domingo, 22 de maio de 2011

O que é que você tem na cabeça, menina?

O que é que você tem na cabeça, menina?

Passaste toda a vida a esperar o cavaleiro de copas. Aquele que abre a porta do carro, lava a louça do café e se preocupa porque a instalação elétrica da sua casa não vai bem.
Sonhava com um ser que não fosse um canalha, que não olhasse para o lado e que fizesse de você o centro do universo.
Pensava em alguém maduro, tranquilo e que não sendo rico, se bastasse. Alguém que amasse o pé no chão, o cheiro de lama e o som do interior.
Aí o cavaleiro de copas aporta em sua casa, desce do cavalo e lhe estende a mão.
Aí você assustada, se fecha em copas e se tranca no armário. O mesmo armário que está tentando desmontar há tantos anos.
Afinal, o que é que você tem na cabeça, menina?

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Octavio - não vá para Paris!

Octavio Augusto de Ceva Antunes – Conde de Ceva

Quando o conheci era o louco e o gênio. Também era nobre. Vinha de uma linhagem de Condes.
Admirado por muitos, respeitado por todos e detestado por alguns. Procurava eu um orientador para minha dissertação de mestrado. Era eu idealista. Queria usar meus conhecimentos de Química em favor da Sociedade. Cumprir com o Juramento do Químico que eu de coração e alma conduzira na formatura da turma de 1994-1 em janeiro de 1998.
Aconselhada por conhecidos, marquei uma entrevista com o famoso Prof. Octavio. Soube que ele liderava uma pesquisa em busca da cura para a AIDS. Achei perfeito! Estudei tudo o que pude sobre o trabalho dele e agendei a entrevista.
A primeira coisa que ele me disse, antes mesmo do bom dia foi: Quem é essa morena linda, com esse batom tão atraente? Eu usava um batom vermelho e um vestido florido. Fiquei da cor do batom e pensei: Galante esse orientador. Acho que vou sair correndo...
Mas não o fiz. Entrei e a entrevista correu bastante descontraída. Cinquenta palavrões e dois maços de cigarros depois eu era virtualmente aluna do Octavio. Fiquei impressionada com a inteligência daquele homem. Fiquei inebriada com a possibilidade de fazer parte de algo realmente importante.
LABCAT 641. Amigos, chopps as sextas-feiras, Kibe do Nelson. Noites viradas, toneladas de artigos para ler, sábados e domingos solitários no IQ-UFRJ. Congressos, viagens e resenhas. E Patrícia. Inteligentíssima, linda, divertida. Minha amiga de muitas risadas, longas horas de reações e análises que não davam certo. Conselheira de cromatografia. Parceira no pileque de vinho que tomamos juntas no Congresso da SBQ de Poços de Caldas. Cúmplice das noites viradas e manhãs de óculos escuros nas palestras do X BMIQ lá em Floripa. Patrícia só dormia com a TV ligada. Eu... falava dormindo e detestava o barulho da TV. Que dupla nós fizemos!
Patrícia terminou o mestrado dela em um ano e meio. Quanto a mim... Bem, obviamente que não descobri a cura da AIDS! Quase dois anos de trabalho e não consegui sintetizar o aminoácido que eu queria. Ele deveria ter sido o tijolo essencial de uma enzima, chamada HIV-Protease. Um capricho dos mecanismos de reação e voilá... Sintetizei uma allilamina. Meu co-orientador vira-se para mim e diz: Well...E daí?
Lembro do Octavio me dizendo - A menos que você encontre uma aplicação para essa merda aí, não terá dissertação. Terá que começar tudo de novo.

Pesquisando daqui e dali, achei uma aplicação. Até que não era tão merdelítico assim. Meu composto era análogo ao princípio ativo de um antifúngico. Poderia ser útil a Sociedade, afterall...
Feliz por não ter que começar do zero e um pouco frustrada. Tive a sensação de ficar novamente nos bastidores, jamais conseguindo subir ao palco principal. Esse parece ser o destino. Está até no meu mapa astral. Não nasci para ser comissão de frente. Mas também não me faço de rogada. Não tem carnaval sem carnavalesco. Nem carro alegórico sem motorista, afinal de contas!

Dissertação defendida e um convite para ir para Maringá - PR. Octavio me escolhera para um projeto envolvendo Química Verde. Um sonho. Mas, de novo o destino virou o leme da minha vida e vim parar na Bahia.
Lembro do orgulho do Octavio quando soube onde eu iria trabalhar. Lembro dos seus valiosos conselhos. Lembro de como me descreveu com precisão o mundo corporativo, as grandes empresas e o que se espera de quem trabalha nelas.
Enquanto isso, quis o destino que Patrícia e Octavio se apaixonassem. Foi tão natural e delicado que não houve espanto. Não muito tempo depois, se casaram e tiveram um menino. Octavio então já era pai de duas belas moças. O menino viria a completar sua vida e a de Patrícia.
A cerveja, o cigarro e até os palavrões (ao menos parte deles) ficaram para trás. Patrícia chegou para inspirar Octavio e fazê-lo esperar mais da vida. Dois infartos. Duas impressionantes recuperações. Um filho. Sucesso profissional para ambos. Tudo estava indo muito bem.
Um convite para um evento de trabalho em Paris. E Patrícia com aquela sua mania de sempre acompanhar o marido em todas as suas viagens. Que orgulho tinha ela dele. E não era para menos. Eu já me emocionei vendo-o apresentar uma palestra sobre HIV. Ele era apaixonado por esse vírus. Dedicou anos de pesquisa. Ele era como o Prof Xavier. E o HIV, como Magneto. Um oponente, sem dúvida. Mas algo para se admirar. Na tela, aparecia a imagem em 3D do vírus. No palco, Octavio dissertando. Essa estrutura é linda e cruel. Ela me desafia. E é para ela que dedico essa palestra. Era mais ou menos assim que iniciava suas apresentações.
31 de maio de 2009. Assisto o jornal Nacional. O boing 737 da Air France, vôo AF-447 caiu no Oceano Atlântico, na metade do caminho entre o Rio de Janeiro e Paris. Havia brasileiros a bordo. Desligo a TV e vou dormir pensando. Mais uma tragédia. Terá sido falha humana? Terá sido mau tempo? Vou dormir.

01 de junho. Mensagens no Orkut. No e-mail. No celular. Amigos me ligam. Octavio estava lá. No AF-447. Num lampejo egoísta, primeiro nego a informação. Quem sabe ele perdeu o avião! Não! Amigos se despediram dele no aeroporto. Quem sabe Patrícia não foi? Não! Ela nunca o deixa viajar só. Quem sabe o menino ficou? Não, Lucy! Não! Estavam todos a bordo. Os três! Felizes e ansiosos para chegar.

Aí pensei na injustiça da vida. Logo agora que eles estavam tão felizes. Chorei. Meus amigos choraram. Choveram mensagens. Desejei que ao menos Patrícia tivesse ficado. Que egoísta que fui! Se ela estivesse aqui seria mais uma viúva da Air France, lutando pelo direito sagrado de sepultar seu marido. Eles se foram. Todos nós ficamos órfãos.

Quase dois anos. Desejo que vocês três estejam bem. Que tenham conseguido se encontrar do outro lado. Que estejam juntos e felizes. Fico imaginando vocês três sentados juntos. O bebê no meio. Patrícia, como sempre maternal, segurando a mãozinha do menino, para que não tenha medo. Ela mesma com muito medo. Patrícia tinha pânico de andar de elevador. Quem dirá de avião. Octavio, o cético, já poderia prever o pior, mas não tinha medo. Ou iria para o céu católico ou iria para o cosmos químico. No fim, tudo tende ao equilíbrio.

Imagino a dor que sentiram. O medo e o frio. Imagino suas almas atordoadas procurando uns aos outros sem entender o que se passava. O mar. Faz frio aqui. Não consigo soltar o cinto. Mamãe, estou com medo. Me dá a sua mão.... Está tudo bem agora, queridos. Vocês estão bem. Nós todos sentimos muitas saudades. Tenho muito orgulho de ter conhecido seres humanos tão ilustres. Tão especiais.

Sejam felizes e olhem por nós.

Octavio – ainda não descobrimos a cura. Aquela combinação de proteínas linda e cruel continua a assolar a humanidade. Talvez você possa inspirar novos pesquisadores. Idealistas como você.

Patrícia – Sua disciplina, coragem, determinação e suavidade são exemplos. A ANVISA não terá outras condessas. Descanse em paz. Mulher de Octavio, Condessa de Ceva, mãe de Matheus e amiga de todos nós.

Dedico este texto a todos os amigos do LAB 641.

Três mulheres no café

Numa mesa de café se sentam três jovens senhoras. Uma, recém separada ainda rumina as reminiscências de seu último amor. Por que dói tanto quebrar, se dói mais ainda tentar colar? A segunda, ainda solteira, não se prende a nada nem a ninguém. Acha graça do romantismo e não se vê preparada para colar-se ainda. Liberdade é seu nome. Seu apelido – Independência. A terceira, muito bem casada consola as demais. Repete frases feitas que ouviu de sua mãe. Um dia, quando menos esperarem, esbarrarão no amor de suas vidas. Deu certo para mim, dará certo para vocês também.


Um expresso, um capuccino, um café com leite e três brownies. Pouca coisa converge essas três.

A divorciada se lamenta e recebe consolo. A solteira se gaba e recebe admiração. A casada, dá conselhos. Afinal, é a única que está realmente completa (ou não...)

A conta, por favor. Hora de ir para casa. Para os travesseiros frios, para a balada da hora e para aquecer o jantar. A primeira, abraça o travesseiro e deseja estar na balada. A segunda, enquanto se maqueia pensa se não seria bom ter para quem aquecer o jantar. A terceira... desiste de aquecer o jantar, pois o marido vai se atrasar novamente com o trabalho e resolveu pedir um subway no escritório. Vai para cama...abraçar seus travesseiros frios.

No fim, somos todas iguais.

Jogando palavras no papel.

Já não escrevo em papel. Agora uso um teclado, uma tela, uma rede. As palavras, por sua vez, são as mesmas. Agora mais curtas. Abreviadas, cortadas, mutiladas. Neste tema sou tradicional. Não decepo palavras. Elas merecem ser escritas letra a letra. Ponto a vírgula. Exclamação. Interrogação.

Sobre o que escrever afinal? Sobre minha inquietude e vontade de abraçar o mundo todo ao mesmo tempo agora? Sobre a inquietude do mundo que ao invés de se abraçar se devora?