia, um cheiro, um olhar, um papel que cai no chão... Alguns pensamentos são facilmente descartados. Bastando olhar para o lado e...pensar em outra coisa. Outros insistem em voltar, como um disco arranhado.

Tenho aqueles pensamentos recorrentes muito doidos. Coisa de filme! O meu favorito é aquele em que me vejo inesperadamente em uma zona de conflito. Busco refúgio em um abrigo da Cruz Vermelha e lá trabalho como voluntária até conseguir voltar para casa... A primeira vez que essa ideia me ocorreu foi quando passei de ônibus pela praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio. Eu era criança e estava indo para a escola. Tive ímpetos de descer do ônibus e me matricular no curso de enfermagem, ali mesmo. Certamente, seria muito útil no caso de me ver perdida em uma guerra...

O tempo passou. Eu não desci do ônibus e não me tornei enfermeira. Fiz um curso prático de Primeiros Socorros em algum momento da vida, virei mãe... Bom, imagino que isso me qualifique para dar banho em crianças de um campo de refugiados e passar methiolate em suas feridas.

Eu usava a imaginação para me fazer companhia em um tempo em que era muito sozinha. Hoje, não tenho mais tempo para esses devaneios. Mas, quem disse que me livro deles?

Essa foi minha primeira noite rumo ao Caminho de Santiago. Insone, com mil pensamentos simultâneos e ansiosa como uma criança.

Lisboa nos recebeu moderna e cheia de prédios. Muito diferente da expectativa que eu tinha. Esperava uma cidade velha e de ruas estreitas. Encontramos largas avenidas, transporte público eficiente, gente apressada e séria. Muitas caras tristes no metrô. Como em qualquer outro lugar do mundo.

Assim como em qualquer outro lugar, também achamos pessoas agradáveis, como o jovem casal de mochileiros que nos doou seus cartões de transporte... Eu muito desconfiada, achei que queriam vendê-los. Não! Queremos dá-los a vocês! Não vamos mais precisar deles!

Surpresos e felizes, colocamos mais créditos e aproveitamos o dia para passear.
Fomos a Torre de Belém e seus arredores.
Almoçamos num restaurantezinho bem simpático, com opções vegetarianas. A siesta foi no Jardim Botânico. Na grama mesmo! Vencidos pelo cansaço dormimos ao som de folhas farfalhando e cigarras cantando.

Acordei com um simpático marreco a me observar....


Tomamos um trem para Vila Nova de Gaia. Célere, silencioso e com wi-fi grátis! Vamos ali abraçar alguns amigos queridos, para em seguida rumar a Porto, onde o Caminho de fato começa.







terça-feira, 27 de maio de 2014

Tempo de votar - Do que o Brasil precisa - Parte 2 - A matriz energética brasileira

Embora o Brasil ocupe uma posição privilegiada em comparação com outros países, no que diz respeito a fontes de energia renováveis, a matriz energética brasileira ainda é fundamentalmente dependente do petróleo.

Dados de 2011 (EPE) apontam que o petróleo e seus derivados ocupam o topo da matriz energética nacional e que a tendência é aumentar ainda mais a demanda por essa fonte primária nas próximas décadas.

Por outro lado, considerando apenas a demanda por energia elétrica, a grande fonte ainda é a hidráulica. As hidrelétricas respondem por mais de 70% do suprimento de energia em nosso país. Apesar dessa contribuição diferenciada, temos observado muitas idas e vindas na gestão dos recursos de energia renovável no Brasil.

Em 2010, em artigo publicado no jornal Estado de São Paulo (GOLDEMBERG, 2010), os especialistas no setor energético apontavam o início de um período otimista devido a aprovação do plano decenal de energia naquele ano. Eram previstos investimentos importantes nas hidrelétricas com previsão de disponibilidade adicional de 30 milhões de MW entre 2010 e 2019, incluindo a hidrelétrica de Belo Monte.

O mesmo artigo explica o aumento da demanda por termelétricas. Isso ocorreu devido ao intenso crescimento do país pós 1990, associado a problemas climáticos (secas) que prejudicaram a operação das hidrelétricas. Além disso, conforme o autor, o Governo teve dificuldades para obter licenciamento ambiental para a construção de novas hidrelétricas.

O curioso neste assunto é que o licenciamento ambiental é dado por órgãos do Governo. Mais curioso ainda é observar que a Construção Civil não tem encontrado dificuldades para licenciar os condomínios, estádios de futebol e prédios comerciais, mesmo em áreas protegidas.

O artigo de 2010 finaliza chamando a atenção sobre a necessidade de economia de energia, o que envolve produção de equipamentos mais eficientes e educação da sociedade.

Em 2013, em artigo do jornal do comércio do Rio Grande do Sul, a expectativa volta a mudar e é apontada a manutenção do ciclo de aumento da demanda por usinas termelétricas. Desta vez, o autor (Klein, 2013) aponta as secas como responsáveis pela queda na produtividade das hidrelétricas.

A discussão se volta para as reservas de carvão do RS e de seu potencial de contribuição para o fornecimento de energia. O mesmo artigo lembra o compromisso assumido pelo Governo de não onerar a tarifa de energia elétrica para o consumidor final, mesmo com o aumento de produção das usinas térmicas. Compromisso esse insustentável e que ao menos na Bahia já foi rompido (recentemente foi aprovado um aumento de 15% na tarifa de energia elétrica doméstica e 16% para indústrias).

Outra promessa não cumprida foi o aproveitamento da energia eólica. Anunciado em 2011 como uma alternativa viável e com a perspectiva de disponibilizar até 10 GW para a população, os novos parques eólicos até hoje não deslancharam.

A matriz energética do Brasil ainda é muito dependente do petróleo, porém, temos um potencial hidrelétrico diferenciado e um potencial eólico que ainda pode ser mais explorado. Além disso, podemos desenvolver outras fontes como biocombustíveis, aproveitamento de gás do lixo, processamento de biomassa e maior investimento na produção de álcool a partir da cana-de-açúcar.

Temos recursos naturais abundantes, temos cabeças pensantes, temos tecnologia. Falta gestão, competência política e vontade de fazer o que é certo.

O Brasil é um desperdício. Vamos mudar isso? Comece votando certo!

Referências:
SREVE, R. N et al - Indústria de Processos Químicos - 4a edição - Ed Guanabara - Rio de Janeiro - 1997
Matriz Energética Nacional e Balanço Energético - Notas de aula - Prof Marcio
www.epe.gov.br - Empresa de Pesquisa Energética -acessada em 27/04/14
GOLDEMBERG, J. A matriz energética brasileira. O Estado de São Paulo. 17/05/2010.
KLEIN, J. A matriz energética brasileira poderá mudar. Jornal do Comércio do Rio Grande do Sul. Caderno de Economia, pag 11. 14/01/13.


sábado, 24 de maio de 2014

Tempo de Votar - Do que o Brasil precisa?

Pessoal, este é um ano de eleição. Precisamos escolher nossos candidatos com muito cuidado.
O que é importante para você? O que você acha que falta ao Brasil?

Eu acredito que o Brasil tem sérios problemas de infraestrutura. Sinto que estamos "construindo uma casa na areia". Esse pseudo-crescimento não é sustentável, se não houver investimentos na base. Logo logo os gargalos vão aparecer e brecar nosso desenvolvimento.

Onde eu penso que falta alicerce?

1 - Educação - Não quero cotas. Não precisamos de cotas. Precisamos de educação básica de qualidade, para que todos aqueles que queiram estudar possam fazer o curso que desejarem, onde desejarem, desde que se esforcem. Precisamos de universidades de excelência, com infraestrutura decente, para que nossos jovens possam desenvolver seu potencial. Precisamos de parceria público-privada. Universidades públicas e privadas devem entender o que a Sociedade precisa e desenvolver projetos que ajudem o país a crescer.

2 - Logística - Não consigo entender porque um país deste tamanho não é todo cortado por ferrovias. Imaginem se toda a produção pudesse escoar diretamente da fábrica para os portos e dali para outros países.Ou se houvesse pontos específicos, próximos ao mercado consumidor, onde caminhões levariam a carga da estação ferroviária aos devidos pontos de venda e distribuição, por distâncias curtas e em rotas exclusivas. Imaginem!

3 - Transporte de massas - Que vergonha este país não ter metrô ou trem decentes nas suas principais capitais. Que vergonha ver as vias lotadas de carros e motos, perda de tempo no trânsito e consequente perda de produtividade. Em um dia normal, um cidadão normal gasta de 3 a 4 horas no trânsito, para trabalhar 8 horas. Isso é um absurdo!

4 - Energia - Os desafios são muito grandes, mas não são impossíveis. Fomos pioneiros da energia renovável com o Pro-álcool na década de 70. Hoje, os EUA já nos superaram em produção de álcool. E olha que eles usam o milho. Nossa cana de açúcar tem muito mais potencial! Temos biomassa, temos quedas d'água. Temos um potencial imenso!

Sugiro analisarmos com calma as propostas de Governo dos candidatos e escolher aqueles que estão mais alinhados com o que acreditamos ser importante para o Brasil. Depois, cobrar dos eleitos que cumpram suas promessas.

Chega de reclamar e vamos arregaçar as mangas e fazer este país crescer. Ou então, ir embora daqui. Ficar no sofá reclamando do Governo não vai resolver nada.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Haja papéis!

Quando procuro (e invariavelmente encontro) suas meias,  camisas, telefone ou qualquer outro objeto desaparecido. Quando meço sua febre, sirvo sua comida e lhe ofereço um casaquinho. Reclamo da sua bagunça e insisto em aconselhar, mesmo fora de hora - Sou Mãe.

Quando me debruço sobre os livros e espremo meus neurônios em integrais intermináveis,  problemas insolúveis e balanços infecháveis - Sou Estudante

Quando planejo, organizo, delego,  acompanho, analiso e cumpro - Sou Profissional.

Quando me visto de bicho grilo,  me jogo no mato, atravesso mangues, montanhas e trilhas - Sou moleque.

Quando me recolho. Fico em silêncio. Choro e grito. Calo. Engulo. Digiro. Processo. Prossigo - Sou apenas eu.

Quando erro, tropeço,  caio e me levanto. Falho. Sou apenas gente.

E quando a mãe estuda e quer ser uma profissional melhor, sem deixar de ser criança? Quero abraçar o mundo. Inteiro. Bem apertado.

E por que não?


Video legal sobre a melhor profissão do mundo (e o meu papel favorito): A melhor profissão do mundo

quarta-feira, 16 de abril de 2014

CICA 2014 - Etapa Peleja

Minha gente, eu estava doida para colocar essa história no papel...Ou melhor, na rede!

Já participei de muitas corridas de aventura. Todas me trouxeram muitas alegrias e muito aprendizado. Mas, a primeira etapa do CICA-2014 conquistou um espaço especial na minha memória...

O CICA é o Circuito do Interior de Corridas de Aventura da Bahia. Organizado por atletas de diferentes equipes e dividido em 4 etapas, permite a participação de aventureiros experientes e novatos de todas as idades. Democrático e integrador, é um dos eventos mais esperados do ano para os amantes de Aventuras.

A edição deste ano teve as etapas batizadas com uns nomes bem sugestivos: Peleja, Couro de Bode, Mandacaru e Cangaço.

Hoje vou compartilhar como foi nossa PELEJA!!

41 duplas inscritas. Cidade de Tanquinho na região de Feira de Santana. Um lugar meio caatinga, meio sertão. Cheio de pessoas maravilhosas e uma natureza pra lá de exuberante.

Só pelo mapa vocês podem ver que o negócio é bruto! Estão vendo essas linhazinhas de cor marrom?? Pois é, caro leitor, são curvas de nível. Quanto mais juntinhas, mais carrasca é a subida. Quanto mais linhas, mais alto é o morro. Imagina o desespero que dá quando a pessoa sobe todas elas só para descobrir que está no morro errado....

Pois, isso aconteceu com algumas equipes, mas como essa galera é puro sangue-nozóio, a turma nem assim desistiu! Troféu persistência para todos mundo!

O que o mapa não mostra é a agrestia da vegetação. As plantas participam ativamente da corrida, seja encalacrando seus pés, seja agarrando seu corpo, seja arrancando seus cabelos ou roubando sua bandana...

Como sempre, sonhei com a corrida na véspera. No meu sonho eu não conseguia achar os equipamentos e ficava mega tensa. Cadê minha bússola? Onde estão os capacetes??? E as bikes, onde foram parar??? Felizmente, na última hora, aparecia tudo. Bússola, capacetes, luvas... bomba de encher pneu....
No mesmo sonho (ou seria premonição???) o pneu da bike do Vand furava de um jeito que ficava todo retorcido. E quando a gente tentava encher não conseguia porque o pito estava entupido! Ôh nervoso, meu Deus!! Arrrmaria... 

Quanto a navegação, só me lembro de ter ouvido alguém me dizer: "Confia no Vand"... E foi o que eu fiz...

Supersticiosa ou não, tratei de fazer meu checklist....Listei tudo o que achei importante para não esquecer. Em seguida, enfiei tudo dentro do carro daquela maneira desordenada que me é peculiar. Só no caminho, ao olhar o checklist pela última vez é que lembrei da bomba.... Aí, pensei com meus botões: "Que bobagem - sempre levo bomba e nunca uso...não vai ser hoje que o pneu da bike vai furar!"

Seguimos para Tanquinho no sábado a tarde, obedecendo fielmente o Waze, para não começar a corrida errando a navegação! Mauroba até que nos chamou para dormir na casa dele. Eu sabia que seria muito legal, mas que com certeza dormiríamos bem pouco. O conversê ia se aprofundar noite a dentro, com toda certeza!

Como já tínhamos reservado a pousada e pretendíamos ter uma longa noite silenciosa e tranquila, declinamos do convite e fomos pra pousada mesmo.... Afinal, uma caminha quente e aconchegante em um quarto fresquinho e silencioso nos esperava....

O pessoal da pousada era super atencioso. Num instante nossa caminha aconchegante ficou pronta. Fizemos um lanchinho e conversamos com eles sobre a corrida. Eles não sabiam de nada e ficaram bastante curiosos e empolgados de ter sua cidade com um evento tão importante! Fica a dica! Precisamos divulgar mais o nosso esporte! Tenho certeza de que a prova vai ser o assunto da cidade por um bom tempo.

Barriguinha cheia, vamos dormir! Mas só depois de resolver a controvérsia sobre a real necessidade de guardar as bikes no quarto. Finalmente o bom senso prevaleceu e decidimos concordar que eu tinha razão...As bikes dormem com a gente! Era isso, ou eu ia dormir do lado de fora junto com elas!  E tenho dito! (Superstição a parte, melhor não facilitar!)

Nossa longa e silenciosa noite de sono estava para começar....Ou não.....

A Pousada Bela Vista deveria se chamar "Pousada do Morro dos Ventos Uivantes" É que a danada fica do lado de um morro e por alguma razão sobrenatural, o vento fazia curva bem debaixo da nossa janela....Foi uma longa noite... de uivos, pessoas conversando, portas batendo e alarmes de carro tocando....
                                                        pen..pen..pen..pen....
Estranho...parecia o nosso carro...
pen..pen..pen..pen....

Amor.... O alarme do carro tá tocando.....- Vai dormir, neguinha! Não é o nosso carro!....
                                                        pen..pen..pen..pen....

Amor, continua tocando...Vou lá ver....- Tsc...Já falei que não é o nosso carro. É lá na rua, não tá vendo?.....vamos dormir que estou cansado...
pen..pen..pen..pen....

Tá bom, então vou  lá fora só dar uma olhadinha...... Levei as chaves escondidas no bolso e entre um "pen" e outro resolvi silenciar o alarme....

Magicamente, o ruído parou....

- Achou o carro que estava com o alarme disparado?

Não...Mas apertei esse botãozinho aqui e o barulho parou....Deve ter sido coincidência! E voltei para a cama guardando a risada só pra mim.... (Dica do dia: Nunca teime com um alemão....Eles não são teimosos. Teimoso é você que teima com ele!)

Harmonia restaurada, vamos dormir. Sei lá se o morro continuou ou não uivando. Depois de certa hora, não ouvi mais nada. Dormi feito uma pedra.

O dia amanheceu com uma serraçãozinha que logo se dissipou. Ainda na pousada, tratamos de bater aquele café da manhã com tudo dentro: Pão com requeijão, café com leite, salada de frutas, cuscuz e ovo frito. Só para descobrir depois que a organização estava dando o café de graça....Enfim! Coisas de quem não lê os informativos direito!

Descansados, hidratados, alimentados e briefados...., mapa na mão devidamente marcado. Tudo ok! Vamos para a largada!

-Amor, sua bike está com um ruído estranho...tá fazendo "psi...psi"..... - Ih, Vai ver furou o pneu. Disse Vand tripudiando, sem me levar muito a sério.....Só pensei na bomba que havia deixado em casa... Preferi abandonar logo esse pensamento e curtir a prova.

Por falar em pensamento ruim....Tem uma voz na minha cabeça que sempre me diz que não vai dar....Que vou cair...Que é perigoso..Que não tenho habilidade...Que o pneu vai furar...Que não treinei o suficiente...Isso acontece com vocês também?

Enfim, dessa vez, decidi levar essa voz para passear comigo mediante um acordo de damas!

Disse eu a Maria (nome que dei a essa "amiga" imaginária) - Hoje, você vai se divertir. Você não vai sentir medo. Você não vai ficar falando coisas negativas na minha cabeça. Nós estamos aqui para brincar. Deixe as preocupações de lado e venha ser criança comigo!

E assim foi. Aos berros de BORA CAMBADA!!! Eu sai comendo trilhas com farinha. Desci cada ladeirão que nem acreditei. Cair estava fora de cogitação. Pedalei em cima de pau, pedra e o que mais aparecesse pela frente. Rolou até uma corridinha com Gabi, o que foi muito gostoso!

Ver o Vand navegar foi um prazer a parte. Que coisa linda! Ele olha pro mapa, olha em volta, joga a bússola fora e diz: - É por ali! Pode seguir que dá certo! Azimute??? Que nada..... Ele tem um GPS implantado no cérebro!

No início da prova, ainda precisamos de um tempinho para entrar no clima e entender o mapa. Mas, a dúvida durou somente o espaço entre o PC-1 e o PC-2. De lá em diante, a navegação do Vand foi certeira! Um talento natural! Meu orgulho!

Batemos os primeiros PCs quase junto com Mauro e Gabi. Um rally danado!!! Já tentaram acompanhar essa baixinha??? É uma guria retada!

Do PC-4 saímos correndo pro trekking porque ainda pretendíamos fazer o MTB-O (etapa de orientação com a bike - receberíamos outro mapa e teríamos meia hora para caçar alguns prismas antes de concluir a corrida). Para isso, precisaríamos chegar antes de 12:45 no PC-12. Tínhamos um pouco mais de duas horas para subir dois morros, pegar 4 PCs no trekking, fazer outra transição, pegar as bikes e pegar mais 4 PCs...Fichinha!!

Eu estava empolgadíssima até entrar no mato......

Ué.....Cadê a trilha???? Era para ter uma trilha aqui... Por que não tem??? Acho que estamos no lugar errado...Nós e metade dos competidores! Foi o único momento que ameacei teimar com o navegador... O mapa mostrava uma trilha bem marcada...Mas, deve ter chovido ou colocaram um fertilizante muito poderoso ali...Era uma abundância de mato, cansanção, espinhos, cactus e tudo mais o que você conseguir imaginar de diversidade biológica.. Tinha de tudo ali... Menos trilha.

Foi um rasga mato da zorra! De tanto esforço, comecei a arfar feito uma asmática e suar feito um cuscuz...Vand chegou a sugerir desistirmos, porque ficou preocupado com meu coração.... Só fiz olhar para ele com aquela cara que nós mulheres sabemos fazer quando estamos contrariadas....
Entre uma arfada e outra consegui balbuciar algo do tipo: Confie em mim e tenha paciência. Eu vou conseguir! Claro que eu dizia isso para a Maria, não para ele. Eu precisava muito me convencer disso primeiro, pois, se a auto-confiança não vier de dentro, de fora é que não vai vir!!

Daí em diante, ele só me estimulou. A cada parada para tomar fôlego (e foram muitas), ele só me dizia que faltava pouco. Está chegando. Só mais um pouquinho. As pessoas passavam por nós aos quilos... Uma, duas, dez duplas.....E a gente ficando para trás.....Vand cheio de energia e eu quase devolvendo o café da manhã...

Rezei, rezei, rezei.... Internamente, gritava comigo mesma: Bora, mulé!!! Você pode mais que isso! Anda!! Respira!

Foi bem difícil. Tive que ter muita paciência comigo mesma. Depois de me escorar em 1500 pedras, rasgar muito mato e me arranhar em muito espinho, com muita valentia, conseguimos achar a trilha. Dali, era escalar pedra.

Pensam que ficou mais fácil??? Bah! Quando vi aquelas pedronas lisas e peladas, tive medo! Vand passava nas pedras nuas em pé. - Olha amor, dá pra passar! Não cai não! Vem!!!

- Sua mãe que não cai!!! Essa porra tá escorregando! 

Só havia duas alternativas. Ou andar por cima das pedras, com risco de escorregar e descer o morro rolando, ou andar pela base da pedra, por entre os pés de cansanção.... nem preciso dizer qual foi minha opção...

Seu cansanção... Se prepare, por que vou lhe usar!!! 

Era muita pedra, gente. E cansanção a dar com o pau! O morro parecia infindável. Teve uma hora que cheguei a pensar que havíamos errado a navegação e tínhamos ido parar na Bolívia!

Graças a Deus, ainda estávamos em Tanquinho e após mais de uma hora de escalaminhada, O PC-5 apareceu magicamente diante de nós... Tcharam!!!! Devia ter tocado música naquele momento.... Tchan...tchan...tchan.....tcharam!!!! (2001 - uma Odisséia no espaço seria uma boa opção).

Ameacei desistir do PC-6, que era opcional, mas foi só ver a animação do Vand para desistir de desistir! Então vambora! Já chegamos até aqui...Não tem como piorar.....É só mais um morrinho....

Mais pedra nua, mais escalada. Era pedra de um lado e ribanceira abaixo do outro.... Nessa etapa rolou muito cuidado, muita atenção e muita solidariedade entre as equipes. Um ajudava o outro a subir. Quem estava descendo abria espaço para quem subia....Era necessário mais juízo e menos valentia naquele momento!

Quando chegamos ao topo onde estava o PC-6, encontramos Edilene e Maurão descendo. Escutei vagamente Edilene dizer que éramos a terceira dupla mista a chegar no PC....Eu tinha visto tanta gente subindo e descendo que não acreditei.... Ela deve estar enganada!

Ainda com os bofes saltando das entranhas, dei um último impulso e literalmente me joguei aos pés do fiscal do PC.... Amor - assina aí que vou descansar um pouquinho!!

Foi quando o fiscal confirmou: Parabéns, vocês são a terceira dupla mista a passar por aqui!!! Gente, eu dei um pulo e num instante esqueci que o fôlego tinha ficado lá embaixo!! Mágico esse negócio de competitividade! Dá uma injeção de ânimo danada de boa!

Descemos correndo, ladeira abaixo. Eu conseguia até conversar! Estávamos perto do pódio!! Que delícia!! Mais feliz ainda eu estava porque o próximo PC ia ter água... e Guaramix!

Achamos o PC 7 sem muita dificuldade. Me acabei no Guaramix geladinho! Como estávamos felizes! Por onde eu passava, saia gritando com todo mundo. Bora, gente!!! Tá acabando!! Metade da prova ficou pra trás! Só falta o resto! kkkkkkk

Animadíssimos, seguimos reto até a transição. Edilene veio conosco proseando... Quer dizer, ela falava, Vand respondia e eu..... economizava fôlego....Sabia que ia precisar muito ainda! Logo atrás vinha Maurão, provavelmente guardando fôlego também, porque na outra perna de bike passou por nós que nem um raio....Danado esse moço!!!

Mantivemos um bom ritmo até a transição, no PC-8, onde nossas bikes nos aguardavam ansiosamente.

Achamos Mauro e Gabi lá meio assim-assim.....meio cansados, meio chateados. Tentei dar uma injeção de ânimo nos dois, afinal, Aventureiros do Agreste não desistem nunca! Espero ter conseguido....

Pegamos as magrelas para o último trecho de bike..... A água do skeeze fervendo.... O sol lascando em banda....... Minha disposição também....

Apesar da musculatura estar respondendo bem, algo estava estranho. Comecei a passar realmente mal.... Sorte que o caminho para o PC-9 passava novamente pelo 7. Pedimos mais água e fomos em frente. Afinal, faltava tão pouco.... Em cada PC eu me jogava no chão e pedia água. Foi meio assim, digamos...vexaminoso... Mas, a vergonha na cara ficou pelo caminho entre os PCs 5 e 6 e eu não voltei para buscar.... Onde podia parar, parava..... Onde podia pedir água, pedia..... De vez em quando me dava uns calafrios esquisitos..... Será que vou morrer??? Agora não, dona morte. Só depois da chegada!

Entre o PC-10 e o 11 Vand que já estava com o pneu furado desde não sei onde começou a perceber sua bike muito pesada. Era o que faltava! Se o pneu esvaziasse seria muito difícil continuar a prova. Logo agora, tão perto do fim!!! E cadê minha bomba??????

Só tinha um jeito! Acelerar para concluir logo a prova. Dei tudo de mim... Pedalei o resto de fôlego que me sobrou. No caminho para o PC-10 uma alma bondosa acenou para mim lá de longe... da porta da sua casa.... -Ei!!! Você quer água??!!! 

Oh meu Deus, era tudo o que eu queria! Mas, cadê força para ir até lá?? Achei uma sombrinha e foi ali mesmo que me joguei. O moço entendeu que não era falta de educação...era exaustão mesmo! Veio com uma água geladinha, maravilhosa. Conversou bastante com a gente. Explicou que já estávamos bem pertinho da cidade, logo, faltava pouco para acabar a prova! A conversa e a água nos animaram. Enquanto isso, outra senhora da mesma casa já chegava com um galão... Deve estar vindo mais gente atrás de vocês... Será que vão querer água também???

Sem brincadeira, esses gestos simples me emocionam. Não existe nada mais bonito que estender a mão a quem precisa. O gesto de dar um copo d'água a um viajante é de uma bondade ímpar. São essas pequenas coisas que ainda me permitem ter fé no ser humano. Ainda temos jeito! Nem tudo está perdido.

Com ânimo renovado, consegui voltar a pedalar com força e não parei mais. Não demorou nada achamos o PC 10. Eu estava tão pilhada que passei direto. Se o fiscal não grita eu estaria pedalando até agora!

Dali foi agrestia pura! E não paramos mais. Acho que abrimos umas 550 porteiras até o PC-11. Algumas abríamos com os peitos, nem descíamos mais mais das bikes. Era preciso concluir logo, antes que o pneu do Vand murchasse de vez... O MTB-O tinha ido pro saco, mas ainda estávamos na disputa!

Quando batemos o último PC, eu não sabia, mas estávamos ainda em terceiro lugar.

Alguém atrás de nós disse que Marcinha estava em nossa cola. Pedalei o que deu e o que não deu.... Engoli os bofes que ainda insistiam em saltar para fora das entranhas. Mas, não teve jeito. Marcinha achou um atalho e logo nos alcançou. Para piorar, o último trecho era só ladeira acima...

Ainda assim, defendemos nosso quarto lugar com muita raça. Não queria nem olhar para trás. O negócio era chegar e celebrar.

A chegada foi emocionante. O portal, a buzina, o pessoal batendo palmas! Foi lindo. Competimos com gente grande! Corremos como gente grande!!! Superamos nossos limites mais uma vez.


O clima entre os competidores era de interação, cooperação e solidariedade.  As duplas iam dizendo palavras de incentivo umas para as outras a todo momento. Várias pessoas me ajudaram a passar pelas pedras, um competidor resgatou minha bandana de um pé de espinhos, outros se preocuparam quando me viram sem fôlego...

Foi uma prova muito dura, mas muito bem feitinha. Os organizadores mostraram cuidado e atenção com a gente. Deu para perceber que houve esmero e carinho na preparação da prova.

Parabéns, Luiz, Bruno Nery e demais organizadores. Parabéns a todos os competidores. Edilene, Gabi  - Obrigada pelo incentivo - Paulinho, Marcinha, Vitor, Luciana, Maurão, Edilene - vocês são referências para nós! Dividir o pódio com vocês nos deu uma enorme alegria.

Lulu - mulher polímero de altíssima densidade!! Jogou duro! É meu orgulho!!!!!!

Estamos muito felizes com nosso troféu! Olhem como ficaram lindos!!
O gostoso dessas corridas é ter a certeza de que é possível vencer nossos limites. E que isso serve para nossa vida. Venha a Peleja que vier, estamos prontos!!!






Agora...vamos arrancar o Couro do Bode!!!!


Parabéns a todos!