segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Desafio dos Sertões 2015

Um dia uma amiga me disse: Se um dia você se vir passando pelo inferno, NÃO PARE!

Este fim de semana, conhecemos um pedaço dessa passagem....Ela não é pavimentada. Ela não é larga. Ela fica no sertão da Bahia!

Sabe aquela cena do filme Constantine, quando o protagonista vai ao vale dos suicidas investigar a morte de uma das personagens? Pois, é...deve ter sido gravada em Juazeiro...

Foto de Lucian Telles
Pedra, calor, galhos secos, espinhos. Mandacaru, Mandacaru, Mandacaru.... É a Caatinga.

Uma competidora me disse que na largada, as 13:00 do sábado, 10 de outubro, a temperatura era de 49 graus centígrados... E se manteve acima dos 40 até depois das 16h....

Ainda bem que eu só descobri isso depois da prova. Senão, já estaria mortinha!

Mais de 40 graus. Sensação térmica de 50. Caatinga. Deserto. Vale da morte. Inferno. Tudo junto e misturado!

Desafio dos sertões 2015 - Um teste de sobrevivência!

Nossa corrida, como sempre, começa dias antes. Há que se planejar toda a logística. Separar equipamentos, verificar as bikes, revisar o carro. Deixar o trabalho e a faculdade em dia...para finalmente colocar o pé na estrada.

Sete horas de viagem depois, estávamos em Juazeiro da Bahia. Como chegamos a noite, estava bem fresquinho. Achei que aquela história toda de calor, sertão e um sol para cada um era exagero. Que nada! Sou carioca. Sei bem o que é calor.... hehehe...tolinha....sabe de nada, inocente!

O dia amanheceu lindo no sertão.
Foto de Lucian Telles
Lá pelas oito da manhã o sol já estava se exibindo. Algumas nuvens fajutas davam a ilusão de frescor.
E nós já estávamos lá, animadíssimos esperando a largada!            
 
Orla de Juazeiro. Divisa com Petrolina. A brincadeira começou aqui.



Estudamos bastante o mapa. Li, reli e memorizei ao ponto de enxergá-lo de olhos fechados. A navegação precisava ser boa, por que não sabíamos o que viria pela frente.
Foto de Arsênio Marcos.
E a hora chegou. 13:00. 43 graus em alguns termômetros. 49 em outros. Erros de calibração a parte, todo mundo concordou em um ponto. Estava quente......pra car#$£#¥o. Se é que você me entende....

E foi assim que desbravamos o sertão. Debaixo de um sol escaldante. Um não...vários... Um Sol para cada um..

Foto de Arsênio Marcos
Entre a largada e o PC-1 foi só poeira. Sol. Sol. Muito sol. Sem nuvens. Quase sem vento.  O chão seco. A terra vermelha e castigada. As vezes eu pedalava mais forte só para movimentar o ar e sentir um pouco de vento no rosto. De vez em quando uma rajada de vento aparecia do nada. Era um alento. Passageiro e cruel.

Erramos um pouquinho no começo, mas recuperamos logo. Cortamos caminho pelo canavial, pegando uma paralela a trilha certa, que ficava um pouco mais a direita.

CAMINHÃO!!!! - Grita meu parceiro.

Como assim??? De onde sairia um camin....cof cof cof...... tome-lhe poeira entrando pelo nariz, pescoço e frestas dos óculos. Era um caminhãozão de cana. Enorme. Monstruoso. Embaçou nossas vistas de pó. Pensei nos cortadores de cana. Onde estariam eles? Como aguentam viver nesse clima inóspito?

Olhei para o céu e vi o Sol. Bem acima da minha cabeça. Bem que me disseram que o sertão tem um desses para cada um.....Aquele era o meu Sol. E ele era implacável. Não nos entendemos muito bem...Sr Sol, saiba que voltarei para conversarmos. Precisamos resolver essa relação!!!

Em busca de uma sombrinha, parei embaixo de um pé de cana. O cheiro doce era agradável. A sombra...curta e seca. Vand estudava o mapa. Eu reclamava, insistia que a trilha era a direita, mas no fundo queria que ele gastasse mais tempo navegando enquanto eu aproveitava a pequena pausa para resfriar o corpo.

Um competidor local me dera a dica no briefing: Beba água aos poucos. Não desperdice! Você vai precisar dela. Seguindo os conselhos, eu bebia dois ou três golinhos, molhava as mãos e assim refrescava o rosto e a nuca. O meu Sol particular era bastante sedutor e insistia em beijar minha nuca. Impossível me desvencilhar dele. Da próxima vez, corro de balaclava!

Encontramos várias equipes no caminho refazendo a navegação. Foi quando percebi que eu havia errado na medição da distância há cerca de 3 km do primeiro PC. Eu pensei que havíamos passado direto, mas na verdade ainda tinha muito chão pela frente. Contas refeitas, batemos o PC-1 sem maiores dificuldades...fora o calor.

Daí em diante foi muito sofrido. Comecei a ter calafrios. Era o meu corpo tentando equilibrar a temperatura. Olhei para o chão e vi pedras e terra seca. Olhei para o lado e vi uma paisagem aterradora. Nenhuma sombra. Nenhum animal. Apenas galhos retorcidos e espinhos. Muitos espinhos. Lembrei do Salmo 91 ("Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte...") Quando o Rei Davi escreveu este poema, deveria estar passando férias no sertão! Oxi!

Foto de Lucian Telles
Essa aí era a paisagem dominante durante todo o percurso. Eu já corri no interior. Já pedalei em Tanquinho, em Santo Amaro, em Feira de Santana e no Estado de Sergipe. Nunca havia visto nada parecido.

Eu fiquei imaginando quantas almas penam por ali. Neste mundo e no outro...



Aquele pessoal que está pensando em colonizar Marte deveria vir fazer um estágio em Juazeiro.... Quero ver quem tem essa coragem toda!

Entendi no PC-2 que não estava em uma competição normal. Não havia mais adversários. Todo mundo se ajudava. A disputa ali era contra a Caatinga. E ela, eterna, seca, imortal, ria-se de nossa fragilidade.

Algumas equipes já estavam perdidas a essa hora. Outras, já pensavam em desistir. Outras, já haviam desistido.

Pedi licença e sentei na varanda da dona da casa. Ela tinha uma lata. Em cima da lata, uma tampa de madeira. Em cima da tampa uma leiteira....com água!

Minha senhora, eu posso beber essa água? - Pode sim! Chegue...Pegue aqui...

Foi com nordestinos que aprendi o ditado de que "água não se nega". E ali sentada eu bebi aquela água morna e doce. Achei a maior delícia do mundo. Acho que bebi um litro...de gole em gole. Não conseguia parar.

Enquanto o Vand recalculava a rota, eu tentava me recompor. Mas, o pior ainda estava por vir....

O próximo desafio era o PC 11 - nossa prova era de 55 Km, não tínhamos que pegar todos os PCs. O 11 significava a metade da corrida para nós. Enquanto isso, muita gente já se lascava na prova longa...150km...Pura sofrência.

A distância para o PC era longa e o Sol se recusava a baixar. Comecei a ter miragens. A esquerda surgiu um lago que logo se dissipou em ondas de calor. Um toco seco me lembrava um homem sentado. Galhos me lembravam chifres. Eu ouvia boi mugir, sino de vaca fujona, grito de jegue.....Não via bicho nenhum. Muito doido isso!!!!!

A direita, as árvores pareciam incandescentes. Eu juro!!! Achei que tinha visto uma sarça ardente.....

Depois descobri que essas árvores produzem uma cera que ajuda a segurar a água, mas o troço brilha a luz do Sol. Na cor do âmbar. De longe parece mesmo que o tronco está em brasa. Muito bonito. Incrível como a natureza se adapta.

Meu skeeze já fervia e o camelback chegava a queimar a boca. A água do Vand estava acabando. Tentamos comer, mas nada descia. Comi meia banana e dois golinhos d'água a sombra de um espinheiro. A boca seca e a sede incomodavam bastante.

Procuramos muito pela trilha, e nada. Cheguei a entrar na caatinga, procurando rastros de bike...não achei... mas achei patas....grandes....de felino....Seria um gatinho gordo???? Uma jaquatirica? Uma onça??? Resolvi que não queria descobrir e voltei de ré....bem devagarinho para não incomodar o dono, o a dona, da casa....Sei lá.. Vai que...

Encontramos um grupo que também procurava o PC-11. Dois navegadores discutiam sobre o mapa. Eu olhava em volta distraidamente quando vi um morro. Gente! Tem um morro ali! Procurem esse morro no mapa! Hein? Como?

Olhem as curvas de nível, porra!!!!!! Ah, é mesmo! Tem umas curvas de nível aqui! Estamos na trilha certa. Ponto para a Geografia! Aquelas aulas de cartografia não foram de todo inúteis, afinal!

O morro, as pedras, o pó... E nada de trilha para o PC!. Estava um pouco deslocado. Quando estávamos para desistir, a trilha do sacana apareceu. Ampla. Aberta. Cheia de rastros de bike.

Aí, meu caro leitor, o bicho pegou!! Pedalamos por uma hora em um leito de rio seco. Pedra. Pedra. Pedra....espinho....areia....espinho....pedra, pedra.... De vez em quando uma equipe. Um quarteto. Um ciclista solitário a frente ou atrás da sua dupla. E o Sol na moleira!

Parei. Tombei. Os calafrios piorando. Um ciclista me ofereceu mel. Podia ser fome. Aceitei e nem tive forças para agradecer. Obrigada, moço! O mel ajudou. Mas eu lutava contra o calor. A troca térmica não estava funcionando bem. Eu podia ver o painel de controle da minha mente piscando todos os alarmes.  O cérebro me avisava: Vou passar para o modo automático. Vou te derrubar! Mal conseguia me equilibrar na bike e quando conseguia, uma derrapada na areia ou nas pedras me fazia parar de novo.

Ainda era dia. Ainda fazia muito sol. Meu alento era o PC-12. Era o nosso oásis...Lá haverá gatorade....

Batemos o 11. Caí feito uma jaca sobre o joelho esquerdo. Com bike e tudo. Por sorte, ficou só o roxo. Levantei logo, avisando que não era nada. Eu só precisava de 5 minutos....Eu me animei quando soube que éramos a oitava dupla a passar por ali. Estávamos na briga.

Não levei dois minutos e já estávamos em busca do PC-12. Mais pedra, mais areia. Esse era mais difícil porque começou a escurecer. A noite é tudo igual na caatinga... Anoiteceu e refrescou, mas o desgaste do calor não passou. Chorei, deu raiva. Mas, não queria desistir! Eu queria ir, mas o corpo se recusava a obedecer. Era a exaustão. De um tipo que eu não conhecia. Tive que parar várias vezes, porque o pé não obedecia mais ao comando da mente. Nem o pé, nem a mão, nem o olho..... Deu defeito, gente! Ficou esquisito!

Vandi achou ter visto um gato. Depois,  viu olhos brilharem no escuro... Seriam da nossa amiga jaquatirica? Melhor pedalar, né?? Vamosimbora!

Confesso que cheguei ao PC-12 me arrastando. Como só faltavam dois, ainda sugeri continuar. Desistiríamos dos PCs Virtuais, mas ainda dava para pegar o 13 e o 14 e fechar a prova com chances de uma boa colocação. A água do Vandi acabou. A minha estava no fim. Tomamos um gatorade cada um e enchemos os skeezes. Mas, não dava para abusar, porque ainda tinha muita equipe para passar por ali. Já pensou se chegassem e não tivesse água? Aquele era o único ponto de hidratação da prova! Tínhamos que ser solidários.

Enquanto discutíamos o que fazer algumas equipes chegavam e partiam. A trilha para o 13 era mais ainda mais difícil. O risco de ficar sem água era grande. O risco de quebrar de vez também. A noite era escura e sem luar...

Decidimos em comum acordo não pegar os PCs 13 14 e bater apenas a chegada. Foi uma decisão difícil. Amarga até agora. Poderíamos ter tentado e ter dado tudo errado. Poderíamos ter tentado e brigado por pódio.

Jamais saberemos.

Ainda encontramos muitas duplas perdidas na volta. Ajudamos a todos indicando o caminho e seguimos na contramão. Era o fim da nossa prova.

Sabe aquela sensação de que você deu o seu melhor, mas isso não foi suficiente? Pois é! Dessa vez, perdi para a Caatinga. Mas, a gente não desanima nunca! Ficamos com gostinho de quero mais!

Vamos ter que voltar lá ano que vem para saber qual é o nosso real limite!

Desafio dos Sertões 2016! estaremos lá! E dessa, vez, querido Sol, nós vamos ter uma boa conversinha!!!


Quando olhei aquele sertão todo fiquei pensando no desperdício que é esse país! E se tivéssemos estações de tratamento de esgoto que devolvessem a água para irrigação? Ou um sistema eficaz de coleta de água de chuva? E se desenvolvêssemos culturas resistentes a clima inóspito. E se a gente cuidasse mais daquele povo lindo, capaz de dividir o que não tem com quem quer que peça?

Vimos cachorrinhos famintos, bodes perdidos na beira da estrada. Quase não vimos gente!

Vimos trilhos de trem e antigos empórios, ora prósperos, agora abandonados e caindo aos pedaços. Pareciam restos de uma cidade fantasma. Por que essa porcaria de país deixou de investir em ferrovias??????

O que podemos fazer para o Velho Chico não morrer? Por hora, minha pequena contribuição foi correr e escrever sobre isso. Movimentamos a economia local, trouxemos, eu acredito, um singelo impacto positivo na região. E se fizéssemos isso mais vezes?

Eu vi um moleque fazendo estrepulias na sua bicicleta de ferro. Ele ficou por perto o tempo todo. Desde a largada até a nossa volta. É um potencial atleta. Quem sabe?

Waltinho - continue fazendo corridas no sertão. E conte com a gente!

Parabéns a todos os que participaram dessa linda competição. Concluindo ou não, somos todos campeões! Tivemos a coragem de tentar. De desafiar nossos limites. Que venha o próximo desafio!



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Uma taça de malbec. Um brinde louco a um mundo doido.

Uma taça de Malbec. Uma noite fria. É São Paulo. É pedra. É asfalto. É pressa. É tudo muito urgente.

Um brinde a solidão dos executivos. Ao desespero dos desempregados. A angústia dos empregados. E ao desânimo de quem nem sequer começou a trabalhar.

Um brinde ao silêncio dos preocupados.
Onde não tem barulho de crianças. Não tem vó. Nem tia. Nem cachorro. Tem dúvidas. E são muitas. Como será o amanhã?

Um brinde a Globo News. Ela informa que as contas da Dilma foram julgadas e condenadas. As minhas estão pagas. A duras penas.

A pena dela eu não sei. Eu não tenho. A nossa é pagar por ela.

Um brinde pois, as almas que penam em vida!!!!

Um brinde a toda a classe trabalhadora!!!

Brindemos pois as faxineiras, as manicures, as massoterapeutas. Microempreendedoras, donas do seu tempo que atendem com hora marcada.

Um não-brinde a quem acha que manda nelas e que sabe "colocá-las em seu devido lugar"....Ah, tola ignorância. Somos todos feitos das mesmas moléculas, senhoras! Larguem de besteira que estamos igualmente ferrados nesse país desigual!

Um brinde a quem precisa de ajuda e reconhece isso. Por que suas horas também são marcadas. E são vendidas a outrem...

Um brinde a mocinha que faz bombons para ajudar a pagar a faculdade. Um brinde aos professores que dedicam suas vidas a formar outras vidas. E que compram fiado na cantina.

Aliás, um brinde ao vendedor paternal da cantina. Ao anjo redentor da xerox. Aos santos porteiros protetores.

Um brinde a secretária, ao gerente, ao diretor, ao advogado.

Um brinde a quem já entendeu que somos todos tijolos do mesmo barro. Compomos a mesma construção. We are all just silly bricks on the same bloody wall!

Um brinde a vida! Essa vida doida! Ansiosa. Compulsiva. Apressada.

A gente corre tanto para quê mesmo??? Não sabemos. Mas, nem paramos para perguntar. Não dá tempo!

Um brinde ao tempo e a falta que ele nos faz.

Um brinde a crise! A todas as crises.

Um brinde a esquerda, a direita e ao centro. A todos os partidos que pensam saber aonde estão indo. Lamento, senhores. Mas, estão perdidos. Não sabem e não podem guiar ninguém. Um brinde a vocês todos, tolos!

Sim! Um brinde! Um pileque homérico.

Um brinde louco para este mundo doido.

Um brinde a ressaca que isso tudo vai nos dar!

Entre resignação e tristeza. Entre risos de ironia e ceticismo. A tudo contemplo através de uma taça de Malbec.



Aguardo o trem bater. Respiro fundo e aperto os cintos.

Fecho os olhos e espero a colisão. Vai bater...isso é certo! Mas, não acho que vamos morrer!!!

Não há heróis. Nem salvadores da pátria. Tem não, viu??? Acorda!! Deus não descerá dos céus para fazer o nosso trabalho. Essa bagunça toda que está aí é nossa, só. Não é de mais ninguém...

Sigamos em frente, que depois do pileque, vem a dor de cabeça.

Antes de melhorar, ainda piora um pouco.

Para recostruir....vamos ter que desmontar tudo! A começar de cada um de nós. Isso é empolgante e ao mesmo tempo assustador. Está na hora de parar de reclamar e agir. A mudança é de dentro para fora.

E aí???? Vambora? Ou vamos embora de vez????

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Um café, por favor

Um café. Torrado. Espresso. Ligeiro. Ristretto.
Bem rápido, que a hora vem. O bonde vai. O avião decola.
Bem rápido que a hora passa. E o tempo te leva embora

Um café. Puro. Preto. Sem açúcar. Quente.
Bem quente que é frio o banco. É gelada a mesa.
É dura a vida de quem tem pressa.

Um café.

Pausa......

Um minuto.  Dois minutos. Três minutos

Pára. Espera. Calma.


É só um minuto. É só um café...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dia das mães 2015 - Dia das avós

Dia das mães. 10 de maio de 2015.

Não tem foto delas. Achei que seria invasivo. Tem texto. Espero que apreciem as letras.

Senhorinhas.

A primeira vista são velhinhas desmemoriadas. Todas sorriem sem dentes. Menos uma, que está sempre brava, não sei com quem nem porquê.

Ainda não aprendi o nome de todas. Na verdade, só guardei o nome de duas. Dona Áurea e dona Olga.

Por que guardei o nome dessas e não das outras? Não sei. Talvez tenhamos criado uma conexão.

Dona Olga.

Seu jeito esguio me lembra minha avó do coração, que se chamava Darcília. Porém, seus cabelos cheios e muito brancos me fazem lembrar outra Olga que conheci há muitos anos. Era uma senhora que frequentava o mesmo terreiro que meus pais iam. Terreiro? É! Isso mesmo. Com mulheres de saia rodada e mil pulseiras. Com batuque e roupas brancas.

Aquela dona Olga fazia canjica (aqui na Bahia se chama mungunzá). E ela servia a canjica com paçoca de amendoim. Era a comida mais gostosa do mundo. Meu pai gostava muito dela. E eu também. Muito pela paçoca, mas também porque meu pai sorria bastante quando estávamos na casa dela. Todo mundo sorria ali. Era um lugar agradável. Tinha uma mesa grande de madeira em uma ampla varanda, onde a gente sentava para comer e prosear... Ela ainda me deixava repetir...

Abro parênteses para falar dessa experiência religiosa. Lá no terreiro eu queria colocar aquelas roupas. Dançar na pipoca e ouvir o tilintar das pulseiras. O que eu mais gostava mesmo era do som dos tambores. Até hoje meu coração acelera numa roda de capoeira... ou no desfile da Timbalada...É quando meu sangue africano ferve.

Depois do terreiro, veio a missa, com tia Terezinha, que me ensinou a rezar (ela ensinou...eu é que não aprendi direito). Mais tarde, vieram todas as denominações evangélicas que você puder enumerar....Das tradicionais até as mais radicais.

Os anos se passaram e uma dezena de livros espíritas depois, qual é a minha religião? A da fé! Acredito em Deus e respeito todas as crenças. Acredito que há algo de bom em todas elas. Acredito com moderação. O fanatismo me assusta.

Bom. Dona Olga me faz lembrar de tudo isso. Tambor, paçoca, saias rodando....

Sempre que a cumprimento, eu pergunto como ela está. Ela, por sua vez, sempre me responde: "Estou mais ou menos". E me pergunta onde eu moro. Eu respondo.... Para na semana seguinte responder de novo....

 Dona Áurea

Em meu lugar você também não se esqueceria dela. Como esquecer alguém que se chama Áurea Catarina de Araújo Góes??? Achei o nome dela lindo e logo me pus a pesquisar. Descobri uma sua parenta ilustre. Anna Ribeiro de Araújo Góes Bittencourt.... Senhora de engenho e provavelmente a primeira mulher escritora da Bahia. Quem sabe do Brasil! Não acredita? Vá lá no google: Anna Ribeiro de Araújo Góes.

Para completar, a família dela tem origem em Catu...cidade da minha amiga Lulu....A namorada do meu filho, que não é escritora, nem é de Catu, se chama Ana Araújo! Definitivamente uma artimanha do destino para corrigir meu péssimo hábito de não memorizar nomes...

Dona Áurea é ainda mais esquecida do que eu. Sempre que vou vê-la eu me apresento como se fosse a primeira vez. E como tomada de grata surpresa, ela se diz muito feliz em me conhecer. Pergunta quem é o moço bonito ao meu lado... Quer saber se é meu noivo...

Tem sempre uma história para contar. Muitas vezes, ela se apresenta como funcionária de confiança da dona do Lar. E diz que tem muita responsabilidade, porque tem que cuidar de todos aqueles idosos....E se refere a suas colegas como se fossem homens....
- Você sabe, né? "Eles" precisam de mim. Eu sempre cuido "deles" quando dona Ester sai...

Ao mesmo tempo que é triste, é gostoso ouvir seus devaneios. Aqui e ali elas tem um lampejo de lucidez e nos deixam saber um pouco de sua história. Quase todas são muito sozinhas. Viúvas, sem filhos, ou com filhos já mortos. Algumas tem filhos vivos, mas nem todos vão visitá-las.

Até agora só sei o nome dessas duas. Meu desafio é aprender os das outras 23 idosas que moram no Lar Ester.

Esbarrei neste Lar por acaso e desde então procuro visitá-las com certa frequência. Sempre aos domingos a tarde. Elas tomam banho e se perfumam para receber suas visitas. Muitas vezes esperam em vão. Algumas se apóiam nas esquizofrenices da idade e assim se desligam do mundo...Inventando histórias. Fingindo não se importar. Outras dormem, que é também uma forma de fugir. Na maior parte do tempo são sorridentes. Agradecidas por qualquer fragmento de atenção que recebem...

Uma das avós é muito brava. Essa nunca sorri. Nunca olha para mim. Nunca acha graça das palhaçadas que faço para atrair sua atenção. Ela fica conversando sozinha. Contando histórias desconexas. Como a do vestido...que ela mesma fez. Todos ficaram com inveja. Toda a cidade queria seu vestido. Era muito lindo.... Eu, muito atrevida e disposta a entrar na conversa de qualquer jeito, caí na asneira de dizer que também queria o vestido.... Para quê disse isso???

Choveu-me cuspe pela cara! E fui chamada de muitos nomes que eu nem sabia existir....
Sem ação e sem noção, comecei a rir de mim mesma e tentar me proteger dos tiros de saliva....A velhinha é uma verdadeira atleta de cuspe a distância!

Em vão me protegi. Fui salva por uma enfermeira bondosa e grande o bastante para me servir de biombo....

Que cena! Até agora acho graça...Até agora tenho impulsos de limpar o rosto..
Mas, fiquei com uma curiosidade enorme. Seria um baile? Como seria esse vestido? Teria ela conseguido usar? Será que alguém o roubou dela? Daria para escrever um romance só com esse fragmento de pano.... Quem dera eu o tivesse...

Era dia das mães e eu queria lhes fazer um agrado. Graças a Deus elas são bem assistidas. Tem comida, roupas e remédios. Tem médicos e enfermeiros.... Só tem pouca companhia. E é essa falta que procurei suprir com meu jeito meio atrapalhado de ser.

Com ajuda de alguns amigos, juntamos vários hidratantes. As assistentes me disseram que ninguém se lembra de doar este tipo de coisa e que elas precisam, pois a pele fica muito ressecada com a idade. Chega até mesmo a rachar e abrir feridas. Além disso, que mulher rejeita um hidratante????

Fiz uns embrulhinhos de presente bem simples, sob o olhar divertido do meu marido.... "Ainda bem que não trabalhas nas Casas Bahia... Fazendo embrulhos assim, irias passar fome....". Realmente, não tenho nenhum talento para as embalagens... reconheço.

Tudo combinado com a assistente social de plantão, seguimos para levar os mimos. Conversa vai... Conversa vem... Quem é  você? Onde você mora? Estou mais-ou-menos... Esse moço bonito é seu noivo? Seu cabelo é bonito.... Hoje elas não me deixaram sair! E eu ainda não almocei...teimava uma delas perante a enfermeira que lhe havia alimentado fazia poucas horas.... Eu já estava com saudade dessas histórias.

Conversei com a técnica. Muito séria e bondosa. Paciente de todo. Fiquei triste de não ter lembrado de levar nada para elas. Aquelas asssistentes, enfermeiras e cuidadoras estavam lá em pleno domingo a tarde, dia das mães, cuidando de mães esquecidas.

Onde estariam as mães das cuidadoras? Estariam sendo cuidadas?

O espaço é bem democrático. Há senhoras bem brancas e bem negras. Há uma senhora que divide o espaço com aquela que fora babá do seu filho. Ele, com seus olhos muito azuis chorou ao me ver dando os presentinhos. Perguntei qual era o parentesco dele. Ele disse: Esta é minha mãe, apontando para uma doce senhorinha dos cabelos bem brancos.... E esta... É minha segunda mãe, disse apontando para uma senhora negra bem idosa, que já quase não falava. Sua mãe se dirigiu a mim e disse: Esta sempre trabalhou em minha casa. E me ajudou a criar meu filho.

Ela, a negra, olhava para o distinto senhor com carinho, como se fosse mesmo seu filho. Ele retribuía o olhar. Ambas, mãe e babá agora são iguais. Compartilham a mesma morada. Não há mais patroa nem empregada.

Parece uma das moradas do "Nosso Lar". Onde a sua condição de vida na terra não faz a menor diferença. E onde santos anjos cuidadores auxiliam a todos.

Saí de lá um pouco mais feliz. Espero ter levado alguma alegria para elas também. Todas pareceram gostar do presentinho...Acho que até mesmo a vó-braba gostou. Afinal, tratou de proteger bem o seu presente. E quem ousaria tirá-lo dela?

Quando puder, caro leitor, visite um lar de idosos. Eles sempre precisam de alguma coisa, mas mesmo se chegar de mãos vazias, tendo o coração cheio de afeto, voltará de lá ainda mais completo.

Dedico esse texto, com amor, para minhas avozinhas. E para seus cuidadores e cuidadoras.

Feliz todos os dias das Mães. Deus nos ilumine a todos.
O ocaso da vida. O pôr do Sol. Chegará para todos. Brancos e negros. Ricos e pobres.






sábado, 28 de março de 2015

Noite do Perrengue III - 21 de março de 2015

Mais uma Noite do Perrengue. Mais uma vez Sauípe. Mais uma vez Arnaldo e Gaia na coordenação. Mais uma vez largada de madrugada, frio na barriga e muito muiiiito perrengue.

Mas o que teve nessa prova que não teve nas outras?

Foi a maior concentração de organizadores de provas das galáxias! Estava todo mundo lá! D'Aventura, Gantuá, Fernando Severino – que andava meio sumido! E fotógrafos! Muitos fotógrafos!
A propósito, antes que eu me esqueça, as fotos que estão neste release foram selecionadas dos álbuns de Fabio Linhares, Kassi Kaiper e Claudia Tedesco. Pessoas lindas e profissionais maravilhosos da arte de fotografar!
Corredores que são verdadeiras lendas vivas também prestigiaram o evento: Alan Pedreira correu com Chiquito, Mauro Chagas levou uma turma de novatos. Tadeu se encarregou de outra trupe. E assim formaram-se 60 duplas. 120 doidos!
 
Claro que os Aventureiros não iam ficar fora dessa. E éramos muitos. E fomos de galera. E enchemos a planilha de Arnaldo, de ponta a ponta.


Os nossos preparativos começaram na semana anterior, quando participamos da nossa primeira corrida de Mountain Bike – organizada pela Gantuá. O release daquela emocionante aventura você lê neste link: Corrida do CT - mountain bike

A corrida do CT nos trouxe uma série de aprendizados. O principal deles é que eu precisava pedalar mais....Eu até consegui subir e descer ladeiras sem medo... Só estava precisando fazer isso mais rápido...

Para resolver esse probleminha, além de levar os treinos mais a sério, resolvi mudar de equipamento. Troquei minha Scott azulzinha e velhinha por uma Scott vermelhinha novinha em folha! Sempre quis ter uma Scott vermelhinha! Tudo pronto, partimos rumo a Sauípe para mais uma aventura.

O Perrengue já começou na entrega das bikes. Um ladeirão medonho cheio de buracos e com árvores que se embrenhavam nas bicicletas. Uma escuridão danada. Chegamos a pensar em deixar o carro na base do morro e subir pedalando.. Ideia abortada logo em seguida. Se não era trafegável, quem garante que seria pedalável?
 Vencemos o primeiro desafio e fomos para o clube, confraternizar com os amigos e ouvir Gaia nos meter medo! Novatos, não peguem o PC X!!! Cuidado com a pirambeira!!!
 Ai ai....
Óh minha cara de medo ao pegar o mapa!
 
Depois de estudar bem o mapa e marcar direitinho todas as distâncias, ainda sobrou tempo para um cochilinho.... até que Gaia puxou meu pé lembrando que não estávamos ali para dormir!

Hora da largada!

Meia-Noite em ponto! Parecíamos um bando de morcegos em revoada rumo ao pórtico. Eu tratei logo de comemorar a corrida toda na largada. Se não conseguisse terminar, pelo menos já estava devidamente comemorada!

 
Largamos de trekking num ritmo bom e passamos muita gente. Não faltou fôlego nem navegação! Rapidamente achamos o primeiro PC, também conhecido como PC-Gaia, do verbo Gaiamum-que-porra-é-essa????!!! Uma lama só!!!

Para completar, ainda tinha fila! Muita gente achou esse PC  quase ao mesmo tempo. Tínhamos que esperar a vez para picotar a pulseirinha. Xinguei meio mundo de gente, pois achei que estavam com nojinho do mangue.... Quando chegou minha vez de botar o pé na lama é que entendi a desgraça!

Pense o que é começar a prova com o tênis pesando meia tonelada! E tinha que pisar com cuidado mesmo, porque uma queda ali não seria nada agradável....

Na volta, ainda dei uma cabeçada homérica num tronco que serviu para colocar as ideias no lugar....Chegou a apagar minha lâmpada!

Recomposta e mantendo o pique, achamos logo em seguida o PC-2. Animadíssimos e sob um céu de um milhão de estrelas, seguimos um longo trecho de praia rumo ao terceiro PC.
A propósito, gostaria de sugerir a organização que não faça mais trilhas pela beira da praia. Ali é área de desova de tartarugas. No escuro, corremos o risco de pisar as filhotinhas. Uma dupla até parou para ajudar as bichinhas a chegarem no mar. Passamos com o maior cuidado para não bulir com as donas do pedaço. Afinal, os intrusos ali éramos nós...
Chegamos ao local do PC-3, mas ele resolveu sair antes da prova para tomar banho de mar e nunca mais voltou!!! Uma das duplas tirou até foto para servir de evidência de que havíamos passado por ali. Posei para a foto junto com mais uma galera e seguimos adiante. Não havia tempo a perder.
Íamos conversando animadamente sobre como é estimulante achar os primeiros PCs com facilidade. A navegação estava fluindo bem. Nosso ritmo estava ótimo. A corrida prometia!


 Caminho para o PC-4 - Aí as coisas começaram a ficar esquisitas....
A primeira travessia foi até fácil de achar. Era um mangue bastante fedido e lamacento. Passamos praticamente caminhando sentindo coisas estranhas se enrolando em nossas pernas e pés... raízes? sucuris? vermes? jacarés????? Melhor não parar para perguntar....Ainda bem que estava escuro!

Daí em diante, tivemos muita dificuldade para navegar. Pouca habilidade no uso da bússola, mata, ausência de lua e uma quebra na concentração acabaram por nos prejudicar bastante. Tentei orientar o mapa só para perceber que estávamos fora da rota. Começamos a andar em círculos.
Ali no meio do escuro e com todas aquelas estrelas brilhando no céu, lembrei no meu pai. 21 de março é a data em que ele nos deixou, três anos atrás. Pedi aos anjos bons que cuidem bem dele lá no "Nosso Lar".. do outro lado da vida.
Meu pai era um excelente navegador. Uma vez, quando ele estava no exército, seu comandante o deixou sozinho com uma faca e uma bússola bem no meio da floresta Amazônica. Depois de muitos dias se virando como pôde, finalmente ele chegou a um vilarejo e dali voltou a sua base, deixando seu líder e colegas boquiabertos. Ninguém acreditava que ele seria capaz de se virar sozinho. Foi o teste de sobrevivência mais difícil de sua vida. E ele venceu. Como venceu muitos outros desafios ao longo da sua vida.
Fiquei me perguntando porque não aproveitei para aprender a navegar com ele... Quantas outras coisas mais eu deixei de aprender...Deu saudade. Deu vontade de chorar...
Fiz uma prece a Deus e pedi ao meu pai que de onde ele estivesse nos desse uma forcinha. Afinal, estava muito escuro e estávamos perdidos. Pedi desculpas por não ter aproveitado melhor nosso tempo juntos aqui na terra. Enxuguei os olhos, e tratei de andar... Começava a cair uma chuva fininha... Parece que uma nuvem chorou também...
E nós dois, Vand e eu, em silêncio, continuamos a andar em círculos por minutos intermináveis...Eu queria ajudar meu navegador, mas não sabia como. O mínimo que eu podia fazer era andar o mais rápido possível sem reclamar e tentar ler o mapa para ajudar...
No meio do escuro, Vand declarou que a prova terminara para nós. Que estávamos perdidos e que ele não tinha a menor ideia do que fazer. De repente, do nada, a dupla "Advogados Aventureiros" surgiu na nossa frente. Olha gente, acho que é por aqui.... E sumiram de novo, no escuro... . Pensamos em segui-los. Chegamos a dar um ou dois passos em sua direção. Mas, Vand, desconfiado não foi. Eu parei também. Já tínhamos tentado aquela trilha antes e sabíamos que ela dava em lugar nenhum.
Normalmente não seguimos outras equipes, a menos que estejamos convencidos que é aquele o caminho. Preferimos fazer a nossa navegação. Certa ou errada.
Dessa vez, erramos... Perdemos a oportunidade de achar o caminho certo. Essa dupla chegou bem na nossa frente ao final da prova.

Mas, de qualquer forma a ajuda foi válida. Alguns minutos depois, voltamos para a trilha que eles nos indicaram e logo achamos uma estradinha bem aberta que não tive dificuldades de reconhecer no mapa. Estávamos de volta a rota!

Enquanto eu mostrava ao Vand a trilha, uma  outra dupla masculina apareceu e ratificou o meu palpite. Finalmente achamos a segunda travessia. Bem mais fluida e mais limpinha. Agradeci mentalmente a "ajudinha" do meu pai e nos jogamos no mangue.
Havia outras duplas passando. Uma mulher gritava "eu não sei nadar!!" Não dava pé. Tinha que nadar mesmo. Vand, sempre cuidadoso, verificava a todo instante se eu estava bem.
Mesmo nadando com mochila e tênis, parece que a corrente ajudou... Ou os nossos anjos da guarda, sempre de plantão, resolveram dar uma forcinha...Atravessamos sem maiores dificuldades.
Depois de muito andar, achamos o PC-4 e  saímos a caça dos demais PCs. Seguimos a trilha para o PC-5 e ainda encontramos um monte de gente conhecida no caminho. Lulu e Vitor, Gabi e Mauro, Marcelo e Claudio... Tadeu e sua trupe... Uma farra! Que alívio ouvir vozes depois de mais de uma hora de solidão no mato!
A trilha para o  PC-6 estava bem marcadinha. Não foi difícil achar a casa do Zé.
Re-animados,  finalmente chegamos a transição. Devido ao nosso erro de navegação, batemos o PC 7 uma hora depois do nosso planejamento. Mas, cada PC é uma pequena vitória e logo tomamos ânimo novamente. Afinal, agora era hora de estreiar a bike....
E eu pedalei, gente!!! Como nunca antes na história da minha vida!  Foi até gostoso subir um ladeirão pedalando enquanto alguns colegas empurravam a bike... Tentei ser educadinha, porque sei o quanto isso é irritante!! "Dá licença gente, tô passando aqui do seu lado esquerdo..." "Oh.. bike passando na sua direita.... "
E as descidas! Todas bem estabilizadas. Várias sem apertar o freio! Era um Uhuuuuuu! para subir e dois Uhuuuuuus para descer. Parecia criança com brinquedo novo! E era mesmo...
Mas, bicicleta só fica em pé enquanto se pedala! Parou, caiu!
Uma vaciladinha para admirar o menino-prodígio que encontramos num estradão de areia e puff! Caí igual a uma jaca na areia fofa! Quase fui atropelada por outro ciclista e fiquei parecendo um bife a milanesa.... A areia era a farinha e eu o bife! Até hoje tiro areia do cabelo....
Rindo da própria desgraça, levantei, sacudia  areia e botei as catraquinhas para girar!  Este foi o único momento da prova em que fiquei mais de dez metros atrás do Vand. Logo o alcancei e seguimos viagem. Meu parceiro ficou orgulhoso de mim!!!!

Os PCs da bike não estavam assim tão fáceis. As trilhas eram bem demarcadas e pedaláveis, como Gaia prometeu. Porém tinham um defeito... Eram todas iguais!!!! Era eucalipto de um lado e eucalipto do outro. Estradão no meio! Várias paralelas do azimute encontrando-se no infinito e nos afastando dos PCs. As lâmpadas começaram a falhar. A chuvinha fina ia e voltava..
E eu rezando para o dia amanhecer logo.
Ao menos minhas preces foram atendidas... É lindo ver o sol nascer... Principalmente quando você não tem mais iluminação...
 
O trecho mais difícil de pedalar foi mesmo o da tal pirambeira, tão alardeada pelo Gaia. Ainda pedalamos por um bom trecho, mas logo ficou impossível. Muita lama, muito escorregão, muito buraco.... Rolou um push-bikezinho de tirar o fôlego!

Finalmente chegamos ao PC-12. Eram 6:20 da manhã! Quarenta minutos antes do corte! Uhuuuuu! Uhuuuuuu e Uhuuuu de novo! Uhuuuuu ao cubo!!!!
Embora tenhamos decidido não pegar o PC X, eu sentia que estávamos na briga! Animadíssima, eu só pensava em remar...
Eu adoro remar. É tão gostoso! Chega a ser relaxante depois de um pedal puxado...
Renovada pelo guaramix geladinho, puxei meu companheiro que já apresentava sinais de desânimo. Ele queria desistir do remo e me sugeriu pedalar direto para a chegada....

Com muito carinho, olhei bem dentro dos lindos olhos azuis do meu companheiro de aventura e de vida e disse-lhe carinhosamente:

- DEPOIS DE TUDO O QUE PASSAMOS PARA CHEGAR ATÉ AQUI!!!! NEM PENSAR! PEDALE SUA PORRA QUE NÓS VAMOS TERMINAR ESSA PROVA!!!
E foi assim, com toda a doçura que me é peculiar, que sai pedalando sem olhar para trás... e Vand também, é claro! Afinal, ele é tão ou mais competitivo do que eu.. Não ia deixar por menos.
Fizemos um pegazinho nós dois naquelas ladeiras. Ora eu ia na frente, ora ele me passava. Foi gostoso demais! Valeu a prova toda!
Pensei que seria mais fácil chegar no PC-13. Chegamos bem perto dele quando cometemos nosso segundo erro de navegação...De repente, Vand não reconhecia mais a trilha. Tinha algo errado. Estava tudo muito estranho.... Eu fui tentar ajudar e por alguma confusão mental, eu achei que o PC-13 era no mar e já seria a transição.... Na verdade, ele era no BAR!!!!! Acho que passamos na porta do PC, mas como não picotamos nem anotamos nada.... Deixamos que ele nos escapasse. Isso nos rendeu várias posições no ranking. Até agora a gente se pergunta onde foi que nós erramos!

Quando nos demos conta de que Bar não é Mar, já estávamos há mais de um quilômetro de distância.

Decidimos em comum acordo desistir do PC e concluir a prova. Perseguiríamos o PC 14. Ainda daria tempo de terminar a prova com honra!

Eu ia pedalando e rezando para remar, mas já prevendo que tomaríamos um possível corte de segurança...
 O que eu temia me sobreveio.....
Chegamos esbaforidos no PC-14. Eu dei um grito visceral que era o desabafo de mais de 7 horas de corrida sem parar para nada. Um grito de fome, de sede e de superação.
Afinal de contas, ficamos perdidos, enlameados, areados e cansados, Mas, batemos mais um PC!
A galera até se assustou. Teve gente me pedindo calma..
Não se assustem, pessoas! Foi só um desabafo. Costumo fazer isso com alguma frequência...
Lulu calçava sua sapatilha. Uma pessoa guardava barcos em um carro. Gaia tinha um olhar triste.... Carol marcava nossa chegada....
- Vocês tomaram corte!
Poxa! De novo! Que merda! - Resmunguei eu.
Rapidamente me recompus, porque não somos de perder tempo com reclamações inúteis.  Eu só queria saber o que devia fazer. É para pedalar tudo de volta, é????? Tá bom! Então vambora!!

Havia pessoas bravas por terem tomado o corte.
Não ficamos zangados. Afinal, eu entendo que a organização tem a prerrogativa de interromper a prova em qualquer tempo, por razões de segurança ou de logística. É importante que todos entendam isso.

Vi Lulu tentando me dizer que estava indo também e que poderíamos ir todos juntos. Mas, eu estava com fome e sem água. Queria apenas concluir a prova.  Saí pedalando feito um jegue alucinado....Vand vinha atrás, já desiludido. Segui aquele estradão todo passando um monte de gente.... Ainda tinha muito pique. A raiva pelo corte e pelos PCs perdidos serviram de combustível para esse sprint final.

O desânimo bateu forte só quando chegamos na vila. Não tinha ninguém indo naquela direção... Todos os ciclistas sumiram...Alguma coisa estava errada... O mapa apresentava um caminho de mais de dez quilômetros... Não pode ser. Deve ter um atalho. Vamos perguntar...

Encontramos dois aventureiros que confirmaram que o caminho era o do mapa mesmo. Mas era pedal para mais de uma hora... Não é possível... Estávamos em Porto de Sauípe. Precisávamos chegar em Costa do Sauípe!! Um Porto por uma Costa, pois minhas costas doem... e muito! Please!!!!
Como não tinha mais o que fazer, pedi que os colegas dividissem sua coca cola com a gente. Eu odeio coca-cola!!! Mas, estava com tanta sede e fome que achei que era um verdadeiro néctar celeste!

Vand, meu amor, vambora! Quanto mais tempo ficamos aqui, mais longe estará a linha de chegada!

Resignados, fomos seguindo o mapa. Em dado momento, dois simpáticos sergipanos nos abordaram. Mais uma ajuda celeste, dos anjos do bem e do meu velho pai, também sergipano...Um dos senhores nos abordou....Reconheci sua origem pelo sotaque.

 - Ei, vocês se perderam dos seus amigos, foi???
Eu disse ofegante:  - Moço, precisamos chegar em Costa do Sauípe!

- Oh, fia, vá por aqui não... É muito longe... – Ói, tem um atalho! Vou lhe ensinar. Vocês voltam para o campinho, quebram a direita e vão sair numa rua asfaltada. Segue reto que vai sair na estrada do côco, bem “dijunto” da entrada para Costa do Sauípe... Agradeci a Deus, aos santos anjos e ao meu pai, que certamente teve algo a ver com isso!

Ânimo um pouco mais renovado, seguimos adiante. A dica estava certinha! Logo que achamos a Estrada do coco, Edilene e sua trupe nos alcançaram. Oba! Gente conhecida! Estávamos no caminho certo! Logo logo saímos da rodovia e seguimos por uma trilha de chão bastante familiar. Era o caminho para o Quintas Private Residence!

O pórtico, a buzina, a chegada! A emoção de mais uma prova completa. A certeza de que estamos progredindo. Não  importa se não deu pódio. Abrimos mão dele ao desistir de dois PCs. Deixamos escapar uma classificação melhor porque erramos bastante na navegação. E o corte no remo foi a estocada final. Mas, tudo isso faz parte da brincadeira.
Levamos para casa vários aprendizados. A análise crítica foi feita. Certamente a próxima corrida será ainda melhor.

Para Arnaldo, Gaia e toda a galera que organizou a prova eu dou mais uma vez muitos parabéns. Sabemos o quanto é difícil montar uma competição como essas e percebo nos seus olhos e atitudes que fizeram tudo com muito amor.

Para meus amigos da Aventureiros do Agreste, outros muitos parabéns!!! Lulu e Vítor são nosso orgulho! Levaram o pódio para casa. Gabi e Mauro também arrasaram. Não só completaram a prova, como garantiram o quinto lugar. Claudio e Marcelo, cada vez mais sinérgicos. Cada vez mais Aventureiros. Tadeu fazendo sempre o lindo trabalho de trazer sangue novo para as provas. Que delícia fazer parte desta equipe. Olha que sorrisos lindos...
 
Aos anjos da floresta, aos espíritos de luz e ao meu pai, que sei que de onde está de vez em quando me dá uma ajudinha silenciosa: Muito Obrigada!

Parabéns aos fotógrafos, ao pessoal do Quintas Private. Um agradecimento especial a turma que nos preparou o café da manhã. Estava tudo delicioso.

Ao meu marido, companheiro e navegador de sempre. Para toda a vida estarei ao seu lado. Perdidos no mato ou nadando no mangue. Que Deus nos permita vencer muitos e muitos perrengues. Te amo.


O gostinho de quero mais ficou na boca... Quero fazer a Noite do Perrengue IV!!!
E dessa vez, sem cortes!




domingo, 15 de março de 2015

Corrida de Mountain Bike - CT Gantuá 15/03/15

Corrida de Mountain Bike do CT Gantuá.

Hoje é um dia histórico. Milhares de pessoas estão nas ruas protestando contra o Governo.
Que bom ter liberdade de ir e vir. De ser contra e de ser a favor. Quando eu nasci, era proibido discordar. Ir para a rua protestar era perigoso. Era certo passar a noite no Xilindró, apanhar da Polícia e muitas vezes, nem chegar a casa... Ainda bem que esse período negro passou. Ditadura Nunca Mais!

Infelizmente, muitos dos manifestantes estão pedindo a volta da malfadada Ditatura Militar. É uma ignorância histórica sem mais tamanho.... Mas, enfim. Viva o direito de expressão! Viva a Democracia!

Sustentada em meu direito de ir e vir e no princípio universal do Livre arbítrio, não fui protestar. Fui pedalar. Alienada? De jeito nenhum! Também não estou satisfeita com o Governo. O setor econômico em que trabalho tem sofrido demais nos últimos 10 anos. Porém, eu já me manifestei nas urnas. Meu candidato perdeu as eleições. Aceito o resultado e sigo a vida. Paciência. Podemos tentar de novo nas próximas eleições.

Como sou desportista, sei ganhar e sei perder com dignidade. E é sobre esporte que vamos falar agora.

Existem inúmeros atletas de alto nível neste mundo. Existem muitos no Brasil. Existe um grupo expressivo no Nordeste. Existe um bom número na Bahia. Vários deles estavam na corrida do CT da Gantuá.


Gente que já correu o Brasil Ride e que treina todos os dias,  de 50 a 100 km em cada treino, subindo e descendo trilhas, comendo poeira, passando em charcos, areais e ladeirões.

E no meio de toda essa gente, lá vamos nós. Pessoas comuns. Dois trabalhadores "full-time" da indústria brasileira. Treinando uma horinha ou outra durante a semana, quando dá. Fazendo 20 ou 30 km, quando muito, nos fins de semana. E a gente vai junto com os "tops", com a cara, a coragem e nossas bikes sem clips (Calma! Já tomamos vergonha! Os clipes chegarão em abril!).

Largada da corrida do CT 15 de março de 2015

Ói nois aí....
Havia cerca de duzentas duplas inscritas. Várias veteranas de corridas de mountain bike. Nós nunca havíamos feito uma competição como essas. Fazemos corrida de aventura, que é bem diferente. Foi a nossa estréia. Por isso, fomos de coração aberto, com muita vontade, mas sem grandes expectativas.

A prova, organizada pela Equipe Gantuá de Corrida de Aventura, foi um primor de organização. Mérito dos super competentes Diana Gomes e Alan Pedreira. Este casal de jovens empresários é uma referência em esportes de aventura no Brasil, além de serem pessoas maravilhosas.
 
Quando vi aquele mar de gente com uniformes padronizados, bicicletas de última geração e aquela pinta de profissionais, eu me senti bem intimidada a princípio. Éramos apenas dois Aventureiros do Agreste. Únicos representantes da nossa equipe e ainda carregando o nome do patrocinador, a Targa Náutica. Uma baita responsabilidade, principalmente porque estamos longe de ser do primeiro escalão de atletas dessa equipe supertradicional de esportes de aventura.
 
A largada, pontualmente as 9:00, foi uma alegria só. Vários atletas levaram amigos e parentes. Um monte de gente tirando fotos. Eu senti um pouquinho do que deve ser correr numa prova grande, como o Tour de France. O coração parecia querer sair pela garganta. A respiração acelerada roubava meu fôlego. Eu chegava a tremer de emoção.
 
Os primeiros 5 km foram ladeira acima. A longa subida do Castelo Garcia D'ávila já separava homens de meninos. Atletas experientes de novatos. Treinados de todo-dia e atletas de fim de semana.
 
Depois, vieram as trilhas já nossas velhas conhecidas de Sapiranga. Treinamos muito ali para fazer o Caminho de Santiago, no ano passado. Eu conheço cada tronco e cada pedra desse percurso. Isso me ajudou bastante a desviar dos perigos das trilhas.
 
Descemos bem as ladeiras, os single trekkings e todas as pirambeiras que apareceram pelo caminho. As subidas foram mais custosas e a falta de fôlego sempre vinha me avisar que eu tinha que treinar mais. Antes do km 10 eu estava pensando seriamente em devolver o café da manhã... Vi que teve gente que o fez isso mesmo, ali, no meio da trilha... Eu tratei de engolir o engulho e pedalar. Não tínhamos tempo a perder.
 
Ofegante, concluímos a primeira parte da prova. Infelizmente, não chegamos a tempo de entrar no circuito Power e tivemos que nos contentar com o trecho "light".... Light mais ou menos, né?.... Foram 20 km de muita técnica e esforço físico!
 
Não paramos para nada! Nem nos pontos de água. Levamos um suporte extra que nos garantiu uma chegada tranquila e bem hidratada. Vand foi com o camel e eu com um skeeze e um cinto de utilidades contendo quatro garrafinhas. Elas me salvaram, mas me fizeram também perder duas posições, quando resolveram cair no meio da trilha. O parceiro ficou bravo, duas duplas nos passaram, mas as garrafinhas foram resgatadas. Porém, vão tomar penalidade e estão cortadas da próxima aventura: A Noite do Perrengue 3, na semana que vem. Nem pensar em caçar garrafas no escuro!! Vou voltar para meu bom e velho camel back!
 
A segunda metade da corrida foi bem mais fácil. Ainda tinha vários trechos técnicos, mas era só descida. E eu, que deixei o medo de ladeiras lá em Santiago de Compostella, não tive dificuldades para completar a prova.
 
Nas ladeiras mais difíceis, quando o fôlego faltava eu me lembrava de que sou mãe. Eu pari com 19 anos, e isso não foi nada fácil! Logo, o que é uma subidinha dessas?
Nas descidas mais íngremes eu me lembrei da cidade de Redondela no Caminho de Santiago, nunca vi tamanhas ladeiras! Foi lá que perdi o medo. Não ia deixá-lo voltar.
Uma das ladeiras infinitas de Redondela. Essa é uma "fácil".
Também em Redondela...Essa aqui era mais legal e igualmente infinita....
OBS: A segunda foto de redondela foi copiada respeitosamente do Blog Movimento Caminhos Peregrinos: http://movimentocaminhosperegrinos.blogspot.com.br/p/quem-somos.html

Quando achava que ia desmaiar, eu me lembrava de que já sou vencedora, por ter deixado o conforto do meu sofá e me jogado em uma corrida no meio de um monte de gente boa. E que tinha deixado vários deles para trás.
 
Subimos todas as ladeiras pedalando, enquando outros competidores empurravam suas bikes.
Descemos todas pedalando, enquanto muitos quebraram pelo caminho.
 
Os poucos trechos que empurramos as bikes são aqueles em que não dava mesmo para andar em duas rodas.
 
Não sabemos nossa posição ainda. Infelizmente, não conseguimos o sonhado lugar no pódio. Mas, isso não nos desmotiva, pois temos progredido muito neste esporte. E, quando olho em perspectiva, vejo que estamos sempre evoluindo.
 
Quando eu comecei, lá em 2008, eu nem sonhava com medalhas. Completar a prova viva já era um grande prêmio. Depois, veio a meta de completar sem tomar corte. Depois, começamos a tomar gosto pelo pódio, quando beliscamos o primeiro troféu no CICA- Etapa Peleja de 2014 (Quarto Lugar - Abr/14) e logo em seguida ganhamos mais um em outra fase do CICA - Etapa Cangaço (Sexto Lugar - set/14). Tudo isso só foi possível depois que encontrei meu Parceiro de Aventuras ideal, um alemão-gaúcho que aprendeu a pedalar antes de saber andar e que não tem medo de nada.
 
Eu, por outro lado, aprendi a pedalar com 21 anos, em uma Caloi Ceci cor de rosa com cestinha. Meu primeiro encontro com uma bike de montanha foi mais de dez anos depois. Logo, eu me considero uma eterna aprendiz nesse esporte. Mas, nem por isso menos intrépida!
 
Somos nós quem nos colocamos limites. Mesmo quando falta auto-confiança ou apoio externo, se sobra força de vontade, podemos superar todas os desafios, seja na bike seja na vida.
 
Nossa meta era estar lá, no meio daquele povo "top" e superar os nossos próprios limites. É claro que pódio é gostoso. É claro que a gente também quer ganhar, mas, no esporte como nas eleições, e como em qualquer disputa, é preciso saber perder.
 
Passamos no pórtico da chegada felizes. Subimos mais um degrau na escala dos desportistas de fim de semana. Com foco, treino e determinação, sei que podemos chegar muito longe.
 
Sou muito agradecida por ter um esporte para me dedicar. É no mato que deixo minhas preocupações do dia a dia, minhas limitações e meus medos. Troco todos por coragem, determinação e vontade de vencer. Levo tudo o que aprendi para a vida diária, que não é nada fácil!
 
A cada trilha aprendemos mais sobre respeitar os nossos limites e os dos outros; É gerenciando pequenas crises nas corridas, que aprendemos a lidar com os grandes desafios da vida. É no mato que exercitamos a paciência, a persistência e a determinação.
 
Aprendemos a respeitar a natureza, que sempre nos recebe com tanta generosidade; Aprendemos a valorizar o Interior do nosso Estado com suas belezas naturais. Fazemos amigos, ganhamos experiências. Vivemos intensamente!
 
Não deu pódio.. Não deu.. Mas, deu vontade de voltar no ano que vem e tentar de novo!
 
Parabéns Diana Gomes e Alan Pedreira por mais uma prova super bem planejada, linda e altamente profissional. Que Deus os ilumine e os faça prosperar ainda mais. Vocês são nota 10!  Sempre nos surpreendendo! Estou doida para ver as fotos e filmagens que fizeram. Devem ter ficado sensacionais.
Gente, teve até drone filmando a corrida!!!
A todos os que não foram, fica o convite. Larga o sofá e vem pedalar. Você vai sofrer, vai suar e vai se cansar... E o pior... Vai adorar fazer isso!!
 
Obrigada a todos os amigos que nos estimularam e nos apoiam o tempo todo.
 
Foi com muito orgulho que vesti novamente minha camiseta rosa. Levamos o nome dos Aventureiros e queremos continuar levando. Amo minha equipe com todo o coração!
 
Agora, vamos descansar que semana que vem tem mais...
 
 

 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Merendeiras

Merendeiras....

Todas as que conheci eram matronas. Grandes, de braços fortes e olhar severo. Todas tinham cara e jeito de mãezonas. E se comportavam como se de fato fossem mães do mundo inteiro...Gostavam de ralhar por tudo e espalhar lições de vida para todo lado - Oh, menino, não estraga a comida que tem muita gente passando fome! Dê graças a Deus que você tem o que comer!

Só tenho lembranças boas de merendeiras...

Eu não tinha dinheiro para comprar lanche. Também não tinha muito o que levar de casa.... A escola era muito longe. Qualquer coisa que eu levasse ficava logo com gosto de ontem...Isso quando não estragava....

Só uma vez, minha mãe me deu um dinheirinho e eu achei o máximo. Fui para a cantina toda prosa e depois de passar o recreio todo na fila, descobri que o dinheiro só dava para um item. Ou sanduíche ou refrigerante.... E nem era tão bom assim....

Sem cantina e sem lanchinho de casa, logo criei apego aquelas senhoras gorduchas. Elas salvavam meu dia! Eram a solução simples e prática para o meu problema.

A primeira vez que pedi para repetir tomei um sonoro não! "Vocês ficam aí pedindo mais, depois não comem.... Aí os outros que vem depois ficam sem merenda. E eu? Com que cara eu fico???? Morri de vergonha! Ela não me conhecia ainda, nem eu a ela. Mas, isso logo mudou....

Da outra vez que pedi para repetir era mingau de aveia....huuummm... meu favorito! Oh, tia, só mais um pouquinho..... Tá tão gostoso......

Eu vi aquela matrona se desmanchar num sorriso bondoso... Então descobri um segredo importante! Elas adoram quando elogiamos a comida!!! Daí em diante nunca mais fiquei sem meu "bis". Eu ficava num cantinho , para ninguém "reparar" e comia bem quietinha. A merendeira me olhava de rabo de olho... e quando eu terminava já vinha me perguntar se eu queria mais.... As vezes eu não pedia, mas nunca dizia que estava ruim! Assim, ela nunca descobriu o quanto eu odiava macarrão-com-salsicha e arroz-com-sardinha!!!!!!!

Uma vez virei o mingau em cima de mim.. Não sei como fiz isso, mas quando eu vi, lá estava eu...toda melada....Foi a primeira vez que entrei na cozinha. Aquele era um recinto proibido. Eu já tinha tentado entrar antes e fui expulsa com uma sonora bronca!

Dessa vez, ela mesma me levou. Ficou com medo que eu tivesse me queimado. Eu chorava de vergonha e de medo de não poder comer mais.... Justo naquele dia era mingau de aveia....o mais gostoso de todos!

Mas a bondosa senhora não só cuidou de mim e deu um jeito no meu uniforme que estava imprestável, como me serviu uma segunda porção bem generosa!

Passei sete anos no mesmo colégio. Foram centenas de visitas aquele refeitório. Quando cheguei, eu mal alcançava o balcão. Quando saí, já era quase uma mulher.

Quanta coisa aprendi com aquelas matronas. Elas eram muito limpas. Muito disciplinadas. A merenda sempre estava posta a tempo e antes do fim do turno, tudo já estava limpo e arrumado. Eram panelas enormes, colheres imensas. Não sei como davam conta.

Hoje, estive em um evento de voluntariado em uma escola no interior de São Paulo. As merendeiras foram convocadas pela prefeitura para ajudar. Na hora do almoço, os organizadores me convidaram para comer com eles. E lá estava eu, de novo, na fila da merenda! Um pratinho, uma colher, um copinho de suco e uma laranja para cada um. - Eu sou vegetariana, tem opção para mim? - Tem sim! O feijão está sem carne e tem ovinho frito!

Uma delícia! Eu me lembrei do meu colégio e de como eu gostava quando tinha arroz, feijão e farofa. Esse não podia repetir, porque não sobrava nada!

Quando fui devolver meu pratinho, para não perder o hábito, elogiei o feijão. E vi de novo aquele lindo sorriso de cozinheira satisfeita. Era uma negra fortona que me abriu uma risada alva  muito bonita. Logo espalhou a notícia e tratou de chamar as outras. Olha, ela gostou do feijão!!! Olha, quem fez foi aquela ali oh!

É que a gente faz com amor, disse uma delas em meio a risadinhas se satisfação.

Eu agradeci a todas e fiquei comovida com a reação delas a um simples elogio.

Cozinheiras. Merendeiras. Mães. Anjos. Obrigada por serem tão especiais.

Vocês não imaginam o quanto contribuem para a saúde e a qualidade de vida de milhares de crianças por esse Brasil afora.


link para a foto

Dia 3 de abril é dia da merendeira. Lembre de ensinar seu filho a respeitar essa segunda mãe.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Estamos precisando do centésimo macaco

...Logo todos os macacos do mundo estarão lavando batatas.....

Finalmente temos o poder de mudar o mundo, embora não tenhamos nos dado conta disso ainda.

Temos o poder na ponta dos dedos. Estamos há um "clique" de uma manifestação gigantesca; uma festa memorável ou um ato de solidariedade.

Com todo esse poder nas mãos ainda me pergunto: o que falta para acabar com a fome no mundo? O que falta para acabar com a corrupção em Brasília? Por que seres humanos ainda matam seus semelhantes?

Não falta nada! A faca e o queijo estão em nossas mãos! Não depende do Governo, nem de Deus, nem da Natureza. Cada um já fez a sua parte.

Falta a minha parte... e a sua...

Recentemente eu ouvi uma história sobre criação de hábitos muito interessante. Reza a lenda que um dia um macaco de uma ilha isolada resolveu lavar suas batatas antes de comer. O símio logo percebeu que o quitute ficava mais gostoso e ensinou aos seus colegas. Um foi mostrando para o outro como fazer e logo todos os macacos da ilha estavam lavando suas batatas. Curiosamente, após um certo tempo, os macacos de outras ilhas também se puseram a repetir o novo hábito, apesar da separação geográfica impedir o contato entre essas populações.

Os pesquisadores criaram a teoria do "centésimo macaco" para explicar esse fenômeno. Com base nela, acredita-se que quando um número ótimo de indivíduos adquirem um novo hábito, logo todos os demais indivíduos o repetirão, mesmo que não haja contato entre eles. É como se a corrente do bem se espalhasse pelo ar, em ondas eletromagnéticas....

Estamos precisando do 100° macaco. Tem fome demais no mundo. Violência demais. Intolerância demais. Sofrimento demais. Desigualdades demais.

Vamos começar com pequenos gestos. Pequenas doações de tempo e atenção para quem precisa, fazer coleta seletiva, dar bom dia ao porteiro, parar de desperdiçar comida, respeitar as leis de trânsito, doar sangue....

Pequenas atitudes podem melhorar o dia de alguém que você nem conhece.

Pode ser retirar sua bandeja da mesa da praça de alimentação após terminar de comer - esse eu aprendi com um colega do trabalho e já adotei. - Um simples ato de civilidade com quem vai usar a mesa em seguida. Uma atitude de cooperação com quem tem quem manter todas aquelas mesas limpas.

Podemos dizer "não" aos pequenos delitos que tornam nosso país um dos mais corruptos do mundo. Não subornar o guarda, não comprar produtos de procedência suspeita, não trafegar pelo acostamento, não mentir no imposto de renda.... Quem sabe um surto de honestidade se espalha pelo Brasil e "contamina" Brasília?

I know. I'm a dreamer. But I'm not the only one.....

Quem sabe um de nós pode ser o centésimo macaco?


Para saber mais sobre a historinha: O centésimo macaco

Fonte da foto: http://adnuntiatum.blogspot.com.br/2010/03/conspiracao-espiritual.html