terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Caravana ABEUNI - Uma experiência nova

Campo Limpo, 22/01/16

A caravana começou há uma semana. As pessoas já estão entrosadas. Cheguei devagar observando e procurando entender como as coisas funcionam por aqui.

A carona veio da simpática Cristiane, ou "Curi", como é carinhosamente chamada. Ao longo da viagem vão me apresentando Eduardos, Ericas, Hugos....Quase sempre tem mais de um homônimo. Impossível lembrar tantos nomes.

A Escola CEU Cantos do Amanhecer impressiona pelo tamanho e infraestrutura. Tem até piscina. Imagino que tenha muitos alunos...Será que tem professor para tanta gente?

O bairro é de periferia. Pelo som que vem de longe, parece que o baile funk já começou. É sexta a noite.

Na chegada, passei por todas os setores, acompanhada pelo simpático Leo. Hugo me apresentou aos seus amigos e me levou para o refeitório onde uma sorridente merendeira acabava de repor feijão, arroz, soja refogada, salada e beterraba. Tudo muito gostoso.

O atendimento ao público já terminou. A escola está tomada apenas pelos voluntários e merendeiras. Lá fora ficam os seguranças, o baile e o som que vem de longe.

Enquanto saboreava a janta eu olhava em volta. Jovens alegres faziam algazarra. Uma mocinha turca se divertia cantando uma música em português sem ter a menor ideia do que dizia. Ela demonstrava uma alegria tão genuína que botava todo mundo para dançar com ela. Soube que faz intercâmbio. Também tem um sueco e um americano. O resto é tudo paulista mesmo.....e cariocas...e eu...baianoca....

Cartazes de boas vindas aos calouros e orientações gerais sobre os diversos setores cuidadosamente organizados. Tudo limpo e bem cuidado. Banheiros, corredores. Escola alegre. Viva. Cheia de cores. Cheia de gente.

Mas, afinal, o que você está fazendo aí?

Se você leu até aqui, pode estar se perguntando isso. Eu também estou. Aqui, sentada numa folha de papelão, estou pensando que esta provavelmente será minha cama. Aguardo autorização para o banho, que só chegará a partir das 21h. Penso no frio fora de época que está fazendo.... Sinto-me em um quartel, só que ninguém precisa dar ordens. Tudo funciona espontaneamente.

Em que outro lugar eu ia querer estar agora? Sim. Talvez no quentinho da minha cama....Mas não hoje. Hoje eu escolhi estar aqui.

ABEUNI- Associação Beneficente Universitária foi fundada há três décadas por um grupo de estudantes que queriam tornar este mundo um lugar melhor para viver. A ideia é simples, mas revolucionária. Universitários de qualquer curso decidem compartilhar o que aprenderam, tutelados por profissionais formados. Assim, levam conhecimento e cidadania direto do coração de São Paulo para sua periferia.

Advogados dão palestras. Dentistas fazem profilaxia. Enfermeiros ensinam cuidados básicos de saúde e higiene. Médicos fazem anamneses. Designers de games criam jogos lúdicos para ensinar conceitos de saúde bucal, política, arte, economia.... As possibilidades são infinitas. Formados, formandos e calouros se unem para compartilhar conhecimentos e experiências.

Eu aqui sou caloura....

Amanhã vai ser meu primeiro dia de "trabalho". Um veterano vai me orientar. E eu vou aprender com esses meninos como é que se faz um país.

Ah! A cama acabou de chegar. Um colchonete e um cobertor...Um luxo! Meu soninho está salvo. Vou ali que deu a hora do banho....frio...é claro!
....

PS... Esta sou eu de banho tomado. Caneca, colchão e cobertor emprestados do Hugo, meu carinhoso filho. O dormitório feminino aos poucos vai se populando....e  o sono vai se apoderando de mim.....só que não... Ainda tem a "social".....

A turma da Social inventou umas dinâmicas para integrar os novatos. Quando dei por mim, já estava ali....cantando e dançando uma paródia das Spice girls.....Oh céus....Onde fui me meter!!!!!!

Exausta e com a barriga doendo de tanto rir, fui saindo de fininho e procurando meu cantinho....É prudente dormir porque amanhã é dia de Trabalho Voluntário!!!!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Sobre ladeiras e decisões.

Este fim de semana desci uma ladeira mega difícil. Teve torcida e tudo!!

A princípio, não ia descer. Prudente que sou, examinei o terreno, fiz meus cálculos mentais. Fiz e refiz a análise de risco. Concluí que tinha 50% de chance de conseguir...e apostei!

Os colegas incentivaram. Lembrei de quando aprendi a descer ladeiras, de forma técnica, pela primeira vez. Foi na trilha de Abrantes - cidade de Camaçari em 2009. Eu já havia tomado dois tombos homéricos naquela mesma ladeira. Tomei medo. Pânico. Verdadeiro terror. Não conseguia mais descer nem rampa. Sempre ia empurrando a bike.

Foi quando experimentei na prática o que é liderança.

Primeiro, apareceram os "chefes". Eles me estimulavam no grito, na provocação. Deixa de coisa. Todo mundo desce. Vai logo, mulher. E larga o freio! E saiam correndo na frente para me ensinar o quanto eram corajosos.....o que eu aprendia??? O quanto eu era frouxa......

A intenção era boa e com certeza funcionava para muita gente. Comigo não funcionou. Continuava empurrando a bike, carregando o medo e a frustração comigo. Achava que não ia conseguir nunca.

Também tive líderes. Esses, me davam força. Botavam fé. Falavam da sua história, e de outros, e de como foi difícil para eles.  Diziam que assim como eles, eu também era capaz. Que eu ia conseguir. Que precisava me superar.

Eram tão bacanas, que me dava vontade de descer a ladeira por eles. Para vê-los felizes. Mas, contra o pânico não há argumento.... e lá ia eu de novo. Empurrando e jurando, que da próxima vez ia tentar.


O que funcionou? O "coach".

Esse cara era diferente. Ele se colocou ao meu lado. E desceu no meu ritmo. Calmamente me ensinou a manobrar os freios. Acalmou meu medo e me manteve focada na trilha. Descemos juntos. Passou-me segurança e apoio. Quando eu vi.... já tinha descido. Foi um momento importante. Era uma ladeira besta, que todo mundo desce. Mas, para mim, foi uma grande superação.

Ainda levei alguns anos para controlar o pânico. Travei ainda inúmeras vezes. Mas, sempre que eu decidia descer, era aquela lição que eu resgatava. E é o que faço até hoje.

Na trilha de ontem, também em Camaçari, mas bem mais difícil que a descida de Abrantes, passei por mais uma dessas. Todos desceram. Eu quis ficar por último. Tati Paiva desceu antes de mim. Mas, antes de ir, me deu uma aula de técnica. Ouvi-la explicar como planejava atacar a ladeira me transmitiu calma. Lembrei do meu "coach". Dos meus líderes e dos meus chefes. Todos, de algum modo me ajudaram. Naquele momento, ela foi coach. E desceu brilhantemente, deixando um rastro de exemplo e paciência.

Chegou minha vez. A torcida era grande, mas ninguém me pressionou.  Decidi por mim mesma. Subi um pouco mais, para uma parte menos íngreme. Ali eu teria tempo de ajustar a marcha, controlar a bike e ganhar confiança.

Eu sabia que uma vez decidindo descer, não poderia mais voltar atrás. Era descer ou cair rolando. E eu decidir descer. Lá embaixo, a turma ficou na torcida. Todos conhecem meu medo histórico. Se eu não descesse, ninguém ia estranhar.

E eu desci. Com apoio de todos os meus anjos da guarda. Pedra por pedra, repetindo meu mantra sagrado ("é só mais meio metro a minha frente").  E de metro em metro, venci o medo.

Foi lindo. Emocionante. Para muitos isso pode ser trivial, mas quem tem medo, deve entender como é difícil.

Essa ladeira me ensinou que na vida existem momentos críticos em que você precisa se decidir. E quando decidir, não terá como voltar atrás. Vale ser prudente e examinar a situação. Vale não ir, se não se sentir segura.

Como diria o Mestre Yoda, é fazer ou não fazer. Não existe "tentar".

Voltei mais decidida e corajosa para enfrentar o que vier. Ladeiras, problemas, decisões, podem vir. Estou pronta!!!!

Ah, se aqueles que tem posição de liderança soubessem do impacto que causam na vida das pessoas.....seriam mais cuidadosos.



Quando for preciso ser chefe, seja. Quando puder ser líder, seja. Quando tiver uma chance, seja um coach. Mas, faça com amor. Você não sabe o quanto isso pode ser importante para alguém.

Obrigada, amigos, por tantas lições de vida!