quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lençóis - O outro lado

Lençóis recebe turistas do mundo inteiro.
É um emaranhado de tecidos, de cores, de gente, de sons.

Lençóis tem um lixão como porta de entrada.

As ruas turísticas são limpas, coloridas, arrumadas.
Tem plantinhas nos canteiros.
Não tem papel no chão.
Tem atendentes que sorriem e falam inglês.

Atrás dessas ruas coloridas há outras ruas.
Se essa rua, se essa rua fosse minha... eu mandava eu mandava ladrilhar...

As outras ruas são escuras. Não tem flores na janela.
Não tem sorrisos nem sotaques.
O turista passa e diz "Olá"
O nativo olha para o chão ou para o lado.
Será vergonha? Ou será incômodo?
Do lado de lá está o dinheiro, o sorriso, a festa, a ilusão.
Do lado de cá está o chão. Batido. Sujo. O pau. A pedra.
O colorido que se vê é o das roupas simples tremulando no varal.

Mulheres negras carregam filhos enganchados nos quadris.
Um vira-latas abana o rabo, esperando uma sobra qualquer.
O rádio toca uma música brega.
Os ratos remóem o lixo.
Os bueiros estão entupidos.
Há moscas nas calçadas.

O lado de cá é negro. Que estranho. O lado de lá tem os olhos azuis. Não estão todos do mesmo lado?
Por que as casinhas do lado de cá não tem flores na janela?








segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Chapada Diamantina


Chapada Diamantina.
Recentemente eu li um livro que dizia haver lugares onde o “tecido era mais fino”. No contexto da história, significava que é possível ter acesso ao divino sem para isso ter que morrer, ou entrar em transe. Basta ir a um lugar onde o “tecido seja mais fino”. Lugares distantes da cidade são propícios para essas aventuras.

A Chapada é um desses lugares. Aqui é possível ver Deus! Ou ao menos ouvi-lo. Nas cachoeiras, nas montanhas e nas águas transparentes. No barulho do mato estalando aos seus pés ou no canto ritmado das cigarras.

Quando você faz uma trilha bem extenuante, chega a um estado de graça tal que então, definitivamente você vê Deus... Ou duendes... Ou fadas... Ou todos juntos numa dança psicodélica, ouvindo jazz ou rock’n’roll.

Hoje tive uma experiência dessas. Decidimos sair cedo. Seguimos o rio. Rio acima, pedras, troncos e gente. Havia momentos que a gente sumia. Ficamos bem mais que duas horas sem ver um ser humano sequer. Desistimos da trilha comum. Era bem mais divertido explorar o território. O rio era nossa referência. O céu e as montanhas também.


Em dado momento, já bem acima da Cachoeirinha, vimos um autêntico exemplar de homem das cavernas. Cabeludão, barbão, calça jeans surrada e uma camisa pendurada em uma árvore. Na entrada da caverna, uma fogueirinha e alguns utensílios.

Ficamos ali divagando quem seria essa figura. Era perceptível que ele havia sido um homo sapiens em algum momento da sua vida. Mas, então desistiu de tudo. Fugiu para o mato para nunca mais ser encontrado. A não ser por nós... Que não gostamos de trilha bem marcada e detestamos seguir o óbvio. Claro, meu caro leitor, que isso só é possível porque temos experiência em andar no mato. Eu faço trilha desde a outra encarnação e meu companheiro de aventura é um autêntico filho do mato. Temos bom senso e boa orientação. E já conhecíamos o caminho. Sem isso, a aventura seria extremamente perigosa.

Se for à Chapada pela primeira vez, pague o guia. É melhor para sua saúde!

Agora, voltando a trilha e ao meu novo amigo neanderthal... Tentamos um breve contato. Como ele não exprimiu som algum, tentamos o clássico hi-5 (cumprimento com a mão direita aberta). Esse ele entendeu e nos correspondeu com um aceno igual ao nosso. Terá ele esquecido também como se fala? Será ele o Jimmy Page, que recentemente descobri ter uma casa em Lençóis ? Isso explicaria a performance ao vivo do Jimmy que anda se apresentando por aí como Page... Quem ouve Led Zeppelin no estúdio e no show, pensa estar ouvindo vocalistas diferentes.... Será?

Bom, eu não sei... Não perguntei e acho que meu novo amigo não responderia. Ele rapidamente se voltou para a fogueirinha e de costas para nós, continuou preparando o almoço. Provavelmente tatu....
A trilha foi maravilhosa. Caminhamos por cerca de 5 horas entre pedras, cipós e cachoeiras. Tiramos lindas fotos. Exauri meu corpo e esvaziei minha mente. Cheguei ao hotel em paz.. E faminta!!

Após um banho demorado e reparador, tratamos de almoçar. Fica a dica: Não vá aos restaurantes “pseudo” mais baratos.  Não são baratos! A comida é até boa, mas você tem que disputá-la com as moscas! Esse foi o caso do Quintal do Araça, restaurante caseiro perto da praça, onde jantamos ontem. A pizzaria Natora é até simpática, mas también hay moscas!!!
Hoje, resolvemos entrar numa ruela bem simpática com vários pequenos restaurantes ainda mais simpáticos. Por não lembrar o nome da rua, vou chamá-la de alameda das massas.
Pois bem. Lá na alameda das massas havia muitas opções. Escolhemos o Ristorante Italiano “O artista das massas”, ou algo desse tipo. Limpo, agradável e sem moscas! Eu pedi um gnocchi al pesto e meu companheiro um Torteloni. Que delícia!! Estava mesmo precisando disso.  Comemos tudinho, agradecemos ao chef e voltamos exaustos e alimentados para a pousada.

Agora estou aqui, num quarto de pousada (Pousada dos Duendes”. Bem fresquinha, de janeias de madeira e rede na varanda. Lá fora alguém toca arrocha. Mas, parece um ruído distante, já que aqui só ouço o barulhinho do ventilador, meu querido virando as páginas do seu livro e o som dos meus dedos no teclado.

As preocupações ficaram lá no aeroporto. Mais precisamente, no portão de desembarque. Eu sei que me encontrarei com elas em breve. Com certeza estarei bem disposta e bem preparada para lidar com todas elas.

O trabalho ficou lá, os estudos e os projetos de vida. Agora, quero só trilhar esse mato até doerem-me as pernas. Nadar nessa água gelada até que minha pele se enrugue de frio. Ver o Sol nascer e se pôr. Tirar fotos. Rir, namorar e brincar.

Aqui eu me encontro com uma parte de mim que eu adoro. A criança, a matuta, a mulher do interior que adora cozinhar e colocar flores na janela. Assar bolos à tarde e cozinhar aipim de manhã.

Quarta-feira vou me encontrar com a cosmopolita, urbana, apressada e cheia de afazeres. Que não cozinha porque não tem tempo e que deixa as flores morrerem porque nunca se lembra de regá-las. Essa parte de mim que ama o mato também precisa ser regada. De vez em quando, tenho que vir ao meu habitat natural, antes que murche como as flores que crio em casa.

Talvez nunca tenha coragem de fazer o que fez meu novo amigo Jimmy, o neanderthal. Por que gosto um pouco de conforto. Não ligo para ar condicionado nem pick-ups 4x4. Mas, já me acostumei a algumas facilidades da vida urbana. 

Por outro lado, andar no mato. Pisar na lama. Molhar a roupa de suor para logo se refrescar na cachoeira... Ah... isso é que me faz ser eu! Subir montanhas até alcançar as nuvens. Só para depois parar e admirar a vista. Isso me faz crer que tudo é possível. Se consigo escalar tão alto e ainda chegar lá sorrindo, consigo enfrentar os pequenos obstáculos do dia-a-dia. E resolvê-los sorrindo também.





sábado, 18 de fevereiro de 2012

Virginia Wolf

Virginia Woolf

Estou lendo contos da Virginia Wooff.  Que mulher fascinante! Quanta inteligência e criatividade cabiam naquele corpo comprido e desajeitado.

Procurei saber mais sobre ela. Adivinha o que fiz? Perguntei ao Google... óbvio!! Lá achei sua biografia no wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Virginia_Woolf
"Woolf era membro do Grupo de Bloomsbury e desempenhava um papel de significância dentro da sociedade literária londrina durante o período entreguerras. Seus trabalhos mais famosos incluem os romances Mrs Dalloway (1925), Passeio ao Farol (1927) e Orlando (1928), bem como o livro-ensaio Um Quarto Só Para Si (1929), onde encontra-se a famosa citação "Uma mulher deve ter dinheiro e um quarto próprio se ela quiser escrever ficção".

No dia 28 de Março de 1941, após ter um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril.[1]
Em seu último bilhete para o marido, Leonardo Woolf, Virginia escreveu:
Cquote1.svg
Querido,Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.V.
Cquote2.svg
Encontra-se sepultada em Non-CemeterySussex na Inglaterra.[2]


Não posso me dizer uma grande entendida de Virgínia, pois li apenas 3 dos seus deliciosos contos. Contudo, já pude perceber o quão bem ela descreve o universo feminino. Como ela de alguma forma fala de si mesma sem ser autobiográfica. Ela se desnuda aos poucos, e em fragmentos, a cada conto. A cada personagem.

Faz-nos pensar sobre o que é ser mulher. Seja a dócil dona de casa, seja a atrevida profissional liberal. Ou sejam ambas... Afinal, é o que quase todas nós somos hoje em dia.... Entre a artista e a esposa... E todos os senões e percalços que as separam. Como era difícil ser Virgínia W. naqueles tempos! Como ela devia sofrer por tentar ser 100% ambas.. Mulher-esposa x Artista-mulher!

 Adorei "O diário de mistress Joan Martyn". Como ela narrou a rotina de uma jovem solteira do século XV. Era quase possível ver os personagens dançando pela minha sala, assim como apareciam as figuras do Rei Artur para miss Joan quando o cantador narrava as lendas daquele tempo.

Ela esteve aqui e tomou chá comigo. Conversamos longamente sobre a vida no Solar dos Martyn. Pude compreender aquele universo simples. Nada de príncipes e princesas. A realidade fria e dura de pessoas comuns. A energia das mulheres. As verdadeiras líderes do Lar, mesmo que à sombra de maridos quase sempre ausentes.

Fiquei surpresa também em perceber como ela antecipa seu próprio suicídio no conto "O misterioso caso de miss V", escrito mais de 30 anos antes da sua morte. Que mulher fantástica! Tinha energia demais e acabou sendo consumida por si mesma... Terá sido um caso de Burnout em escritora? Humm... Isso acaba de me ocorrer.... É possível.

Vou continuar lendo. Mais tarde conto mais contos para vocês.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Fugidinha.....40 minutos de silêncio

Fugidinha.....40 minutos de silêncio

Às vezes dá vontade de ficar sozinha. Dar uma escapadinha "de leve". Simplesmente ficar quietinha. Ouvindo nada. Dizendo nada. Só sentindo....

Minhas fugas furtivas são simples. Nada de mais. Nada assim muito ousado. Fujo para o café mais próximo. Procuro uma mesinha afastada. Preferencialmente no mezzanino e bem pertinho de uma tomada. Nem ligo se o ocupante da mesa ao lado me olha de soslaio. Na verdade, prefiro que nem olhe. Ou melhor, que nem esteja ali.

Aquele momento é para ser meu. Só meu. Não é para paquerar nem para ser paquerada. Só para ficar só.. Só um pouquinho. A culpa incomoda. Tem gente em casa me esperando.... Mas, é só um pouquinho.. Só um tempinho...

Lido com gente. O dia todo. O tempo todo. Todo mundo tem algo muito importante para dizer. Todo mundo fala. Muitas vezes, ao mesmo tempo. E eu, sigo exercitando a arte de ouvir. Tentando falar menos e ouvir mais. Tentando... nem sempre dá certo....Às vezes quero falar também!!!!

Mas, não hoje! É sábado a tarde. E eu ouvi à beça essa semana. O filho, o marido, os colegas do trabalho, os colegas da sala de aula e a Band News.... Já perceberam como a Band News fala? Uma verdadeira compulsão. Dão tanta notícia que logo depois do plantão nem lembro do que mesmo eles estavam falando...

Cansei.... Quero ouvir o silêncio! Saí da aula de sábado, peguei o carro, desliguei o rádio e fugi. Quando dei por mim, estava no shopping....

No shopping!! E você disse que queria silêncio!! Tá doida??!

Nem tanto, sei que lá tem um café mais reservadinho, mais seguro, nesse mundo sem polícia, com um lugarzinho bem escondido onde poderei ficar a sós com meus pensamentos.

Foi o que eu fiz...Achei meu cantinho e fiquei lá... Divagando... Elaborando esse texto que só agora vou publicar. Tomando um capuccino. Olhando as pessoas se mexendo lá no térreo. Parecem umas formiguinhas cortadeiras... Carregam sacolas. Andam apressados. Uma criança chora e faz manha. A mãe, sem paciência a puxa pelo braço.

O moço da mesa ao lado já foi. Nem percebi. Estou só agora.... E a bateria está no fim.. Estou perto da tomada, mas é do padrão novo... e meu laptop é velho.... Acabou a bateia bem no meio do texto. É um sinal! Chega, moça. Vá pra casa... Tem gente lhe esperando...

Tive exatos 40 minutos para ficar comigo mesma. Ainda bem que aproveitei... Foi ótimo. Deu uma sensaçãozinha de transgressão.... Como roubar doce da geladeira escondido da mãe.....

Cheguei...
OOi Amor!
Oi... Aonde você foi?
(pensei com meus botões: foram só quarenta minutos... achei que poderia dizer que foi o trânsito.... como será que descobriu? Está assim estampado na minha cara? - Você foi ao shopping e se divertiu sem mim? Como pôde?)

Eu.... é.....dei uma passadinha no shopping. Para ler um pouco...tomar um café... estava com fome, sabe.....

Ahhh... Nem me levou.... Pôxa....

Ai que dó... Ai que culpa... Sinto-me como uma adúltera.... Egoísta... Estavam todos esperando por mim. E eu? Que fiz? Fugi.... Por exatos 40 minutos.


Deu culpa, mas foi gostoso... rs.....

Da próxima vez, vou com a bateria cheia... Assim, terei 1 hora... e mais 40 minutos...



domingo, 5 de fevereiro de 2012

“Rex e Eu” ou “O que se pode aprender com um cão de estimação”



Durante minha infância não tive muita sorte com cães de estimação. Todos morreram. Ou por falta de vacina ou por envenenamento. Ou por outras causas nada naturais.

Meu padrasto, um ser que ainda terá que nascer algumas vezes até poder ser chamado de gente, não tinha nenhum jeito para lidar com animais. Em mais de uma situação, a pretexto de proteger os cães de ratos que eventualmente infestavam o quintal, espalhara veneno em locais “bem escondidos”. Era para os ratos. Não sei se esses encontraram. Mas meus cães... eram todos bons farejadores.

Uma morreu tentando fugir de um cão maior. Tentamos numa ocasião ter dois cães. Uma fêmea pequenina e um macho grandalhão. Como medo das investidas do macho, a fêmea acabou presa na fossa séptica. Até hoje não sabemos como foi parar lá.

Teve uma outra que não morreu. Pegou uma doença de pele e eu tratei dela com iodo. Eu tinha 10 anos. Cuidava dela todos os dias, quando chegava da escola. Limpava as feridas, passava remédio, dava comida na boca. Logo ela começou a reagir. Latia, corria e já comia sem minha ajuda. A pele ficou rosada e sem pêlos, nos locais em que antes havia feridas abertas. Contudo, sua melhora era notável.

Minha ignorante “vódrasta”, cheia de boas intenções, disse que a cadela tinha lepra e que tínhamos que nos livrar dela. Essa foi a desculpa dada pelo padrasto, de novo ele, para pôr o animal para fora de casa.
Quando cheguei da escola e a procurei, não achei mais. Onde está? Ninguém sabia. Foi posta fora como um saco de lixo. Ainda procurei por toda a vizinhança, mas nunca mais achei.

Perdi o gosto por animais de estimação. Não quis mais tê-los e não mais me apeguei aos outros que vieram em seguida. Sabia que iam morrer, por isso, preferia nem gostar deles.
Quando Xiloy, o mestiço de labrador  marrom e vira-lata, morreu envenenado, fui eu quem deu destino ao corpo, com ajuda da vizinha. Minha mãe ficou em casa chorando, como se estivesse surpresa pelo “acidente”. Eu não estava. Já sabia que ia acontecer, no momento em que o cãozinho chegou à casa.

Muitos anos se passaram até que eu voltasse a gostar de cães...

Um belo dia, já adulta e com um filho de 4 anos, cheguei da faculdade num sábado a tarde, lá pelos idos de 1997 e encontrei minha vódrasta. Ou vó torta. Ou vó mesmo, já que foi a única que eu pude conhecer. Ela trazia um filhotinho. Mestiço de Fox terrier com poodle. Uma gracinha. Era presente para o Hugo, meu filho. Não sei se foi carinho pelo Hugo ou alguma compensação pela perda que ela involuntariamente me causou anos antes. Mas, o fato é que ela era uma mulher dura, porém bondosa. Sei que deu o presente de bom coração.

 - Hugo, trouxe esse cãozinho de presente para você. Deverá cuidar dele. Alimentar, dar banho, levar ao veterinário e dar vacinas. Você é responsável por ele daqui em diante. O nome dele é Lorde.
- Não Vovó.... O nome dele é Rex.
- Mas, Hugo, desde que ele nasceu que eu o chamo de Lorde.
- Você não disse que ele é meu? Então eu posso dar o nome que eu quiser. Eu quero que ele se chame Rex.

Meu filho é um bom rapaz. Mas, é voluntarioso que só. E assim, cheio de importância, o Hugo rebatizou o Lorde de Rex. E ainda convenceu à avó que Rex é melhor que Lorde, porque afinal, os Reis comandam os nobres....

Quando vi o cachorrinho decidi que aquele não iria morrer. Eu cuidaria dele. Já era adulta e já ganhava o meu próprio dinheiro. Morava com meus pais por necessidade, já que o dinheiro do estágio era pouco e havia me separado recentemente. Mas, já estava apta a tomar decisões. Ninguém mais ia tirar esse cão de mim, muito menos do Hugo.

A amizade deles foi instantânea. Hugo logo se apegou ao seu mascote e passava longas horas brincando com ele no quintal. Rex não podia ver o portão aberto que fugia. Veloz como uma raposa. Era dificílimo de alcançar. Lá ia o Hugo correndo atrás do Rex. Lá ia eu... Correndo atrás dos dois.

Um dia, ao chegar da faculdade, encontrei o Rex muito murchinho, todo encolhido num canto. Perguntei o que houve e disseram que o Hugo o derrubara da janela durante uma  brincadeira. Soube em seguida que no mesmo dia, meu padrasto, de novo ele, decidira dar a vacina no Rex por conta própria, já que se recusara a pagar a aplicação no veterinário. Comprou a ampola e a seringa. Sem nenhuma habilidade nem com gente, nem com bicho, segurou o cão pela pata e aplicou a vacina. Rex puxou a pata, sentindo dor e a partir de então se encolheu num canto.

Sem querer saber de quem foi a culpa, enrolei o Rex em uma manta e fui em busca de ajuda.
Consegui um carro para nos levar a uma clínica veterinária. Rex havia fraturado o fêmur da pata direita traseira. Aquela fora sua primeira cirurgia.

Ficou internado e colocou um pino na pata. Seguimos todas as recomendações e logo, logo ele estava bom de novo. Ninguém dizia que jamais havia tido algum problema. Somente eu percebia que quando corria, o Rex levantava a patinha... para poupá-la.

O tempo passou, eu me formei, passei em dois concursos públicos e logo já tinha dinheiro para alugar uma casa para mim, para o Hugo e para o Rex. E foi o que fizemos.
Mudamos para uma casinha muito simples, num bairro ainda mais simplório. Rex era o rei do quintal. Tinha uma goiabeira onde o Hugo gostava de subir e brincar de herói. O Rex continuava fujão e com ajuda das crianças da rua, sempre escapava pelo portão. Eu colocava grade, cadeado, o escambau. Não adiantava nada. As crianças sempre davam um jeito e eu sempre encontrava o Rex na rua. Como saíamos as 5 da manhã e só voltávamos para casa após as 21h, o bicho não tinha companhia. Seus amigos eram as crianças e os vira-latas da rua. Ele próprio virou um autêntico vira-latas. Acho que ele se divertiu muito naquele tempo. Deve ter arrumado várias namoradas. Eu mesma um dia encontrei uma cadela com vários filhotinhos perto do mercado. Achei todos “a cara” do Rex....Aquele safado!

Mudamos de novo, dessa vez para um apartamento em Cascadura. Zona norte do Rio. Era um ótimo lugar. Do lado do clube dos Sargentos da Aeronáutica e na mesma calçada do Colégio Souza Marques, em que o Hugo estudava.
Eu trabalhava na FAETEC e dali podia ir a pé para o trabalho. Almoçava em casa quase todos os dias. Nunca mais o Hugo precisou acordar as 4 e meia da manhã para pegar dois ônibus lotados para ir a escola. Era o céu!

Os domínios de Rex se reduziram a uma pequena varanda separada da casa por uma porta de metal e vidro. Distraída com meus dois empregos públicos e o mestrado, eu às vezes me esquecia do Rex. Delegava tudo para o Hugo que com apenas 8 anos não tinha como arcar com toda essa responsabilidade. Rex então começou a apresentar uma certa prostração. Ficava lá, quietinho e andava com dificuldade. Levei no veterinário e tomei uma bronca! Você não passeia com seu cão? Que espécie de dona é você? Não dava para pôr a culpa em ninguém. Eu era responsável por ele. E me senti péssima por ter falhado. Cheguei a pedir desculpas ao Rex, como se ele me entendesse. Talvez... Quem sabe entendesse mesmo.
Passei a andar com ele todos os dias. Compramos uma coleira e lá ia eu. Coleira, sacola e pá. Morria de vergonha de deixar dejetos pela rua. Mais vergonha ainda tinha de catá-los. Mas fazia, por civilidade. Rex era quem me levava. Tinha uma energia danada. Era difícil segurar.

Aos poucos, fui ensinando ao Hugo que ele deveria passear com o cão todas as tardes. Às vezes, eu chegava à noite muito cansada. Ele poderia contribuir levando seu cão ao passeio diário. Expliquei as conseqüências de não passear. Ele ficaria doente e poderia até morrer.

Hugo entendeu, mas morria de preguiça de sair com o Rex. Uma certa vez ele desceu do apartamento dizendo que ia passear como cão. Alguns minutos depois escutei latidos insistentes e irritantes. Logo reconheci de quem era. Olhei pela janela e lá estava o Rex...Amarrado a um arbusto. Indignado em estar preso. Latindo feito um louco. Do outro lado do estacionamento estava o Hugo... Lendo um gibi. Fiquei furiosa. Desci correndo as escadas e escaldei o Hugo ali mesmo. No meio do pátio. Na frente de vizinhos, porteiros e outros cães. Só quem me conhece de perto sabe como é difícil lidar comigo quando perco a cabeça.

Como Deus protege as mães e os cães de estimação, logo o Hugo fez amizade com um menino do segundo andar que também tinha um cão. Ele também tinha a tarefa de levar o cão para passear e pasmem! Adorava fazer isso! Os dois ficaram muito amigos e levavam seus cachorros para o pátio todos os dias. No mesmo horário. Acho que o Rex foi feliz nessa fase. Não teve namoradas. Mas pelo menos, passeava todos os dias e não fugia mais.

Outra mudança. Dessa vez para a Bahia. Rex viajou de avião pela primeira vez. Teve que tomar umas drogas indicadas pelo veterinário. Ficou chapado, o bichinho... Era até engraçado. Ele chegou a Salvador numa gaiolinha. Olhava pra gente e não tinha nem coragem de latir. Dormiu o dia inteiro depois da viagem.
Ali o Rex teve os melhores momentos da sua vida. Era forte, jovem, vigoroso e tinha um quintal enorme. Só para ele. Nem queria mais fugir. Corria o quintal inteiro. Era um cão feliz. Rolava na grama com o Hugo, perturbava os passarinhos, os micos, os morcegos, os carteiros e os coletores de lixo. Era o Rei do quintal. Eu era sua vassala. Ele tinha certeza de que era o dono da casa, e que todos estávamos ali para servi-lo.
Comidinha, caminha, vacina, quintal. Só lhe faltava uma fêmea. Mas, ele teve tantas na sua fase de vagabundo que talvez nem precisasse mais.

Como a casa era grande e tínhamos medo de assalto, conseguimos um rotweiler. Rex o adotou e tratava-o como seu filhote. Zeus o respeitava. Lembro de um dia em que o Zeus conseguiu fugir cavando um buraco sob o portão de entrada. O Rex alertou a casa, chorando sem parar. Eu alcancei o Zeus ainda na rua e trouxe de volta. Em seguida, ocorreu uma cena inusitada: Rex avançou para o Zeus latindo, como se desse uma bronca. Zeus, ao invés de revidar, abaixou a cabeça como um filho que se subordina ao seu pai. Zeus já tinha o dobro do tamanho do Rex a essa altura.

Em outra situação eu saí e como os dois faziam muita confusão no quintal, cavando tudo o que estava pela frente, decidi prendê-los a duas correntes. Uma de cada lado da varanda. Elas eram longas o suficiente para eles se movimentarem, alcançarem a comida e a água e não ficarem tão entediados até o meu retorno. Eu tentava proteger o meu jardim, que a essa altura, parecia um campo minado.

Quando cheguei, encontrei os dois embolados de um jeito que nem conseguiam mais latir. De algum modo, enroscaram as correntes e quanto mais tentavam se afastar, mais ficavam presos. Rex estava rouco de tanto latir e Zeus já nem rosnava mais. Estavam com as patas dianteiras erguidas e presos pelas correntes ficaram meio que suspensos no ar. Foi uma cena bizarra, mas também cômica. Enquanto eu chorava de rir, tentava desvencilhar as correntes, sem muito sucesso. Consegui soltar os dois e admitir que estava diante de seres que nasceram para ser livres. Não tinha corrente que os segurasse.

Mesmo tendo um enorme quintal para brincar, às vezes saíamos com eles para passear. Ou melhor, eles nos levavam. Era impossível educar aqueles cães...
O Hugo chegou a ensinar alguns truques ao Rex. Andar sobre as patinhas traseiras, buscar bolinhas, etc. Mas, depois que ele conheceu o Zeus, tornou-se um rebelde. Comia as bolinhas e se recusava a obedecer qualquer comando.

Aprenderam a puxar roupas da corda. Os dois combinavam. O Zeus que era mais alto, arrancava, só para o Rex deitar em cima.
Perdi lençóis, toalhas, blusas e um vestido de hippie que eu adorava. Mais uma vez enlouquecida, avancei sobre eles com o vestido. Tomaram uma surra de pano. Se esconderam no fundo do quintal e eu dentro de casa, chorando de raiva. Sorte que não tenho força física. Se não, faria deles cachorros-quentes naquela hora!

Alguns anos depois, o cinto apertou e tive que mudar para uma casa mais modesta. Não dava para levar o Zeus. Seria uma tortura para um rotweiler morar num cubículo. Demos o cão a uma amiga que tem um sítio em Dias D’ávila. Foi melhor para ele. Lá ele é feliz. Ainda é vivo. Teve muitos filhotes e é um ótimo cão de guarda.

O Rex, como sempre, veio conosco. Mantive-me fiel à promessa que fizera em 1997. Dessa casa pequena, mudamos para outro apartamento. Também terceiro andar. Até um pouco parecido com o de Cascadura. A varanda, novo feudo do Rex, dava vista ao jardim. Tinha uma amendoeira em frente.

O Hugo voltou à rotina de levar o Rex para passear todos os dias. Quando ele viajava para ver o pai, eu mesma o levava. Foi uma fase tranqüila. Eu achava que o Rex havia virado um monástico e nem se lembrava mais do que seria uma cadela. Já era um cão maduro.

Um bichinho fantástico. Eu me lembro de tê-lo sentado aos meus pés como se fosse um tapete. Ele gostava de carinho na barriga e na orelha. Sempre foi um cão bondoso. Nunca avançou numa criança, mas não gosta de lixeiros. Nem de vendedores de gás. Nem de carteiros....

Hoje, já não late para mais ninguém.

Já conversamos muito, nós dois. Ele é um bom ouvinte. Dá um latido ou outro, de vez em quando, só para afirmar que está prestando atenção. Rex..... O melhor cão que eu já tive.

Um dia a faxineira estava fazendo seu trabalho. Já acostumada aos estridentes latidos do Rex, estranhou quando de repente se fez silêncio. Mas, distraída entre uma vassoura e um pano de chão, não ligou muito.
Daí a pouco, toca a campainha. É a vizinha do primeiro andar. Traz o Rex no colo. As crianças o acharam todo encolhido no jardim e trouxeram para casa. Ele não latia, nem andava...
Hugo me telefonou. Eu estava trabalhando a 30km dali. Não tinha como sair de imediato. Dei as coordenadas do veterinário mais próximo. Ele levou o cão no colo. Enrolado numa manta. Igualzinho ao que eu fizera alguns anos antes.

Esperou o diagnóstico.
- Vai ter que internar. Está com o fêmur da pata traseira direita quebrado.... De novo!
A essa altura eu já tinha alguma habilidade em investigação de acidentes. Fui reunindo evidências, ouvindo pessoas e examinando a vítima. Concluí que provavelmente o Rex pulou da varanda para afrontar o mico que morava na amendoeira. Os galhos da árvore ficavam bem próximos e devem até ter amortecido a queda. Conclui que ele não morreu por isso, e também por ter caído no gramado. A pata, que já era frágil devido ao acidente anterior, não resistiu à queda.

As condições para o acidente sempre estiveram lá: o parapeito da varanda tinha um vão. Pequeno, mas com espaço suficiente para o Rex se apoiar e se desequilibrar numa queda.A amendoeira era próxima. Havia tempos que não era podada. E o mico vivia lá, perturbando o Rex. Ameaçando invadir seu feudo. Já havíamos ouvido os seus latidos indignados mais de uma vez. Achávamos graça do seu territorialismo. Mas, nunca pensei que ele fosse capaz de avançar sobre o seu adversário dessa forma. Como resultado, Rex passou por sua segunda cirurgia.

Dessa vez, o procedimento não foi tão bem sucedido. Quando tiramos o pino, observei que o Rex não sustentava mais a patinha. Aos poucos, foi atrofiando. Eu não sabia o que fazer. O veterinário disse que não tinha mais jeito.

Rex, sempre valente e corajoso, nem ligou. Ainda tinha mais três perninhas fortes. Continuava correndo. Agora sem tocar a patinha doente no chão.

Ele não era mais um filhote. Com o tempo, ele foi ficando mais lento. Subir as escadas passou a ser um suplício. Passamos a carregá-lo no colo. Ele passou a nos demandar mais atenção e carinho. E fizemos o que sabíamos. Continuamos cuidando dele. Agora tínhamos um cão com necessidades especiais.
Quando saí do apartamento e mudei para uma nova casa, de novo com quintal, sem escadas, varandas ou janelas altas, pensei: Esse é um bom reino para o Rex. Ele de novo terá espaço para brincar, correr e cavar, como fazia antes.

Mas o Rex não brincava mais. Tinha dificuldades de subir o degrauzinho da varanda. Dormia a maior parte do tempo e morria de preguiça de ir me ver no portão.
Como achei que ele estava muito sozinho, adotei uma cadelinha nova. De apenas 1 ano de idade. Uma espoleta. Ela – a Dama. Ele – o Vagabundo. Decerto que a Dama trouxe novo alento para o Rex. Ele voltou a latir, se animou a andar mais pelo quintal  e já vem me receber todos os dias no portão, quando eu chego.

Mas, o esforço para ele está sendo muito grande. Ele não tem pique para acompanhar sua nova amiga. Está cansado e cada dia mais debilitado. Sei que vai embora logo, logo. Resolvi escrever agora, pois não sei se conseguirei depois.

São 15 anos de companhia. De vê-lo crescer, ficar adulto, envelhecer e murchar como uma plantinha. Hoje lhe dei comida na boca. Está frágil como um idoso de 90 anos. Olha para mim, com um olho cego e outro que quase nem vê. Não me ouve, mas sabe quando estou por perto. Levanta as orelhinhas para anunciar que percebeu minha presença.  Ainda dá aquele latido comprido de agradecimento quando coloco a comida. Ainda balança o rabinho quando lhe toco as orelhas.

Quando ele quebrou a pata pela primeira vez eu chorei. Uma pessoa me perguntou: Está chorando por quê? É só um cão.

É só um cão...

Que esteve comigo em todos os momentos importantes da minha vida nos últimos 15 anos. Que ensinou meu filho a cuidar dos seres mais frágeis. Que o ensinou o que é altruísmo, lealdade e afeto. Que mesmo nos momentos em que eu quase não lhe dei atenção, veio ao meu encontro, saudar minha chegada do trabalho.

Que sentou nos meus pés e já me viu chorar, rir, ficar feliz e triste. Que trouxe momentos de alegria para uma criança que muitas vezes não tinha com quem brincar. É só um cão.

Quando um cachorrinho que minha mãe teve, o Pepe,  morreu de parvovirose, Hugo quis saber onde estava ele. Eu lhe disse que o Pepe tinha ido para o céu dos cachorrinhos e que estava feliz lá, brincando com outros amigos. Hugo tinha menos de 5 anos. Ele achou a guia do Pepe no quintal e em sua inocência me disse: - Mamãe, o Pepe esqueceu a corrente...

Eu disse a ele que no céu dos cachorrinhos eles não precisam de guia, nem de coleira, nem de correntes. Os cães correm soltos e lá tem bastante grama para eles correrem.

O Rex daqui a pouco vai para esse céu. Lá ele terá as quatro patas. E muita disposição para correr, cavar e brincar. Estou esperando. Ele vai me dizer a hora. E eu vou respeitar sua vontade.
Rex, você não é só um cão. É o nosso cão. Viveu intensamente e nos trouxe muita alegria. Cuidaremos de você até o final.

Agradeço a Deus pela oportunidade de ter um bicho de estimação. Por ter podido cuidar dele e dá-lo de presente à minha criança interior que já tinha perdido tantos outros. Agradeço a Deus por meu filho ter tido um bicho, ter gostado e cuidado bem dele. Sei que isso contribuiu para torná-lo o homem de bem que ele é.

Agradeço a Deus por ter condições de dar uma sobrevida decente ao Rex. Ele não será jogado na rua. Ele vai ter tudo o que precisa até que sua hora chegue.

Agradeço ao Rex por ter existido.  E por ter me tornado uma pessoa melhor. Menos egoísta e mais sensível às necessidades dos outros.