domingo, 26 de maio de 2019

CamPAORI - segunda etapa 2019 - Sprint Belém

Belém do Pará, 26 de maio de 2019

CamPAORI - segunda  etapa 2019 - Sprint Belém  - Comemorativo à semana da Infantaria
Lembrando também o dia mundial da Orientação (21 de maio) - World Orienteering Day

Oriente-se!
Pense em um esporte apaixonante!
Imagine uma competição em que vencer ou perder só depende de você. Você e sua bússola, você e seu mapa, você e seu foco... Ah, nem te conto como é bom!

Na Orientação há espaço para todos. Certamente há uma categoria em que você pode se encaixar. Crianças, jovens, adultos, senhores e senhoras....todo mundo tem espaço na pista. Está me vendo aí correndo? Pois é... Eu sou aquela que perde o carro no estacionamento do shopping, que não consegue apontar para que lado está a rua se estiver na cozinha e que nunca lembra onde largou os óculos...

Sem uma bússola não sei pra que lado vai nada! Porém, com as ferramentas certas e com foco na tarefa eu atravesso um país! Ah, meu amigo... Se até eu consigo, imagine você!

Dessa vez não foi preciso ir tão longe, bastava atravessar a praça da República em Belém, mesmo😁.



Mas, o que é Orientação?

Tem boas definições na internet. A que eu mais gostei está no link acima e cita que o esporte nasceu nos países nórdicos há mais de 100 anos. A ideia era criar oportunidades para as pessoas se exercitarem ao ar livre, em contato direto com a natureza, contribuindo assim com a educação ambiental.

Consiste em localizar todos os "pontos de controle", também chamados de "prismas", em uma ordem predeterminada, no menor tempo possível. Para isso, o atleta utiliza um mapa com sinalética  fornecidos pela organização, uma bússola e um sicard (um chip para marcar a passagem pelos pontos). Cada categoria tem um mapa e cada grupo de atletas parte em um tempo diferente. Desse modo, não adianta muito ficar seguindo os outros. É você  por si e Deus por todos.

Nenhum acessório que ajude na localização é permitido, nem mesmo: gps, celular, perguntar pro coleguinha, seguir o competidor da mesma categoria ou pedir ajuda aos comunitários....

Suas armas: mapa e bússola
Seu alvo: o prisma
 Orientação e Mindfulness:

Hoje em dia está muito na moda esse tal de "mindfulness"... -  ....maindfulloquê, minha filha? Me respeite, que não sou dessas!

Será que é "cabeça cheia"??? Se for, então estamos bem, não é mesmo?

Calma aí que não é nada disso!  Mindfulness é uma palavra em inglês que vem de - "mind" = mente e "fulness" = completude. "Mente completa", traduzida também como "atenção plena". Pois, na orientação, para ter um bom desempenho você precisa principalmente de atenção. Preparo físico é bom, mas o que ganha a prova mesmo é enxergar os detalhes sem perder a perspectiva do todo. Analisar os cenários e tomar decisões rapidamente e com precisão. Para isso é preciso estar presente e manter o foco, o tempo todo! 

Nossa! Você está descrevendo o meu trabalho! Lá na empresa também é assim.... Vacilou, distraiu, piscou o olho, é acidente, decisão errada ou perdas financeiras.....

Então...quer ter "mindfulness" para o seu dia-a-dia? Vem fazer orientação com a gente! 

Aqui no Pará temos provas de floresta (selva) e de cidade (sprint). A selva requer cuidados com a Segurança, conhecimento de azimute e algum preparo físico e técnico. Já na etapa urbana, o que mais pega é sua habilidade de identificar rapidamente os pontos e conseguir correr atrás deles mais rápido que os demais competidores. Em ambos os casos, é sempre divertido!

Estou no Pará há quase um ano, mas na Orientação há dez. Conheci o esporte lá na Bahia quando ainda não era tão popular. Hoje está superforte por lá, graças ao trabalho de base que os clubes estão fazendo. Aqui também cresce a cada competição. Na primeira prova que fiz em Belém nem tinha 30 pessoas. Nesta já foram 70! 

O nível técnico daqui é bem alto graças ao rigor e qualidade dos organizadores, que são militares. Aqui já corri 4 provas, completei as duas primeiras e me lasquei completamente nas outras. Uma por estourar o limite de tempo sem completar o percurso e a outra por não achar todos os prismas. Assim como na vida, é na corrida. Um dia dá certo, no outro não dá. Um dia a gente se embola no cipó, no outro se perde. Nem por isso a gente desanima. Após cada prova os erros são analisados, os arranhões curados e as camisas lavadas para a próxima corrida!

Vergonha de ainda cometer erros tão bestas embora experiente eu tenho um pouco. Coragem para levantar e tentar de novo, tenho de sobra!


E como foi a corrida?

Antes da largada, para aliviar o stress e espantar o fantasma dos últimos fracassos, dei uma corridinha de aquecimento e inventei um mantra que repeti umas 153 vezes: "Ler o mapa, entender o mapa, seguir o mapa."....ler, entender, seguir...

Quando o Tenente Riva deu o comando da minha largada, mergulhei fundo no detalhe, mantendo a perspectiva do ambiente. Era eu, meu mapa, minha bússola e a "mind" "full" de atenção. A praça estava cheia. Crianças corriam, vendedores vendiam, pedintes pediam e cachorros faziam o que sabem fazer de melhor. (#ficaadica1: Importante sempre prestar atenção onde pisa!)

Curiosos apenas olhavam. A praça era uma babel de Polícia, Guarda municipal, manifestantes abraçados à bandeira do Brasil, casais fazendo pic-nic, carros buzinando....

Uma mulher tentou me parar para pedir informação. Pobre mulher! Espero que tenha conseguido o que precisava por que eu passei batida por ela e só deu tempo de dizer: - Sinto muito, senhora, mas não posso parar agora!

Consegui completar a prova dessa vez. Eram 25 prismas. Até o 14 fui muito rápido e fiz uma navegação precisa. Entre o 14 e o 15 eu me distraí um pouquinho e fui parar no prisma errado.  Daí tive que reiniciar a navegação voltando a um ponto conhecido e retomando o ataque. Ainda perdi um tempinho no caminho entre o 15, 16, 17 e 18 e só a partir deste consegui voltar para o nível de atenção em que estava antes. Incrível como um pequeno lapso tira você completamente da tarefa. 
(#ficaadica2: é isso que a turma da Segurança do Trabalho quer te dizer quando te pede para usar o "PARE" sempre que algo fugir do esperado! Se eu não tivesse parado para pensar e retomado a navegação estaria quem sabe amargando a terceira derrota seguida... Pior que isso, só meu time, o Vasco da Gama!) 

Fiz a prova em um pouco mais que 30 minutos, que poderiam ser abreviados se não fossem os pequenos perdidos do meio do caminho, mas teria sido pior se não tivesse reiniciado a navegação. O tempo ainda está ruim para quem um dia quer ser da elite, mas muito bom se comparado com minhas provas anteriores. Ganhei medalha por ter completado a prova e como nesta eu estava sem competidoras na minha categoria (D Adulto A), fiquei com o primeiro lugar, o que me dá alguma vantagem no campeonato. Espero na próxima ter mais mulheres na minha categoria para o pódium ficar mais disputado!

Meu esposo, Vand Ern, está em uma categoria mais competitiva e por isso, embora tenha completado em um tempo menor que o meu, ficou em sexto lugar (H Adulto B). 

Medalha de campeã! 

A prova foi bem organizada e a estreia dos sicards no Pará foi um sucesso! O uso do pequeno dispositivo eletrônico coloca o Estado no mesmo nível das grandes federações. Estamos de igual para igual com RJ, SP, BA, CE.... agora ninguém segura os paraenses.

O melhor da prova ainda são as resenhas...Esta foi ainda mais especial. Fiz novas amizades, conheci o "hotel de trânsito" e o tempero da dona Graça. Ajudei no almoço fazendo a salada (que ficou boa) e o ovo cozido (que ficou horroroso :):):))  - Seu Tenório zuou com meu ovo cozido e me fez dar boas risadas (tava feio mesmo!), mas a salada estava linda, tá? Eu me vingo da próxima!

De quebra ainda provei o verdadeiro açaí paraense que se come com farinha...bem que seu Tenório avisou, mas enfiei o pé na cuia e no dia seguinte tive uma baita dor de barriga - kkkkkkk

Fran, adorei a conversa! Precisamos marcar aquele Carimbó! Olha já que estou ensaiando! :):)

Seu Tenório, comecei a ler seu livro no avião. Engasguei de tanto rir! Vamos amadurecer a ideia da vaquinha virtual para publicar!

Um abração para todos os orientistas do Pará que fizeram essa prova maravilhosa, do Ceará pelo apoio que nos deram nesta etapa e da Bahia porque morro de saudades - vejo vocês no CAMBOS!

Ah, Belém sua linda!

Casal ERN na concentração
Esse vídeo resume muito bem nosso esporte! Confira!

sábado, 25 de maio de 2019

Transracional - racionalizando as raças.

Está na moda. Hoje em dia todo mundo quer ser trans alguma coisa.
Pois, eu não vou ficar de fora! Também quero ser trans. A partir de hoje, sou trans...transracial!

Passei muito tempo tentando me encaixar em uma definição de raça e não consegui. Entre negros, sou branca. Entre brancos, sou negra...ou moreninha....ou mulatinha...
A verdade é que sou brasileira. Ou seja...tudo isso aí misturado em generosas e mal distribuídas porções.

Minha linhagem materna ancestral um dia oprimiu minha linhagem paterna. Sim, é verdade. Um dia no passado uma hélice do meu dna estava tratando sua outra parte na base da chibata! Ok! Mas, por outro lado, essa mesma linhagem criou coisas incríveis, como as caravelas e o pastel de nata.....ah....o pastel de nata! Quem inventa uma coisa dessas só pode ser boa gente!

A hélice oprimida por sua vez não tem só mocinhos. Também existe opressão e morte nas tribos. Negar isso seria negar a natureza humana.

Pois, de hoje em diante não sou branca, nem preta, nem morena, nem mulata. Sou s.r.d....raça indefinida....transracial!

Acredito que o brasileiro nasceu para reconciliar. Imagine que no mesmo corpo você traz a herança genética de conquistadores e de colonizados. Células de guerreiros, de escravos, de ladrões, de assassinos, de violência e de dor. Bem como, de coragem, fibra, resiliência e amor.

Minha mão direita chicoteia minha espalda esquerda, só para perceber que a dor é a mesma, pois somos um só corpo. Uma só humanidade. Até quando? Essa luta desigual irá aos poucos destruir o que há de mais belo em todos os povos.

Quando eu estava no Colégio, em uma das aulas de literatura a professora apresentou o poema "Marabá" de Gonçalves Dias. Ele apresenta a angústia de uma mestiça rejeitada pela tribo a qual ela queria pertencer. Observe que o que ela possuía de mais lindo de uma ancestralidade era visto como defeito pela outra parte. E ela viveu triste se vendo feia, por se espelhar nos olhos de quem não via a sua beleza.

Abracemos então o belo e o feio de todas as etnias que nos compõem. Somos todos filhos da humanidade. Que os erros do passado nos permitam mudar o futuro na direção de um mundo colorido, mestiço e belo, como Marabá. Que as diferenças sejam somadas e as divisões subtraídas. Somos todos um!


Marabá - Gonçalves Dias 

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar. —

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

Calma! Tá nervosinha?

Quando eu lhe der uma "enquadrada", não estou nervosa. Apenas sendo firme, como você.
Quando eu falar mais alto, não sou mal educada. Apenas me faço ouvir.
Quando eu disser não, não estou fazendo doce. Não é não, apenas isso.
Quando eu amarrar a cara para você, não sou antipática. Apenas não sou obrigada a sorrir para o que não gosto.

Meu sorriso é meu. Assim como meu corpo e meu abraço. Dou a quem eu quiser, quando eu quiser.
Minha voz é mais fina, mas nem por isso minha vontade é fraca.

Quando eu soltar a minha voz, entenda.
Eu vou continuar falando.
Aceita que não dói!