terça-feira, 4 de abril de 2017

CT Gantuá 2017 - 25/03/17

Eu aceito. Eu confio. Eu agradeço....

Quarta competição do ano. Depois do Esquenta, da Noite do Perrengue V e da primeira etapa do CAMBO, chegou a hora da Corrida de Mountain Bike do CT Gantuá! 25 de março de 2017. Aniversário da minha mãe. Um belo dia para correr!

A prova foi dividida em três categorias. Em tradução livre, poderíamos chamar assim: 
  • 30km ou Light: Iniciante-é-tua-nega-aqui-tem-que-ser-ciclista;
  • 42 km ou Power: difícil-pra-c@r2lh0-se-não-guenta-pra-que-veio
  • 54 km ou Megapower: mega-ultra-blaster-ph#d@-não-é-pra-qualquer-um-mesmo!.....
Uma multidão de bicicletas até onde a vista alcança. Foi tanta gente que tiveram que dividir a corrida em etapas. Teve gente largando no sábado e no domingo. Mais de trezentas bikes. Uma festa!
Mountain Bike é isso. Um povo diferente. Todo mundo de uniforme. Todo mundo bonito. Era tanto uniforme que parecia o Tour de France do Sertão!


Nossa largada foi no sábado, às 14:00h, naquele calor baiano abençoado. Visual mais lindo não tinha como ter: Castelo Garcia D’ávila – Praia do Forte. Quem sabe o ponto mais alto da vila inteira. Era pirambeira já desde a largada!



É pra descer? Vumbora! A gente tira o bumbum do selim, reza pra não morrer e se joga!

E lá fomos nós. Dois ciclistas de fim de semana. Dois corredores de aventura misturados com os mountainbikers e seus uniformes estilosos. Duas pessoas querendo ver até onde vai essa valentia toda...

A largada, no maior calorão do dia foi um desafio à parte. O lado bom é que os primeiros 5 km foram praticamente só descida e plano. Mas, logo chegaram as subidas... E no asfalto... E no calor...

No squeeze e no camelback, dois litros de água de coco. Os primeiros goles foram deliciosos, mas logo já não aguentava mais nem pensar em beber. O líquido quente e doce revirava o estômago. No meio de uma subida de asfalto, num ato extremo, meu squeeze se jogou para fora da bike. Entregou os pontos... Desistiu de viver!

Segurei no freio, já pensando na prometida desclassificação para quem deixasse lixo no chão (muito correta, por sinal). Foi um desastre! Era ciclista pra todo lado. Todo mundo me xingando. Eu tentando chegar para o canto para liberar passagem e gente me cortando pela direita, já xingando minha mãe, coitada...... Deu desespero!

Sem opção, parei no meio. Atônita! Uma ciclista passa voando, reclamando e berrando – PÁRA NO CANTO, P#rr@!!!! Ao que eu, gentilmente, respondi: - TÔ TENTANDO, DESGRAÇA!!!!!!!!!!

Caraca! Ninguém facilita pra ninguém, por aqui??????? Acho que não.... me lasquei mesmo!

A essa altura, uma alma caridosa que tirava fotos no pé da ladeira resolveu me ajudar: - Deixa pra lá! Vai em frente! Ele salvou meu squeeze que a essa altura já havia rolado morro abaixo e veio trazê-lo para mim.

O stress me desarmou. Fiquei tonta e tive que parar. O pelotão todo passou por nós e eu fiquei ali.. estupefacta... Peguei meu squeeze e sentei na beira do caminho... admirada com a merda que estava acontecendo... Ainda era o quilômetro 8 e eu já estava pedindo socorro??? Como assim??? Não é possível!

O parceiro, coitado, parte preocupado comigo e parte pensando que era o fim da prova. Eu, atordoada, não pensava em nada!

Uma moça se aproxima e pergunta se não quero entrar e descansar.....

Descansar....hummmm.....descansar parece bom....eu ali, sentadinha na sombra........(Oi?????? Eu ouvi DESCANSAR??? No meio de uma competição???? TÁ DOIDA???? Comeu cocô???? – Isso aí foi meu cérebro me dando um sacode e me trazendo de volta à realidade).

– Não moça! Obrigada. Mas, não! Não posso parar! Tenho uma corrida toda pela frente! Só preciso tomar fôlego. E água gelada. Não aguento mais essa água de coco.

Uma mocinha trouxe a água correndo. Tomei a água geladinha gostosamente. Minha alma que andava por aí voltou para o corpo. Aproveitei para conversar brevemente sobre a prova. Descobri que ela é ciclista também. Convidei para a próxima corrida. Todo ano tem! Fica de olho! Ela disse que vai se inscrever. Certamente vai se sair muito bem!

Novamente hidratada, voltei a conseguir pensar com clareza. Incrível o efeito da água gelada. Não basta ser água. Tem que ser gelada! Por que será? Deve ter alguma explicação científica... Mas, não temos tempo para isso agora! Bora pedalar!

Eu estava de volta à prova. Sem mais zique-ziras. Com sangue no olho. Querendo recuperar o atraso. Descendo todas as ladeiras com ousadia. Uma olhadela no ciclocomputador me mostrou 39,5 km/h em uma das descidas. Um recorde para mim, que sou absolutamente medrosa. Mas, que tenho conseguido administrar esse medo cada vez mais. As descidas foram até bem-feitinhas. Mesmo com alguns trechos com valas e pedras soltas.

Por outro lado, meu Deus!!! Quanta subida. Acho que eram três subidas para cada descida! Haja perna. Foi aí que chamei no Pilates, no Reiki, no abdômen e na reza.... Comecei a rezar meu mantra sagrado:

Imagine essa colina derivada em fatias infinitesimais. Logo, cada fatia se aproximará de uma reta e você não sentirá a subida.... Imaginou? Agora, repita comigo: Eu aceito que tenho que subir mais essa ladeira. Eu confio que se eu persistir, ela logo acabará. Eu agradeço por ter conseguido dar mais este giro.”

Repita o processo todo até o topo e se prepare para descer.... Tira o bumbum do selim, chama no quadríceps e começa uma nova reza....: “Santo anjo do Senhor, meu Santo anjo protetor... Me ajude a descer essa piramba.....Eu vim aqui me divertir, não morrer!”

E foi assim a prova toda...

Descidas a mais de 30km/h. Subidas a menos de 10... velocidade média variando entre 12 e 17 km/h. Marido parando para esperar enquanto me dava força para eu pedalar mais rápido. Eu respirando, rezando, murmurando mantras e meditando....

Bora, porra! Você consegue subir...você consegue descer... Toma vergonha, que essa ladeira aí você já desceu antes!

Em dado momento já me conformava em meus pensamentos: Ah... Tá bom... Vamos completar o percurso light e “tá de boas”. É o que temos para hoje... É o que dá para fazer.... Conforme-se... Esse é o melhor que você consegue....

Até que......

- BORA GALERA!!! AINDA DÁ TEMPO!!!! VOCÊS CONSEGUIRAM PEGAR O POWER! CORRE! BORA! BORA! – Era o povo da organização botando pilha na gente. 

-AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! PORRRRRAAAAAAAAAA!!!!! É POWER!!!!!! C2R2LH0!!!!!! BORAAAAAAAAA!!! – Era eu, educada feito uma mocinha.... só que não....

Só uns 5 km depois é que caiu a ficha... Caceta..... Tô na POWER! Putz! Que massa!....Que merda... e se eu não completar???? E se eu não conseguir?????

Nem pensar, camarada! Chegamos aqui, vamos até o fim. Você vai terminar essa prova, nem que seja amanhã de manhã!!

E toma de subida... E toma de eu aceito, eu confio eu agradeço pela subida.... E toma de santo anjo protetor na descida.... Meu Deus! Não acaba não??? Os dez últimos quilômetros demoraram uma eternidade. Nem toda a reza do mundo bastou e algumas ladeirinhas (bem poucas) eu subi foi empurrando mesmo! Devo me lembrar de trazer panturrilhas extras na próxima prova! Putzgrila!

Vimos alguns acidentes. Pessoas pedalando na contra-mão para pedir ajuda. Uma mocinha caída numa curva de trilha – já devidamente atendida pelos colegas e consciente, graças a Deus. Ítalo, machucado acolá, sendo cuidado pelo seu filho. Aliás, que doce de menino. Muito responsável e todo preocupado em cuidar do pai. Ítalo é um atleta experiente e um bom amigo. Foi quem me ensinou a remar. Jamais esquecerei disso! Espero que se recupere logo. As pirambeiras são traiçoeiras. Mesmo pedalando com cuidado, às vezes nos surpreendem.

Em vários trechos, água geladinha e as pessoas da comunidade servindo a gente. O olhar daquelas pessoas era do mais puro e legítimo espírito de servir ao próximo. Como eles pareciam satisfeitos de estar fazendo aquele trabalho. E quão formosas são as mãos de quem serve água! Gelada então?? Ave Maria! Um luxo!! Deus abençoe essas almas boas.

No alto das pirambeiras mais perigosas e as vezes embaixo delas também, equipes de resgatistas presentes e muito atentos a todos os atletas. Essa corrida foi um primor de organização. Eu tinha que registrar isso para divulgar o excelente trabalho da Gantuá e de toda a equipe que apoiou na prova. Eu me senti bastante segura o tempo todo, tanto no aspecto de segurança pública, como de saúde.  Todos os que tiveram dificuldade receberam atendimento rápido. Parabéns, Gantuá! Trabalho de excelência, como sempre!

Chegamos já de noitinha. Quase os últimos. Ainda vimos algumas pessoas chegando junto conosco. Teve gente da light chegando quase meia hora depois de nós. Não foi uma prova fácil. Completar já foi um grande resultado!

Eu tenho uma alegria imensa de participar dessas corridas. E fico muito feliz de ver como o ciclismo vem crescendo na Bahia. Assim como o esporte de aventura e a orientação. A cada prova, mais atletas. Mais energia boa. Quanto mais gente interagindo com a natureza, menos gente doente. Mais lama, menos antidepressivos. Mais ladeiras, menos colesterol. Mais descidas técnicas, menos crises de pânico e ansiedade.

É sério! O que aprendo no esporte, levo para a vida. E em meio às crises e aos problemas do dia-a-dia, eu me lembro de como tive coragem de descer tal ladeira que antes me amendrontava tanto ou como consegui subir aquela que era tão difícil. Essas analogias me ajudam muito a viver!

De vez em quando, alguém me pergunta: Mas, você ganhou medalha? Minha resposta é sempre: Ainda não foi dessa vez. Porém, posso dizer que ganhei de todo mundo que não foi! Mas, até que rolou uma medalinha bem bonitinha.... de participação. Achei a coisa mais linda!!!!



Ganhei de mim mesma, que até alguns anos era totalmente sedentária e não sabia nem pedalar. Ganhei do medo, que já me paralisou tantas vezes. Ganhei da vergonha de ser a última a chegar. E daí? Eu cheguei! Poderia não ter completado. Poderia nem ter vindo. Mas, vim, corri e completei a prova! Mais uma para o acervo. E com medalha de participação!

Quer ganhar de mim? Vem correr comigo! Mal posso esperar para a próxima

Quer saber como foi? Dá uma espiada no vídeo: Vídeo CT Gantuá 2017 oficial