terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Então... É Natal...

Todo ano é a mesma coisa. As pessoas se rendem ao álcool, as festas, as propagandas... e as compras... Supermercados cheios. Shoppings intransitáveis. Congestionamento de carro e de gente em todos os lugares.

Este ano está tudo meio estranho. Nada está fazendo sentido... Fazer um monte de comida. Comer um monte... Beber um monte... Depois, juntar um monte de lixo.. Restos de comida, de bebida, embalagens, garrafas....Palavras ditas fora de hora e de mal jeito durante um pileque torto. Briga, confusão, acidente de trânsito...

Nada disso! Chega!

Pela janela do carro só se vê violência,  miséria, pobreza.... E fechamos bem os vidros para não ouvir o som da realidade. Fechamos bem os olhos, os ouvidos e o coração.

Nos jornais, só notícia de bomba na Síria, enchente no Espírito Santo, tiroteio  no Nordeste de Amaralina. Assassinato em Itinga. Atropelamento de ciclista na estrada do coco, por motoristas bêbados...Garotos perdidos, como o que achou a Mônica Santana (leiam o texto dela: O garoto)...

Não cabe Natal nessa paisagem...

O Natal pode ter comida sim. E confraternização. Família reunida, oração ao redor da mesa. Deveria ser um momento de reflexão e de bondade. A Ceia não deveria sobrar, porque poderia ser compartilhada com o próximo. Todo mundo deveria ter o que comer. Sem distinção. Sem  bebedeira. Sem confusão. Sem briga. Sem carros batendo....

Que Natal é esse que sempre acaba com vidros quebrados?

Vamos acordar da embriaguez!!! Enquanto houver crianças morrendo de fome, de peste e de guerra, não haverá Natal de verdade.


Se existe alguém que pode mudar isso, se chama você, eu e todos nós. Juntos. E aí... Mudaremos ou ficaremos na mesma?

Por que repetir o mesmo modelo consumista de sempre? Por quê?

Feliz reflexão...

Let's go out and play together for a change...



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O nosso Caminho de Santiago...Dia 1

A preparação....

Dizem que o caminho começa quando você decide fazê-lo.
Para nós, foi em 19 de dezembro de 2013. Desde então, rezamos muito, estudamos muito e treinamos o que foi possível.

Dentre as diversas rotas, escolhemos o Caminho Português. São 259 km, que pelo que estudei, me pareceram bastante viáveis, considerando o tempo que nos dedicaremos a essa empreitada.

Os treinos ficaram para depois do trabalho e para os fins de semana. Reservamos alguns domingos para pedalar em Sapiranga. Esses treininhos foram ótimos para pegar técnica. Areal, single trekking, ladeiras e muito, muito calor... Acredito que tenha sido uma boa ambientação para o que vamos enfrentar.

Além disso, acrescentamos aos treinos duas corridas de aventura - A Noite do Perrengue e a primeira prova do CICA(Peleja) , além de duas provas de orientação.

A preparação do corpo é importante, porém,  ainda mais é a do espírito. Afinal, além de longo e extenuante, o Caminho pode ser uma experiência espiritual fascinante, caso estejamos preparados.

O que vamos buscar tão longe? Nada que não possa ser encontrado dentro de nós.

Por que vamos então? Para sentir novos gostos, respirar outros cheiros e viver a experiência que milhares de peregrinos compartilham todos os dias.

22 de julho de 2014. Nosso Caminho começa hoje, para valer!

Vamos de coração aberto para o que der e vier.

Ultreya!


Para saber mais
Guia do Caminho Português

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quando vim ao mundo....

Quando vim ao mundo, ou melhor, um pouco antes....

Os anjos do setor de transporte de nascituros estavam em polvorosa e resolveram fazer uma paralisação de 48 horas reinvindicando melhores condições de trabalho.

Eram os anos 70. O Brasil vivia o "Milagre" e a euforia chegava a classe C. Todo mundo conseguia comprar sua geladeira e seu fogão (ambos vermelhos) e quase toda casa que tinha luz, tinha uma televisão! Tudo comprado no carnê do Ponto Frio em 10 vezes sem juros!

Nesse tempo, assim como hoje, todo pobre tinha filhos... muitos filhos. Por outro lado, morria muita criança no mundo. De fome, de guerra e de doença... E os pobres anjos estavam cansados de transportar crianças a toda hora para lá e para cá...Para cima e para baixo...Era preciso dar um basta!

Pois essas manifestações trabalhistas celestiais atrasaram meu parto em dois dias. Minha mãe chegou a sentir dores no Cosme e Damião de 1972, mas eu só nasci mesmo no dia 29, quando finalmente a greve acabou.

Enquanto eu esperava o bonde dos nascituros sair, inquieta como já era, comecei a entrar em todas as filas que ainda existiam lá na ante-sala da Terra.

Entrei na fila da cara-de-pau três vezes. A cada vez, tomava mais um golinho do chá que faz a gente não ter medo de ouvir "nãos".

Quando me dei por satisfeita, entrei na fila da Esperança. Ali eu acho que bebi demais... Fiquei até meio abestalhada e nasci acreditando que tudo é possível, que todo mundo é legal e que tudo sempre vai dar certo no final. 

Por último, e já entediada de tanto esperar, entrei na fila da Teimosia. Não tinha muita gente.Ao que parece nem todos gostam desse chá. Teve gente engolindo a força, porque é preciso ter ao menos alguma teimosia para que não se desista tão facilmente de tudo nesse mundo de meu Deus.

Quando chegou minha vez, eu era já a última e o bonde já estava apitando, chamando a criançada para nascer. Peguei pois, não a xícara, mas o bule inteiro e virei de uma só golada. "Menina, cuidado, você vai engasgar!!". Tomei tudo!! Achando graça, a anja daquele setor me disse que eu nasceria muito teimosa, mas que com o tempo, aprenderia a ser persistente, e que aquele pileque de teimosia misturada com cara-de-pau e esperança me ajudaria a sobreviver nos momentos mais difíceis da minha vida.

Assim nasci. Teimosa (ou melhor, "Persistente"), cara-de-pau e esperançosa. Cabeçuda, descarada e abestalhada!

Persisto no que eu quero, não tenho vergonha de perguntar qualquer coisa a quem quer que seja e sigo acreditando que no final, tudo, mas tudo mesmo, sempre vai dar certo. 

Essas características já me colocaram em situações difíceis, mas também, já me tiraram de muitas outras, ainda mais complicadas. Já teimei com coisas e pessoas que não valiam a pena. Já me coloquei em situações constrangedoras, engraçadas ou não e já me decepcionei muito!! Mas, por outro lado, em muitos momentos vi como valeu a pena persistir, tive coragem de ir em busca dos meus sonhos que pareciam mais inatingíveis e continuo acreditando que a vida é linda, que o Ser Humano é bom por natureza e que o Final será sempre feliz!

Pois, então, caros leitores.
Sejam teimosos
Tenham cara-de-pau
E nunca percam a Esperança!!! 

Se é verdade que a Esperança é a última que morre... acho que vou morrer beeeeeeeeeeeeeeeeeem velhinha.




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Noite do Perrengue! Release Penélope & Barão Vermelho do Agreste

E ainda dizem que o melhor da festa é esperar por ela... A espera foi boa, mas a festa, essa sim, superou minhas expectativas!

Minha última competição de Aventura foi a Running de 2011. Corri com minha amigona-irmã querida Lulu do Agreste. Fomos de Penélopes. Não me lembro qual foi a colocação, mas lembro que a corrida foi sensacional, como sempre.

A Noite do Perrengue, porém, foi diferente de todas as provas que já fiz. E já foram nove em quatro anos de maluquices.... Foi a primeira vez que naveguei à noite. Além disso,  levei meu companheiro de vida pela primeira vez para uma competição. Sempre tive vontade de convidá-lo, mas achava que ele não ia gostar.

Quando o chamei para essa aventura, fui preparada para ouvir um: "Tá doida, guria! De noite, no mato, sem dormir e sem chimarrão... esqueça!". Fui toda tímida, fazendo aquela cara de "gato do Shrek": - .... Amor.... Sabe o que é.... vai ter uma provinha de aventura assim, assim... É curtinha.... Só 40 km.... Nós já fizemos treinos de bike desse tamanho... só tem um porém.... É de noite.... Vai ter bike, trekking, remo e navegação...Antes que eu terminasse de falar, recebi minha primeira surpresa: Quando vai ser? Onde vai ser? Eu quero sim!!!

Fiquei surpresa e feliz. Fiquei me perguntando porque não tinha feito isso antes!

Daí em diante, fomos treinando juntos. Ele comprou uma bike nova, muito boa por sinal. Tomou aulas de navegação com Lulu, correu, remou, pedalou... Ficou ansioso...Logo percebi que era um Aventureiro do Agreste nato!

Eu, enferrujadíssima, tratei de botar óleo nas catraquinhas e tirar a bunda do sofá! Treinei como nos velhos tempos. Com disciplina e com organização. Afinal, como muitas outras mulheres, sou poli-tarefa: Trabalho, estudo, sou mãe, sou filha, dona de casa e...nas horas vagas.... Penélope do Agreste!

Inscrição feita: "Penélope do Agreste e Barão Vermelho". E essa foi a primeira dupla da equipe dos Aventureiros do Agreste a se inscrever na prova. Lulu tinha um Congresso para ir, mas como a prova mudou de data, ela logo tratou de se inscrever também com seu parceiro de vida e aventuras. Logo a turma se animou e outras duplas apareceram: Marcelo, Tadeu, Manu, Ítalo... Que saudade desse povo!

Fiz e refiz os checklists, tive três sonhos seguidos com a prova. Tive dor de barriga... Vários perrengues antes da prova, problemas nas bikes, demandas do trabalho que reduziram nosso tempo livre.... resfriadinhos, cistites... Enfim... Todos os problemas normais do cotidiano e que temos que enfrentar de todo jeito.

Fora isso, eu me inscrevi na corrida bastante tensa, porque aguardava o resultado de uma biópsia para confirmar ou não um possível câncer de mama. Foi difícil. Achei que essa poderia ser a última prova por um bom tempo, caso o exame confirmasse a doença.  Por isso, desejei muito estar bem para correr. E orei muito também, não só por mim, mas por todas as mulheres que estão enfrentando esse problema tão sério.

Graças a Deus, não será esse o meu caso. Hoje confirmamos o resultado e o carocinho será removido ainda este mês.Aproveito para lembrar a todas que me leêm para que façam seus exames de rotina. É sempre muito melhor prevenir!

Mas, esse perrengue já passou. Voltemos ao Perrengue que interessa!

A Noite do Perrengue foi a primeira experiência do Arnaldo Maciel em organização de provas. Ele contou com o profissionalismo de Gaia e com uma equipe de apoio sensacional. Todos agiram com verdadeiro espírito empreendedor. Conseguiram excelentes patrocínios. A prova foi um primor de organização. Desde a escolha do local até o cuidado com nossa segurança (contamos com equipe profissional de Resgate técnico, ambulância e médico). Ainda tivemos um café da manhã maravilhoso na chegada.

O espaço para os atletas era super confortável. Chegamos cedo e pudemos aproveitar bastante o sofazinho, o restaurante e a belíssima vista do condomínio.

Enfim, o briefing... A breve narrativa de Naru sobre sua experiência na Ecomotion, o suspense de Gaia que não queria entregar os mapas.... A turma num alto astral que eu não via há tempos. Eu me sentia confiante, ao mesmo tempo intrigada.... Navegar de noite... nunca fiz isso... tomara que o mapa esteja fácil....


Quando finalmente entregaram os mapas, foi hora de fazer as marcações direitinho. Sabia que isso seria crítico. Teríamos que contar passos e marcar bem os azimutes. Como tenho pouca habilidade com a bússola, tentei decorar a geografia. É gente, porque quando o azimute não bate, só a geografia salva! Usei muito esse recurso nas provas de orientação da Caatinga Trekkers!

Na largada, meu coração só faltou sair pela boca. Segurei a mão do meu parceiro. Fiz uma prece, ou duas, ou três... Foram muitas ao longo da prova. Contagem regressiva: 10, 9, 8, 7, 6, 5,  4, 3, 2, 1. Simbooooooora cambada!!!!

Saímos todos correndo, como num estouro de boiada. Tentando decorar o mapa, para não ter que parar. Como era de se esperar, nos perdemos logo no primeiro Prisma. Eu queria pegar primeiro os prismas E e o C.  Planejava só pegar o D na volta, já que em nossa estratégia abortamos de cara o A e o B, seguindo a recomendação dos organizadores. Esses dois prismas tinham um grau muito elevado de dificuldade e eu não estava segura da minha navegação.

Acontece que todos os outros atletas planejaram pegar o D primeiro. E eu... entrei de gaiata na estratégia alheia... A gente tinha que entrar na terceira trilha após chegar no estradão, ela nos levaria direto para o prisma E.  No caminho, encontramos o Gustavo Chagas, que estava na função de apoiar.e tirar pequenas dúvidas dos navegadores menos experientes. Tudo dentro do regulamento. Ele ofereceu ajuda e nos indicou a trilha certa.
Andamos mais um pouquinho e logo encontramos uma trilha cheia de gente. Eu não tinha certeza de que era a que o Gustavo indicou, mas, como todos estavam entrando ali, entramos também.. .numa fria.

Rodamos mais de uma hora  e nada de azimute bater. Eu comecei a ficar nervosa e a rezar pra chover prisma..... Vande começava a pensar onde havia amarrado seu jegue......

Enquanto refletia sobre aquele momento, aprendi  lições importantes:
1) O fato de ter muita gente indo em uma determinada direção não quer dizer nada! Pode estar todo mundo errado! Ou, eles podem ter adotado uma estratégia diferente da sua... Ou, eventualmente eles podem até estar certos. Nunca há uma resposta única para essa questão. Não siga a boiada se não estiver certo do que está fazendo! Siga sua intuição, sempre!
2) Se você parte de uma premissa errada, mesmo que faça todo o resto certo, nunca chegará no resultado desejado!
3) Você nunca vai encontrar o que não está procurando, exceto se puder contar com o fator "cagada"!! Recomendo não contar muito com esse fator... A sorte está ao lado de quem se prepara!

Enquanto eu rodava igual peru ao redor do eixo das coordenadas e abcissas e Vande já pensava na fria em que se metera, Marcelo e sua dupla se aproximavam. Esse ser que é só bondade viu meu desespero e entendendo que eu estava atrás do prisma D, me estimulou: Tá certo, Lu! É por aqui mesmo! Ele se referia ao prisma D. E eu, empolgadíssima  atrás do E......

Apesar do estímulo de Marcelo, como o E se recusava a aparecer, tomei a única decisão que um navegador pode fazer nessa hora: Voltar para um ponto conhecido e reiniciar a navegação! Talvez eu até tivesse achado o D.... Ou talvez estivesse tentando sair de lá até agora... O fato é que, após alguma resistência do Vande, que estava disposto a rasgar mato e conquistar o prisma no laço (tchê!), voltamos ao ponto de origem. No estradão, conferimos mais uma vez o mapa e descobrimos finalmente que estávamos na trilha errada. Ainda não percebemos que o D estava por ali..... isso só foi beeeeeeem mais tarde.

Pegamos a próxima entradinha e depois de navegar um pouquinho, lá vem nosso anjo da guarda de novo... Marcelo! Parecia que surgia do nada, quando mais precisávamos dele!!! E aí, qual é o que querem agora?... O "C", respondi eu. Ele não disse exatamente onde estava, só confirmou que estávamos no caminho certo. Ele já vinha voltando de outro prisma e aproveitou pra perguntar: E aí, pegaram o "D"? Eu fiz aquela cara de pastel de feira e disse: Mas, eu não estava procurando o D.... "Caramba, bicho... Vocês estavam pertinho!!!" ..... Xinguei mentalmente a mãe de quem inventou esse tal de azimute e decidi seguir em frente. Afinal, era só o que eu podia fazer.

Dei um espaço para Marcelo passar e continuei navegando. Não gosto de encarneirar nem de passar a impressão de que estou encarneirando. Sei que Marcelo jamais se importaria com isso, mas sou assim mesmo. Acho que se não meter a cara pra dentro do mapa não aprendo o caminho!

Daí em diante, desenrolamos. Ganhamos confiança na navegação e metemos bala: E, C.... Comemos todos com farinha!!! Daí, seguimos nossa estratégia e voltamos para pegar o "D". Só então percebemos o quão perto dele estávamos! Mas, ele não era muito fácil não! Achamos o bendito, mas tivemos dificuldades para voltar. Ele estava fora da trilha em uma área bem emaranhada. Encontramos Lulu no caminho e até navegamos juntos por alguns minutos. Ela seguia o azimute. Nós... o instinto! A essa altura eu já tinha aposentado a bússola...

Lulu começou a rasgar mato, mas nossa intuição dizia que não era por ali. Nesse momento, usamos a lição número 4) Defina sua estratégia e confie nela. Não mude seu caminho se não tiver certeza do que está fazendo!

Decidimos deixar Lulu rasgar o mato dela, afinal, cada um com sua cruz! Vande, agora espertíssimo no conceito "voltar ao ponto de origem", rapidamente se localizou e encontramos o caminho de volta ao estradão. É muito bom ter uma pessoa na equipe que tenha senso de direção, memória fotográfica  e visão noturna. Ele conseguiu guardar de cabeça todos os lugares onde passamos. Isso é muito importante, especialmente em corridas noturnas!

Ainda erramos um pouquinho o caminho de volta e quase batemos o PC-9 antes da hora. Como ele era do trecho de bike, não adiantaria seguir por ali....

Retomamos a rota e daí, foi só voltar para a largada e fazer a primeira transição. De novo, nossa estratégia foi diferente da de todo mundo.

Decidimos atacar os PCs por cima, começando pelo PC-3, seguindo pelo PC-4 e fazendo toda a volta até o PC-8. Não queríamos pegar o PC-Perrengue e por isso achamos que esse caminho era o melhor... Não sei porque todo mundo optou por fazer o caminho contrário.... deve ter algo a ver com as curvas de nível....;)

E toma de subida... teve uma hora que não dava mais pra pedalar.. precisávamos de uma marcha zero... ou talvez -1!!!. O troço era tão íngreme que eu estava quase beijando o chão, empurrando a bike e tentando me equilibrar nas pedras soltas. Eu só ficava pensando se a descida também seria assim....

Achamos os primeiros PCs desse trecho com facilidade. A escala do mapa estava super bem feita e as marcações que fizemos estavam batendo milimetricamente... Só estávamos nos sentindo estranhamente sós... Em dado momento, desconfiada de tanta solitude, pedi ao Vande para verificarmos o mapa mais uma vez. Bastou para ver logo em seguida passar um batalhão de bikes. Vrum, Vrum, Vrum....... Gente indo, gente voltando... Um misto de satisfação por não estar perdido e de frustração por ter perdido aí umas dez posições....

Teve um momento lúdico nessa etapa da prova. Vande pedalava mais adiante e eu vinha atrás equilibrando mapa, bússola e bike.... De repente, vi um negócio enrolado no chão com uma cabecinha se mexendo...Amor... Acho que é uma lesma gigante.... Oxente, amor!!! Não é lesma não... É uma cobra.... Aff Maria!!!!  CLARO que  não parei pra conferir!!! Tratei de pedalar o mais rápido que pude!!

Depois de tanto subir... começaram a aparecer ladeiras descendo... Eu morria de medo de ladeira!!! Como um dos meus objetivos nessa prova era perder esse medo insano, tratei de enfrentá-lo da melhor forma que pude. Logo na primeira, amarelei e desci da bike. Assustada com a ingremez da subida entre o PC-3 e o 4, achei que a descida seria tão ou quão bizarra.... No meio da ladeira, dei-me uns bons petelecos. Isso mesmo! Eu brigo comigo mesma, sempre que acho que mereço! - Toma vergonha, mulher! Todo mundo tá descendo pedalando! Tomei coragem, rezei uns 10 pai-nossos e comecei a descer.... Ai meu Deus, faça essa ladeira acabar logo!!!! Repetia isso, mas não largava o freio.... Uma vozinha interna me dizia: Vai que dá... Veja por onde o pessoal está passando e siga. Não freia demais, senão você cai mesmo! Decidi seguir essa orientação e deu certo. Não caí e não desci mais da bike! O medo deu lugar a prudência. A auto-confiança cresceu.

Ainda não sou uma expert em downhill e acho que isso ainda demora, mas sinto que melhorei muito. Daí em diante desci todas. Segurando no freio da prudência, obviamente. Na próxima, sei que vou descer mais rápido. Mas, também me convenci de que para tudo há que haver bom senso. Existem ladeiras muito técnicas que só bikers experientes vão descer. Não é vergonha nenhuma reconhecer seus limites. Pelo contrário, nossa segurança deve estar sempre em primeiro lugar!

Depois de achar o PC-4 ficamos bastante confiantes! Os outros prismas iam magicamente se jogando na nossa frente...PC-5, PC-6..............PC-8!!! Ué... Cadê o 7?  Até hoje eu me pergunto onde estava a p#$@ do poste!!! Passamos batidos por ele. Achamos prisma, placa, o escabau! Até a entrada pro PC do Perrengue a gente achou! Menos o poste!! Como já estávamos no oitavo PC, achei que não valia a pena voltar. Isso nos roubou algumas posições no ranking, mas tudo bem.

Mais trabalho para achar o PC-9. Como já tínhamos passado por ali no trekking e estávamos errados naquela hora, Vande achou que tínhamos nos perdido novamente. Depois de alguma negociação, decidimos seguir. Dessa vez tudo batia certinho. Bússola, geografia. Tava tudo ali... só faltava o PC.

Depois de ter deixado o PCV-7 escapar eu estava decidida a achar o nove de qualquer jeito. Sabia que estava ali, mas nada de achar. Não é aqui... é .... não é.... Começamos uma discussão entre o mangue e o mar.... Havia uma outra dupla masculina no local e todos estávamos confusos. Como pode esse PC não estar aqui.?.. Está tudo certo! Eu, teimosa como só eu sei ser quando estou certa de que estou certa... começei a racionalizar.... Olha o mapa! O mangue à esquerda, o mar tá ali, o areal tá aqui debaixo do meu pé.... Não é possível!! Só pode ser aqui! Enquanto eu resmungava, descobri com ajuda dos colegas que estávamos todos discutindo do lado esquerdo de um coqueiro... Pois o PC estava lá... todo lindo... do lado direito! Quase nos mordendo.......Fiquei contentíssima e me convenci de uma vez por todas que sei navegar!! Ora pois!

Findos o trecho de bike, hora de encarar o remo. As pilhas das lanternas xing-ling deixaram a gente na mão, mas graças a Deus, o dia já estava amanhecendo quando pegamos os caiaques no PC-10.

Foi um dos momentos mais lindos e emocionantes da prova. Ver o Sol nascer é espiritualizante! Essa visão nos encheu de energia e coragem. Estávamos ainda decidindo se íamos pegar ou não os últimos PCs letra. Faltavam apenas dois. F e J.
Ao chegar no PC-11, logo nos animamos. Era dia claro e o trecho dos prismas era bem curtinho. Uma pessoa da organização perguntou como eu estava. Respondi ofegante... Eu tô ótima!!! Vou agora fazer tudo de novo... de ré!!!! Tal a minha animação!

Vamos ou não pegar as duas letras que faltam?.Nem pensamos duas vezes! Vande num instante achou a trilha. Já estava profissional. Eu cantava as distâncias e ele contava os passos. Em menos de 20 minutos achamos os dois.

Voltamos felizes, de mãos dadas para o caiaque. Parecia até que a prova tinha terminado. Trocamos elogios, beijinhos e abraços até que lembramos... Opa, ainda temos que remar essa lagoa toda de volta... E ainda tem mais trekking até a chegada....

Na volta encontramos vários caiaques ainda fazendo a primeira perna de remo. Ficava feliz cada vez que via alguém, conhecido ou não. Passamos pelas duplas femininas, por Manu e Ítalo, que me ensinou a remar. E mais um monte de gente bacana. Eu sempre soltava uns gritos de estímulo, pois imaginava o quão cansados todos estavam. Nós também estávamos bem cansados. A volta foi mais difícil, porque pegamos o vento contra. Haja braço!!

Quando pensei que os meus braços iam abandonar as escápulas, avistamos o PC-13! Que alegria!!!

Deixamos os caiaques e agora era só correr pro abraço! Mais uma perninha curta de trekking e estávamos de volta. Agora não tinha mais erro! Poderíamos achar a chegada de olhos fechados!

Já no caminho fazíamos o balanço da prova e planejávamos a próxima competição. Tenham certeza, organizadores: Vocês conquistaram muita gente para o esporte! Parabéns a todos!


Eu tinha 5 objetivos nessa prova:
1) Perder o medo de ladeiras - Eu quero voltar lá de dia para ver as ladeiras que desci no escuro! Foi ladeira que não acaba mais!
2) Inserir meu companheiro nas Corridas de Aventura - Ele já quer saber quando será a próxima!
3) Chegar numa posição decente, compatível com meu esforço - Um nono lugar limpo e muito decente! Só não achamos o que não procuramos! Muito satisfeita.
4) Me divertir muiiiiiiiiiiiiiiiiiiito - nem preciso dizer mais nada...
5) Dedicar a prova a todas as mulheres que batalham todos os dias para sobreviver nesse mundo doido, em especial as que lutam contra o câncer de mama. - Objetivo alcançado!

Parabéns, Arnaldo, Gaia e toda a equipe pela belíssima prova. Organizadíssima! Muito bem planejada. Mapa muito bem feito. Astral, apoio, fotos, alimentação, tudo perfeito!

Vanderlei Ern - A gente só conhece mesmo uma pessoa quando faz uma corrida dessas com ela. E sabe de uma coisa? Você me surpreendeu mais uma vez!! Focado, ágil, curtindo cada momento da prova. Navegamos juntos, tomamos as decisões juntos, sofremos os perrengues juntos... Assim foi na Aventura, como já é no nosso cotidiano! Te amo!

E vamos começar logo a treinar pra próxima!!!!

Já quero me inscrever antecipadamente para o Perrengue 2 - a missão!!!!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Agosto do Perrengue!!!

Depois desse mês de agosto cheio de emoções, a Noite do Perrengue será só diversão. Só pode ser! Sempre dizem que quando passamos por muitos problemas é porque muitas bençãos estão a caminho..... Acredito!

O mês começou com a descoberta de um carocinho incômodo no seio. Isso me rendeu uma punção que doeu mais psicológica que fisicamente. Mil dúvidas. Receio. Medo. Ainda não sabemos o resultado do exame. Provavelmente só em setembro. Expectativa!

Antes do dia 10 mais uma infecção urinária. A terceira este ano. A sexta em 18 meses. Mais xixi no potinho, mais exame de sangue, mais antibióticos, mais stress. Ainda não sabemos a causa dessa recorrência. Impaciência!

Ao longo do mês vários pequenos contratempos no trabalho. Problemas do cotidiano que vão te cansando. Você pensa que vai fazer um gol... e bate na trave....
Em um erro do Office (crash no outlook) perdi todos os emails do ano. E não me venha falar de backup!!!!!!!!

Na vida pessoal, planejamentos jogados pro alto....Aquele treino a mais que eu queria fazer, aquela aula que não consegui assistir, aquele filme que eu queria ver.... Mudança de planos a cada cinco minutos. Ansiedade!

Retorno de férias, e como sempre, as contas não fecham. Ainda falta pagar o IPVA! E para completar, se quiser um médico bom, pague particular, pois pelo plano, só tem consulta em 2022 ou nem isso, pois a maioria está abandonando os planos de saúde! Parece-me que está mesmo faltando médico.... Indignação!

O trânsito, a chuva, os problemas do dia-a-dia, o cachorro que fica dodói, os buracos no asfalto, mais um pneu furado, Apagão!!!!!!!! Cansaço!

Mais um fim de semana que chega. Oba, vamos treinar! Pneus furam, estouram, vazam...... Nada disso, senhorita! Hoje não vais pedalar! Frustração!


Mas.... não tem jeito. Ainda não vi problema que me tirasse o otimismo. Nem quero ver!! Adoro meu otimismo. As vezes acho graça de mim mesma... Na maior merda e achando graça.... Pois é!

Descobri que os problemas estão aí mesmo para serem enfrentados. Se eu ficar nervosa, com raiva, furiosa e xingando todo mundo, eles continuarão lá. Se eu sorrir para eles, tiver paciência, e mantiver o bom humor... Eles continuarão lá... São como ladeiras. Você pode descer com medo ou não. Rápido ou devagar. Pedalando ou empurrando a bike. Mas, se quiser chegar ao final da corrida, terá que descer de qualquer jeito... Nem que seja rolando...

Um pouco de teimosia também ajuda... Não venha me dizer que não dá... Que não devo... Que não posso... Minha mãe bem sabe que não adianta. Sempre fui assim. É só dizer que não consigo que meto as caras, só pra conseguir!

Com tudo isso, agosto teve seu lado bom. Eu me revoltei com tudo! Passei quase dois anos longe das corridas de aventura, a pretexto de "me poupar". Não curti! Fiquei triste. Quase deprê.... Fui voltando, voltando, voltando. Um treininho aqui, outro acolá... e quando vi... Estava de volta. Pedalando, correndo, remando e sendo feliz!

Pois é! Que venha a Noite do Perrengue. Aguardo ansiosamente. Vou lavar a alma. Com lama do mangue. Com água da chuva (deu no jornal que vai chover...OBA!).

Começará meia-noite de 31 de agosto para 01 de setembro... Tecnicamente, já será setembro. Que bom!! Agosto já terá ido embora!


Desejo uma boa corrida para todo mundo!

                                Desejo também cinco desejinhos....
  

  • Desejo perder o medo de descer ladeira... 
  • Desejo inserir meu parceiro nessa Aventura e que essa seja a primeira de uma série de corridas que faremos juntos.
  • Desejo chegar em uma posição razoável, compatível com nosso esforço.
  • Desejo que a gente se divirta muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito
  • Desejo fazer uma homenagem as mulheres que lutam contra o câncer. Li muitas histórias belíssimas na página Quimioterapia e Beleza, no facebook. Cats, estarei pensando em vocês. Em sua coragem, bom humor e otimismo! 


Boa sorte para nós todos!!!




domingo, 11 de agosto de 2013

Dia dos Pais

Por muito tempo achei que não tinha pai.

Meus pais se separaram quando eu era muito novinha e nunca aceitei bem o segundo marido da minha mãe. Meu pai biológico, por sua vez, se fez distante por muitos anos.

Ao longo do tempo, procurei me aproximar do meu pai sanguíneo. Idealizei-o. Fechei meus olhos aos seus defeitos e só vi suas virtudes. Foi o modo que encontrei de suprir minha carência. Foi bom para mim e para ele. Não guardei ressentimentos pelo abandono. Com meu pai aprendi o valor de seguir um ideal, a beleza da abnegação, a coragem de defender seus valores, o amor e o respeito pela terra, pelo alimento e pelos animais.

Com meu padrasto foi mais difícil. Fui resistente a sua autoridade por muitos anos. Eu o via como um ditador, autoritário e exigente. A antítese da fantasia que inventei em minha cabeça e a qual chamei de pai.
Hoje, depois de 40 anos eu consigo entendê-lo. Ele ficou com a parte mais difícil. Educar, disciplinar e orientar uma criança que nem era sua, de sangue, mas acabou sendo a única filha que ele pôde ter. Obrigada, padrasto. Você foi mais pai do que eu pensei e entendi na época. Com você aprendi a ter disciplina, o valor do trabalho, o respeito aos compromissos e aos horários. A importância de sempre falar a verdade e respeitar os mais velhos. Obrigada. De coração. Hoje, quando liguei para dizer Feliz dia dos Pais, fui sincera. E isso trouxe leveza ao meu coração. Você me disse: "Deus te abençoe". Obrigada!

Tive um "vodrasto". Um amor de pessoinha. Um descendente de italiano magrinho e pequenino. Lembro do jeito que ele falava com as mãos, bem ao estilo dos gringos. "Bota essa menina no Pedro II. Ela precisa estudar num colégio bom!". Obrigada, vodrasto. Essa foi a decisão mais importante que meus pais tomaram com relação a minha educação, graças a sua influência. Desse modo, pude ter a melhor educação que nossas condições permitiam. Obrigada. De coração.

Tive um avô. Convivi pouco com ele. Muito distinto. Forte. Valente. Tinha um respeito enorme por ele. Todos os seus 14 filhos o respeitavam e lhe tomavam a benção, sempre que encontravam com ele. Ele criou os 14 lá no sertão do Ceará. Ensinou-os a ser trabalhadores e honestos. Todos formaram famílias. Todos educaram os filhos nos mesmos valores. Todos os filhos e netos prosperaram no caminho do bem. Obrigada, avô. Com o senhor aprendi a tomar a benção à minha mãe e a meu pai. Hábito que carrego até hoje.

No fim, a menina que se vitimizava porque achava que não tinha pai, descobriu que teve quatro! Quatro figuras importantíssimas, que juntas ajudaram a moldar o meu caráter. Eu também criei um filho. E procurei passar para ele tudo o que vocês me ensinaram. Ele me ligou hoje, e me disse: Mãe, Feliz dia dos Pais! Fiquei feliz. Ao mesmo tempo, apesar da gratidão dele por eu ter suprido uma eventual ausência do seu pai, sei que ele também teve suas boas referências. E meu padrasto é uma delas. Padrasto não. Pai. Pois afinal, foi isso o que ele de fato representou para mim.

Obrigada, Deus. Pelas experiências que eu tive com essas pessoas. E por eu ter reconhecido o valor deles a tempo de agradecer.

Feliz dia dos Pais.

sábado, 10 de agosto de 2013

A Noite do Perrengue! - A preparação!

Há mais de dois anos parei de competir. Parei de treinar, de correr, de me divertir com o que eu mais gostava de fazer. Não me pergunte por que fiz isso, pois isso é assunto para outro post!

A minha última participação em corridas de aventura foi em maio de 2011. Foi a Running D'Aventura, no Castelo Garcia D'Avila - Bahia. O release que escrevi foi publicado no blog das Penélopes do Agreste: http://penelopeagreste.blogspot.com.br/2011_06_01_archive.html.

Já tinha feito várias outras provas, pois entrei nessa aventura em 2009. Mas, aquela foi especial, pois foi minha primeira corrida como Penélope. Corri com Lulu, minha grande amiga e atleta de primeira linha. Reli o texto e me deu uma saudade danada....

Lá no post eu disse que a brincadeira estava só começando. A verdade é que daquele momento em diante abandonei os treinos. Comecei a ter alguns probleminhas de saúde e entreguei os pontos. Sabotei a mim mesma, não sei porque. Achei que não era capaz, mesmo depois de fazer uma corrida maravilhosa. Até hoje não entendo o que deu em mim.

Entrei num ciclo horroroso de problemas no trabalho, problemas de saúde, problemas de toda natureza....Um verdadeiro inferno astral. Acho que foi a chegada dos 40....

Bom, como vou fazer 41, acredito que a zica esteja no fim... Na verdade não. Vários problemas foram resolvidos. O trabalho está bem. O relacionamento está maravilhoso. A saúde,.... mais ou menos, mas vou correr assim mesmo. Voltei aos treinos e levei o noivo comigo. Ele está adorando. Fico me perguntando porque não fiz isso antes!

Senti que eu precisava de uma competição para melhorar minha disciplina nos treinos. Aquela coisa de saber que você "tem" que estar preparada para não fazer feio na competição. Isso é um ótimo estímulo para abandonar a preguiça!

Voltei de cabeça para os treinos. Vande comprou uma bike nova. Eu fiz uma revisão completa na minha. Compramos equipamentos novos. E toma treino!! Pedal, corrida, remo! E ele é competitivo! Descobri que é um Aventureiro nato!

Quando falei da Noite do Perrengue achei que ele não ia topar... Que nada! A resposta dele foi: É... Temos que treinar mais!!! Adorei!!!

Inscrição feita e aquele velho friozinho na barriga. Todos os dias repasso o checklist. Ainda faltam alguns detalhes. Colete pro Vande, kit de primeiros socorros (sempre levo pelo menos algodão e álcool iodado). O kit de comidinhas está pronto. Ah! Precisamos de uma aula de navegação e talvez uma bússola nova... também falta trocar a bateria do polar... Agora com quase 41 não dá para vacilar com o coração!

Aproveitei os exames periódicos da empresa para atestar que estou em plena forma. Fiz teste de esforço e de flexibilidade, exame de colesterol e o escambau! Tudo ótimo! O melhor é que o médico que me atendeu é o mesmo que fez minha primeira avaliação lá em 2005. Ele disse que estou ótima! Mantive todos os indicadores e ainda melhorei alguns! Diagnóstico: Você está em ótima forma física, podendo até se candidatar a ser brigadista...Mas....Para ser atleta vai ter que treinar mais um pouquinho......

Deixa comigo, Dr. !!!!!

O sangue tá bom, a pressão tá ótima, o coração em dia. Há outros probleminhas em investigação, mas prefiro não pensar nisso agora. Nem falei pro médico que vou competir, para ele não se meter a besta tentando me impedir. Mas, não se preocupem. Sou doida, mas tenho juízo. Treino até onde dá. Então, estico mais um pouquinho. Descanso, me alimento, mantenho a cabeça no lugar.

Tá certo, Dr! Tô treinando! Já me inscrevi na Noite do Perrengue que é para treinar mais ainda!

Meus objetivos nessa competição:

1) Perder o pânico insano que ainda tenho de descer ladeira - Não é medinho não, gente. É Pânico mesmo! só quem tem isso vai me entender!

2) Inserir o Vande de vez na Corrida de Aventura - Vamos correr de Penélope e Barão Vermelho. É a primeira vez que isso acontece. Normalmente, quando é dupla mista, na nossa equipe, ela se chama "Penélope e Dick Vigarista". Mas, o Vande não gostou de ser Dick não... Ele prefere o Barão, germânico, como ele.

3) Chegar em uma boa posição, justa e decente. Inteiros e felizes.

4) Ficar bem suja de lama para tirar foto e mostrar pra minha mãe.

5) Fazer uma homenagem às Cats. Quem são elas? Mulheres corajosas que lutam contra o câncer com um alto astral que é um chute na canela de quem fica reclamando da vida.

Quando estava preocupada com meus problemas, que eu achava complicadíssimos, achei essa página no facebook: https://www.facebook.com/QuimioterapiaEBelezaref=profilehttps://www.facebook.com/QuimioterapiaEBeleza?ref=profile.

Li as histórias delas e me emocionei. Meus problemões viraram nada diante da coragem dessas "Cats". Sei que não posso querer pódio depois de 2 anos treinando pouco e com a saúde meio mais ou menos. Mas, quero completar essa prova e dedicá-la a todas as Cats do Brasil!

Não é muito o que peço, Senhor. Peço que  ouça minha humilde oração e atenda aos meus singelos pedidos. Amém!

Oração sem ação, não vale de nada! Vamos treinar duro! Pelos Aventureiros do Agreste, Pelas Penélopes e pelas Cats!!!

Alongando para uma corridinha
Penélope e Barão Vermelho treinando Remo

Aventureiros do Agreste treinando bike



domingo, 14 de julho de 2013

Adíos Santiago...

Hoje é nosso último dia em Santiago, nesta viagem. Espero logo voltar aqui, com minha mãe e meu filho. Acho que eles vão adorar!

Deixamos para fazer uns passeios light por que os tornozelos já dóem... Estamos uns verdadeiros andarilhos.

O dia começou indo atrás do "Terminal de buses de Santiago". Fomos até lá só para saber como ir até Viña del Mar sem ter que pagar excursão. Os ônibus saem de meia e meia hora a partir das seis da manhã e você pode comprar a passagem na hora. Cada bilhete sai a $2600 pesos chilenos. O terminal fica na Estação de metrô Universidad de Santiago (linha 1 - vermelha - sentido San Pablo). Adorei!!!!
Há quem goste de pegar excursão, mas eu prefiro desbravar os lugares por minha conta.

Tudo planejado, agora é relaxar e fazer o que sabemos fazer de melhor... bater perna. Fazem agradáveis 15 oC... Sinto até calor!!!

Com preguiça de andar, pegamos o metrô de volta a Plaza de Armas. O centro de tudo o que acontece em Santiago. Descobrimos que aos domingos os museus tem entrada gratuita e fomos logo aproveitar o dia!

Chegando na praça entramos no primeiro museu que vimos aberto (acabamos por descobrir que era o único!). Museu histórico nacional. Ali pudemos aprender um pouquinho da história do Chile. Cercada de heróis, combates, golpes militares, violência e dor.

O Chile se tornou independente um pouco antes do Brasil. Em 1817 se libertaram da coroa espanhola e fundaram uma espécie de república iluminista, com Bernardo O'Higgins a frente da nova nação. Com esse sobrenome, deve ser descendente de irlandeses... Quem sabe um parente distante dos O´Connor, bravos príncipes irlandeses que lutaram por uma Dublin livre (Os Príncipes da Irlanda).

No museu há uma sala reservada para as memórias do golpe militar de 1973 e um pedaço dos óculos do simpático Salvador Allende, que como consta nos autos, suicidou-se no palácio de La Moneda... Só os óculos sabem de "la verdad"....

Vale a pena visitar este museu. Ele tem peças desde a pré-história chilena até os dias de hoje. Seguindo pelos corredores, você passeia por toda a historia de "La Serena",  simpático apelido dado pelos chilenos ao seu país.

Com base na história, vemos que de "Serena" essa pátria não tem nada! A turma tem é muita raça, sangue quente e coragem. Foram muitas convulsões sociais, revoltas, guerras e repressão até o Chile se tornar o país latino-americano de melhor posição no ranking do IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano). Está em quadragésimo lugar, enquanto que o Brasil está na 85a. posição... É... Parece que podemos aprender algo com os chilenos....

Depois do banho de história, nos rendemos a preguiça... Uma pausa para um leite com chocolate bem quentinho e um passeio na praça.


Demos sorte de ter a banda dos carabineros tocando bem na hora. Os simpáticos policiais tocaram várias modinhas pro povo dançar. Pareciam muito humanos e doces....(Não queira encontrar com eles em dia de greve geral...)Quando a banda começou a tocar, dei aquela mirada para o Vand a qual ele respondeu com um decidido: - Nem pensar! Não vou dançar aqui! E postou-se com a firmeza dos gaúchos e a teimosia dos alemães....

Eu, tratei de me comportar, ora....

Durou pouco. Logo vi uma senhorinha dançando com sua muleta. Em seguida, um animado casal pôs-se a bailar como se não houvesse amanhã.... Aí, não resisti e tirei meu par para dançar também!!!!

Suados e felizes, fomos em busca de almuerzo.

Difícil achar comida vegetariana, mas hoje demos sorte. No Paseo Huerfanos tem um restaurante chamado Nuria que serve tortillas de legumes - maravilhosas!!!

Depois de um café Latte no Starbucks julgamos estar prontos para bater mais as pernas....

Andando a esmo achamos o Teatro Municipal e esse pitoresco bar...


Reza a lenda que Bill Clinton, em visita oficial ao Teatro, tendo muita vontade de fazer pipi, quebrou o protocolo e atravessou a rua sozinho, entrando em seguida neste bar que na época tinha outro nome... Daí em diante, o bar foi rebatizado em homenagem...

Descobri essa história assistindo ao vídeo que a Maria postou como comentário do meu post de ontem. Adorei, Maria!!!

Continuamos a caminhar e terminamos por achar novamente o Cerro de Santa Lucia, onde estivemos ontem. O local é maravilhoso. Tem uma vista linda e a entrada é grátis todos os dias!! Só a lojinha dos índios que estava fechada. Ainda bem que conseguimos vê-la ontem...


Agora, é voltar para o hotel. Preguiçar mais um pouco, curtir o restinho de dia, tomar mais um capuccino ou dois... e rever as fotos desses dias maravilhosos.

Adíos, Santiago....Hasta luego.

sábado, 13 de julho de 2013

Ativismo de sofá

As vezes tenho raiva dos meus textos água com açúcar. Tanta coisa ruim acontecendo no mundo e eu postando chocolates e fotos felizes. Tento me perdoar pensando que ao postar coisas alegres posso adoçar a vida de quem investe seu tempo lendo meus textos. Quem sabe alguém muito triste ou com vontade de viajar e sem poder. Ou ainda, pensando em viajar e procurando dicas. Quem sabe alguém com problemas existenciais semelhantes... Quem sabe alguém tentando aprender português... Ou buscando alguma poesia... Ou apenas tomando um café....Quem sabe alguém lê.... ou não. Há tantos livros na estante e tantos links disponíveis. Difícil competir...

Contudo, sem me preocupar com links, estantes ou viagens mentais... Sigo escrevendo o que me dá vontade. Desejando que um link para esta postagem seja lido, criticado, comentado.. não ignorado ao final....

Enquanto isso, no mundo real, manifestações terminam em bombas e porrada. Pessoas seguem pedindo esmolas. Mulheres seguem sendo abusadas verbal ou fisicamente. O custo de vida segue aumentando. Seguimos com a falta de médicos, com hospitais caindo aos pedaços. E a corrupção segue crescendo. E a cara de pau dos políticos só piora.

O Governador do Rio segue usando helicóptero para ir "trabalhar!!! E acha normal fazer isso todos os dias. E ainda dar carona ao totó da família...   Sergio Cabral usa helicóptero para ir trabalhar. A distância do luxuoso apê do distinto Governador e seu Palácio Guanabara é de apenas 10 km!!! Porra, Cabral!! Vai de bike!!!!!!

Vontade de gritar, ir pra rua e bater panelas. Mas, claro que não farei nada disso. Continuo aqui, no meu ativismo de gabinete. Com o netbook no colo e debaixo do edredom. Sou mais uma pessoa da sala de jantar, assistindo o mundo mudar pela tela. Não mais da TV, pois ao menos desse vício me curei. Mas, pela tela do computador. Abro a Folha, a Zero Hora, o portal Terra e só o que vejo é o povo revoltado, tomando as ruas e exigindo seus direitos.

De certo modo, julgo-me responsável por essa bandalheira toda, assim como julgo responsável toda a população brasileira. Votamos mal. Muito mal mesmo. E depois das eleições, não exigimos nada dos nossos eleitos. Não acompanhamos seu trabalho... Não cobramos suas promessas. Sequer lembramos os seus nomes.

Daqui a pouco mais de um ano teremos mais uma eleição. Dessa vez, para Presidente e Governador. Votaremos também nos Senadores da República. Por mim, teríamos uma eleição só. Essa coisa de ter eleição a cada dois anos só serve para desviar mais dinheiro e inchar ainda mais o sistema. E como já sabemos, de muito gorda a porca já não anda.

É bom dessa vez escolhermos bem os candidatos e lembrarmos dos seus nomes e das suas promessas. Eles são servidores públicos, logo, trabalham para nós... não o contrário.

Com a intenção de fazer de mim e desse blog algo mais útil, seguem alguns links que podem lhe ajudar nas próximas eleições:

Benefícios dos Senadores da República
Transferência de recursos do Governo Federal para os Estados (Estranho que o Gabinete do Governador do RJ é o que mais dinheiro recebeu do Governo Federal em 2013.... estranho)
Lista de deputados e senadores que respondem a processos na justiça
Lista de políticos envolvidos no mensalão

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Minhas primeiras impressões sobre o Chile.

Minhas primeiras impressões sobre o Chile.

1 - Meu castellano está enferujado. La prueba: O dono do hostel é inglês. Perguntou, em espanhol, se eu preferia me comunicar em inglês ou na língua da terra. Respondi em inglês que assim preferia porque sou melhor nesse idioma que em castellano. Resposta dele em bom português... "MUITO" (querendo dizer: Seu inglês, mesmo destreinado, é muiiito melhor que seu castellano). E disse isso com ênfase! Lástima!!
E eu me esforçando toda para falar um castellano limpinho... bah! Travei! Não falo mais em castellano com ninguém!

2- Ainda não me entendi com esse dinheiro.. tem muitos zeros. 18000 pelo táxi. 1500 por um café... Ah - e é bom tomar cuidado. No meio do troco eles lhe empurram notas danificadas, que você não conseguirá usar em lugar nenhum. Achei isso um desrespeito com o turista.Caímos nessa uma vez e perdemos uma nota de 1000 (cerca de 5 reais). Na segunda vez, eu estava esperta e pedi para trocar. Foi em um supermercado e a mocinha ainda fez cara feia quando reclamei!

3 - A diferença de preços é absurda. Não saia comprando tudo o que vê, especialmente artigos básicos. Uma garrafa de água mineral de 1,5 L tem preços variando entre 399 e 980 pesos! E tem mais, se sabem que é turista lhe cobram tudo mais caro. Se vai comprar artigos do dia-a-dia, prefira supermercados, mas preste atenção ao troco!.

No mais, o Chile é lindo. E se prestar atenção, verá que as cordilheiras aparecem como uma pintura em certos pontos da cidade. Não parecem reais. Parece que alguém colocou uma obra de arte ali para você ficar admirando.

Vista do Parque Metropolitano (Cerro de San Cristóban)

Politicamente o Chile não me pareceu diferente do Brasil. Assim como em nosso país, planejaram uma greve geral para o dia 11 de julho. Nos muros e nos cartazes, queixas muito semelhantes às nossas. Nas ruas, o aparato policial montado parecia esperar por uma guerra. Não participei de todo o movimento, mas vi seu início. Pareceu-me bastante pacífico e bem humorado. As notícias nos jornais, assim como no Brasil, transformaram os manifestantes em vândalos e destoaram bastante do que eu vi. Não me surpreendo mais com isso. Parece que mídia, sindicato, polícia... é tudo a mesma coisa....

Cachorrinho abre passagem para manifestantes latindo. À direita, aparato policial parece se preparar para uma guerra - Centro de Santiago - 11 de julho de 2013


Chegamos a Santiago no dia 10 à noite. Como já era tarde, deixamos para passear no dia seguinte, sem saber que a cidade se preparava para uma Greve Geral.

Foi interessante ver as pessoas se mobilizando. A princípio, tudo parecia funcionar normalmente. Aos poucos porém, vimos pequenos grupos se organizando com faixas e cartazes. Batendo tampas de panela e gritando palavras de ordem. Até os cachorros se uniram ao movimento! Tirei várias fotos daquilo que me parecia a preparação de um  momento histórico para os Chilenos.

Cachorrinho abre passagem a manifestantes
Montagem de tapumes em prédio de banco privado
Aparato policial
Passeamos um pouco pela Plaza de Armas, onde um vendedor de uma papelaria nos alertou que a coisa ia "esquentar" mais tarde. Ele mesmo pretendia fechar a loja e sair dali, pois é na Plaza de Armas que as manifestações tem seu ponto alto.

Ignorando avisos, ficamos mais um pouco e ainda paramos para um chocolate quente.

Ainda na Plaza de Armas, entramos na Catedral de Santiago, onde um aviso deixa bem claro que não é permitido namorar no templo! Afora o pitoresco aviso, fiquei muito impressionada com a imponência da Catedral. Não deve nada às igrejas européias. Apenas senti que está precisando de uma reforma. Parte das abóbadas está danificada pelo tempo e as estátuas estão precisando de limpeza.

   

Dentro da Catedral há uma capela dedicada a Virgen Del Carmen, com uma imagem belíssima da Santa. Estava havendo missa na capela, por isso, não tirei foto. Acima, algumas fotos da nave principal. A da direita mostra um altar todo de prata. Muito bonito.   

Caminhamos pelo Paseo Ahumada até quase no Mercado Central e de lá, voltamos ao hotel passeando pelas lojas que encontramos no caminho. Foi onde percebi como os preços podem variar nesse país! Parece o Brasil da década de 80!

Ao chegar no hostel, o atendente perguntou se havíamos visto as manifestações. Disse que haviam queimado um ônibus em algum lugar perto dali. Eu disse não ter visto confusão, mas muita gente e polícia na rua. Ele me disse para não tirar fotos. A polícia poderia tomar minha câmera!!! OOOPs....Too late!! Parece que Deus protege as crianças e os turistas inocentes....

Planejamos ir ao Patio Bellavista a noite para jantar com amigos brasileiros, mas como Vandi teve uma febrinha, devido a diferença no clima, preferimos ficar no hotel e descansar. Além disso, sirenes avisavam que o clima estava mesmo quente nas ruas. Deixamos o patio para o dia seguinte. Não nos arrependemos. Vale a pena ir. É muito bonito e animado, tanto de dia como de noite.

Almoçamos uma pizza maravilhosa com vinho. O preço não é tão salgado, considerando que é um local turístico. Além disso, tem várias opções mais em conta. Detalhe... Como esquecemos de avisar que queríamos a promoção de pizza + bebida + postre e o garçon "esqueceu" de nos avisar... pagamos mais caro, pois pagamos todos os itens em separado..... Coisas de Chile...

 


  
Outro lugar que gostei de conhecer foi o Cerro de San Cristóban, onde fica o Parque Metropolitano. Lá tem um zoológico e uma bela vista da cidade. Dá para ver um pedacinho dos Andes também.




 Estando em Santiago, visite o Mercado Central. É como um "mercado do peixe", mas tem também artesanato, frutas secas, castanhas, restaurantes e bares. Vale a pena.

Fiz a clássica pergunta a um dos garçons que nos convidava a almoçar:  ¿Hay opciones vegetarianas?...
Respuestas: ¡Claro! Por supuesto. Hay pescado, mariscos....

Ai ai... parece que esse é um problema crônico da humanidade!!! Gente!! Vegetariano não come bicho!!! Nem frutos do mar!!!!!!!!

E foi só por isso que não almoçamos lá....

Por hoje é só. Amanhã tem mais.








Dicas para turistas - Blog de uma chilena criada no Brasil que decidiu voltar à sua boa terra e dar dicas para nosostros...Chile para brasileiros

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carta da menina dos pés descalços para sua filha



26/04/11. 


Filha, hoje vou lhe contar um pouco da minha história, em Bela Aliança.


Meus padrinhos moravam bem perto da fazenda do vô . De vez em quando eu ia lá. Adorava ir na casa da madrinha Xicuta e padrinho Ernesto. Ela era um amor. Muito gorda...tadinha, quase não podia andar. Ele era muito elegante e severo também. Acho que era o machismo dos coronéis. Se não fosse assim, não era homem. Mas, deixa pra lá.


Lá tinha um grande açude, que para mim, parecia o mar. Só descobri que não era depois que conheci o mar de verdade. 


Meu padrinho me dava de tudo. frutas, queijo, roupa de chita. Era moda, né? Eu adorava.  Ele me levava pro curral e me dava leite na caneca tirado na hora. Era muito bom. Sua casa era imensa. Eu me perdia dentro dela. Morria de medo de ficar sozinha,  mas amava ir lá. Quando voltava para casa trazia muitos presentes. Ele só não me dava dinheiro. Eu era louca pra ganhar um dinheirinho, mas o velho era muito pão duro... 


Quando na seca de 1958, não tínhamos nada para comer, meu pai falou para mamãe: 

- Minha velha, vamos morrar no Saco , o governo vai abrir uma frente de trabalho, fazendo uma rodovia que vai até Brasília . Vamos ter muito trabalho. Não vai nos faltar nada, principalmente para as crianças.

Todo mundo chorou, ninguém queria ir. Bela Aliança era muito bom. Vovô era muito amigo de papai. Ele nunca ia deixar faltar nada para nós. 



Casa sede da fazenda de Brígido Alves de Moraes - avô da minha mãe. Está bem conservada e hoje pertence a outra família. Foi vendida em 1968, quando meu bisavô morreu.


Vô pediu para papai não ir. Ele dizia: 
- Não confio em ninguém do Governo, compadre Antônio. Não sabemos como vai ser essa tal de rodovia. Você é como filho pra mim! Fique aqui na sede da fazenda e eu cuidarei para que não lhe falte nada! 

Mas, que nada! Papai não gostava de depender de ninguém. Mesmo porque ele tinha uma penca de filhos. Foram 14! Mas, naquela época só tinham 12 vivos. Era filho demais para alimentar.


Mãe chorou. Não queria ficar longe do seu pai (o meu avô Brígido). Mas, enfim, não tinha escolha. Fomos todos morar no Saco do seu Brígido! 


Nossa casa no Saco era bem grande.  Parte de tijolo, parte de taipa. Era uma especie de barro que se jogava num trançado de corda de bambu. Sei lá, era muito complicado. É aquela parede que cria o inseto que causa a doença de Chagas .


Lá no Saco meu pai montou uma budega.  Vendia muita bebida para os trabalhadores da rodovia, que ele chamava de ‘cassaco’ ou coisa parecida. Nos fins de semana era muita briga e bebedices. Minha irmã Nailza trabalhava na venda. Ela era a mais velha e também a mais bonita. Moça séria, de traços finos e pele clara. Cabelos muito lisos de um castanho claro que brilhava ao sol. Cinturinha fina e olhos muito escuros e decididos. Todos os homens da região a desejavam. Mas, ela tinha um namorado. Ele ia lá pra casa todo fim de semana, para cuidar dela.


Mas, os negócios de papai não iam muito bem. Os homens bebiam mas não pagavam, e ele acabou falindo. Em pouco tempo tivemos que fechar a barraca. 


Lembro-me de que um dia a mãe tinha um punhado de feijão para 10 filhos, porque 2 já moravam no RJ. Ela disse :

- Tonho, só tem isso. 
Ele disse :
- Eu sei que você sabe fazer disso aí uma grande panela de pirão. Todos nós vamos comer e ainda vai sobrar.

Ele fez um carinho nela, e ela foi pro fogão de lenha toda feliz. Colocou aquele punhado de feijão no caldeirão com água, e meteu lenha nele. Colocou cheiro verde, alho e mandou farinha! Ficou uma delícia! Nossa! Como nós comemos...Quando ela colocou pra todos ela disse :

- Vem, meu velho, comer!
Ele disse : 
- Não! Só vamos comer depois que as crianças acabarem, se não pedirem mais. 

Deram sorte que eu ouvi isso. Fui até a mesa e disse ao meu irmão Manoel: 

- Papai falou que ele e mãe só comem se a gente não pedir mais. 
Meu irmão então falou: 
- Ninguém vai pedir para repetir!
- Ah, mas por que? Tá tão bom? 
Ele não quis nem saber...
- Se pedir, pai e mãe não comem!
E assim foi feito! Depois, ficamos sentados olhando os dois se alimentarem. Nossa, filha, essa foi forte. Estou chorando agora. São lembranças muito vivas em minha mente e reais também. 

Vamos lá... Assim ficamos quase 2 anos. Finalmente o inverno chegou. Lá no sertão, isso significava chuva. Quanta alegria! Plantar, limpar, colher... Era muito bom.


Pai acordava a gente as 5 horas da manhã. Ele sabia que eu adorava ir para roça com eles, então ele me acordava primeiro para eu fazer um caldeirão de café para todo mundo. O açude transbordou. Os rios cheios chegavam quase na nossa casa. Era uma alegria só! Quando nós íamos colher, nos dias que eu ia, meu pai falava para os meus irmãos deixarem para trás algumas espigas de milho,  e um pouco de feijão ou algodão - Ele sabia que depois eu vinha sozinha e catava as sobras para vender e poder comprar sabonete, pano, chinelo e pasta de dentes. Quando ia alguém na cidade eu pedia para trocar pra mim. As vezes, meu pai mesmo fazia isso. Depois que eu conheci a história de Noemi, vi que meu pai foi um Boaz pra mim. Ele era tudo! Meu Abraão. Sábio, sempre pronto para aconselhar. Amigo... Meu pai foi meu grande herói. Te amo papai.


Voltando para a realidade daquela época.... Onde eu estava? É muita emoção...Ah.. Sim, lembrei. 


Tinha um açude bem perto de casa, era chamado de barragem. Era um paredão muito alto de concreto no meio de grandes pedras. Muito bonito e muito fundo. Está lá até os dias de hoje. Tinha hora pra gente tomar banho nele. Os compadres tinham muito ciúme das esposas e filhos. Determinaram um horário para o banho. As mulheres com suas filhas tomavam banho pela manhã e eles com seus filhos tomavam a tardinha. Depois descobriram que alguns ficavam escondidos nas árvores para ver a gente tomando banho.


Um dia, um marido chifrudo e ciumento jogou uma praga no açude. Disse que enquanto ele vivesse com a esposa viva, aquele açude ia ser aterrado pela enchentes. Só depois que eles morressem ele iria voltar a ser açude. Não é que aconteceu? Veio uma enchente tão forte! As chuvas duraram dias. Quando a chuva passou, as águas baixaram e foi comprovada a maldição! O açude aterrou. A areia passava por cima do paredão de concreto. Dizem que ele já morreu. A viúva está viva, mas o açude voltou a ser fundo de novo. O paredão teve que ser reconstruído. Eu vivi isso! 

Foto atual da barragem do Saco. Hoje a região pertence a vila de Facão. Dizem que esse açude nunca seca.

Só ainda não vi o açude de volta mas, vou ver se Deus quiser!

Nele, quase perdi minha mãe e minha irmã Terezinha afogadas. Outro dia lhe conto essa história. Lembra da carreira do touro? Pois é, foi á também. 

Naquela época era eu que carregava latões de água na cabeça. Para encher 3 potes grandes e para cozinhar. Botava trouxas de roupas na cabeça e ia para o açude lavar. Eu e minha irmã. Só que ela só ajudava a lavar as roupas. A água era eu que carregava. Acho que é por isso que tenho hoje tantos problemas de coluna. 

Ah....agora cansei.  Depois conto mais. Boa noite, filha... 


Mãe, suas histórias são muito bonitas. Obrigada por ter paciência de repeti-las para mim toda vez que eu peço. Adoro ouvi-la contar esses "causos". Eu lhe prometi levá-la de volta a sua terra e consegui pagar minha promessa. Espero que tenha gostado. Vamos continuar escrevendo juntas, viu?








[i] Brígido Alves de Moraes – antigo fazendeiro do interior do Ceará. Toda a vila de Bela Aliança pertencia a ele. Suas propriedades faziam divisa com os povoados de Barro Vermelho e Facão.
[ii] Saco do Brígido – Antiga área de terra situada em um vale, de propriedade de Brígido Alves de Moraes. Atualmente pertence a vila de Facão, no interior cearense.
[iii] BR-020 – liga Fortaleza a Brasília. O governo federal recrutou sertanejos para trabalharem na obra da rodovia, como uma forma de ajudá-los a fugir da seca e de quebra, servir de mão de obra barata para a construção do “país do futuro”.
[iv] Barbeiro – inseto transmissor da doença de chagas.  Um dos irmãos da Nena faleceu, já adulto, em conseqüência desse mal adquirido naquela casa, em sua infância.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

17/06/2013 - Nada será como antes amanhã

Vamos mudar a data da Independência do Brasil!!


17/06/2013 - O dia em que o Mundo parou para ver o verdadeiro Poder que emana do Povo.


Um misto de orgulho e receio.

Sabemos que historicamente todas as manifestações populares terminam ou em massacre de corpos ou de ideias. Que dessa vez não seja assim!

Eu vi dois momentos históricos: Primeiro, a abertura Política e as Diretas Já. Em seguida, o movimento dos cara-pintadas. Todos legítimos. Demos belas aulas de Democracia com "D" grande para todo mundo.

Mas nada. NADA se compara ao que está acontecendo hoje. Que lindo esse movimento espontâneo de uma juventude inteligente, antenada e que não vai mais engolir a corrupção que avassala nosso país.

Tentamos tirar o Renan Calheiros. Ele riu na nossa cara.
Tentamos tirar o Pastor Feliciano. Ele riu na nossa cara.
Tentamos lutar contra o Estatuto do Nascituro. Eles riram da nossa cara.
Tentamos lutar contra o aumento das passagens... Eles deram na nossa cara.

Aí, meus caros, foi a gota d'água!

Que essa meninada mostre aos Governantes que não podem brincar com nosso povo.

Que a corrupção enfim termine e que, acima de tudo, nossa gente aprenda a votar. Pois, de nada adiantará toda essa belíssima manifestação se nas próximas eleições nós colocarmos lá em Brasília os mesmos corruptos de sempre.

Gostaria de saber como Dona Dilma está vendo tudo isso da Alvorada da sua Sala de Jantar....

Como Renan Calheiros e Felicianos da vida, que riram de nós estão vendo tudo isso?

Boa noite a todos. E que Deus ilumine nosso amanhã!

Para saber mais - Acessem:
Jus Brasil
#Vem Pra Rua - versão Soft Rock
#Vem Pra Rua - versão Hard Core
Carla - No, I'm not going to the World Cup
Documentário completo: A caminho da Copa
Movimento Passe Livre

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Assunto sério - Estatuto do Nascituro - reescrito

Este texto foi publicado originalmente em 2013. Na época, apesar de ser a favor da vida, estava inclinada a apoiar o aborto em caso de estupro.
Hoje, um pouco mais esclarecida, entendo que o aborto não deve ser uma opção em nenhum caso.

Normalmente meus textos são bem "café com leite". Nada de temas polêmicos ou controvérsias políticas. Mas, hoje vai ser diferente. Usarei o direito de expressar minha opinião.

Quero falar de aborto. De estupro e de violência.

Sou contra o aborto. Em qualquer circunstância. 

Sou a favor da vida. Embora muitas vezes ela chegue de forma abrupta, violenta e cruel. Acho a concepção um milagre e acredito que há vidas em outro plano esperando a oportunidade de virem ao mundo para aprender ou ensinar.

Não me atirem pedras! Deixem-me continuar o raciocínio.

O tema é Moral, não Político.

É a mulher é quem vai enfrentar as consequências da sua escolha, seja manter ou interromper a gravidez. Uma decisão muito difícil, via de regra assumida com pouco ou nenhum apoio do co-causador do infortúnio.

Uma mulher estuprada precisa de apoio, de compreensão, amor e muito, muito cuidado. Não é ela a criminosa! Não enquanto se puser ao lado da vida. Um aborto não apagará as marcas da violência, mas somente a propagará por séculos sem fim. Assim como o apagar das evidências não inocenta o condenado.(9

Pergunte a qualquer mulher. Ela há de preferir a morte. O estupro é morte em vida. Morre a inocência, morre o afeto. Cresce a vergonha, o medo e o nojo. E se como consequência desse horror se gerar uma criança, o trauma será ainda maior.

Pense numa menina de nove, dez, onze anos. Pense que foi estuprada. Pense que engravidou..... Agora, pense que é sua filha, ou irmã...Pense que foi você!

Se ela for valente o suficiente para enfrentar tudo isso, gerar e amar esse filho dará mostras de muita fibra moral e demonstrará a verdadeira face da Caridade. Ela vai precisar de muito apoio psicológico e muito carinho da família. E do Estado, que foi incompetente para evitar o estupro. E da Igreja, que tem o dever de acolher a todos.

Vivemos tempos difíceis. Rejeitamos o sofrimento a todo custo, sem saber que muitas vezes ele é a cura. Não queremos sentir dor, somos egoístas e imediatistas.

Não minimizo a dor da mulher violentada e acolho aquela que em momento de desespero decidiu por interromper o fluxo da vida. Não cabem julgamentos, pois a consciência de cada um já é juiz duro o suficente. A esta, o acolhimento ainda há de ser mais necessário, pois a vida lhe cobrará o (desac)ato de fechar a porta ao nascimento de um ser igualmente livre e eterno como si, porém temporariamente inapto a exercer seu livre arbítrio, totalmente vulnerável e dependente da vontade daquela que seria seu canal para mais uma jornada na Terra. 

Não há ação sem reação. Não há escolha sem consequência. Nosso livre arbítrio termina onde começa o do próximo.

Oremos pelas meninas que são estupradas todos os dias por pais, padrastos, irmãos, vizinhos, parentes, desconhecidos, fumadores de crack, padres, pastores e perversos de toda a natureza.

Oremos para que se ponha fim a essa espiral do desespero, onde o álcool e outros vícios explicam atitudes de violência contra a mulher enquanto essa mesma violência é utilizada como razão suficiente para crimes ainda maiores contra quem ainda não pode se defender.

Oremos pelas meninas, pelas moças, pelas mulheres e pelas idosas que todos os dias são violentadas debaixo dos nossos narizes. Dentro das igrejas, nas ruas, nas repartições públicas... Em todos os lugares.

Deus tenha misericórdia de todos nós.

Para conhecer o Estatuto do Nascituro: Estatuto do Nascituro