domingo, 16 de novembro de 2014

Consumismo

Quando observamos o mundo atual sob uma perspectiva histórica, temos que reconhecer que o mundo evoluiu. O ser humano evoluiu.

Desde que percebemos que era possível usar uma pedra com ponta como ferramenta e que batendo essa mesma pedra em outra fazíamos fogo, aprendemos a dominar a Natureza. Subjugamos os animais. Viramos deuses!

Infelizmente, por alguma razão que só os antropólogos saberiam explicar, o homem sempre utilizou seus novos conhecimentos primeiramente para a guerra e só depois para a melhoria da Sociedade.

Assim, nossa primeira ferramenta de pedra toscamente lascada virou arma para caçar animais e para matar inimigos. O fogo, para mostrar domínio e poder. E assim caminhou a humanidade...

Desenvolvemos o motor, criamos aviões...de guerra. Descobrimos o TNT... inventamos a dinamite. Descobrimos a radiação... inventamos a bomba. Depois, é claro, veio a Revolução Industrial (a reboque da indústria bélica, esta bem mais antiga). Também vieram os aviões comerciais, os explosivos para a mineração e os equipamentos médicos de radioterapia.

Para toda essa máquina girar, seja na guerra, seja na paz, é preciso que alguém compre o que outro alguém produziu. Essa é a lógica do Capitalismo. No início, produzíamos itens que julgávamos essenciais, como roupas para proteger do frio, ferramentas para o trabalho, armas para a defesa, alimentos para a sobrevivência.

Anos depois, ninguém vive mais sem internet. Todos tem uma necessidade visceral pelo smartphone da moda. É impossível imaginar a vida sem celular. Sem cafeteira elétrica. Sem máquina de lavar...Temos dois, três, quatro aparelhos de celular por pessoa.

Inserimos a Classe C no mercado consumidor. Hoje é possível comprar uma moto, mesmo não tendo dinheiro para pagar o IPVA ou tirar a habilitação! E quando o Poder Público age, a população se rebela. (Morte de motociclista que evadiu de blitz causa revolta no RJ).

Ouvi alguns depoimentos no rádio. De pessoas que se queixavam da ação da polícia. "Eles apreendem nossas motos, só porque a gente não tem habilitação." Depois, temos que tirar a moto do Detran e pagar multa. Quem não tem dinheiro para pagar IPVA, como vai pagar a multa do Detran?

Boa pergunta! Acho que as concessionárias deveriam exigir a apresentação de CNH válida para a compra de veículos. Como alguém compra um veículo motorizado sem ter carteira, sai dirigindo por aí e acha que está tudo certo?


O lado bom da sociedade de consumo é que ela produz e de certa forma até distribui a riqueza. As pessoas trabalham, produzem e por isso são remuneradas. Assim, conseguem consumir. Então tem que trabalhar mais, produzir mais, para então... consumir mais. É aí que começam os problemas. O capitalismo requer consumo sempre crescente, para que a produção sempre aumente, e logo, a máquina permaneça girando. Acontece que esse balanço não fecha, porque para produzir, é necessário consumir recursos e esses recursos não são infinitos.

Enquanto esse modelo persistir, continuaremos a degradar o meio-ambiente e em um curto espaço de tempo não haverá mais produção, nem consumo, nem riqueza... Voltaremos a era da pedra lascada e teremos que começar tudo de novo. Em um planeta inóspito, estéril e hostil. Quem sabe assim, voltando ao ponto de partida, conseguiremos criar algo novo...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O menino e o moinho

Uma vez era um moinho.

Ele morava solitário no alto de uma colina. Se ventasse, girava. Se não ventasse, contemplava.

Era uma vez um menino. Ele corria solitário pelos prados daquelas terras. Tinha mãe, tinha pai e tinha irmãos. Mas, não tinha amigos da sua idade. A escola era longe. Só via os coleguinhas na classe. Depois, era só o prado.

Não era só. Sua casa era um mundo de gente. Barulhenta e sempre animada tinha toalha de mesa colorida. Muita comida na mesa. Tudo plantado ali mesmo. Macarronada, só no domingo. Arroz doce de sobremesa também.

A avó tinha sempre um avental verde. A mãe, estava sempre com a barriga molhada, de lavar roupa. A irmã mais velha tinha uns óculos enormes. Vivia estudando. Queria ser professora.

Um irmão ira para a roça com o pai. O outro, consertava coisas. As vezes quebrava coisas, só para ver como funcionavam. Depois, montava tudo novamente. De outro jeito, pois era criativo o rapaz.

O menino não podia subir a colina. Era muito longe. Sua mãe tinha medo. Dos andarilhos que roubam crianças num saco. De animais que andam a espreita de meninos perdidos. Assim ela dizia. E ele acreditava.

Mas, quem já foi menino sabe. A colina mais alta, a cachoeira mais longe, a estrada mais perigosa. É ali que menino quer ir. É corajoso. Sabe se virar. É valente. Com um grito e um pedaço de pau espanta qualquer lobo metido a besta.

Era um sábado. Não tinha escola. Tinha só que ajudar a lavar a louça. Arrumar a pia. Deixar tudo limpinho que a mãe tinha que cuidar do menor. A irmã tinha que estudar matemática. O irmão tinha que colher mandioca e o outro tinha que consertar a lareira, pois logo vai vir o inverno. O  pai.... Bom, o pai tinha que tirar uma soneca, afinal, ninguém é de ferro!

Todo mundo tinha alguma coisa para fazer naquela casa. Não sobrava muito tempo para o menino.

O menino lavou a louça impaciente. Secou os pratos. Correu pra rua. O vento do outono derrubava folhas. E lá longe, o menino ouvia um som diferente. Havia uma sombra que acendia e apagava, sempre ao entardecer.

Aquela tarde vermelha estava propícia a uma aventura. O sol estava forte, embora fosse abril. O céu estava claro e sem nuvens. São três horas da tarde. Todos estão muito ocupados para dar falta do menino.... Era o momento perfeito.

Munido do seu cavalo de pau e do seu badoque, o menino corre pelos prados. Os pés descalços batem em seu bumbum enquanto corre. Como corre esse guri! O vento balança seu cabelo. As vezes, precisa fechar os olhos, por causa da poeira. Você já correu contra o vento? Então sabe como é.

Hoje vou desvendar esse mistério. E ele correu. Correu. E correu. Arfando, parou para respirar e apoiou as mãozinhas sujas nos joelhos. Ufa. Que longe! Ele tinha 9 anos e muita esperteza.

Até agora não vi lobo, nem andarilho, nem ninguém. Onde estão todos? Será que todo mundo tira um cochilo depois do almoço, que nem o meu pai? Minha mãe devia tirar um cochilo também... Se o bebê deixasse. Como chora esse irmãozinho....É muito chato! Só pensa em comer, dormir e chorar.

A casinha branca do vale vai ficando pequenina. A colina, vai ficando grande. Cada vez maior. E no alto dela, algo que parece um castelo. E no alto dele, algo que parece uma torre. E no alto dela.... Um enorme moinho!

Caramba! O que é isso???

Um barulho estranho de molas e engrenagens enferrujadas lhe assusta. O vento uiva. As folhas voam. Uma folha gruda em seu rosto. Ele tenta tirar, irritado. Logo outras colam em sua testa, roupa, braços e pernas.

Parece que o tempo vai virar.....

Ele ouve uma voz..... Muito grave e muito lenta.....

- O que faz aqui, guri? Onde está sua mãe?

Ele procura. Olha para um lado e para o outro.... Não vê ninguém. Corajoso, responde:
- Eu não tenho medo de você. Estou com meu cavalo  e estou armado! (Ninguém precisava saber que a arma era um badoque e o cavalo... bem, você já sabe...)

- Hahahahhaha...... Riu alto a voz. Depois, bem baixinho disse: -Ei, psiu.........e o vento silvou mais forte. - Olhe para cima.

O menino olhou. E eis que o moinho lhe piscou um olho!

- Como assim? Você fala?

- Claro que eu falo! Ora essa, não vê que eu tenho boca?

- Quem é você? Ou melhor.... O que é você?

- Eu! Sou um moinho de vento! Sou muito importante. Sem mim, não tem água nessas redondezas. Mas, não faço nada sozinho... Eu e o vento formamos uma equipe!

- Arre! Esse vento encheu meu olho de cisco e minha cara de folha.

- Sim, meu caro rapaz. Este mesmo vento anuncia a chegada da chuva, seca sua roupa na corda e me ajuda encher essa enorme caixa d'água. Você quer ver como funciona?

O moinho então começou a explicar ao menino como funcionam suas engrenagens, como a rotação do seu eixo faz com que ele encha umas cacimbas enormes que depois são viradas em outro reservatório, assim que chegam a parte mais alta da engrenagem.

O menino, encantado com o engenho, ficou de boca aberta. Queria mostrar ao seu irmão...Aquele que conserta coisas. Precisava voltar correndo para casa e contar para todos.

Ele se despediu do seu novo amigo, prometendo voltar em breve. Mas, o moinho lhe pediu um favor:

 -Você quer ser meu amigo, menino? Eu vivo aqui sozinho. Não tenho com quem conversar. Gostei de você. Quero que volte para eu lhe contar mais histórias. Mas, tem uma condição! Não pode contar para ninguém que conversou comigo. Sou um moinho encantado. Se os adultos souberem do meu segredo, vão querer me destruir.

- Claro que vamos ser amigos! E não vou deixar ninguém lhe destruir! Vou lhe proteger com meu badoque! E mostrou orgulhoso sua arma secreta e seu saquinho de pedras que pegou no rio.

O menino se despediu do seu novo amigo e voltou correndo para casa. Só pensava em contar a novidade. Ele conheceu um moinho falante!... Mas, logo se lembrou que teria que guardar segredo....

- Irmão! Irmão! Você já foi no alto daquela colina? Perguntou ele, escondido da mãe....

- Eu fui sim. Mas, faz muito tempo. Eu era guri assim, que nem tu!

- E então? O que viu lá?

- Ah, mano. Não tem nada lá para você ver. Apenas um moinho chato e velho que nem funciona direito.

- Mas, ele me disse que....

O menino pôs a mão na boca.

O irmão olhou para ele desconfiado. - O que foi que você disse?

- Nada não... E saiu correndo.

Todos os sábados após o almoço o menino fugia para ver o moinho. Eles conversavam, riam e brincavam. O moinho contava histórias de cavaleiros que passaram por ali há muitos e muitos anos. Falava dos temporais que já vira. Raios, relâmpagos, trovões. Ele quase pegou fogo uma vez. E teve que jogar água em si mesmo, porque ali não tem bombeiro para salvá-lo. O vento ajudou, trazendo chuva do mar.

O moinho-herói era um grande amigo do menino. Eram muitas histórias. Sua voz retumbante lhe enchia de alegria. Suas tardes de sábado eram cheias de aventuras. Como ele sempre foi lépido, a família nem desconfiava que ele estivesse tão longe. Ele era hábil na arte de se esconder.

Quando pensavam que estava na cozinha, estava no pomar. Quando não, no galinheiro. Já se escondeu embaixo da cama e no telhado. Sua mãe estava ocupada demais com o bebê chorão para se incomodar com ele. Assim, o menino foi se apegando ao seu novo amigo, sem que ninguém sentisse sua falta em casa.

Em um determinado sábado, o moinho estava triste.

- O que foi, senhor moinho? Por que está triste?

- Por que você vai crescer, menino. E não vai mais se lembrar de mim.

- Nunca! Jamais se abandona um companheiro de batalhas! Seremos sempre amigos e eu vou vir lhe visitar sempre!

Conversaram um pouco mais e logo se despediram.

- Adeus, meu pequeno amigo - Suspirou o moinho.

Essa noite o menino demorou para dormir. Ficou deitado na grama do quintal olhando para o céu. Aquele céu pontilhado que só existe no interior. Tentou contar estrelas. Mas, sua avó disse que aponta para as estrelas fica cm verruga no nariz....Adormeceu... E sonhou...

Ele era um jovem cavaleiro e seu cavalo era o mais bonito da vila. Era um herói e todos lhe respeitavam. Mas, uma notícia terrível chegou. Os inimigos iriam invadir a vila, para roubar o moinho. Estava faltando água no vilarejo vizinho. Eles precisavam da força do moinho para salvá-los.

Intrépido, o menino montou seu cavalo, saiu em defesa do seu amigo....e caiu da cama!

O cheiro de café fresco lhe desperta. É domingo. Todo mundo já levantou. E...quem sentar na mesa por último é mulher do padre..... Correndo, se juntou aos seus irmãos. Ninguém riu da sua brincadeira. Eram ou grandes demais ou pequenos de mais para entender...

Ele comeu o pão assado no forno a lenha. Ouviu o choro do irmão menor. Escutou a irmã declamando poesia - o pai adorava quando ela fazia isso. Em seguida, cada um foi para seus afazeres.

A lareira estava quase pronta; a roupa já estava quase seca no varal; a roça limpa. Tudo como sempre foi. Tudo normal para um domingo de manhã....

O pai chama o menino. Todos estão na sala. É uma reunião solene.

Meu filho. Temos uma coisa muito importante para lhe dizer. O padre conseguiu uma vaga para você em uma escola muito boa, lá da capital. É muito longe, por isso, você vai para lá hoje mesmo. O padre já vem lhe buscar. Vai ter que morar lá. Não vamos nos ver muito, porque é longe e não temos muito dinheiro.

Vai ser bom para você, acredite. A mãe, segurava o choro. A irmã, enciumada, chorava a cântaros. Ela queria ir, mas internato naquela época era só para meninos. Menina de família estudava em casa (quando estudava).

Os irmãos, nunca gostaram de estudar mesmo...Mas, ficaram tristes. Todos ficariam com saudades. Mas, o menino era muito esperto. Merecia uma chance. Ia ser o único da família a virar doutor!

- Pai, posso te pedir uma coisa?
- Pode, filho.
- Deixa eu ir me despedir do meu amigo....
- Que amigo?
- O moinho de vento. Ele pediu para ser meu amigo - O pai sorriu.
- Ele "lhe pediu"???? Que bobagem menino, moinhos de vento não falam!

- Esse fala, pai. Ele falou comigo. Pediu para guardar segredo. Mas, agora que vou embora, não posso sair sem me despedir do meu amigo.

O pai, que já foi menino, entendeu o sofrimento dele.

- Está bem. Mas, vamos juntos. Quero ver esse moinho falar comigo.

Quando chegaram no alto da colina. Quase não ventava. As pás do moinho moviam-se preguiçosamente. Nem giravam. Só se mexiam, e voltavam logo ao ponto de partida. Um silêncio triste enchia a tarde.

O pai tentou convencer o menino: - Está vendo! É só um moinho velho. Ele não fala. Vamos voltar para casa.

- Não! Só um minuto.

O menino ficou na pontinha dos pés, para tentar tocar a pá que estava mais perto dele. E disse baixinho: - Adeus, meu bom amigo. Um dia eu volto para lhe ver.

O moinho fechou os olhos e fez silêncio. E o menino se foi.

Os anos passaram. Inverno, verão, outono, primavera. Veio a chuva de granizo, veio a ventania. Veio o sol forte, veio o temporal.

O moinho, triste, já não falava com ninguém. Aos poucos, suas pás foram se quebrando, e a engrenagem não funcionava mais.

Ninguém mais precisava de moinhos, pois o progresso chegou e com ele, outras formas de bombear água.

Os pais do menino morreram. A irmã se casou e mudou-se para outra cidade. Os irmãos, também se casaram. Todos se espalharam pelo mundo.

O menino, estudou com afinco. Mas, nunca esqueceu do seu amigo. Com o tempo, ficou convencido de que seu pai tinha razão. Moinhos não falam...

Ele se formou. Virou doutor. Engenheiro, para ser mais preciso. Especializou-se em mecanismos de bombeio de água. Aprendeu novas técnicas. Viajou pelo mundo.

Um dia, rico, voltou para sua terra. Não era mais a mesma terra.

No lugar dos prados, muitas casas, A água chegava por uns canos. E a colina, que parecia tão alta, era agora apenas um morro. Estranho como as coisas parecem diminuir, enquanto a gente cresce.

Inexplicavelmente, ninguém comprou a colina. Era quase o único ponto verde em toda aquela redondeza.

O doutor engenheiro sentiu seu coração de menino voltar a pulsar. Sem entender porque, ele correu. E correu. E correu. E ofegante, chegou ao alto do morro.

Lá, ele encontrou uma paisagem desolada. A água parada, com muito lodo. As caçambas quebradas. E o moinho que ainda tentava fazer força para girar seu eixo, sem sucesso.

O barulho de engrenagens enferrujadas lhe pareceu familiar....Ele olhou para o velho moinho, e teve a impressão de que o moinho olhava para ele.

Não pensou nem meia vez. Comprou todo o terreno e se pôs a reconstruir o seu castelo. Todos pensavam que ele era louco. Afinal, quem precisa de um moinho nos dias de hoje???

Pois ele fez, e ao final do trabalho, pôs seu engenho para funcionar. O vento sorriu e jogou folhas em seu rosto. As pás começaram a girar, primeiro lentamente, como se não se lembrassem mais do movimento. Depois, vigorosamente. E as caçambas subiam, viravam e desciam. Chuá, chuá, chuá...
Era a água limpa enchendo o reservatório.

Aquela água, abastecia sua casa e regava sua horta.

Educado, bem apessoado e com uma bela casa, logo o menino-engenheiro achou noiva. E casou, e teve um menino......

- Papai, posso te falar uma coisa?

- Claro meu filho.

- Ontem o moinho me contou uma história...

- Que bobagem, menino. Moinhos não falam! - Disse o pai enquanto olhava para sua esposa, que já estava desconfiada do excesso de imaginação do seu filho.

Abraçando o menino, levou-o para fora e disse - Meu filho, guarde esse segredo: O maior dom de uma criança é sua imaginação. Dê asas a ela e vá correndo brincar com seu amigo! Mas, não conte para ninguém, que adulto não entende dessas coisas de ser criança.

O pai olhou para cima e piscou o olho. O moinho, agradecido, piscou de volta. E do cantinho pareceu sair algo... Será uma lágrima?

Claro que não! Que bobagem! Moinhos não choram!





sábado, 8 de novembro de 2014

Carta a uma bactéria - Cara Mrs Coli - me deixe em paz!

A cistite de repetição é uma doença séria. Acomete milhares de mulheres no mundo todo. A medicina ainda não encontrou uma explicação plausível para o fenômeno. Por isso, o tratamento é sempre na consequência - a infecção. Receitam antibióticos, analgésicos e um monte de dicas tolas que não resolvem nada.

Primeiro você fica pensando que a culpa é sua. Não se lava direito, prende o xixi, não toma água...
Aí, você faz tudo que os médicos mandam.... E continua tendo cistite.... E eles não sabem mais o que fazer. Cumprido o protocolo, te mandam para casa, para adoecer de novo.

Já tive 9, em dois anos. As oito primeiras foram tratadas com antibióticos. Duas subiram para os rins. Na verdade, todos os meses sinto os sintomas, na semana que antecede o ciclo menstrual. Sempre. Deve ter alguma coisa a ver com o ciclo, mas os médicos não sabem explicar por que.

Consultei um renomado urologista. Fiz o tratamento de 4 meses com macrodantina. Um mês após o tratamento, lá estava ela de novo. A ardência. O incômodo. O médico me disse que não havia mais nada a ser feito. Eu deveria me acostumar. Tenho uma cistopatia que me acompanhará para sempre... palavras dele.

Estou na nona crise. Não fui a emergência. Mudei de médico. Estou iniciando um tratamento homeopático associado com psicológico. A doença nasce em nossa mente. E é lá que deve ser curada. Pelo menos, é o que estou tentando agora.

Bom, ao que parece, estou saindo da crise. Tive uma semana difícil, sendo os dois últimos dias especialmente horríveis, mas hoje estou melhor. Acredito que o remédio homeopático esteja dando resultado. Mas, vamos ver...

Se alguém que ler esse post estiver passando, por essa experiência, deixe seu recado. Eu gostaria de aprender com você. Quem sabe, podemos aprender como passar por isso juntas?

O que você tem feito? Como lida com a doença? Tem algum tratamento novo que queira compartilhar? Quer só desabafar, porque também não aguenta mais? Fique a vontade. Pode postar de forma anônima se quiser.

Abaixo, uma carta que escrevi a bactéria que insiste em me atazanar o juízo:


A sra Scherichia Coli,

Se vamos ter que conviver, que seja então de modo pacífico. A senhora não multiplica suas colônias e eu não lhe xingo mais de rameira, desgraçada, miserável...

Foram oito brigas nos últimos dois anos. Nosso primeiro encontro, todavia, vai longe em minha lembrança. Acho que foi na primeira infância. Mas, na verdade não me lembro.
Depois, quando me casei pela primeira vez, você apareceu. Seis meses depois, voltou a insurgir-se contra mim, comprometendo meu rim e ameaçando meu filho, que era apenas um feto de três meses de vida. Ele venceu e eu também.

Muitos anos se passaram e eu esqueci da sua existência. Vivi feliz. Trabalhei, estudei, dancei, namorei, viajei, criei meu filho e em seguida, ele terminou de se criar sem mim... Por que as crianças são assim. Independentes e intrépidas.

Nesse meio tempo, aprendi a andar de bicicleta, viajei mais um pouco, estudei mais ainda, viajei mais, namorei menos. Vivi, fui feliz. Muito feliz. Casei-me novamente. E fiquei ainda mais feliz.

Fiz 40. E na volta daquela linda viagem a Chapada você me pegou de novo. Ou peguei você. Já não sei onde termina a presa e onde começa o predador. Há dois anos você me açoita. Há dois anos me tortura e me pune não sei eu por quê.

O que tenho que aprender com a senhora, Madame Coli? És tão pequena. Tão frágil, tão fácil de matar...... Tão cruel, tão insidiosa. Assassina.

Não satisfeita de dominares minha uretra, por duas vezes mais atacaste meu rim. Numa delas, quase a sepse me leva. Venci de novo. De novo e de novo. Cada uma das 8 vezes acreditei que seria a última.

Hoje você voltou. Estou cansada de lutar. Já vi que revidar seus açoites não vai dar em nada. Estou esgotada. Levanto a bandeira branca. Vamos conversar?

O que a senhora quer de mim, Madame Coli? O que ainda tenho que fazer, que ainda não tenha feito? Banho? Asseio? Água? Assento? Reza? Alimentação? Terapia? Abstinência? Repouso? ...

Nada. Nada adiantou. És cruel como um carrasco nazista. Não te apiedas do bom nem do mal, ainda que arrependido. Não tens sentimento. Simplesmente invades, replicas, multiplicas. Com milhões de mitoses malditas.

Maldita.

Qual é o teu propósito? Qual é a tua função no universo? Por que não me deixas em paz?

Madame E. Coli. Odeio-te com a fúria do meu fígado. Odeio-te com as toxinas do meu rim. Odeio-te e quero que morras para sempre. Não suporto mais vê-la se multiplicando em mil placas de Petri asquerosas. Seu cheiro fermenta minha alma de ódio.

Quero que desapareças das minhas vistas, da minha pele, do meu corpo, da minha alma.

Ser abjeto, vou te matar.... ou hei de morrer tentando.

E olha o que ela me respondeu.... Ousada!

Não, sra Lucy. Você não vai me matar. Você é uma boa pessoa. É inteligente e sabe que as coisas não são bem assim. Vivemos em simbiose. Nós duas. Matar uma pressupõe destruir a outra. Você quer viver. Pedalar. Amar. Ser feliz... Não é??

Então deixa-me ser o que simplesmente sou. Uma bactéria. Deixe sua raiva ser como eu. Infinitamente pequena. Desprezível. Invisível. Não me dê um poder que eu não tenho.

Não sou boa nem má. Vilã nem mocinha. Sou só um ser vivo tentando conviver em harmonia.... com você.

Para entender essa desgraça: Dr Drauzio Varela - Cistite