segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Carnaval - sobre comer, rezar e inventar histórias

Carnaval!!!! Uhuuuuuu!!!! Só que não... Não este ano.
            Faz tempo que o carnaval não exerce mais sobre mim aquele poder de antigamente. Aquela comichão que vai subindo desde os dedos dos pés, provocando tremiliques nos quadris e fazendo a cabeça girar. Nada disso. Nem os tambores da Timbalada tiram o meu sossego. Nenhum "tra-tra-tra" me fará sambar. A meta é descansar o juízo e juntar forças para o ano que promete ser duro!
            Dessa vez, preferimos o sossego do interior. Fugimos para Sabará, região metropolitana de BH. Pela internet, nos pareceu um lugar bucólico, quieto e cheio de paisagens. A passagem estava barata e a hospedagem também. É claro que isso fez toda diferença na escolha.
            A primeira impressão foi bem decepcionante. Pensei achar as belezas de Paraty tendo a praia substituída pelo mar de montanhas. Não é bem assim...
            Não traga muitas expectativas para Sabará. Assim, você vai conseguir aproveitar mais. Foi o que fiz. Despi-me de exigências. Deixei as mochilas no hotel e entrei no clima. Já que estamos aqui, vamos ver o que a cidade tem de bom...
           Almoçamos em um restaurante chamado "Barril" perto da pousada. Comida boa e barata. Como sempre, nada fácil alimentar uma vegetariana, mas a gente se vira como pode. Enquanto houver self-service eu jamais passarei fome.
           Em seguida, saímos a bater pernas. Em uma tarde, se você gostar de andar, consegue ver todas as igrejas. De São Francisco, Da odem terceira das carmelitas, Das Mercês, Do Carmo, do Rosário dos Pretos e do Ó..... Ah, essa do Ó é imperdível! Só não tem foto, porque a bateria do celular acabou na hora...
Nossa Senhora do Rosário dos Pretos - inacabada

Capela da Ns Sra do Rosário dos Pretos
            Todas as igrejas são bonitas. A visita vale a pena. O guia da igreja das Carmelitas, única a guardar peças feitas por Aleijadinho na cidade, nos contou várias histórias. Sobre a Ordem terceira, sobre obscurantismo, sobre racismo e segregação. Sim! Cada classe social e cada cor de pele tinha que ter seu próprio lugar para rezar. Comerciantes, negros e mamelucos se dividiam em templos diferentes, mas diziam rezar para o mesmo Deus. Por  mais louco que possa parecer.
            Os mais abastados conquistavam o direito de repousar seu corpo morto sob o piso da Igreja. Até que as autoridades, em um surto de bom senso, resolveram proibir essa maluquice em nome da higiene. Assim se inventaram os cemitérios....No pátio da igreja, é claro...Para os ossos ficarem bem pertinho de Deus.
A azulzinha é a das Mercês. Feita para os mamelucos, que por não ter onde rezar fizeram seu próprio templo. É a mais simplezinha

São Francisco de Assis

            Fiquei imaginando um abastado comerciante, branco legítimo e de pura linhagem (sim! Eles tinham que ter atestado de brancura carimbado em cartório). Imaginei esse senhor morto. Seu corpo sob uma das tábuas da Igreja. Sua alma entrando no céu. Na portaria do Grande Reino dos céus, estando São Pedro de folga, teria entregue as chaves a São Benedito.
            E eis que chega o dito cujo... Vamos chamá-lo de João das Botas. Aparentado distante do grande Borba Gato. Cheio de títulos e certificados de bom cidadão. Dizimista e fiel cristão. Tinha até um banco de madeira com seu nome bordado. Que permanecia vazio, caso sua família não pudesse comparecer, mesmo que com isso senhoras idosas e crianças ficassem de pé em dias de culto. Seu banco era um local sagrado próximo ao altar. Comprado a peso de ouro. É claro que João iria para os céus! Ora pois!

            Ao se deparar com um santo negro, qual não teria sido seu susto!
-  Meu bom senhor, deve ter havido algum engano. Não sou devoto do Rosário dos pretos. Muito menos das Mercês. Sou servo Carmelita. Da Ordem Terceira! Meu céu é branco como as nuvens. Podes me ajudar a encontrar o caminho?
            Com voz bondosa, olhos cansados de preto velho e sorriso de dentes marfínicos, entre bondoso e triste, São Benedito responde:
            - Meu filho, você se enganou. Desperdiçou sua vida em delírios de grandeza. Na ilusão do orgulho os homens se dividiram em classes, cores e infinitas religiões. Esqueceram-se de que se Deus é único, como poderia haver separação no céu? Sendo Deus o puro Amor, por que dividiria seus filhos? Lamento, filho. Mas, seu nome não está no livro. Você não poderá entrar.
            Confuso e desorientado, o Sr das Botas conseguiu vislumbrar entre as cortinas do céu algumas figuras conhecidas. A velha Carlotinha que em terra ele desprezava por ser pobre, mas que sempre tinha um pratinho de sopa e um pedaço de pão para os mais pobres que ela. Dona Carlota era de uma igreja diferente. Diziam que era uma tal de Reforma. Considerada anti-cristã por muita gente obtusa.
            Lá estava também o velho Sr Borges, que ao receber a fazenda do pai em herança, libertou todos os seus escravos e os recontratou, pagando-lhe salários dignos e compartilhando a riqueza da fazenda, sem que com isso ficasse pobre. Ao contrário, continuou sendo muito próspero e querido por todos. Ele não tinha fé. Nem podia entrar na igreja, por ser "marrano". Esforçou-se por ter uma vida reta e digna, sem esperar recompensa.
           Ao longe, molhando os pés em um rio de águas límpidas, parecendo feliz e saudável estava dona Rosa. Antiga cozinheira do nosso amigo recém-morto. Muito devota de nossa senhora. Ela serviu durante anos a família desse abastado senhor. Pobre, viúva e sem filhos, adoeceu e já não conseguia trabalhar. Pois o sr João a dispensou. Mandou-a embora com a roupa do corpo. Sugeriu que procurasse auxílio na Igreja das Mercês. Junto da gente de sua cor. Pois, foi o que ela fez. E foi onde morreu, sendo enterrada em cemitério de pobre. Bem longe do altar que ela limpava todos os dias em troca de pão.
            Sr João das Botas, ou melhor, sua alma, foi percebido por muitos, vagando na porta da Igreja onde já não podia entrar. Seus ossos foram retirados do templo e enterrados no cemitério, como convém. Seu banco é hoje ocupado por seus filhos e netos. Por onde andará o nobre homem?  Será que sua alma encontrou repouso?

Assim se foi a tarde e a noite do dia 1. Entre histórias inventadas e igrejas vazias.
           O dia 1 foi sobre rezar...Nesta cidade, para onde se vira o olho tem igreja!
Capela de Santo Antônio - Arraial de Pompéu


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Caravana Abeuni - Uma experiência nova - parte 2

23 de janeiro de 2015

É difícil relatar a vivência que passei. Só estando lá para entender. Deixo o registro para voltar nele. Ler e reler quando quiser me lembrar. Quem sabe, despertar a curiosidade de alguém.

O trabalho que a ABEUNI tem feito é realmente impactante. Não só para a Comunidade, mas talvez ainda mais para os próprios voluntários. Vale a pena divulgar.

6:30 da manhã...Faz um friozinho...Toca a "alvorada"... Acordo ao som de música de dançar. Meninas amassadas e descabeladas começam a se levantar. O mesmo ocorre no quarto dos meninos. Pessoas sonolentas se esbarram nos corredores entre toalhas e escovas de dentes. Eu estou entre elas...acordando para uma nova realidade.

Café quentinho e pão com manteiga....huuuum. Muito bom! E agora? O que o dia me reserva?

Fiz meu primero turno na SEC (secretaria). Ali meu papel é receber as pesssoas e fazer suas fichas, direcionando-os para os setores certos. Não sei quantas pessoas eu atendi. Mas, foi muita gente! O povo não parava de chegar. Havia mais três voluntários comigo e igual número de chefes que coordenavam o trabalho e orientavam a gente.

Preencher fichas pode ser um ato mecânico e repetitivo. Mas, não ali. Olhando para aquelas pessoas fui confrontada com uma realidade que não via há muito tempo.

Senhoras tão desgastadas, tão cansadas e envelhecidas e muitas vezes mais jovens que eu em idade. Havia muitas mulheres e muitas crianças. Todos pareciam gratos de estar ali e receberem um pouco de atenção. A ficha é simples. É um papel frio. Mas, as histórias por trás de cada número daqueles são de emocionar qualquer um.

Recebi uma senhora mãe de 5 filhos. Queria atendimento para 4 deles e uma sobrinha. O pai estava junto para ajudar. Eram pobres, simpáticos e pacientes. Os meninos muito educados. Todos na escola. Fiz a ficha das cinco crianças. Ao final, perguntei a mãe se ela queria atendimento também. Ela disse que sim, mas que ia cuidar dos meninos primeiro. Insisti. Ela me respondeu com o clássico "Se der tempo eu volto". Essa mania de mãe....Sempre se deixando para depois. Espero que tenha dado tempo...Ela queria ir ao dentista.

Em seguida chegou um casal com duas crianças. O atendimento era para o homem e para o menino mais velho. Na hora de assinar a ficha do menino, indiquei para o homem. A mãe fez objeção: "Não, moça! Ele não é o pai!" O homem firmemente respondeu: Eu sou o pai sim! "Não tô criando?". O menino só observava aquela atitude. Imagino que ele tenha se sentido protegido naquele momento. Afinal, seu pai biológico não estava ali. Mas, alguém decidiu se responsabilizar por ele. Atitude de homem! Podia ter mais gente assim no mundo.

Um rapaz me pediu ajuda. Queria atendimento do oftalmo. Mas, também queria fazer seu TCC sobre Logística Humanitária. E escolhera a ABEUNI como objeto do estudo. Que lindo! Tratei de direcioná-lo ao pessoal da diretoria, que prontamente o atendeu. Estou torcendo para que o trabalho seja um sucesso!

São tantas histórias que cabem no livro... E esse foi só o meu primeiro turno!

Segundo turno: Profi-mães.

Esse departamento é o que cuida das mães. Os membros são carinhosíssimos. Acho que é pre-requisito para trabalhar ali.... Havia muitos calouros no setor, incluindo duas chinesas recém chegadas ao Brasil. Todas fomos muito bem acolhidas. Éramos todas mulheres! (as calouras). Os veteranos nos treinaram direitinho com bastante paciência. Quando tudo estava pronto, abrimos a sala para nossas convidadas.

Mulheres de várias idades entraram na sala. Elas começa encolhidas e desconfiadas. Conforme as dinâmicas vão acontecendo elas se soltam e falam. É aí que o trabalho fica mais rico! Embora tenhamos um roteiro bem definido, é o feedback delas que direciona a discussão. Quantas histórias lindas! Uma venceu o câncer. Outra, venceu o medo. Outra criou seis filhos!

Acho que aprendi mais do que ensinei... E acho que não fui a única.
Equipe Profi-mães Caravana do CEU


Esse foi meu primeiro dia de voluntária na ABEUNI. Mal posso esperar pelos próximos!

Você já fez algum trabalho voluntário? É muito gratificante. Experimente!