quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Sevilla

Sevilla tuvo que ser, com su lunita plateada
testigo de nuestro amor, bajo la noche callada
Y nos quisimos tú y yo con un amor sin pecado
Pero el destino hay querido que vivamos separados

Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido
Por dos amores que han muerto sin haberse comprendido

Ay, barrio de Santa Cruz. Ay, plaza de Doña Elvira
Os vuelvo yo a recordar y me parece mentira
Ya todo aquello pasó todo quedó en el olvido
Nuestra promesas de amores en el aire se han perdido


Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido

Por dos amores que han muerto sin haberse comprendido
Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido
Por dos amores que han muerto que son el tuyo y el mio
 



Com essa velha cançao inicio minha resenha sobre Sevilla. Nao pude parar de lembrar dessa música enquanto caminhava por suas ruas. A cidade é bem moderna e preservou pouco das suas muralhas originais. Há ruínas dos portais antigos aqui e ali. Mas há muitos prédios antigos bem conservados e abertos à visitaçao.
 
Hoje eu iria a Granada, mas como a viagem é muito longa (4 horas) escolhi Sevilha. Duas horas e meia e vários capítulos de La Isla bajo el mar (Isabel Allende) depois, o confortável trem me deixou em Sevilla. Tratei logo de comprar um mapa porque nao queria me perder. Esperava um frio glacial, mas a cidade me recebeu com confortáveis 15 graus e muito vento. Estou no Sul da Espanha e nao faz muito frio por aqui. Afinal, é Andalucia. Caliente por naturaleza.
 
As ruas estao cheias de laranjais e estes cheios de laranjas maduras! Ninguém toca nas laranjas, o que me impediu de saboreá-las por pura vergonha. Afinal, "estando em Roma, faça como os romanos". Como nao pude levar as laranjas, levo as fotos. Ficaram lindas.
 
Minha primeira parada foi a Igreja de Sao Roque, datada do século XVIII. Por alguma razao que eu nao sei explicar, ele nao ocupa o altar principal. Quem o faz é a "Nossa Senhora da Graça e Esperança coroada". Uma bela imagem posta em um riquíssimo altar de ouro e prata, extraídos das colônias espanholas bajo mucha sangre y muerte.
 
Ao lado direito do altar há algumas imagens do Cristo Crucificado e da Virgem Maria. Em detalhes nao muito evidentes pude encontrar referências místicas, tais como a Cruz Templária em um estandarte junto ao cordeiro e um alto relevo representando um ganso. Durante esta viagem descobri que este é um animal místico e que de acordo com as lendas, é capaz de arrancar pedaços do seu próprio corpo para alimentar suas crias.
 
Na entrada da igreja, ao lado esquerdo, há uma imagem da Virgem coroada que é idêntica à Nossa Senhora Aparecida, salvo que a imagem é branca. Fiquei curiosa. Vou pesquisar mais tarde para entender se é apenas mera coincidência.
 
Achei a igreja bastante familiar, talvez pelo seu estilo barroco e pelas semelhanças com as velhas igrejas do Pelourinho. Podem achar engraçado, mas até o cheiro é parecido. Após um pouco de reverência e uma breve oraçao, deixei a igreja para continuar minha jornada.
 
As folhas fazem redemoinhos no chao e às vezes tenho que fechar os olhos devido ao pó que o vento levanta. Mas tenho que ter atençao. Há bicicletas por aqui. Muitas bicicletas. Podem ser alugadas, mas você precisa ter um cartao específico para isso. Aparentemente, todo mundo aqui anda de bicicleta. De entregador de pizza a executivo! O "El País" diz que a crise fez com que os espanhóis aumentassem seu interesse pelas bikes. A Espanha apóia a iniciativa sustentável de seu povo e provê condiçoes decentes  para quem prefere as duas rodas.
 
Ao contrário do que estou acostumada a ver no Brasil, a ciclovia nao fica na rua. Fica na calçada e é bem delimitada e sinalizada. Só mesmo uma turista muito distraída mesmo é capaz de ficar no meio do caminho e quase ser atropelada por uma ciclista, que pela pouca habilidade ao guidao deve ser turista também!!
 
Depois de muito andar e fotografar, já quase na entrada da cidade velha, parei num café para comer. Ao fundo, Shakira cantava uma música triste o que me fez lembrar de ilusoes passadas. Decidi virar a página do passado e com ele todas as suas ilusoes e me concentrar na viagem. É o melhor que tenho a fazer agora.
Comi meu sanduíche de jamón y queso. De sobremesa, para nao perder o hábito pedi um brownie e um capuccino.
 
De calle en calle e de iglesia en iglesia acabei parando na Universidade de Sevilla que antigamente era a Real fábrica de Tabaco. Em frente à universidade havia uma filial dos 100 montaditos. E como hoje é miércoles (dia de tudo por um euro), o lugar estava lotado. Havia chegado um carregamento de alemaes. Todos com camisas da seleçao deles e tomando muita cerveja. Estavam cantando um hino, provavelmente de algum time de futebol e fazendo muita algazarra. Quando perceberam que eu estava gravando, pararam de cantar. Mas recomeçaram assim que desliguei a câmera. Provavelmente nao queriam aparecer no You Tube!! Verde de vergonha, mas fingindo que nao era comigo, tratei de sair logo dali.
 
Adiante avistei uma torre. Será a Catedral? Estava longe e fui procurando o caminho até achar a entrada. Perdi o fôlego. Nunca tinha visto uma fortaleza como aquela antes. Nao era a catedral. Era o Real Alcazar (ou Fortaleza Real, também conhecida como Plaza de España). A fortaleza tem duas torres, Norte e Sul. É toda feita de arcos mouros e muito bem conservada. No centro da plaza há um lago onde se pode passear de barquinho e ao redor do grande edificio que une as torres há mapas de todas as províncias espanholas, com um pouco de sua história e ilustraçoes. Tudo feito em azulejos! Nao dá para explicar. Só vendo! Fotografei tudo o que pude. Mesmo assim, o que os meus olhos viram nao coube na telinha de LCD da minha máquina chinesinha. Visitem quando puderem. Vale a pena!
 
Como estava com fome e como hoje é quarta, nao resisti e voltei aos 100 montaditos. O bar estava mais vazio e os alemaes cantantes já tinham ido embora. Pedi meu sanduichinho com uma salada mediterrânea, um copo de vinho e uma água mineral. Total: 4 euros! Increíble!
 
Enquanto saboreava meu lanche chega um pedinte. A princípio nem entendi o que ele queria. Logo depois, vi que o pobre estava com fome mesmo. É tao estranho ver gente pedindo dinheiro aqui! Mas a pobreza está por toda a Europa e nao é privilégio de Sevilla. Em Dublin eu vi jovens moças e rapazes. Assim como maes com bebês de colo. Todos sentados nas ruas frias se agasalhando como podiam e pedindo esmolas. Parecia capítulo de livro do Charles Dickens. A diferença é que nao estamos mais na Revoluçao Industrial do século XVII. O que está acontecendo com o mundo, meu Deus???
 
Agora já é hora de voltar. Infelizmente, porque ainda há muito para ver por aqui. Ainda páro para ver a Igreja de Santa Maria, la Blanca e fotografar algumas ruelas muito estreitas e bonitinhas. Faltou ir à Plaza de Toros. Mas fica para uma próxima vez. Estou numa fase de ver arquitetura antiga e de rezar em igrejas medievais.
 
Até amanha!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Avila

Longe... e frio...mas linda. Se Toledo se gaba se ser o maior museu ao céu aberto do mundo, Ávila se gaba de ser o melhor!

Mal acostumada com o clima acolhedor de Toledo e seus confortáveis 14 graus, coloquei uma roupinha mais leve hoje. Ainda tinha três camadas de roupa, mas nao eram tao quentinhas como as de ontem...

Ávila tinha um lindo dia de céu azul, sem nuvens e... 3 graus! Um vento frio de tilintar os ossos! Só ali descobri que estava na cidade mais alta de toda a Espanha e onde a temperatura média nessa época do ano nao passa de 4 graus. Ai, ai...Turistas!

O passeio valeu muito a pena. A exemplo de Toledo, a cidade é cercada por uma sólida e milenar muralha. Construida primeiro por Romanos, depois por cristaos, com contribuiçao dos mouros. Também está na rota do Caminho de Santiago, o que eu desconhecia. Há varias "sendas peatonais" sinalizadas  (caminho exclusivo para pedestres). Diante de tanta beleza, nao resisti e voltei ao centro comercial decidida a comprar uma camera.

Só encontrei duas lojas. Uma tinha uma Sony cheia de predicados por 309 euros. Pensei bem e achei melhor nao fazer um investimento desses. Poderia achar uma melhor e mais barata no freeshop. Andei mais um pouco e achei uma igualzinha a Sony, só que com o olhinho puxado... Pensei bem... Será que devo alimentar esse dragao que nos devora as entranhas? Por outro lado, sei que nao só a Sony como muitas outras marcas de renome mandam produzir seus componentes na China e depois colocam seu selo sagrado por cima... Daí o custo... Decidi contribuir com a nova ordem mundial e comprei o similar chines por 110 euros! Um achado! Como ainda nao comecei meu curso serio de fotografia, achei minha máquina um espetáculo.

Muitas fotos depois eu sentia o meu sangue fugindo do corpo. Estava com muito frio. Acho que o termômetro mentiu. Nao podia estar só 3 graus. Deveria estar uns -3! Decidi abrir a mao e comer direito. Talvez isso me aquecesse. Dei-me de presente um menu completo em um simpático café. Entrada: Judías con Jamon. (judías sao vagens e nunca entendi por que tem esse nome em espanhol). Temperadinhas com alho e azeite. Uma delícia. O prato principal: Ternera con patatas. Tudo acompanhado de um bom vinho da casa e uma cesta de pao. Eu me senti a Reina Sofia! Tinha direito à sobremesa, mas a essa altura nao aguentava mais comer e tomei só um cafezinho. Até que o preço foi viável. 11 euros. Nada mal para um banquete.

Senti o meu sangue voltar a circular e me deu até uma preguicinha, contaminada que fui pelos costumes do lugar. Esse hábito da siesta deveria ser implementado no Brasil! A cidade pára. As janelas fecham. As lojas também. Nadie camina por las calles.

Segui minha jornada solitárias pelas ruelas estreitas, igrejas do século XII e muitos signos sagrados espalhados por toda a parte. Entrei na catedral, mas esta também estaba cierrada por la siesta. Nao havia ninguém e percebi que uma porta lateral estava destrancada. Curiosa, entrei.. Me vi na Capela de San Segundo, um dos principais santos da cidade. Nao sou católica, mas por alguma razao essas igrejas antigas me emocionam. Como estava ali sozinha entre paredes e obras de arte milenares, ajoelhei-me e fiz uma oraçao. Agradeci por estar ali. Por pisar aquele chao de peregrinos e ter o privilegio de entrar em contato com tanta beleza.

Com os olhos molhados saí da capela. Tive um pouco de medo de algum padre desavisado da minha presença resolver trancar a porta por fora. Aí eu seria forçada a passar a siesta rezando. Até que nao seria má ideia...

Feliz, alimentada, quentinha e com minha nova câmera, me aventurei por toda a cidade. Encontrei um ciclista e um andarilho. Mais adiante, uma corredor solitário... Que lugar lindo para praticar esportes! Decidi me perder pelas calles da ciudad. As muralhas estao por toda a parte e nao é possível ver as referências externas. Com isso, é muito fácil se perder. E eu me perdi. Passei a andar em círculos e cheguei à praça da catedral por todos os acessos possíveis! Estava andando em círculos.

Quando nao aguentava mais andar e o frio voltou a incomodar, decidi que ia sair do labirinto. Aí, meus parcos conhecimentos de navegaçao foram muito úteis. Refiz o caminho da entrada e segui o sol. Consegui sair. Cansada, com os pés em bolhas, mas muito satisfeita com meu dia. Mal posso esperar até amanha para mais uma aventura.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Toledo

Hoy he descubierto algo mágico. ¡El tren! Se puede llegar donde quieras con el tren! El se llama ´Renfes'. Se lo toma en la estación de Atocha, línea 1. Pienso que estoy enamorada del señor tren...Volveré a verlo mañana, y despues, y despues de nuevo.

Intentaba yo viajar hasta Ávila para mirar los castillos que existen allí. Pero llegué tarde. El tren se había partido hacía una hora.  Para aprovechar que ya estaba en la estacion, muy cerca de todos aquellos hermosos trencitos, decidí cambiar los planeos y viajé para Toledo. No me he arrependido de nada. La ciudad es muy hermosa. Hay castillos, murallas, iglesias....

Toledo está en una de las rutas del Camino de Santiago. Precisamente la ruta de Cervantes. Así me han dicho allí. La ciudad está llena de leyendas muy antiguas que mezclan los árabes, los judíos y los cristianos. Todos en la misma ruta. La ruta Sagrada de Santiago.

Ahora, volveré al Portugues para que todos mis amigos me entiendan y también para que no se acabe mi pequeño vocabulario (risas).

O trem leva 30 minutos para chegar a Toledo. A viagem é tranquila e confortável. O romance ´La Isla bajo mar´, de Isabel Allende me faz companhia no percurso. Nem vi o tempo passar.

Ao chegar na estaçao de Toledo, voce pode comprar um mapa por 2 euros com um simpatico velhinho que lhe dará uma dica preciosa: Nao pegue o onibus na porta da estaçao. Ele custa 8 euros. Voce pode fazer o mesmo passeio pela cidade em um trenzinho bem simpático por apenas 4 euros. Basta andar 20 minutos até a estaçao, na Plaza de Zocodover. Ele me vendeu o mapa e me orientou como chegar lá. E eu, feliz da vida, saí a navegar!

O caminho para a praça inclui a entrada do Castillo de San Servando e a Puente de Alcântara. Magníficos monumentos à Arquitetura. O castelo virou albergue e nao pode ser visitado, o que é uma pena. Mas a ponte é acessível. Soube alí que o castelo foi construído para proteger a ponte dos invasores mouros. E que aquela ponte nunca foi tomada pelos inimigos. Por sobre a ponte é possível ver as ruínas de um antigo aqueduto romano e um rio belíssimo. O Rio Tajo. De acordo com as lendas do lugar, o rio foi batizado por um descendente direto de Noé. Aquele mesmo, o da Bíblia.

No caminho para a plaza, me deparei com uma escadaria moura que dava vista para a cidade. Resolvi parar ali para refletir e comer o meu lanchinho, furtado ao café da manha do Holliday Inn. Alimentada e inebriada com tanta coisa bonita de se ver, continuei a caminhada.

Chegando à Plaza, tomei um café para esquentar, enquanto esperava o trem, que só sairia em 30 minutos. Deu tempo de passear e tirar várias fotos. Peguei o trem e pude vislumbrar a vista mais linda dessa viagem. Que lugar lindo para fazer uma trilha, uma corrida de aventura ou... O Caminho de Santiago.

Ao descer dos 45 minutos de passeio de trem, resolvi sentir um pouquinho do gostinho dos peregrinos e explorar a cidade a pé. Continuei tirando minhas fotos até que algo muito estranho aconteceu. Minha câmera resolveu que todas as fotos ficariam sobre-expostas. Com flash, sem flash, em manual, no escuro. Nao tinha jeito de funcionar. Todas as fotos pareciam fantasmas. Brancos. Super iluminados.

Depois, para ficar melhor, percebi que todas as minhas fotos tinham desaparecido. Nao somente as de hoje. Todas. Todinhas. Desde o início da viagem. Me deu até vontade de chorar. Nao sei o que aconteceu. Parece que Toledo se sentiu invadida por minha audacia em fotografá-la. Ainda bem que guardei tudo na retina.  É só lá mesmo que as imagens ficarao, ao final das contas! Decidi descrever o passeio hoje mesmo para nao esquecer de nada.

Continuei paseando pelas ruelas estreitas até me deparar com a Igreja dos Jesuítas. Uma belíssima igreja. Ampla, clara, inspiradora. Por 2,30 euros voce pode passear pela igreja, rezar, tirar fotos e subir até as duas torres para ver a cidade de cima. A vista é estonteante. Um privilégio estar ali. A igreja dá vista para uma catedral em estilo Gótico muito bonita também, mas infelizmente, estava em obras e nao pude entrar. Só vi por fora mesmo.

Tinha também uma exposiçao de instrumentos medievais de tortura. Pensei bem... Achei meio Klu Klux Klan e resolvi nao ir conferir. Muito deprê. Preferi continuar visitando as igrejas.

Em Toledo, tem um mazapan famoso que pode ser comprado no convento das Carmelitas descalças. É uma iguaria do lugar. Além da boa comida, todas as pessoas sao simpáticas e atendem muito bem. O único inconveniente é que a maior parte das vendinhas nao aceita cartao de crédito. Nao faça como eu! Leve dinheiro.

Eu moraria em Toledo sem receios. A cidade é toda cercada por muralhas medievais que foram feitas para a eternidade. As construçoes modernas, por mais sólidas que sejam, parecem de papel diante da imponencia da cidade.

O Alcazar, que quer dizer fortaleza em árabe,  além de forte militar, foi também um castelo. Alí tem uma bonita história de amor em que se diz que Don AlfonsoVII, Rei de España, se enamorou de uma judia, Raquel. Obviamente que o romance era proibido. Assim como o era o da Dama de Cava, que se suicidou por seu amor e da jovem árabe por quem um Caballero se apaixonou e que acabou decapitada diante dos olhos pasmos e impotentes de seu amante. No fim, todas as mulheres se dao mal nessa história.

Pelas redondezas da cidade, também há uma praça, onde se executavam criminosos e... adivinhem? Se queimavam bruxas! Só bruxas, por que os bruxos sao mais espertos e aparentemente nunca foram pegos, embora andem soltos por aí, todavía.

Ainda há muito mais a se ver em Toledo. Merece uns dois dias de viagem pelo menos, começando bem cedinho para dar tempo de ver tudo com calma. Há antigos castelos que hoje viraram hotéis. Penso em voltar ali e me hospedar em um deles. Amei Toledo. Recomendo. Hasta mañana

Baile Atha Cliath

Dublin e a fase "Rezar"

Dublin (ou Duvhlin - Lagoa Negra) é uma cidade curiosa. Você pode se perder ali. Por um lado, há construçoes do século XIII em excelente estado de conservaçao. Por outro, ruelas estreitas onde a noite se vêem jovens bêbados, garrafas quebradas e prostituiçao - Sexo, Drogas e Rock'n'Roll.

Chegamos na sexta à noite. Estava frio, bem frio! Hugo nao conhecia a cidade e olhava tudo com admiraçao. Para mim, Dublin tambem parecia nova. Alguma coisa mudou de 2008 para cá. Nao sei se fui eu ou a cidade. Ou ambas. Tudo me pareceu maior, mais cheio de gente.

O Hostel (The Avalon House) era um portal para os anos 60. No radio tocava Beatles.  Dois adolescentes cabeludos e simpaticos na recepçao nos explicam como tudo funciona por ali. Hugo achou tudo muito estranho. Eu achei graça. Todos os sotaques do continente estavam ali. Espanhol, Francês, inglês. Ahhh, esse sotaque inglês- suspirava o Hugo. - Tenho que voltar aqui mae, sozinho! Nunca vi tanta mulher bonita junta!

Eu estava mais interessada em visitar as igrejas antigas. Há algo de inspirador nessas igrejas. Sao todas muito altas e tem uma arquitetura peculiar que mistura os estilos gótico e romanesco. Começamos o sábado indo à Catedral de Sao Patrick. Construída no século XIII e reformada duas vezes desde entao, está muito bem conservada. A planta tem forma de Cruz Celta e guarda algumas reliquias como pedras de tumulos druidas e belíssimos vitrais. Uma curiosidade: Nas igrejas irlandesas nao é comum encontrar imagens de escultura. Se a historia for verdadeira, Sao Patrick nao gostava de esculturas e assim educou o povo de lá. Ele foi um missionario que por volta do século V encontrou sua vocaçao e voltou à Irlanda, após um exílio como escravo, decidido a varrer o paganismo do mapa.

Sao Patrick foi muito bem sucedido em sua missao. Fora alguns símbolos sagrados celtas e normandos que encontramos esparsos aqui e ali, quase nao há vestigio da antiga religiao. O Santo é muito querido e tem uma festa importante todos os anos, no dia 17 de março.

Saímos da igreja em busca do Castelo de Dublin, mas esbarramos com uma exposíçao viking e resolvemos entrar para conferir. Valeu a pena. Os Dublinenses montaram uma exposiçao com bonecos de cera e cenários reproduzindo várias fases da cidade, desde o ano 801 até o começo do século XX. Em algumas salas podiamos experimentar as roupas da época e tirar fotos. Eu me vesti de dama do século XIV e o Hugo de cavaleiro. As fotos ficaram hilárias!

A exposiçao conta como os normandos invadiram Dublin e ali se estabeleceram. Mostram como a cidade foi próspera durante o Mercantilismo. Poderia ter se tornado uma potência se nao houvesse tanta disputa interna por poder. Os irlandeses nunca foram muito unidos. Em raros momentos, um líder aparecia e trazia algum sentido de pátria. Mas logo depois, o povo se dispersava novamente em suas tribos e era cada um por si. Os irlandeses sao conhecidos por sua constante busca por liberdade. Nao aceitam se submeter a ninguem. Sao como adolescentes rebeldes. Só mesmo uma ameaça externa muito forte era capaz de uni-los.

Pude ver como a peste negra assolou a cidade na Idade Media e como eles se reergueram na Idade Moderna. Nao podemos negar que os irlandeses sao muito trabalhadores. Sao também teimosos e rebeldes. Simpáticos e alegres.

Com o tempo, quase todos os normandos se converteram ao cristianismo. Deixaram muitos legados para a Irlanda, dentre eles, o Castelo de Dublin e a belíssima Catedral ChristChurch, construida por eles em 1030. Achei essa ainda mais bonita que a de Sao Patrick e mais aconchegante também. Ali há varias minicapelas onde se pode parar e meditar, rezar ou simplesmente contemplar a arte sacra. Em uma das capelas havia um espaço para você acender velas e escrever seu pedido de oraçao. No livro, pude ler os pedidos de pessoas dos mais variados lugares. Peço a cura para meu irmao que está com cancer, emprego para o meu cunhado, paz para o mundo..... Quase escuto aquelas pessoas rezando enquanto escrevo. Nao resisti e parei para fazer uma oraçao. O lugar inspira calma e paz. Nos vitrais, há representaçoes de heróis antigos, St Patrick e Santa Brígida (esta, na verdade era uma deusa do paganismo adotada pela igreja como santa).

Seguindo o mapinha encontramos outros prédios antigos que eu parava para fotografar. Paramos num lugar chamado 'Temple Bar' (Nao! Nao é um bar.  Nesse caso, o 'bar' tem sentido de bairro, ou área). Todo o quarteirao é cheio de referencias aos templarios, seja no nome dos bares, seja na arquitetura ou nos símbolos. Quis parar num deles, mas a historia escrita na parede dizia que ali uma mulher havia sido executada no século XVII e o Hugo achou melhor nao.... Acabamos parando na "Queen of Tartes" e comendo a "Soup of the Day". À noite, fomos a um restaurante libanês próximo à George St onde comi o melhor jantar de toda a viagem até agora. Sopa de lentilha, salada libanesa, arroz libanes, cafe libanes... Tudo de bom!

O idioma antigo está por toda a parte. O Gaerlico ou irlandês é um idioma derivado dos dialetos vickings e lembra a língua dos Elfos do Senhor dos Anéis. Muito difícil de pronunciar, mas delicioso de ouvir. Todas as ruas e prédios tem seu nome em inglês e seu correspondente em Gaerlico. Baile Atha Cliath é o nome que dao para a Cidade de Dublin.

Voltei a Madrid no domingo a noite e vou explorar as pequenas cidades antigas ao redor da província. Hoje vou a Ávila. Depois eu conto como foi. Agora, deixo um ditado em gaerlico para os leitores.

"Ní neart go cur le chéile" ou " There is not strength without unity".

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 3
Hoje falarei sobre a Madrid cultural.
Madrid é uma cidade relativamente jovem, quando comparada ao resto das cidades da Europa. Começou a desenvolver-se junto com  o Mercantilismo e na ocasiao, nao passava de uma vila onde se fazia comércio.

Um dos pontos turísticos mais visitados é a Plaza Mayor. Voce se sente num burgo mercantilista. A praça é cercada por grossas muralhas e em seu interior se encontram várias pequenas "tiendas" onde voce compra de tudo. Se fechar os olhos voce poderá imaginar ali padres, vendedores de galinhas, peregrinos, prostituras e ladroes... Como num conto de Paulo Coelho.

Aproveitando a estrutura das muralhas no entorno, voce encontra restaurantes, bares e cafés. Comi num lugar chamado Le Pain Quotidien. A estrutura interior é muito bonita. O restaurante fica no subsolo e manteve a arquitetura original do lugar. A paella é bem servida e o tempero é ótimo. Mas se voce se afastar um pouco das muralhas encontrará restaurantes mais baratos. No entorno da Plaza voce encontra Paella com uma taça de vinho tinto e uma cesta de paes por 7 euros. Por ali também há um restaurante que os madrileños afirmam ser o mais antigo do mundo. Nao acreditei muito... Vou conferir, depois conto para voces.

Seguindo a linha tres do Metro voce chega ao Templo de Debot (Estaçao Ventura Rodriguez). O pequeno templo foi trasladado do Egito para Madrid como um presente do governo Egípcio ao Espanhol em virtude do apoio dado por estes na proteçao do templo Núbio. É possível tirar fotos e com sorte voce vai se deparar com uma simpática professora do ginasial e poderá "pongar" na aula de história. A entrada é gratuita. O templo tem janelas orientadas conforme os pontos cardeais e se pode ver a luz do Sol entrando nos saloes escuros com efeitos quase espirituais. Os jardins no entorno e o chafariz ao fundo do templo sao um carinho a parte. Muito bonito. Vale a pena conferir.

Continuei meu dia caminhando sem rumo, seguindo as placas que direcionavam para um ou outro ponto turístico. Cheguei aos Jardins de Sabatini, que tem a grama podada em forma de linhas gregas e esculturas de mármore representando figuras históricas espanholas. Lindíssimo.

Andando mais um pouco chega-se à Plaza del Oeste, dedicado pela Rainha Isabel II às Artes e à Beleza. Ali se encontram estátuas de Reis de províncias espanholas de vários séculos passados.

A Catedral e o Palácio Real têm uma arquitetura imponente. É bem bonito de se ver. Nesse caso, é preciso pagar a entrada. O Palácio Real cobra 10 euros e a Igreja cobra 6. Deixei para outro dia. Voltarei na semana que vem.

Outros lugares bonitos de se fotografar sao a Puerta de Toledo, onde voce encontrará um relógio de Sol e A Puerta de Alcalán, já perto do Paseo del Prado.

Paseo del Prado - imperdível! Alí há três museus que nao se deve deixar de visitar. O Reina Sofia, o Museo do Prado e um terceiro museu de nome difícil, que prometo postar em breve, quando lembrar de anotar. Ainda nao fui a este nem ao Reina Sofia. Porém, já fui duas vezes ao Museo do Prado e ainda nao vi todas as obras. Durante a semana se entra de graça entre 18 e 20h. Como o museu fecha às 20h, Já tem fila às 17:30! Vale muito a pena. Tem obras de Caravaggio, El Bosco, El Greco, Rafael, Titoretto e muitos outros. Fiquei impressionada com a ala reservada as pinturas medievais. O trabalho de restauraçao foi muito bom. As obras mais antigas datam do século XIV!.

A vedete do museu é o Jardim das Delícias de El Bosco. Feito em 1500 o quadro impressiona por ser o precursor do Surrealismo. Está sempre cercado de gente. Eu e Hugo passamos mais de uma hora contemplando o quadro e observando cada detalhe. Por 3.50 euros voce pode levar um aparelhinho de audio e escutar explicaçoes sobre as obras.

Outro quadro impressionante é o "El Lavatorio" de Tintoretto. Voce tem a impressao de estar dentro do salao representado na tela, graças aos efeitos que o artista imprimiu ao quadro. Hugo ficou extasiado ao explicar como ele deve ter desenhado o quadro e como aquela era uma obra prima da perspectiva. Nada como ir ao museu com um estudante de Design! Hoje aprendi muito. Mas ainda há muito para ver.

A noite embarcamos para Dublin. Segunda, estarei de volta a Madrid e concluirei minha tríede museística.
Hasta luego

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 2:
Hoje é dia 08 de dezembro. Faz 11 graus Celsius. O dia está uma delícia. Minhas malas chegaram ontem à noite e isso faz com que o dia pareça ainda mais bonito.Hugo teve trabalho da faculdade e fiquei só. Tirei o dia para refletir sobre a vida. Hoje é um bom dia para refletir. Chove. Há pouca gente na rua. É feriado de Nossa Senhora da Conceiçao. Segunda, dia 06, também foi feriado: Dia da Constituiçao, mas a cidade estava intoleravelmente cheia. Hoje está bem melhor.


Saí para passear e vi pessoas passeando de bicicleta. Que vontade de ir também!! Vou já descobrir como "Alquilar una bici" :).
 
Sem ter o que fazer e sem bici, fui passear na Gran Vía com a intençao de tomar mais um café na loja da Nat Geo. Acontece que a loja sumiu! Ninguém sabe, ninguém viu! Ela me apareceu na segunda-feira como a "Sala Precisa" aparecia para o Harry Potter, nos momentos em que ele mais queria. Hoje, nao conjurei o feitiço certo ou nao desejei o bastante. Nada de Nat Geo! Perguntei na rua. Um jornaleiro me disse: - Hay una tienda, verdad, pero no sé donde se queda.... (!mierda!)

Bueno, depois de subir e descer a Gran Vía em vao resolvi parar no McDonalds e ajudar o Hugo a colecionar seus tickets. Como me recuso a comer McGorduras, resolvi tomar um café. Nao deve ser tao ruim e ainda ganho dois tickets! Pedi um cookie triple chocolate para acompanhar. Estava gostoso. Saboreei minhas calorias vazias e fiquei refletindo sobre Madrid, sobre a Nat Geo e a razao por nao tê-la encontrado.
Devolvi a bandeja para a mocinha da loja e fui em busca de um "aseo" (toilette)... EPA, PÉRA AÍ! PÁRA TUDO!! MEUS TICKETS!! Voltei correndo e ainda encontrei meu copinho caracteristicamente manchado de batom sobre a pilha de lixo... mas os tickets.... nao estavam lá! Algum esperto foi mais rápido que eu. Maldisse o McDonalds, o café e o banheiro e saí da loja cuspindo marimbondos. E se o ticket azul estivesse lá!? Jamais saberei.

Os madrileños estao pirando com essa promoçao. As lojas vivem cheias e temos mesmo que ter cuidado senao tomam os tickets da gente. Parece a busca pelo "Golden Ticket" da Fantástica Fábrica de Chocolate. Tomara que o Hugo encontre logo esse ticket azul, assim, jamais terei que entrar num McDonalds de novo!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 1
Tudo começa como plano de vôo. O circuito mais econômico incluiu uma breve passagem de 12 horas por Miami. Salvador-SP-Miami-Madrid. Um total de quase 36 horas de viagem! Aproveitei meu ócio em Miami para refletir sobre a minha vida e ler um livro. Estou lendo 'Comer,Rezar,Amar` da Elisabeth Gilbert. Achei bem adequado para esse momento da minha vida. Quero que essa viagem seja um momento para refletir sobre tudo. Ao final desses 30 dias, saberei claramente o que quero dos meus próximos 38 anos!

Quando eu tinha 14 anos já sonhei em ser fotógrafa da National Geographic. Já me imaginei cheia de poeira, com os cabelos desgrenhados e aquela roupinha cáqui cheia de bolsos que os fotógrafos usam. Uma máquina profissional e muitas ideias na cabeça. Imaginei também que seria repórter. Eram fotos. Eram matérias. Era o Afeganistao! Era muito emocionante.

Quase 30 anos depois eu vejo que segui um rumo bem diferente. Isso porque eu também sonhei em ser cientista. Embora achasse tudo muito complicado. Entrei para a faculdade de Química. Fiz mestrado e meio doutorado. Até descobrir que esse nao era o caminho. Migrei para liderança. Tenho uma posiçao austera e bem responsável. Gosto do que faço. Sinto que minha missao é cuidar de pessoas. Garantir sua segurança e bem estar. Tenho muito orgulho disso.

Mas vez por outra, eu me pergunto. O que terá sido feito dos meus sonhos? Enquanto relembro de como fui sonhadora, entro no aviao. Meu vôo parece a Torre de Babel. Um homem fala italiano logo atrás de mim. À minha frente seguem duas francesas. Pensei em ter ouvido um pouco de alemao... O atendente da Iberia checa meu bilhete e me devolve o passaporte com um ´Buen Viaje´. Eu respondo um sonoro `Obrigada`. Em bom português!

Agora vou dormir. O aviao da Iberia é até bem confortável. Talvez eu sonhe. Talvez encontre as respostas que procuro. Dormi o voo inteirinho,  o que é uma raridade. Eu estava mesmo cansada.

Chegando na aduana, o mesmo desconforto de sempre. Por que está aqui? Está só? Onde estao suas reservas? Por que fez reservas para dois no hotel? Quem é o seu filho? Ele tem papéis?

Metódica como sou, imprimi todas as reservas na ordem em que aconteceriam. Acho que a moça gostou da minha organizaçao e e parou com as perguntas. Fui aceita e agora estou oficialmente em solo madrileño.
Cambiando de Idiomas...
Bueno, despues de 36 horas, finalmente llego a Madrid.  Pero... mis maletas non... No tengo maletas... Ni ropas... ni cosmeticos... Mi hijo me espera hace dos horas. Ya piensa en llamar la policia. Piensa que yo fue denegada en la aduana.
Yo admiro el aeropuerto de Barajas. Muy lindo. Su architectura es especial. Las personas caminan apuradas. No pierden un segundo para mirar las pareds con paineles de obras cubistas. Intento sacar unas fotos pero tengo que marchar. Todos marchan.. apurados.

Primeiro dia em Madrid - 06 de dezembro de 2010
Meu filho se encontra comigo no metrô, ainda no aeroporto. Ele teve a ideia genial e de ligar para o meu celular. E eu, tive a ideia genial de ligar o aparelho, mesmo achando que nao funcionaria ali. Só assim nos encontramos. Hoje meu filho faz 19 anos. Ao vê-lo, esqueci que nao dormia numa cama havia dois dias, que estava sem banho e sem roupas para trocar. Nada disso tinha nenhuma importância agora. O que faremos mae? -Você é quem manda. Hoje é seu aniversário. O que você quer fazer?

Saímos por Madri. Hugo foi me mostrando o caminho, as ruas, as histórias da ditadura de Franco. E eu fui tirando fotos. Na hora do almoço. McDonalds! Nao acredito que comi no McDonalds! Mas era aniversário do Hugo e ele está colecionando uns tickets que valem uns prêmios bem interessantes. Resolvi abrir essa exceçao. Ainda nao ganhamos o ipod, mas isso é questao de tempo. Continuaremos tentando, amanha. Parece que essa será a fase `Comer` da minha viagem!

De repente, depois de horas de passeio, risadas e fotos, me deu uma vontade louca de tomar um café. Eis que surge à minha frente.... O National Geographic Café!!!! Isso só pode ser um sinal! Hugo! Eu tenho que tomar café ali!!!

A loja é uma graça. Tiro várias fotos até o gerente gentilmente me dizer que nao posso fotografar ali. Como nao se pode fotografar numa loja da National Geographic?? Educadamente, guardo a câmera e saboreio meu capuccino ao final da tarde. Ficamos um bom tempo ali. Foi muito gostoso. Saí de lá com meu mapa mundi que há anos quero ter e um postal para uma amiga que coleciona.

Mais passeio e achamos um grupo de jazz tocando na rua. Uma graça. Eram uns senhores dos seus 60 anos. Tocavam com tanta animaçao que fizeram a rua inteira dançar. Eu, claro!! Dancei também, para desespero do meu filho!

A tarde foi caindo devagar. O tempo parecia que estava com preguiça de passar e eu achei isso ótimo! Bateu uma fominha e Hugo me levou em lugar maravilhoso! El Museo del Jamón. Comemos um delicioso sanduiche de presunto tipo Parma com uma taça de vinho (eu) e um copo de cerveja (ele). Cada lanche custou 2 euros! Eu recomendo!  Uma delícia! Depois dessa relaxante refeíçao o cansaço bateu em nós dois com força e resolvemos voltar para casa, quer dizer, para o Holyday Inn.

Ainda estamos procurando um cinema para ver Harry Potter em inglês. Aqui, quase todos os cinemas passam os filmes dublados em espanhol. Herança cultural da ditadura de Franco. É muito difícil achar filmes em versao original. Continuaremos tentando amanha.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Adriana Calcanhoto, o avião o inverno e o silêncio

'No dia em que fui mais feliz, vi um avião. Se espelhar no seu olhar até sumir. De lá pra cá, não sei. Caminho ao longo do canal. Faço longas cartas pra ninguém e o inverno no Leblon é quase glacial. Algo que jamais se esclareceu. Onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo, o leão que sempre cavalguei. Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só...'

Gosto muito dessa música da Adriana. A sensação de escrever longas cartas pra ninguém me é bastante familiar. A história do leão realmente nunca se esclareceu. Como pode uma pessoa matar um leão por dia e não conseguir domar seus próprios sentimentos? Não tem cabimento. Mesmo!

Escrever é uma terapia. A gente põe tudo no papel. Depois fica olhando para as letras. É possível assim ver a dor em perspectiva. Só isso já é suficiente para começar a curar as feridas.

Feridas? Como diz minha sábia mãe, dor mesmo é passar fome. O resto é relativo. O resto se ajeita. Fagner já disse: Deixemos de coisa e cuidemos da vida! Antes que chegue a morte ou coisa parecida... E a coisa parecida pode ser pior que a morte. Nada mais fúnebre que morrer em vida.

Embora não seja propriamente dor, já que tem comida na geladeira, o que sinto dói. É preciso admitir. A decepção enfraquece os ossos, baixa os olhos, apaga o sorriso. Vai passar. Como tudo na vida. Nada dura para sempre. Nem a felicidade. Nem a dor.

Agora, vou fazer um chá. É o que faço quando não há o que fazer. Tomo um chá. Respiro fundo e toco a vida. Vocês estão servidos?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Circuito Explorer Etapa Sauípe - 28 de novembro de 2010


A prova vinha sendo anunciada há alguns dias. A FBCA fazia suspense. A princípio eu nem queria saber onde seria. Queria correr!  Precisava de um parceiro! Comecei a 'prospectar'  candidatos dentro do nosso grupo de aventura. Só o silêncio me respondeu. Algumas ligações, vários e-mails e nada de fechar dupla.
De repente, bateu um desânimo daqueles. Parei de treinar, desisti de correr uma prova de orientação que já estava paga. Desisti de ler emails. Estava decidida. Ninguém me faria mudar de ideia. Não ia correr a prova e pronto....

trriiiimmm.. - Alô.
- Oi, Lucy! É Mauro! E aí?? Animada? Vai correr com quem?
- Oi, Mauro. É que... ãhn... bem...eu não vou. Tô sem dupl...
- Tem um colega aqui para correr com você. É o Igor. Tá procurando dupla, e tal...
- Mas...
- Mas o quê? Eu não admito que você desista!!! Não admito mesmo!

Bom.. três 'eu não admitos' depois, desisti de tentar convencer o Mauro e resolvi correr. Sem nem saber com quem...No fim, todas as duplas estavam montadas. Igor 1 com Tadeu; Igor 2 com Mauro; As Penélopes com Lu e Gabi; Fernando com Adriana e Lucy com.... ??

Resolvi chamar uma amiga. Eu já tinha falado com ela sobre a prova e ela até se animou. Eu achei que ela não iria topar porcausa do trabalho, mas tentei assim mesmo. Para minha surpresa, ela topou! Então, tá né??  Vamos correr! Fernando gentilmente nos inscreveu e corremos como AG2+2.

Combina daqui e dali e saímos todos rumo ao Sauípe. Levei ainda uma outra convidada de honra. Minha mãe, que achou o máximo fazer o apoio da gente. No fim, ela queria fazer apoio pra todo mundo. Tão bonitinhos todos! Tadinhos, tão cansados!! Ai, ai... só mãe mesmo!

A ideia era correr duas duplas juntas com Fernando navegando. Mas quando vi o mapa eu me assanhei toda! Duas corridas de orientação no currículo e eu já estava me achando! Pensei comigo mesma: Quer saber? Eu vou navegar!!! Melhor me perder agora que depois! É sempre melhor fazer qualquer coisa agora que depois, by the way.

A foto dispensa explicações. Dois mapas. Duas escalas. Uma novata e uma navegadora saindo das fraldas.... Onde eu fui me meter?

Decidida a navegar, chamei minha parceira de aventuras e  nos mandamos pro mato. Perna de trekking, uma belezinha! O mapa estava muito bem feito. Achamos todos os PCs sem dificuldades. Nessa etapa concorríamos com dois pontinhos cor-de-rosa serelepes e falantes... Alguém adivinha?

Naveguei até direitinho. Na maioria das vezes eu achei os PCs sem dificuldades. Também tivemos um pouco de sorte. Alguns PCs pularam em cima da gente e em outros dicas valiosas nos salvaram. Ninguém facilitou pra AG2+2, o que achei ótimo! Mas na hora do sufoco, uma piscada de olho, um aceno de cabeça ou qualquer outro sinal corporal eram suficientes para nos colocar de volta no caminho certo.


Chegamos no PC6 - primeira transição - não muito longe das primeiras equipes. Minha mãe ficou toda orgulhosa! Trouxe água, barrinha de proteína e fez a maior festa.
Aproveitamos o chuveirão. Ainda tinha a perna de bike. Eu pensava com meus cabelos... Como vou pedalar e segurar o mapa? Pensem numa  pessoa desajeitada!!!

Quando Vânia começou a pedalar, eu aprendi muito rápido a navegar, ler mapa e controlar a bike com uma mão só! A pessoa é profissional! Descia as ladeiras sem freio, pedalava na areia e ainda me dava bronca! Que atrevimento!!

Por causa dela eu fiz meu primeiro downhill em alta! Tudo bem que era um morro gramado bem lisinho. Mas era alto, gente!! Deu medo! Desci rezando em voz alta! Passei dizendo pra quem estivesse por perto! 'Você viu? Eu desci aquele morrão ali!' Como se fosse a coisa mais legal do mundo! E era. Pelo menos para mim.

No areal, a caminho da Igrejinha, Vânia já tinha feito amizade com metade das equipes, enquanto brincava de pedalar. E eu ali, me entendendo com o areal, as ladeiras e os DOIS MAPAS!!! Tive que me virar em duas! Um olho no mapa, outro na trilha, outro na Vânia, pra não perdê-la de vista!

Passamos por mais uma transição. Vânia se ofereceu para nadar e eu me joguei na tirolesa. Quando vi aquela escada, lembrei de todos os procedimentos de segurança deste e dos outros mundos! O que era aquilo gente!! Que medo! Observei os pontos de fixação da escada, as condições do mosquetão, da cadeirinha... Enfim, decidi. Vou subir esse troço. A escada balançava. Ventava. Eu pensei em mil possíveis consequências da minha inconsequência! Resolvi respirar fundo e treinar meu autocontrole. Afinal,eu estava mesmo precisando disso! Valeu a pena! A tirolesa foi uma delícia!


Vânia já tinha nadado e estava pronta para a etapa de remo. Como eu não sei fazer leme, pedi a ela para fazê-lo. Que comédia! Nenhuma das duas tinha intimidade alguma com aquela tal de canoa canadense. Depois de vários loops, encalhamos. Todo mundo achando graça da nossa inabilidade. Decidida, resolvi a parada na raça mesmo! Me joguei na água e sentindo umas coisas molengas se enroscando nas minhas pernas (seriam cobras??), desencalhei o barco na força bruta. Vânia passou pra frente do barco e eu... milagrosamente... fiz o leme!!! Mais uma lição: Nada como uma crise para você descobrir novas habilidades!!

E toma de navegação. Os PCs vinham ao nosso encontro com a maior facilidade. Passamos várias duplas, Eu já acreditava que conseguiria tirar a diferença.... Até chegar ao PC 16....

Que P%¨&*!! aquele PC! Eu bati o 15 e o 17 umas três vezes e nada!!! Navegava, azimutava e nada!! Acreditem!! Enquanto eu procurava esse PC, lá no meio do mato, ouvi um rugido de onça!! Como sei que era onça?? Não sei! Só sei que não me pareceu nada amigável!! Vânia preferiu ignorar meu comentário e atribuí-lo à minha latente insanidade. Afinal, quem é que resolve passar o domingo no meio de um mato desses!! Só sendo muito doido!

Um pontinho cor de rosa pousou de seu vôo rasante e rapidamente me soprou algo no ouvido! Tcharan!!! Achei a trilha que procurava! Era só o que eu precisava! Dê-me uma letra! Eu te dou o abecedário! Lá estava o PC 16 e a Aventureiros 3000!! Dá licença! Esse PC aí é meu!!!

Batido o 16, chegamos ao PC 17 faltando 2 minutos para o corte! Vânia corajosamente enfrentou o arborismo enquanto eu corria atrás de água. Compartilhei meu lanchinho com Manu 'o véio', dissemos algumas besteiras, demos algumas risadas e saímos de novo rumo à penúltima etapa da nossa aventura. PC 18, PC 19... Mais bike!

Batemos o PC 20 e o 21. Agora era só achar a estrada e fim! Tomamos fôlego, água e coragem! Pedalei tudo o que tinha. Mesmo assim, era difícil alcançar minha amiga. Era como correr com o Papa Léguas!!!

Linha de chegada. Ladeirinha. Decidi que ia chegar pedalando. Quase ponho os bofes pra fora, mas consegui! Foi lindo. Chorei tudo o que estava engasgado a semana inteira. Nada como uma prova de aventura pra gente pôr as emoções em dia!!!

Como sempre, cada corrida de aventura me traz uma lição de vida a mais. Eu estava precisando muito dessa prova. Voltei mais tranquila, mais serena e mais corajosa!

Mauro - obrigada por ter insistido. Vânia - Você tem a Aventura no sangue! Ótima companheira. Excelente atleta! Juju tem muitos motivos para ter orgulho da mãe! Quero correr com você de novo! Lu e Gabi - obrigada pelas dicas e parabéns pelo resultado.

Quanto à minha mãe, já quer saber quando será a próxima pra fazer o apoio de novo!

À Turma da Explorer eu só tenho a agradecer. Vocês fizeram mais uma prova linda! Parabéns.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Release - Sergipe praias do Sul Challenge

Luciana me ligou dizendo que havia dado o meu contato para um certo Pugliese de uma certa equipe chamada R2. Ele precisava de uma mulher para correr uma prova em Sergipe. Disse que ia me ligar. E ligou realmente. Lu recomendou tanto, falou tão bem da turma que nem perguntei muito. Topei de cara.
Não conhecia ninguém. Só sabia que a prova era no Sergipe, que tinha 140 km e que Maurão seria o navegador. Essa última referência me animou. Eu ia correr com uma lenda viva!!! Poderia contar para todo mundo! Ei, pessoal!!! Eu corri com Maurão!!

Pois é, conheci Pugliese na Eco Run. Foi muito rápido, nem deu tempo de combinar nada. Ele me passou o site do evento (http://www.nordesteaventura.com.br/index.html) e lá peguei mais alguns detalhes. Nossa turma foi muito legal! Maurão capitão - comandante da tropa; eu, Pugliese e Geraldo - este além de excelente atleta é também massoterapeuta, psicólogo amador; animador de remo e aspirante a capitão do BOPE! Corremos o tempo todo ouvindo seu grito de guerra: - Declaro aberto mais um curso de formação de aspirantes a R2!!!

Ainda havia outra dupla defendendo a camisa R2: Leo e  Fred (flintstone)... Permitam-me a brincadeira, com todo o respeito.
Acertadas as caronas e os equipamentos, chegamos à Praia do Saco na sexta à noite. Aí conheci meus parceiros de aventuras Geraldo, Leo e Fred. O briefing era para acontecer às 21h.... Foi adiado para as 22:30... Depois fomos informados que os mapas chegariam às 3 da manhã.... Mas o briefing ia mesmo acontecer às 6.... Aconteceu às 7h. Mas tudo bem, imprevistos acontecem. Tudo o mais é festa!

A turma me recebeu muito bem. Eu cheguei a me sentir como a Penélope naqueles desenhos em que ela grita SOCORRO!! e aparece a quadrilha de morte para salvá-la. Toda hora um perguntava: Você está bem? Bebeu água? Comeu? Eu estava já me achando!!

Mas não pense que tudo foi moleza não!!! Afinal de contas, sou Penélope, mas também sou do Agreste!
A largada aconteceu quase às nove da manhã. Um sol de lascar o côco!! Saí logo na frente tentando puxar o trekking pra mostrar que não estava ali pra brincadeira!! Tudo que mandavam fazer eu fazia. Sobe a duna! Lá ia eu! Procura a lagoa! Procura o PC! Agora desce a duna! Ufa!! Rapidinho achamos o primeiro PC e isso garantiu uma boa distância da Raso da Cata que vinha logo atrás com sangue no olho tentando pegar a gente!
Ainda na linha de mostrar a que vim, me ofereci para levar a mochila do Maurão. A princípio ele não aceitou a gentileza, mas quando disse a ele que na hora da bike eu ia pedir arrego, ele acabou cedendo. Lá fui eu! Toda feliz me achando o máximo naquele trekking. Eu estava com a maior disposição mesmo.

A estratégia da equipe foi bem inteligente. Quando tinha PC virtual, não ia todo mundo atrás, para não desgastar à toa. Ficávamos esperando em pontos estratégicos e depois ajudávamos de outro jeito. Seja correndo na frente, seja levando os equipamentos. Tudo na maior descontração. O que mais me admirou na R2 foi o controle emocional. A turma tem uma estabilidade incrível e um respeito exemplar um pelo outro. Gostei de ver!
Eu ficava só pensando.. Temos que abrir uma boa vantagem nesse trekking por que sei que na hora da bike o bicho vai pegar!!! Será que aqui tem ladeira????
Na perna de trekking, numa das paradinhas entre um PC e outro, encontramos uma casa muito bonita cheia de gente adorável. Eles deixaram a gente sentar na grama, nos deram água gelada, deixaram eu usar o banheiro e ainda ofereceram o chuveirão para a gente se refrescar. Depois saíram, deixando a casa toda aberta! Com a gente lá se refastelando no gramado deles! Inacreditável!

Pois muito bem,  chegamos no PC da primeira transição. Leo nadou pela dupla e Geraldo pelo quarteto. Eu e os outros ficamos de boa vida tomando coca-cola e comendo melancia. Comecei a achar que a prova ia ser moleza!! Pugliese deitou no chão e tratou de botar as pernas para o ar. Vi duplas desistindo. Acharam o trekking difícil de mais! (hã!! imagina!! um trekkinzinho mole desses! - pensei eu!)

Primeira perna de bike. Eu ainda me achando o máximo. Cheguei a abrir uma dianteira do resto dos meninos. Só estradão em declive! SEM LADEIRA!!! Que maravilha....
O vento começou a jogar contra e mesmo descendo eu fazia força de quem estava subindo. Foi ficando difícil e só ouvi um zunido do meu lado. Era Maurão provando porque é uma lenda nas corridas de aventura. Daqui a pouco passa Geraldo, Pugliese e Fred... e eu ficando pra trás.... Até que Leo começou a dar uma forcinha e consegui alcançar Fred, que segurou a onda para me esperar. Fred (fliststone) resolveu servir de quebra-vento para mim. Com um quebra-vento daquele tamanho ficou fácil.... Desenvolvi bem, até chegar ao areal...

Primeiro veio o PC da capelinha. Só uma parte da equipe subiu. O restante, incluindo eu, ficou debaixo de um pé de umbuzeiro contando histórias. Numa dessas paradinhas eu vi uma coisa inédita! Maurão estava com cãimbras e o músculo da sua panturrilha se contraía sozinho! Fiquei impressionada! Para aliviar a dor, ele baixou a meia e deixou a panturillha tomando um arzinho... Foi seu erro!
Na próxima sequência, enquanto perseguia um PC foi perseguido por um cão. Adivinha onde o bichinho foi morder??? Na panturrilha exposta, é claro!! Nem para escolher a outra que estava vestida, aquele cão safado!

Bom minha gente, tinha também o areal. Aí o bicho pegou pra mim. Pedala... Pedala...... atola, derrapa, pára, desmonta e começa tudo de novo. Incorporei o Rabugento e fiquei parecendo a Gabriela. Xinguei todos os palavrões que conheço várias vezes. Pugliese, que vinha atrás para me acompanhar não dizia nada. O que ele vai pensar de mim? (pensei eu). Que sou uma doida varrida e mal educada! Mas dava raiva mesmo! Uma ou outra vez eu conseguia passar, mas na maioria a areia me vencia. Resultado. 5x2 para o areal!

Chegamos ao remo. Cerca de 40 km!! Meu máximo havia sido 8 km na Carrasco Fast. Pensei com meus botões... vou levar umas 10 horas nesse rio! Errei... Foram 11!!
No início eu estava bem. Ia com Pugliese. Chegamos a alcançar e até passar os outros caiaques do nosso grupo, que a essa altura já havia se convertido em sexteto. Onde estão as outras equipes? Sei lá - dizia Leo - Só sei de uma coisa, temos que chegar antes da Raso da Cata, ou eu não vou aguentar a gozação de Tatiana! Taty corria na Raso da Cata e estava decidida a nos passar de qualquer jeito! A menina é uma fera!! Boa candidata a Penélope!

Aí minha responsabilidade aumentou. Tinha que remar aquela p$%#¨!! O Sol se pôs, anoiteceu, a Lua nasceu... Pegamos os três PCs desse trecho. Num deles, tínhamos que parar no restaurante da Dona Santinha. Parada obrigatória para comer. Promessa de um certo camarão ao alho e óleo que era o sucesso daquela região. Tudo escuro do lado de fora. Vento. Cachorros latindo. Pensamos todos... Não vai ter comida nenhuma nesse lugar. Pugliese foi o primeiro a abrir a porta da casinha. Meio incrédulo, abriu um sorriso quando viu uma mesa simples toda arrumadinha e uma senhora servindo a comida. Um outro senhor muito simpático e bigodudo nos recebeu de braços abertos: Sejam benvindos!! Pugliese nem acreditou. Para quem é essa comida toda? - É para vocês!!! Conforme o próprio Pugliese disse mais tarde - era como abrir a porta da esperança!

Eu chegava a estar tremendo. O que é isso Lucy? Está com frio? - Não gente! É fome! Estávamos remando há umas cinco horas. Servimo-nos! Feijão, arroz, peixe frito, saladinha e o tão esperado camarão. Tudo muito bem temperadinho e regado a coca-cola de litro de vidro! Ao final... Vocês aceitam um cafezinho? Claro, Dona Santinha!! Ela vem toda educadinha com um dedinho de café numa xícara azul... Oh, Dona Santinha, não leva a mal não...mas ... Bota café nessa xícara!! Tadinha, ficou toda sem graça com essa minha agrestia, mas me serviu quase a garrafa inteira! Ainda bem que tomei aquele café!

Comemos, compramos os alimentos não perecíveis para a ação social, conforme mandava o racebook e voltamos ao remo. Tinha mais um PC para pegar antes de voltar remando rio acima.
Pegamos o último PC desse trecho, na ponte que estão construindo para aproximar o Sergipe da Bahia. Tinha que anotar o nome do bar e do dono. Acho que era Porto do Sol e o dono era um tal de Robson.. Sei lá...

Havíamos remado 17 km. Agora, só faltavam os 17 da volta! Achamos que ia ser moleza. Alguém disse que íamos fazer em 3 horas. Eu duvidei. Rio acima é mais difícil. E eu lembrava de ter visto uma bifurcação no mapa que fazia um redemoinho. Lembrei que já fiquei presa num redemoinho desses. A sensação de remar para frente e andar para trás é horrível!
O cansaço começou a bater. Entramos naquela síndrome que nos faz acreditar no ilógico. Achávamos que estava chegando, mesmo sabendo que isso era impossível. Precisei fazer umas pausas para descansar as costas, assim como meu parceiro de remo. O resto da turma abriu vantagem sobre nós. Foi ficando cada vez mais difícil. Eu não senti sono. Talvez pela mistura de coca-cola com café e pela tensão de não querer me perder do resto da equipe.

Comecei a prestar atenção ao ambiente. Um céu lindo, pontilhado de estrelas. A Lua cruzando o céu. Acompanhei toda a sua trajetória até ela se pôr do outro lado do rio. Nunca havia visto isso antes. Repensei toda a minha vida. Meus problemas, meu trabalho, minha família, meu relacionamento... Fiz DR comigo mesma! Foi ótimo. Saí daquele remo no limite da minha resistência, mas também saí espiritualizada. Incrível como essas condições extremas mexem com a cabeça da gente.

Lá pela meia-noite (detalhe! começamos a remar às 2 da tarde), algo estranho aconteceu. Eu esqueci como remar! Não tinha jeito de botar o remo na água! Eu simplesmente não sabia mais! Pugliese ria. Eu também. Tive que reaprender tudo ali, na hora. Levou um tempão até que eu conseguisse remar de novo no automático. Eu tinha que ficar repetindo para mim mesma: Olha o lado da pá, agora gira a pá, agora olha como a outra pá entra na água... uma viagem!! Defeito mesmo. Curto circuito total!

Avistamos uma luz!! Olha, gente, é o PC!!! O ânimo se renova nessa hora. Conseguimos remar num bom ritmo. Todos em busca da luz, como mosquitos numa noite de verão.... Doce ilusão... O PC na verdade era uma iluminação de pescador. Deixada ali, no meio do rio para sinalizar sei lá eu o quê! Eu parei e falei: - Eu tô ficando doida ou isso é uma vela acesa no meio do rio? Todo mundo riu. Fred fez graça. Disse que era despacho e tal.. Achei melhor não brincar com essas coisas... sei lá... vai que alguém se zanga com a gente!

Pugliese não fala enquanto rema! Me deu saudade da Lulu. Queria conversar para passar o tempo, mas minhas tentativas não renderam muito resultado... Aí comecei a cantar... Acho que funcionou, porque de repente, meu parceiro de remo começou a falar.. Pensei com meus botões: - Ele deve estar pensando que é melhor falar comigo do que me escutar cantando!!

Cansamos de falar e de cantar. Remada monótona e silenciosa. Eu estava frustrada. Não reconhecia nada. Achei que estávamos perdidos. Lembrei de Tadeu que remou por horas até descobrir que estava no rio errado. Comecei a me conformar em remar até o dia amanhecer. Parei várias vezes para descansar, mas tinha pena de Pugliese que estava fazendo leme e não era justo ainda ter que me rebocar! Procurei não reclamar. Não ia adiantar nada mesmo!

Passou um barco do corpo de bombeiros. Escutei os caras dizendo: - É pescador! São dois barcos! Duas redes!! Nem tive força de responder. De repente eles perguntaram: - Quem está aí? É caiaque? - É sim! São dois caiaques! (Acho que Leo estava no outro, mas nem dava para ver direito). Os bombeiros foram embora sem perguntar mais nada,. afinal corredor de aventura tem mais é que se lenhar!

De repente, o silêncio ficou mais quieto ainda. Nós nos perdemos de todos os outros caiaques.

Se os espíritos das matas se zangaram, eu não sei. Porém, fomos iludidos mais uma vez. Começamos a remar em direção a outra luz... mais errada ainda que a primeira. Ela nos levaria para o outro lado do rio, se não fosse Maurão gritar: PUGLIESE - Vire para a direita!!! O PC não é aí!!! Foi a última vez que ouvi a voz do Maurão por um bom tempo! Remamos por quase uma hora e a luz permanecia à mesma distância. Creio que caímos no famigerado redemoinho. Eu  perguntava: - Pugliese, você sabe onde estamos? Está reconhecendo alguma coisa? Está vendo os outros?

Ouvi uma única e taxativa resposta: - Não!

Depois de muito tempo, chegamos finalmente ao PC. Maurão comia alguma coisa e de boca cheia nos dizia: -BORA GENTE, a Raso da Cata tá vindo aí!!! (Eu disse que não me deram essa moleza toda!!!) Nem deu tempo de descansar! Sobe na bike. Faz o areal todo de novo!!!

Pedala... Pedala...... atola, derrapa, pára, desmonta e... Quem disse que eu montava?? Não tinha força de subir na bike!! Parei de vez! Leo, com a maior paciência do mundo tentava me acalmar. A prova está terminando, você não pode quebrar agora. Aguenta firme!! Chegou todo mundo para ver o que houve! Maurão, acho que se lembrando do que eu disse no trekking, logo se ofereceu para levar minha bike. E eu fui andando. Depois de massagem no ombro, relaxante muscular e alongamento, consegui voltar a falar! Porque pedalar ainda demorou um pouquinho!

Finalmente, no final do areal, subi na bike decidida a não descer mais. Aí foi minha vez de enfrentar os cachorros. Aqueles cães assassinos, não satisfeitos de comerem a panturilha do Maurão, agora queriam a minha!!! Logo a minha!!! Eu comecei a escutar os latidos cada vez mais perto. Cheguei a sentir o bafo do cachorro no meu cangote e Leo me dizendo: Continue pedalando! Eles desistiram!!! Sabia que era mentira, mas nem quis olhar para trás. Pedalei gente! Acho que até passei por mais um monte de areia e nem senti!

Finalmente chegamos ao asfalto e voltei a pedalar feito gente. Ainda paramos para mais uma coca-cola com pastel frio num pagodão na beira da estrada. Hilário foi ver o Geraldo fazendo passinho de pagode, descendo até o chão, todo vestido de corredor de aventura!!

Mais um pouquinho de pedal, mais uns dois PCs e eu vi o dia amanhecer na linha de chegada!! Outro momento espiritual. Inesquecível!! E o melhor!! Chegamos antes da Raso da Cata para a alegria de Leo!

A prova foi uma grande diversão. A competição foi contra nós mesmos. A equipe se integrou muito bem. Mesmo não me conhecendo, todos me trataram como se eu já fosse da equipe. Maurão, por sua vez provou de novo que é um excelente navegador. 

Foram várias superações. Fred e Geraldo correram sua primeira prova. Mauro e Pugliese enfrentaram o trekking com valentia; Eu fiz meu primeiro remo noturno, virei minha primeira noite acordada em uma prova, pedalei em estradão sem sentir medo! Tudo isso valeu muito a pena! Essa corrida fez muito bem para a minha cabeça. Eu precisava daquele silêncio no remo para refletir sobre várias coisas. Saí mais forte, mais confiante e mais feliz.
Para completar, descansamos um pouco e fomos todos passear em Mangue Seco no domingo. Aí eu vi mais um pôr do Sol e renovei as energias!




Obrigada à R2 pelo convite e pela confiança!
Aventureiros - Estou pronta! Que venham as próximas provas!!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Orgulho e Preconceito

Eu quero expressar minha opinião sobre o preconceito.


Sou nordestina de pai e mãe; nascida e criada no subúrbio do Rio. Já morei na baixada fluminense e me criei num lugar longe pra burro, chamado Campo Grande - só quem é suburbano mesmo conhece! Minha rua não tinha asfalto! Estudei em colégio público, andei de ônibus e dividi merenda na escola.

Sou afro-descendente, mulher e ainda por cima... tenho cabelo 'duro'. Sei, conheço e sofri quase todo o tipo de preconceito. Posso dizer por experiência própria - Preconceito não é legal!!!

Fui professora de escola pública. Ensinei donas de casa, assistentes de pedreiro, soldadores, babás. Também fui professora da classe média. Ensinei ricos e pobres. Em todas as classes por onde andei, vi gente boa e gente ruim em igual proporção.
 
Quando vejo moças bem nascidas. De mãos lisas que nunca ariaram uma panela ou pegaram numa vassoura, humilhando pessoas por sua origem me dá uma tristeza infinita. Isso é ridículo e vergonhoso. O Brasil é um dos países mais diversos do mundo. E é essa diversidade que nos dá criatividade e força. É o que temos de melhor.
 
O que é preciso fazer para que os seres humanos se respeitem?
 
Tenho orgulho da minha origem. Minha persistência vem do Ceará; minha coragem vem do Sergipe e minha resistência vem da África. Meu 's' chiado vem de Portugal e meu amor pelo mato vem dos índios, meus ancestrais também. Sou carioca, pois nasci e me criei ali. Sou baiana, pois adotei essa terra para viver. Sou uma brasileira legítima e exijo respeito!

domingo, 17 de outubro de 2010

O menino da porteira e o jovem boiadeiro

Hoje me deu vontade de comprar um vinho, uns queijos e ver um bom filme. Comprei um Carmenére chileno, muito gostoso por sinal. Comprei meus queijos e fiquei procurando um filme pra ver. Achei um filme nacional. "O menino da Porteira". Ele me lembrou a infância então, resolvi assistir.

Quando eu era criança, morei por uns tempos num lugar chamado Prata, dentro de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Ali todo mundo era primo ou tio. Era um bairro cearense. Eu tinha uma tia velha. Não lembro o nome dela. Ela tinha um monte de filhos e eu ficava com ela quando minha mãe estava no trabalho.
Minha tia anônima adorava o Sérgio Reis. Achava-o lindo e gostava das suas músicas. Naquele tempo, "O menino da porteira" era um sucesso. Quando tocava no rádio, ela punha no volume máximo. Dava pra ouvir do fim da rua quando eu voltava da escola. Ela chorava com aquela música. Eu também achava triste. Pobre menino. Morto por um boi brabo.
Hoje vendo o filme, chorei como minha tia velha. O menino era como imaginei. Lindo, trigueiro e fofinho. Não tem como não se emocionar. Chorei também porque lembrei da minha mãe e das histórias que ela conta da sua infância. No filme, o pai do menino se chama Otacílio. Minha mãe tinha um irmão, chamado Otacílio.
Meus avós, Dona Carminha e Seu Conrado, moravam no interior do Ceará. Herdaram uma terrinha, parte do império do meu bisavô. Brígido Alves de Moraes. Vô Brígido era dono de Bela Aliança. Até hoje, há lugares lá perto que fazem menção ao seu nome. Não é preciso dizer que a terra se dissipou entre as dezenas de filhos que nada entendiam de agricultura. Mas isso é assunto para outra história.
Otacílio era o filho favorito de dona Carminha. Bonito, forte. Muito parecido com o pai, Aliás, Vô Antônio Conrado só confiava nele para cuidar do gado. Naquela tarde, Otacílio saiu, como sempre, para tanger os bois do pasto de volta para a fazenda. Vó Carminha sentiu um aperto no peito, mas como era sempre muito sensível, achou que era fricote. Otacílio pegou sua égua mansa. Um animal bonito e forte como ele. Estava acostumado com aquele bicho. Tudo transcorria na mais perfeita normalidade.

O gado comia seu pasto tranquilamente. Otacílio, como sempre, conduziu os bois com maestria. Passou pela porteira, pôs todos os bichos no lugar...

Otacílio então, resolveu voltar para casa, De repente, algo estranho aconteceu. Dizem que foi cobra, mas na verdade ninguém sabe ao certo até hoje. Só sei que aquele animal tão manso começou a correr desembestada fazenda adentro. O casarão tinha um alpendre comprido na frente (espécie de varanda estreita e longa). Mas fora construída em desnível. A ponta do alpendre dava para um vão muito alto. A égua enlouquecida avançou para o casarão, subiu no alpendre e correu até o final, empacando bem na ponta do vão. Meu tio foi jogado no chão com tal violência que quebrou o pescoço na hora...

Valei-me minha nossa senhora!!!Antônio! Antônio! Acode meu filho pelo amor de Deus! Meu Deus. Que desespero. Vó Carminha soluçava como se todos seus filhos tivessem morrido ao mesmo tempo. Vô Conrado, valente que só, não chorou na hora. Tentou acudir o filho, em vão. Lhe deu colo, jogou água em sua cara.... Nada.. Tio Otacílio já tinha partido. Tão valente. Tão forte. Tão Conrado! Ao ver que não tinha jeito, Vò Conrado fez a única coisa que julgava ser certo. Levou a égua louca para a manjedoura e lá a sacrificou. Para ter com seu cavaleiro no outro mundo e expiar sua culpa.

A tristeza dominou a fazendinha. Por muitos anos. Uma cruzinha branca foi posta no local. Pessoas que passavam a cavalo deixavam flores. Otacílio virou lenda. Vó Carminha teve muitos filhos, mas nenhum foi como Otacílio. Ela jamais esqueceu sua dor.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Carrasco Fast 2010 -55 km de diversão

Decidi escrever logo meu release enquanto os arranhões e as marcas de cansanção estão bem vivas na memória.. e na pele!
A prova foi linda. De todas, a que eu mais curti até agora. Não tanto pelo pódio, porque isso a gente só sabe no final. Mas por cada etapa, cada superação, cada dificuldade que tivemos que resolver.

Igor e eu queríamos correr a prova de 100 km. Tentamos montar um quarteto, mas nossos convidados tinham compromissos de trabalho no feriado.
Conformada com a frustração atendi a um telefonema do Mauro, sexta à noite perguntando se eu topava correr a prova de 55km. Meu bom senso levou menos de um minuto para ser convencido por minha insanidade a correr a prova. Sem planejamento, sem apoio, sem nada pronto.
- OK. Eu topo! Vou ligar pro Igor. A insanidade dele também estava de plantão e ele topou sem perguntar como!
A ideia era compartilhar o apoio da turma da Makaíras 2, o que foi muito importante especialmente nos trechos mais difíceis de navegar, logo no início da prova.

No sábado, eu joguei tudo o que achei importante levar no carro e lá fomos nós. Peguei Igor em casa e saímos, rumo a Feira de Santana. Só pudemos sair as 18h porcausa dos nossos compromissos. Fizemos a inscrição na hora, na maior correria. Conhecemos a turma do nosso apoio compartilhado, arrumamos as coisas e entramos no clima. Enquanto a turma estudava os mapas, a gente engolia o jantar. Enquanto a turma curtia o show, a gente tentava entender o mapa!!!


Pontualmente, as 22h, começou a corrida. 5.2k de asfalto. Só pra aquecer! O jantar conversando conosco a corrida toda. Que delícia!!! Chegamos ao PC1. Nossa primeira dificuldade foi entender como sair da cidade. Nada fazia sentido. Como bons novatos, pedimos apoio... Nesse momento a navegação do Mateus (Makaíras 2) nos salvou. Sem ele a gente estaria procurando o PC2 até agora. Trechinho curto de bike, mas muito escuro. A trilha ficava bem escondida.

Tinha uma pequena descida de cascalho, no escuro, que passava por numa ponte sem proteção lateral. Meu primeiro grito:

- IGOR!!! Eu tenho medo de ladeira!!!!
Eu só via o que o farolete da bike mostrava, o que era nada! Igor foi. Eu também fui!! Nada de mais para quem pedala, mas para mim, foi a primeira superação. A coisa melhorou um pouco quando os carros de apoio começaram a chegar. A luz dos faróis me mostravam o caminho e aí eu vi onde tinha me metido!
Dali partimos para o PC3 para acompanhar a prova e esperar a galera que voltava do remo. Ficamos alí com os apoios e deu pra tirar um cochilo. Deu pra ver a Aventureiros chegando e até dei uma forcinha na transição. Aliás, Fred se saiu muito bem no apoio. Dedicado, concentrado. Preocupado em não deixar faltar nada. Entre um cochilo e outro, conversamos bastante.
Fred - ainda quero correr com você. Quero ver se vc é essa brabeza toda, mesmo!! A gente vai rasgar muito mato!!!
Lá pelas 4h da manhã, fomos direto para o PC11 junto com a Makaíras 2 de onde partiríamos as 5:15. Como ninguém aparecia, dormimos mais um pouco. Finalmente, chegam Paulinho e Marcia e autorizam a Re-largada: 5:50!!!
Vamos escalar aquele morro ali. Pensei: fichinha!!! Perto do morro do castelo, aquele parecia uma leve ondulação!! Beleza. A subida foi mole. Batemos o PC12 a 180m de altura e curtimos o belíssimo visual do lugar. A descida foi punk!!! Tinha que ir de rala-bunda mesmo, pra não se estabacar no precipício. Aí, minha gente, foi rasgar mato! Os pés de espinho nos abraçavam com tanto amor, que não queriam mais largar! Em uma das equipes tinha um pobre rapaz que resolveu fazer a prova de bermuda. Não preciso dizer que ele deu o sangue pela prova!
A Giramundo nos encontrou e rasgamos mato juntos até achar a trilha para o PC 13, que encontramos graças a um gentil nativo que com toda delicadeza nos mostrou o melhor caminho:

- Vocês é doido!! Quer ir por aí, vai, problema seu, mas tá errado. O caminho é por ali, por dentro da fazenda! Agradeci a gentileza, mas o moço me ignorou solenemente!
Quando achamos a trilha principal, Igor e eu entramos de fato na competição. Começamos um trekking forte e rolou até uma corridinha. Abrimos uma boa distância com relação às outras duplas e à nossa frente, só havia a Giramundo. Passaram por nós a Gantois e a Raso da Cata também. E toma treking... anda... anda...

No PC 13 a diversão começou pra valer. Chegamos 9:15. O corte era 9:30. Conseguimos sair antes do primeiro corte. Animados, pegamos as bikes e saímos com sangue no olho. Vendo que não tínhamos mais ajuda na navegação, tivemos que nos virar sozinhos. Igor deu um show!!!
Cada PC batido aumentava nossa disposição. Estamos na briga!!! Era como competir com as equipes de ponta. Batemos todos os PCs entre os 4 primeiros. Toda hora eu via a Gantois, a Makaíras 1 e a Raso da Cata. Estávamos na cola da Giramundo. Batemos quase todos os PCs do trecho de bike junto com eles. O capitão da Giramundo me deu parabéns! Disse que eu estava indo muito bem! Aí mesmo que pedalei. Subi e desci todas as ladeiras daí em diante! Eu estava me achando o máximo!
Turma, vocês tinham que ver Igor navegando e pedalando! Dava gosto! Além de bom na bike, ele é muito inteligente. Tem intuição e pensa rápido. Escolhemos navegar pelo caminho mais longo, porém, mais pedalável. Com isso, pude aumentar minha velocidade. Foi o que nos ajudou a bater todos os PCs rapidamente, enquanto outras equipes se atrasavam em trilhas estreitas e ladeiras de cascalho! Quem precisa de ladeiras de cascalho?

Felizes e motivados chegamos na zona de transição. PC 19. Era para encontrar o apoio, reabastecer água e comida, pegar os coletes e seguir de trilha até o remo

... Apoio.... Onde estará o nosso apoio?.....
Complicou!! Como o carro estava apoiando outras duas duplas, acabaram se desencontrando da gente. Com pouca comida, a água acabando e sem coletes, aquele poderia ter sido o fim da prova para a Aventureiros 2.
Mas eu não me conformei. Igor, chegamos até aqui. Vamos chegar até o final. Não vou desistir agora! Paulinho, precisamos de coletes, nos ajude!!! Paulinho ficou comovido. Viu que a gente não ia desistir mesmo e se ofereceu para levar nossas bikes para a outra transição.
Paulinho nos orientou a fazer o trekking até a beira do rio, esperar a lancha da organização e ver se conseguia coletes com eles.
Lá encontamos a Aventureiros 1 atravessando. Pedi ao Mauro pra avisar lá no outro trecho e mandar a lancha nos dar apoio. Comemos o que nos restava e lá ficamos, dependendo da sorte... Ao nosso lado, dois integrantes da Kalangos se preparavam para atravessar. Um deles com cãimbras até na sobrancelha, não conseguia nadar. Entrava no rio. Saía do rio.. nada. E a gente ali. Quietinhos, rezando pra chover colete!

Meu anjo da guarda, (pra quem não conhece, é menina e se chama Luiza) ouviu minhas preces. A gentil dupla nos ofereceu os coletes. Estavam abandonando a prova. É claro que não desejei que eles abandonassem. Mas os coletes foram muito bem vindos! Agradecemos e nos jogamos! Amarrei meu tênis cuidadosamente na mochila e lá fui eu. Nunca tinha feito travessia antes! Foi uma delícia. Nadamos uns 700m e quase no final da percebi que não sei dar nó!!! Cadê meu tênis!!!!! f¨&*%!

Fiz um rápido cálculo de probabilidades e concluí que era mais fácil chover tênis que eu encontrar o meu naquele rio. Vamos em frente Igor!Vou descalça mesmo!

Chegando na margem calcei os dois pares de meia que restaram e seguimos por uns 3 km pelo mato. Tava até gostoso. Brinquei com Igor: Não tô sentindo nada! Não tô sentindo meus dedinhos, meus pezinhos.... Ai KCT, o chão tá quente. Tem espinhos. Não dá pra correr!!!

Daí eu tirei a lição número 1: Quando você achar que está cheio de problemas, abrace-se a um cansanção! É milagroso! Tudo o mais se torna relativo após um breve contato com essa adorável espécie nativa! Igor só escutou meu grito: P%¨& que P%$¨&*&!!! P##$$$. M@!#$!

O que foi, Lucy? Respondi quase chorando: Cansanção! Mas tudo bem, vamos embora que agora é que não estou sentindo nada mesmo! Esqueci a fome, os pés molhados queimando na trilha, a sede... Só sentia o banho de pimenta nas pernas!

Saindo da trilha encontramos um bar e resolvi pedir apoio:
- Moça, é o seguinte: não temos dinheiro, não temos água, eu perdi meu tênis e ainda temos uma prova para terminar.

Os meninos da casa encheram nossos skeezes com água quente da bica e nós pagamos com o que restava de amendoins!! Na realidade, o amendoim estava dentro de um dos skeezes pra não molhar. Acabamos dividindo com eles pra liberar o skeeze. Isso tudo no maior bom humor!! Eles se admiraram de como alguém poderia estar tão feliz numa situação dessas! A turma do bar nos ofereceu um mocotó que estava até bonito. Mas achamos melhor não abusar da hospitalidade...

Seguimos para os remos. Lá estava o barquinho que a ´Olhando´ emprestou pra nossa equipe. Lá estavam nossos remos, gentilmente alugados pelo Reizinho. Estávamos muito felizes! Tudo o que a gente queria era remar!

Igor nunca tinha feito leme na vida! Dei a ele algumas dicas teóricas e ele foi se ajustando. Aprendeu ´natora´! Parece que nasceu pra fazer leme. Remamos por quase quarenta minutos e eu perguntei se faltava muito. Igor disse que faltava um pouquinho. Pedi pra ver o mapa.....

-CARACA!!! A gente vai remar isso tudo!!! - Disse eu apontando para o primeiro PC que vi, que era o 3.

- Não, Lucy

- Ah, bom!

- A gente vai remar até aquele alí ó. O PC 21, lá em cima!!!

- P$%%¨¨¨##@@!!!!

Oito quilômetros de remo. Quase duas horas da tarde. Céu azul. Sol castigando!!!

- Tá ótimo!!! É pra remar, né? Então, tá! Você ´lema´ que eu remo!!!

Decidimos quebrar os 8km de remo em referências e celebramos cada pequena chegada. Agora, é até aquela curva. Agora, até a península, até aquela pedra, etc. Vamos remar até aquela casa bonita ali na frente. Lá deve ter uma feijoada nos esperando....

O visual do remo foi um show à parte. Eu vi um carcará, tinha gaivotas e Igor viu um tatu enorme. Foi lindo.

Igor, tô com fome! Dividimos as últimas balas de mel e isso foi suficiente para me reanimar. Rema, Rema, Rema...

Igor ficou quieto. Um bom tempo. Não ouvíamos nada. Só o barulho dos remos. De vez em quando passava um barco, um jetski, um boi mugia. Nada de equipes. Nenhum caiaque sequer! Estamos sós no mundo. Todos nos esqueceram..

De repente, Igor fala baixinho... Estou vendo uma estrada... ela é alta.... é a ponte. A PONTE!!!! A PONTE!!!!

A gente começou a gritar feito náufragos quando avistam a praia. Que alegria!! Quase duas horas remando com o sol quente na moleira, água de beber mais quente ainda e praticamente sem comida!! Foi lindo!

Cadê o PC 21? Onde estará o apoio? O que foi feito das nossas bikes?

????????????

OK. Entendido. Escapamos do primeiro corte, mas tivemos que engolir o segundo!! Mais dois quilômetros de remo até a chegada...

Chegamos, estacionamos o caiaque e corremos pro abraço. Marcinha nos recpcionou, deu os parabéns e trouxe os troféus. Parabéns, vcs ficaram em segundo lugar!!!!Igor e eu nos abraçamos e comemoramos muito!!!

Mas então, curiosa como sou, quis saber pra quem tínhamos perdido. Marcinha começou a explicar sobre os cortes, como funciona, etc, etc....

...

- Péra aí!!! Um momento!!! Vocês NÂO tomaram o primeiro corte!!! Devolve aqui esses troféus... Ela foi lá, conferiu suas anotações e voltou.

- Desculpa, gente! Vocês ganharam! O primeiro lugar é de vocês!! E é bem merecido! Podem se abraçar de novo!!


Aí comemoramos muito de novo!!! Inesquecível!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Fazer 38 anos

Parece uma arma. Uma mulher de 38. Todo mundo espera muito de uma mulher de 38. Ela deve ser forte, determinada, bem resolvida. Deve estar em ótima forma, ser boa mãe e uma profissional bem sucedida. Ela fica linda de batom vermelho e arrasa a festa com seu salto alto. E se ela não for nada disso, então será só uma solteirona mal amada, mal resolvida e baranguda.

A sociedade é cruel. Um homem de 38, casado ou solteiro é um homem. Uma mulher de 38... depende. Pode ser uma deusa ou uma diaba....

Gosto de ter 38. Tenho ares de diva autoritária. Eu mando. Eu faço. Eu quero. Estou no meio. Nem deusa nem diaba. Mulher. Mãe. Profissional. É só o que sou. Com defeitos e virtudes.

Sempre admirei as mulheres de 38. Acho que essa idade deveria durar uma década. É um momento muito bom. Todas as mulheres deveriam ter 38 anos. Acho que não vou mudar de idade tão cedo!

domingo, 29 de agosto de 2010

Quando se quer bem.

As vezes eu me perguntava se realmente havia amado alguém. Tive muitas paixões súbitas. Daquelas em que o coração parece que vai sair pela boca só de ouvir o telefone tocar. Daquelas em que a gente fica com cara de boba lendo um e-mail ou vendo uma foto. Eu me questionei se eu amava o indivíduo ou a ideia do amor. Como Platão. Sonhando com a perfeição e projetando uma imagem irreal no outro. Sem querer enxergar a realidade. O fim era sempre o mesmo. Uma profunda e dolorosa decepção. Comigo mesma. Por ter sido tão tola.

Há tantas frases feitas para descrever o amor. Há tantos poemas. Tantos dramas. Mas no fim, tudo redunda no mesmo. Gosto do poema do Luiz de Camões. É ferida que dói e não se sente. É um contentamento descontente. Tão contrário a si é o mesmo amor...

Concluo que amei sim. E muito! Na maioria das vezes, amei uma ideia. Um super-homem. Um herói. Acordei vendo que a fantasia era grande demais para o homem de carne e osso que se punha diante de mim. Pobres homens. Não tiveram culpa por meus devaneios.

Hoje eu amo. E hei de amar para sempre. Por que o que vejo diante de mim é um ser humano. Com toda a complexidade e riqueza que pode existir no mundo. Acertando. Errando. Falando português errado e relaxado, mas nem por isso, menos culto. Tendo dúvidas e medos. Sendo forte, como convém a um homem. Sendo frágil como também lhe convém. É um homem. É um menino. É tudo junto ao mesmo tempo.

Aprendi a aceitar as pessoas como elas são. Aprendi que amar não é cegar-se aos defeitos. Mas reconhecê-los, compreendê-los e até achar graça neles. Aliás, defeitos não existem. São características que tornam cada pessoa diferente da outra. Amar é não fazer comparações.

Está certo também o apóstolo. O amor não é egoísta. É generoso. É paciente e bondoso. É difícil amar assim. Sabendo que o outro não é meu. Não lhe tenho posse. Nada posso esperar em troca. Apenas desejar que me ame também. Não posso exigir fidelidade ou cobrar compromisso. Aliás, nada posso cobrar.

Você está livre e o que o prende a mim é só a sua vontade. Não lhe peço nada. Também nada posso te dar. Amar assim é só sentir. É a mais pura liberdade. Te quero feliz. Te quero bem. Perto ou longe de mim. Quisera fosse perto, mas se a distância é nosso destino, devo engolir a dor e seguir vivendo. E ser feliz também.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Quando eu tiver 90 anos

Quando eu tiver noventa anos.
Quero dançar. Quero pintar. Quero escrever.
Serei avó de duas meninas. Lindas.
Vou contar histórias. Pintar e bordar. Dançar e cantar. Até que a voz me traia.

Quando eu tiver noventa anos
Já não terei pressa.
Meus cabelos espessos serão brancos e meu filho vai rir das minhas piadas.
Minha casa será cheia de plantas. E de gente

Quando eu tiver noventa anos
Vou convidar você para um chá.
Vou assar um bolo de laranja.
Vamos conversar sobre o passado. Sobre o presente. E sobre o futuro.

Quando eu tiver noventa anos.
Serei uma bela avó e terei vivido tudo. Intensamente

Estarei pronta pra virar semente. Vou morrer dormindo. E sorrindo.
Lembrando de você.

sábado, 17 de julho de 2010

Luiza

Luiza é o nome da minha filha. Ela não existe ainda. É só uma ideia. Mas ela tem nome. Olhos castanhos claros. Cabelos encaracolados. Ela é espontânea e sapeca. É esperta. Corajosa Ninguém lhe fará de besta.
Luiza sabe a hora de entrar e de sair. A hora de brigar e de ficar calada. Luiza é muito querida por todos. É uma ótima companhia.
Não terá aquela chatice de adolescentes que odeiam as mães. Ela vai adorar a mãe, como a mulher mais importante da sua vida.

Ela vai ser feliz. Ser amada e respeitada. Vai ser d'Aventura! Do mato. Da montanha. Do rio. Do mar. Ela vai ser linda.

Luiza virá em algum momento ao mundo. Para iluminar a vida de todos nós.

domingo, 11 de julho de 2010

E se você só tivesse 30 dias?

Trinta dias. Somente trinta dias.
Parece pouco. Parece muito. Depende de que lado da ponte você está.
Indo. Ou esperando para voltar.
Um dia você percebe que o Sol está mais brilhante. As coisas se desenrolam mais facilmente.
Até a chuva parece mais agradável.
Um dia o trânsito não incomoda. As pessoas ficam mais educadas. Simpáticas. Bonitas.
Um dia você pensa que chegou a hora.

Aí você descobre. Você (só) tem trinta dias. O que vai fazer com o seu tempo é escolha sua.
Não há encantamento que dê jeito... nem amigo do peito... que resolva. O tempo não estica nem encolhe. O tempo é.
É frio. Implacável. Matemático. Contínuo. Ele não pára para você pensar. Decida-se. Já lhe restam 29 dias e 23 horas.

Não há mais razão para pensar. Protelar. Se esconder. Há sempre uma escolha. Desistir, porque não vai dar tempo mesmo. Insistir porque ainda dá tempo....

Enquanto escolho, o tempo passa. Já são vinte e nove dias e 22 horas. Enfm, decido. Melhor experimentar que sonhar. Melhor se arrepender agora que depois. Melhor aproveitar cada dia como se fosse o último.
Mas ainda assim, sem excessos. Sem euforia. Sem ansiedade.

Provando cada pedaço de bolo. Cada gole de chá. Cada lufada de ar. Cada beijo. Cada abraço. Cada toque. Atenciosamente. Sem pressa. Congelando o tempo enquanto estamos juntos. Por isso, saio sem relógio.
Não preciso saber das horas.

Não há razão para pensar no futuro agora. O que é ou o que poderia ter sido. Ou o que virá a ser. Não há razão para sofrer. O tempo que eu tenho e que tu tens é o tempo que nós temos. É nosso. Faremos o que bem quisermos dele.

E que esse tempo faça bem. Para mim. Para ti. E que o resto do tempo. Das nossas vidas... Seja como Deus quiser.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sobre mim

Sempre achei pedantes os escritores que escrevem sobre si. Sempre os achei pouco criativos. Depois de muito ler, vi que todos deixam escapar um pouco de si em suas obras. Intencionalmente ou não
Então resolvi perdoá-los. Resolvi perdoar a mim mesma também. Hoje vou escrever sobre mim, como se falasse de outrem.

Ela nasceu num dia de muita chuva. Sua mãe fizera faxina na casa no dia anterior. Excedera-se no esforço. Precisava limpar a casa depois do que as crianças do bairro fizeram a sua varanda durante o dia de São Cosme & Damião.

Ai que dores. Ai que dores. Não há ajuda. Valei-me meu São Jorge. Era a quem aquela barriguda chamava. Ai que chuva. Os ônibus passam e jogam água nas duas. Ninguém pára. A sombrinha já se quebrou com o vento. As forças da natureza se mostram valentes. Ela está com medo.  A criança encolhida dentro daquela barriga se contorce. Ela sente dor.

São Jorge não apareceu. Mas sim um táxi. Quiçá o taxista se chamava Jorge. Jamais se saberá Nunca mais foi visto.

A mãe dá sinal. Sabe que não tem dinheiro. Está no Catumbi e o hospital é na Tijuca. Só tem o da passagem. As dores a cegam. Precisa de ajuda.

Ele pára. Moço, meu neném vai nascer aqui na rua. Me ajude. Pelo amor de Deus.
Entre minha filha e fique calma. Tudo vai dar certo.

Ela entrou. Era 1972. A música do toca-fitas bem podia ser do Roberto Carlos, ou talvez do Chico Buarque. Talvez do Caetano. Talvez... Debaixo dos caracóis dos seus cabelos... Talvez.

O taxista anònimo não cobrou a viagem. Ficou no hospital até que a mulher estivesse bem acomodada. E foi embora. Sumiu no mundo. Foi fazer o bem para outrem. Talvez ele nem tenha percebido o quanto sua ajuda fora oportuna.

Nasceu. Era menina. Tinha cabelos cacheados. O pai orgulhoso tomou um porre para comemorar. Vestiu um terno barato e trouxe um buquê de flores. Pensou que agora era mesmo um homem feito. Tinha uma mulher e uma filha. Que grande encrenca! Era fácil comandar uma tropa e combater os subversivos. Mas cuidar de uma família... Isso sim era coisa de homem!

Uma mãe, uma menina, uma mulher, uma criança.... Tudo se misturou naquela hora. Onde terminava a menina e começava a mãe, ninguém sabe. Era só uma menina. Mas agora eram duas. E ele.. era só um homem.