domingo, 22 de julho de 2018

Desafio Ecotrail 2018 - Corrida de Aventura - 07 e 08 de julho

Desafio Ecotrail - Segunda etapa do campeonato baiano de corridas de aventura - 2018.


Dia 1 - 07 de julho de 2018 - 8 km de trekking

Para início de conversa, vamos esclarecer uma coisa: Trail Run é Trail Run, Corrida de Aventura é Corrida de Aventura e licuri é côco pequeno! Estamos entendidos???

Outro dia fui fazer uma pesquisa sobre corridas de aventura no Brasil e o google me trouxe vários exemplos de trail run.... Nada a ver!

Trail run é uma corrida realizada em circuito balizado. A distância é pre-definida, como numa corrida de rua. A diferença é que ocorre no mato. Você só precisa se preocupar em correr e se defender de galhos, poças de lama e desníveis, mas não tem como se perder. É uma delícia e recomendo para quem gosta de atividades ao ar livre.

Corrida de aventura é um esporte beeem mais complexo. Você deve ter habilidade para correr e pedalar na trilha, só que se orientando com um mapa e uma bússola. Seu objetivo é passar pelo maior número possível de PCs (pontos de controle) no menor tempo possível. No modelo tradicional, você correrá em uma equipe de 4 pessoas. Temos também a modalidade de duplas e muito raramente em solo (na Bahia essa opção não é comum. Ainda bem! Prefiro sempre correr em equipe).

Isso posto, vamos conversar sobre a "corrida do Tadeu", ou melhor, o Desafio Ecotrail de Corrida de Aventura

A "corrida do Tadeu" como carinhosamente apelidamos foi muito bem organizada. Veio para para inovar e celebrar os 15 anos do esporte na Bahia. Começando pela escolha do lugar (Tree Bies Resort) - um paradisíaco hotel em Subaúma, litoral norte do Estado. A outra inovação veio pelo modelo da prova. Divida em 2 etapas, na tarde de sábado enfrentamos um escaldante trekking de 8 km (para quem não errou na navegação.... o nosso deu uns 13!). No dia seguinte, tivemos a segunda etapa com o restante do trekking e trechos de montain bike pra lá de lindos! Cada PC contava um pedacinho da história da Corrida de Aventura Baiana.

Formei dupla com Andrea Ulm e corremos na equipe Penélopes do Agreste - galho feminino da árvore dos Aventureiros do Agreste. Optamos pela categoria Open (46 km. A categoria PRO teve 70 km). 

Para ser uma Penélope você precisa ser mulher. Com "M" de retada! Vai correr de batom e esmalte rosa e vai se jogar no mangue como se fosse um jacaré atômico.

Penélopes carregam a bike no ombro, rasgam mato, xingam palavrão e não têm medo de nada. Ainda assim, usam filtro solar, se ajeitam para o selfie e conseguem ser cheirosinhas mesmo depois de 10 horas de competição! Haja dove, rexona, boticários e companhia...
Ser Penélope é assim! Com o mapa nos dentes!
Ainda dá tempo de dar uns beijinhos no marido entre um PC e outro....😊😊😊😊

Um critério a mais que Andréia teve que passar foi aguentar meus gritos. Era "Bora Deaaaaaaaaaaaaaaa" a três por quatro. Nesse critériela tirou 10! A menina tem um controle emocional muito bom! Essencial para sobreviver na vida e no esporte de aventura. Vai se sair muito bem nas provas longas se mantiver a mente tão tranquila assim!

No sábado à tarde, precisamente às 13:00 tivemos a largada da primeira etapa. Tínhamos 10 PCs para caçar em areais, dunas, restingas e matas. Será que estava calor? Bem....Embora julho, é Bahia então...sim, estava um calor de lascar!

Navegando juntas, com foco nos detalhes, não tivemos dificuldades para achar o PC1. Conseguimos uma boa vantagem e saímos até na frente de várias "PRO". Estávamos muito atentas ao mapa e às referências. Nem sempre as distâncias batiam, mas a geografia ajudou bastante. Um morro, uma mudança na vegetação ou o leito de um rio logo nos ajudavam a voltar à trilha certa.


Estávamos muito empolgadas, pois batemos rápido o PC 1 e corremos atrás do segundo, que estava no alto de um cruzeiro. Não era difícil, só tinha um pântano no meio do caminho! Como ninguém aqui é de açúcar, tratamos de procurar o melhor ponto para atravessar e na ausência desse... atravessamos assim mesmo.
Tênis, roupa... tudo molhado e enlameado.... consegui salvar o celular, por que ao menos o rio não estava tão cheio. Passamos com água na altura da perna. Depois da lama, a pirambeira... Uma subidinha gostosa. Daquelas que você sobe de lagartixa e desce de skibunda...O visual porém compensou todo o cansaço. 

Agora era ir atrás do PC3.... O danado estava atrás de uma duna, atrás de uma trilha, atrás de um arbusto, muito bem escondido. Perdemos um tempinho refazendo a trilha umas dez vezes e contando passos repetidamente, até achar o sacana quase que pelo faro.


Esse PC me rendeu um pequeno susto. Enquanto eu farejava marcas de pé de gente, acabei achando uma cobrinha... Para minha sorte, ela estava ocupada se enroscando em outro animal que não deu tempo de identificar. Também não deu para fotografar, porque eu tratei de sair correndo bem rápido dali....

Refeita do susto e felizes por mais um PC batido, paramos para rever a estratégia. O PC 4 e o 5 estavam perto da chegada. O 7 estava por perto.... sem parar para pensar direito, fomos correndo atrás dele. A melhor referência era a casinha na beira da trilha. Dali, era só subir e farejar....Deu um trabalhinho, mas achamos também quase que pelo faro. A toda hora nos batíamos com a dupla Flor do Sertão e com as Caçadoras de Aventura. Essas meninas estão voando baixo e navegando horrores! Quem diria que teríamos tantas mulheres navegando tão bem! Muito orgulho!

Após pegar o PC7 deveríamos ter parado para pensar... Mas, a empolgação era tanta que seguimos esbaforidas atrás do PC8, batido sem dificuldades. Em seguida, também sem muito sofrimento, achamos o 9 e o 10.
Agora era voltar e pegar os PCs 4 e 5, que deixamos para o final por estarem perto da chegada....

Péra aí... Não está faltando nada não????

Andréa abriu o mapa e me chamou com a tranquilidade que lhe é peculiar....
- Lucyyyyy... fizemos uma merdinha....Esquecemos o PC6!

Putz! Lembrei do PC-13 da Noite do Perrengue, onde aconteceu exatamente a mesma coisa. Porém, lá não havia a pressão do tempo e pudemos voltar. Aqui, a história era diferente..... O PC estava muito longe e só tínhamos mais uma hora e meia.

Foi preciso fazer escolhas. E fizemos o que naquele momento nos pareceu o mais correto. Desistimos do 6 e fomos em busca dos outros dois. Tomaríamos uma punição de 5 minutos, mas ainda conseguiríamos finalizar dentro do tempo da prova.

A pressão do tempo, a chateação por ter esquecido o PC 6 e o cansaço atrapalharam um pouco a concentração. É difícil manter o foco o tempo todo, principalmente quando rola uma frustração. Até ali, ainda tínhamos chance de pódio. Agora... não mais.
Paciência! Quem sabe melhoramos na segunda etapa?

Na volta, procuramos muito pelo PC 5, mas só o que achamos foram as Flores do Sertão na nossa cola... de novo! Optamos por pegar somente o 4, já faltando 30 minutos para finalizar o tempo. 

Ainda tentamos procurar o danado nos minutos finais, mas não deu certo. 

Apesar desse contratempo, a primeira etapa foi muito legal. Fechamos o dia em quarto lugar e muito animadas para o dia seguinte.


Desafio Ecotrail - Segunda etapa do campeonato baiano de corridas de aventura - 2018.


Dia 2 - 08 de julho de 2018 - 12 km de trekking + 24 de mountain bike + 80 m de travessia

Organizada pelo educador físico e atleta Fernando Tadeu, essa corrida foi muito especial para mim. Ela representa o fim de um ciclo e o início de uma nova fase de vida. O mais legal é que minhas experiências como atleta de corrida de aventura na Bahia começaram e terminaram com o Tadeu. Com ele corri minha primeira prova, quando não sabia nem andar de bicicleta direito, tinha zero noção de navegação e morria de medo de boi...de cabrito...de cachorro...e de ladeira! Com ele, despedi-me da Bahia, mas não do esporte!

Digo isso porque o objetivo é continuar na Aventura até ficar bem velhinha. Aonde quer que eu vá, onde pousar minha sapatilha, a bússola há de me guiar ao rumo certo!

Por falar em bússola....

Tadeu e sua equipe nos proporcionaram momentos inesquecíveis em Subaúma. O jantar teve parabéns com bolo surpresa para a Cintia, homenagens para os atletas legendários e sobrou até pra mim....que não sou nem legendária nem aniversariante do dia...


Nem sei se Tadeu percebeu a simbologia do gesto dele. Um pouco antes do jantar durante os agradecimentos e homenagens ele mencionou que foi com ele que comecei minha vida de aventuras, na corrida Treinar Adventure de 2009. Ao final, ele me deu sua bússola. A sensação era de ter recebido a faixa preta de um mestre. Essa bússola será guardada como um troféu. Sempre olharei para ela para me lembrar quem sou e de onde eu vim. E sempre que vier a fraquejar, vou nortear minha bússola e seguir confiante para o meu destino. Muito obrigada, Tadeu!

"Eu quero apenas um vento forte...levar meu barco pro rumo norte..." (Roberto Carlos)

O domingo amanheceu fresquinho. Teve até uma garoinha para refrescar os atletas. A chuvinha me deu vontade de chorar. Afinal, era meu último domingo na Bahia. Daria adeus aos meus amigos, minha casa, meus cachorros e a Bárbara. Uma filha que já adotei grande e de quem vou sentir muitas saudades. Vou ficar ainda mais longe do meu filho e dos meus pais....não é fácil. Mas, tudo podemos transformar em coisas boas. E eu só quero coisas boas: Ações, experiências e lembranças! É isso o que importa de verdade!

Engoli o choro e preferi pensar que aquela era mais uma das muitas provas que ainda vou fazer. Na Bahia ou pelo mundo. Que meus amigos e minha família estarão sempre por perto. Afinal, hoje em dia não tem mais essa de distâncias. 

Na largada, as Penélopes estavam com a corda toda, mas todas as outras equipes também. Embolamo-nos no mato algumas vezes, mesmo assim, conseguimos colar nas campeãs diversas vezes. A disputa foi bem acirrada. Não foi moleza!

Ele não é uma graça??
No primeiro trekking do dia tivemos o apoio de um simpático anjo da guarda. Apelidado de "Legend", nosso amigo patudo corria, se jogava na água e apontava para os PCs feito um cão perdigueiro. Um amor de cachorro. Fiquei pensando em como esses bichos são bondosos. Ele acompanhou todo mundo sem distinção de cor, sexo ou equipe. E sem receber nada em troca, além de afagos!

Ele se divertiu nadando nos mangues e parecia estar muito feliz ali. Soube que é um cão de rua. Tomara que alguém adote o Legend. Ele é um ótimo companheiro. Carinhoso, esperto e inteligente!

Foi muito divertido achar os PCs do trekking com toda aquela lama fazendo "chop-chop no tenis. Na primeira travessia a água foi até o pescoço. Mais preocupada com o celular (não por ele propriamente dito, mas pelas fotos dos PCs), esqueci que do lanche e o mapa. Ficou tudo encharcado! Estraguei toda a comida do dia inteiro!!!!!

Aproveitei a transição para tomar uma água geladinha, trocar as sapatilhas correndo e sair pedalando o mais rápido possível. Afinal, estávamos na cola das amarelinhas, as flores do Sertão estavam coladas na gente e as duas duplas mistas dos Aventureiros também já estavam por perto. Santa embolação!

A dificuldade da bike ficou por conta das distâncias. Já passei por isso em outras provas. Não é raro acontecerem pequenas distorções quando o mapa é impresso. Dependendo da escala, essas distorções podem significar dezenas ou até centenas de metros. Nessa hora, o navegador precisa ser esperto e olhar as referências. Fizemos isso muito bem no começo da prova, quando achamos a trilha que beirava o rio antes mesmo das equipes PRO. No entanto, na etapa da bike não tivemos a mesma "maldade". Foi boa a experiência. Tenho certeza de que navegaremos muito melhor na próxima prova!

Após a transição, nosso primeiro desafio era encontrar uma casinha no alto de um morro. Parecia fácil, se não tivéssemos desviado uns sei lá quantos graus à esquerda. Perdemo-nos junto com as Caçadoras de Aventuras  que quase foram parar na BR. Depois de subir e descer a mesma trilha inutilmente e tentar atravessar um pântano intransponível com as bikes nas costas, finalmente achamos a passagem certa. 
A água deu na cintura, mas conseguimos passar com um sorriso no rosto e as bikes no ombro! Coisas de Penélopes!

Após atravessar o mangue ainda tinha um ladeirão infinito. Andrea não falou nada, mas pela cara dela estava incrédula de que aquele era o caminho certo. Então, eu me ofereci para subir e avisar lá de cima, se estivéssemos no lugar certo. Quando vi a casinha, fiquei tão feliz que me esqueci do cansaço. - Vem Deaaaaaaaaaaa! Ela também se animou e chegamos falantes e sorridentes no PC.
Somente lá é que me dei conta do estrago que estava a minha comida. Uma lama só! 

Ainda bem que Déa foi mais esperta que eu e ainda tinha alguma coisa seca para comer, o que me salvou o dia.

Lá, conhecemos uma simpática menina chamada Vitória, que se assustou ao nos ver sujas, enlameadas e pedalando morro acima...- Oxi, pensei que eram dois homis! 😂😂😂😂😂😂😂.

Decidi enxergar o lado cheio desse copo. Afinal, o que a fez pensar que éramos homens? Teria sido nossa coragem? Valentia? Jeito de pedalar? Demos boas risadas, enchemos nossos skeezes com água bical e tocamos para o próximo PC.

 O PC 7 era uma delícia de achar. Estava até bem fácil. Mas, a gente não queria mais saber de se perder. Para não errar mais, íamos conferindo ponto a ponto no mapa. Até que passou um quarteto voando por nós. Eles voaram com tanta certeza que me deu raiva! - Oxente, moço! Você sabe aonde está indo??? - ralhei, brava! - Claro que sim! - Respondeu ele rindo. - Tá ali na árvore! E não é que estava mesmo?
Depois dele, poderíamos pular direto para o 11, pois estávamos na prova open.

O PC 11 foi um dos mais gostosos de pegar. Ele estava no final de um single e ainda tinha uma maldadezinha. Um tronco atravessado no meio do caminho poderia dar a impressão de trilha errada, mas, sacamos a "verminagem" do mapeador, pulamos o obstáculo e logo em seguida achamos o último PC da perna de bike.

Na transição, tomei mais uma aguinha e decidi sair sem nada. Nem água nem comida. Afinal, eram só mais dois PCs. Eu ficaria mais leve, logo mais ágil. Era para ser rápido! Por acaso deu certo, mas não farei isso novamente. Pelo menos um pouco de água e uma porção de comida devem sempre ser levadas. É preciso contar com os imprevistos.

Mais uma vez, priorizamos as distâncias ao invés das referências e perdemos a entrada da trilha. O erro chegava a mais de 200 metros. Mesmo assim, após contar e recontar os passos e perseguir pegadas, decidimos cortar a duna na agrestia mesmo e finalmente achamos a trilha certa para o PC 13. 



Dali, para achar a trilha do PC 14 não foi tão difícil. Difícil mesmo foi achar a cabana. Até miragem coletiva a gente teve...

- Déa, acho que encontrei. Olha lá! -Tá vendo a cabana???? 
- Tô! Tô vendo sim!!!

E anda, anda..... na areia fofa e no sol escaldante.... Cadê a cabana???? Nada! Eu mentalizava uma casinha de madeira com telhado tipo meia água.... e era isso que eu procurava. 

Havia muitas pegadas de tênis na areia, dando a entender que muitos atletas passaram por ali. Mas, nada de cabana. A essa altura, Andrea perscrutava todo o areal e eu, teimosa, seguia em frente, conforme me mandava o azimute. Até que ouvi Andrea gritar pela primeira vez! - Lucyyyyyyyyyyy! Achei!


Gente, aí eu corri! Os pés afundavam na areia. Eu estava morrendo de sede, mas não tem energético melhor que a frase " Achei o PC!". Quando vi, confesso que fiquei meio decepcionada. Era uma choupana de palha. Parecida com a que teve no Desafio dos Sertões... nada a ver com minha imagem mental.... O nome do PC não podia ter sido melhor!


Como a dificuldade foi igual pra todo mundo, a corrida foi justa. Ganhou quem navegava melhor ou tinha mais fôlego para se recuperar dos erros mais rapidamente. Nós competimos muito bem PC a PC. Foi uma prova muito disputada e muito bem feita. O cuidado na montagem doa percursos e no nome dos PCs foi um ponto alto.

A inovação ficou por conta das camisas amarelas. Adorei a ideia. As equipes que lidraram a primeira etapa, ganharam uma camisa amarela. Como é feito no Tour de France. Foi muito legal!

A prova transcorreu com leveza. Em clima de amizade e diversão, como tem que ser.

A parceria com Andrea foi muito boa. Ela é paciente e focada. Ouve opinião e compartilha decisões. É muito bom correr com quem navega e sabe escutar. Assim, cada erro e acerto são da equipe. Fizemos o nosso melhor.

Penélopes do Agreste

Espero corrermos juntas novamente!

Parabéns Tadeu e equipe pela organização da prova e muito obrigada pela homenagem.
Parabéns aos Aventureiros do Agreste pelos pódios
Parabéns às equipes femininas Caçadoras de Aventuras (grandes campeãs) e as Flores do Sertão pelo espírito esportivo, combatividade e valentia.

Todos estamos de parabéns!

Vem aí o Desafio dos Sertões 2018 - nas trilhas de Lampião...