segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Desafio dos Sertões 2015

Um dia uma amiga me disse: Se um dia você se vir passando pelo inferno, NÃO PARE!

Este fim de semana, conhecemos um pedaço dessa passagem....Ela não é pavimentada. Ela não é larga. Ela fica no sertão da Bahia!

Sabe aquela cena do filme Constantine, quando o protagonista vai ao vale dos suicidas investigar a morte de uma das personagens? Pois, é...deve ter sido gravada em Juazeiro...

Foto de Lucian Telles
Pedra, calor, galhos secos, espinhos. Mandacaru, Mandacaru, Mandacaru.... É a Caatinga.

Uma competidora me disse que na largada, as 13:00 do sábado, 10 de outubro, a temperatura era de 49 graus centígrados... E se manteve acima dos 40 até depois das 16h....

Ainda bem que eu só descobri isso depois da prova. Senão, já estaria mortinha!

Mais de 40 graus. Sensação térmica de 50. Caatinga. Deserto. Vale da morte. Inferno. Tudo junto e misturado!

Desafio dos sertões 2015 - Um teste de sobrevivência!

Nossa corrida, como sempre, começa dias antes. Há que se planejar toda a logística. Separar equipamentos, verificar as bikes, revisar o carro. Deixar o trabalho e a faculdade em dia...para finalmente colocar o pé na estrada.

Sete horas de viagem depois, estávamos em Juazeiro da Bahia. Como chegamos a noite, estava bem fresquinho. Achei que aquela história toda de calor, sertão e um sol para cada um era exagero. Que nada! Sou carioca. Sei bem o que é calor.... hehehe...tolinha....sabe de nada, inocente!

O dia amanheceu lindo no sertão.
Foto de Lucian Telles
Lá pelas oito da manhã o sol já estava se exibindo. Algumas nuvens fajutas davam a ilusão de frescor.
E nós já estávamos lá, animadíssimos esperando a largada!            
 
Orla de Juazeiro. Divisa com Petrolina. A brincadeira começou aqui.



Estudamos bastante o mapa. Li, reli e memorizei ao ponto de enxergá-lo de olhos fechados. A navegação precisava ser boa, por que não sabíamos o que viria pela frente.
Foto de Arsênio Marcos.
E a hora chegou. 13:00. 43 graus em alguns termômetros. 49 em outros. Erros de calibração a parte, todo mundo concordou em um ponto. Estava quente......pra car#$£#¥o. Se é que você me entende....

E foi assim que desbravamos o sertão. Debaixo de um sol escaldante. Um não...vários... Um Sol para cada um..

Foto de Arsênio Marcos
Entre a largada e o PC-1 foi só poeira. Sol. Sol. Muito sol. Sem nuvens. Quase sem vento.  O chão seco. A terra vermelha e castigada. As vezes eu pedalava mais forte só para movimentar o ar e sentir um pouco de vento no rosto. De vez em quando uma rajada de vento aparecia do nada. Era um alento. Passageiro e cruel.

Erramos um pouquinho no começo, mas recuperamos logo. Cortamos caminho pelo canavial, pegando uma paralela a trilha certa, que ficava um pouco mais a direita.

CAMINHÃO!!!! - Grita meu parceiro.

Como assim??? De onde sairia um camin....cof cof cof...... tome-lhe poeira entrando pelo nariz, pescoço e frestas dos óculos. Era um caminhãozão de cana. Enorme. Monstruoso. Embaçou nossas vistas de pó. Pensei nos cortadores de cana. Onde estariam eles? Como aguentam viver nesse clima inóspito?

Olhei para o céu e vi o Sol. Bem acima da minha cabeça. Bem que me disseram que o sertão tem um desses para cada um.....Aquele era o meu Sol. E ele era implacável. Não nos entendemos muito bem...Sr Sol, saiba que voltarei para conversarmos. Precisamos resolver essa relação!!!

Em busca de uma sombrinha, parei embaixo de um pé de cana. O cheiro doce era agradável. A sombra...curta e seca. Vand estudava o mapa. Eu reclamava, insistia que a trilha era a direita, mas no fundo queria que ele gastasse mais tempo navegando enquanto eu aproveitava a pequena pausa para resfriar o corpo.

Um competidor local me dera a dica no briefing: Beba água aos poucos. Não desperdice! Você vai precisar dela. Seguindo os conselhos, eu bebia dois ou três golinhos, molhava as mãos e assim refrescava o rosto e a nuca. O meu Sol particular era bastante sedutor e insistia em beijar minha nuca. Impossível me desvencilhar dele. Da próxima vez, corro de balaclava!

Encontramos várias equipes no caminho refazendo a navegação. Foi quando percebi que eu havia errado na medição da distância há cerca de 3 km do primeiro PC. Eu pensei que havíamos passado direto, mas na verdade ainda tinha muito chão pela frente. Contas refeitas, batemos o PC-1 sem maiores dificuldades...fora o calor.

Daí em diante foi muito sofrido. Comecei a ter calafrios. Era o meu corpo tentando equilibrar a temperatura. Olhei para o chão e vi pedras e terra seca. Olhei para o lado e vi uma paisagem aterradora. Nenhuma sombra. Nenhum animal. Apenas galhos retorcidos e espinhos. Muitos espinhos. Lembrei do Salmo 91 ("Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte...") Quando o Rei Davi escreveu este poema, deveria estar passando férias no sertão! Oxi!

Foto de Lucian Telles
Essa aí era a paisagem dominante durante todo o percurso. Eu já corri no interior. Já pedalei em Tanquinho, em Santo Amaro, em Feira de Santana e no Estado de Sergipe. Nunca havia visto nada parecido.

Eu fiquei imaginando quantas almas penam por ali. Neste mundo e no outro...



Aquele pessoal que está pensando em colonizar Marte deveria vir fazer um estágio em Juazeiro.... Quero ver quem tem essa coragem toda!

Entendi no PC-2 que não estava em uma competição normal. Não havia mais adversários. Todo mundo se ajudava. A disputa ali era contra a Caatinga. E ela, eterna, seca, imortal, ria-se de nossa fragilidade.

Algumas equipes já estavam perdidas a essa hora. Outras, já pensavam em desistir. Outras, já haviam desistido.

Pedi licença e sentei na varanda da dona da casa. Ela tinha uma lata. Em cima da lata, uma tampa de madeira. Em cima da tampa uma leiteira....com água!

Minha senhora, eu posso beber essa água? - Pode sim! Chegue...Pegue aqui...

Foi com nordestinos que aprendi o ditado de que "água não se nega". E ali sentada eu bebi aquela água morna e doce. Achei a maior delícia do mundo. Acho que bebi um litro...de gole em gole. Não conseguia parar.

Enquanto o Vand recalculava a rota, eu tentava me recompor. Mas, o pior ainda estava por vir....

O próximo desafio era o PC 11 - nossa prova era de 55 Km, não tínhamos que pegar todos os PCs. O 11 significava a metade da corrida para nós. Enquanto isso, muita gente já se lascava na prova longa...150km...Pura sofrência.

A distância para o PC era longa e o Sol se recusava a baixar. Comecei a ter miragens. A esquerda surgiu um lago que logo se dissipou em ondas de calor. Um toco seco me lembrava um homem sentado. Galhos me lembravam chifres. Eu ouvia boi mugir, sino de vaca fujona, grito de jegue.....Não via bicho nenhum. Muito doido isso!!!!!

A direita, as árvores pareciam incandescentes. Eu juro!!! Achei que tinha visto uma sarça ardente.....

Depois descobri que essas árvores produzem uma cera que ajuda a segurar a água, mas o troço brilha a luz do Sol. Na cor do âmbar. De longe parece mesmo que o tronco está em brasa. Muito bonito. Incrível como a natureza se adapta.

Meu skeeze já fervia e o camelback chegava a queimar a boca. A água do Vand estava acabando. Tentamos comer, mas nada descia. Comi meia banana e dois golinhos d'água a sombra de um espinheiro. A boca seca e a sede incomodavam bastante.

Procuramos muito pela trilha, e nada. Cheguei a entrar na caatinga, procurando rastros de bike...não achei... mas achei patas....grandes....de felino....Seria um gatinho gordo???? Uma jaquatirica? Uma onça??? Resolvi que não queria descobrir e voltei de ré....bem devagarinho para não incomodar o dono, o a dona, da casa....Sei lá.. Vai que...

Encontramos um grupo que também procurava o PC-11. Dois navegadores discutiam sobre o mapa. Eu olhava em volta distraidamente quando vi um morro. Gente! Tem um morro ali! Procurem esse morro no mapa! Hein? Como?

Olhem as curvas de nível, porra!!!!!! Ah, é mesmo! Tem umas curvas de nível aqui! Estamos na trilha certa. Ponto para a Geografia! Aquelas aulas de cartografia não foram de todo inúteis, afinal!

O morro, as pedras, o pó... E nada de trilha para o PC!. Estava um pouco deslocado. Quando estávamos para desistir, a trilha do sacana apareceu. Ampla. Aberta. Cheia de rastros de bike.

Aí, meu caro leitor, o bicho pegou!! Pedalamos por uma hora em um leito de rio seco. Pedra. Pedra. Pedra....espinho....areia....espinho....pedra, pedra.... De vez em quando uma equipe. Um quarteto. Um ciclista solitário a frente ou atrás da sua dupla. E o Sol na moleira!

Parei. Tombei. Os calafrios piorando. Um ciclista me ofereceu mel. Podia ser fome. Aceitei e nem tive forças para agradecer. Obrigada, moço! O mel ajudou. Mas eu lutava contra o calor. A troca térmica não estava funcionando bem. Eu podia ver o painel de controle da minha mente piscando todos os alarmes.  O cérebro me avisava: Vou passar para o modo automático. Vou te derrubar! Mal conseguia me equilibrar na bike e quando conseguia, uma derrapada na areia ou nas pedras me fazia parar de novo.

Ainda era dia. Ainda fazia muito sol. Meu alento era o PC-12. Era o nosso oásis...Lá haverá gatorade....

Batemos o 11. Caí feito uma jaca sobre o joelho esquerdo. Com bike e tudo. Por sorte, ficou só o roxo. Levantei logo, avisando que não era nada. Eu só precisava de 5 minutos....Eu me animei quando soube que éramos a oitava dupla a passar por ali. Estávamos na briga.

Não levei dois minutos e já estávamos em busca do PC-12. Mais pedra, mais areia. Esse era mais difícil porque começou a escurecer. A noite é tudo igual na caatinga... Anoiteceu e refrescou, mas o desgaste do calor não passou. Chorei, deu raiva. Mas, não queria desistir! Eu queria ir, mas o corpo se recusava a obedecer. Era a exaustão. De um tipo que eu não conhecia. Tive que parar várias vezes, porque o pé não obedecia mais ao comando da mente. Nem o pé, nem a mão, nem o olho..... Deu defeito, gente! Ficou esquisito!

Vandi achou ter visto um gato. Depois,  viu olhos brilharem no escuro... Seriam da nossa amiga jaquatirica? Melhor pedalar, né?? Vamosimbora!

Confesso que cheguei ao PC-12 me arrastando. Como só faltavam dois, ainda sugeri continuar. Desistiríamos dos PCs Virtuais, mas ainda dava para pegar o 13 e o 14 e fechar a prova com chances de uma boa colocação. A água do Vandi acabou. A minha estava no fim. Tomamos um gatorade cada um e enchemos os skeezes. Mas, não dava para abusar, porque ainda tinha muita equipe para passar por ali. Já pensou se chegassem e não tivesse água? Aquele era o único ponto de hidratação da prova! Tínhamos que ser solidários.

Enquanto discutíamos o que fazer algumas equipes chegavam e partiam. A trilha para o 13 era mais ainda mais difícil. O risco de ficar sem água era grande. O risco de quebrar de vez também. A noite era escura e sem luar...

Decidimos em comum acordo não pegar os PCs 13 14 e bater apenas a chegada. Foi uma decisão difícil. Amarga até agora. Poderíamos ter tentado e ter dado tudo errado. Poderíamos ter tentado e brigado por pódio.

Jamais saberemos.

Ainda encontramos muitas duplas perdidas na volta. Ajudamos a todos indicando o caminho e seguimos na contramão. Era o fim da nossa prova.

Sabe aquela sensação de que você deu o seu melhor, mas isso não foi suficiente? Pois é! Dessa vez, perdi para a Caatinga. Mas, a gente não desanima nunca! Ficamos com gostinho de quero mais!

Vamos ter que voltar lá ano que vem para saber qual é o nosso real limite!

Desafio dos Sertões 2016! estaremos lá! E dessa, vez, querido Sol, nós vamos ter uma boa conversinha!!!


Quando olhei aquele sertão todo fiquei pensando no desperdício que é esse país! E se tivéssemos estações de tratamento de esgoto que devolvessem a água para irrigação? Ou um sistema eficaz de coleta de água de chuva? E se desenvolvêssemos culturas resistentes a clima inóspito. E se a gente cuidasse mais daquele povo lindo, capaz de dividir o que não tem com quem quer que peça?

Vimos cachorrinhos famintos, bodes perdidos na beira da estrada. Quase não vimos gente!

Vimos trilhos de trem e antigos empórios, ora prósperos, agora abandonados e caindo aos pedaços. Pareciam restos de uma cidade fantasma. Por que essa porcaria de país deixou de investir em ferrovias??????

O que podemos fazer para o Velho Chico não morrer? Por hora, minha pequena contribuição foi correr e escrever sobre isso. Movimentamos a economia local, trouxemos, eu acredito, um singelo impacto positivo na região. E se fizéssemos isso mais vezes?

Eu vi um moleque fazendo estrepulias na sua bicicleta de ferro. Ele ficou por perto o tempo todo. Desde a largada até a nossa volta. É um potencial atleta. Quem sabe?

Waltinho - continue fazendo corridas no sertão. E conte com a gente!

Parabéns a todos os que participaram dessa linda competição. Concluindo ou não, somos todos campeões! Tivemos a coragem de tentar. De desafiar nossos limites. Que venha o próximo desafio!



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Uma taça de malbec. Um brinde louco a um mundo doido.

Uma taça de Malbec. Uma noite fria. É São Paulo. É pedra. É asfalto. É pressa. É tudo muito urgente.

Um brinde a solidão dos executivos. Ao desespero dos desempregados. A angústia dos empregados. E ao desânimo de quem nem sequer começou a trabalhar.

Um brinde ao silêncio dos preocupados.
Onde não tem barulho de crianças. Não tem vó. Nem tia. Nem cachorro. Tem dúvidas. E são muitas. Como será o amanhã?

Um brinde a Globo News. Ela informa que as contas da Dilma foram julgadas e condenadas. As minhas estão pagas. A duras penas.

A pena dela eu não sei. Eu não tenho. A nossa é pagar por ela.

Um brinde pois, as almas que penam em vida!!!!

Um brinde a toda a classe trabalhadora!!!

Brindemos pois as faxineiras, as manicures, as massoterapeutas. Microempreendedoras, donas do seu tempo que atendem com hora marcada.

Um não-brinde a quem acha que manda nelas e que sabe "colocá-las em seu devido lugar"....Ah, tola ignorância. Somos todos feitos das mesmas moléculas, senhoras! Larguem de besteira que estamos igualmente ferrados nesse país desigual!

Um brinde a quem precisa de ajuda e reconhece isso. Por que suas horas também são marcadas. E são vendidas a outrem...

Um brinde a mocinha que faz bombons para ajudar a pagar a faculdade. Um brinde aos professores que dedicam suas vidas a formar outras vidas. E que compram fiado na cantina.

Aliás, um brinde ao vendedor paternal da cantina. Ao anjo redentor da xerox. Aos santos porteiros protetores.

Um brinde a secretária, ao gerente, ao diretor, ao advogado.

Um brinde a quem já entendeu que somos todos tijolos do mesmo barro. Compomos a mesma construção. We are all just silly bricks on the same bloody wall!

Um brinde a vida! Essa vida doida! Ansiosa. Compulsiva. Apressada.

A gente corre tanto para quê mesmo??? Não sabemos. Mas, nem paramos para perguntar. Não dá tempo!

Um brinde ao tempo e a falta que ele nos faz.

Um brinde a crise! A todas as crises.

Um brinde a esquerda, a direita e ao centro. A todos os partidos que pensam saber aonde estão indo. Lamento, senhores. Mas, estão perdidos. Não sabem e não podem guiar ninguém. Um brinde a vocês todos, tolos!

Sim! Um brinde! Um pileque homérico.

Um brinde louco para este mundo doido.

Um brinde a ressaca que isso tudo vai nos dar!

Entre resignação e tristeza. Entre risos de ironia e ceticismo. A tudo contemplo através de uma taça de Malbec.



Aguardo o trem bater. Respiro fundo e aperto os cintos.

Fecho os olhos e espero a colisão. Vai bater...isso é certo! Mas, não acho que vamos morrer!!!

Não há heróis. Nem salvadores da pátria. Tem não, viu??? Acorda!! Deus não descerá dos céus para fazer o nosso trabalho. Essa bagunça toda que está aí é nossa, só. Não é de mais ninguém...

Sigamos em frente, que depois do pileque, vem a dor de cabeça.

Antes de melhorar, ainda piora um pouco.

Para recostruir....vamos ter que desmontar tudo! A começar de cada um de nós. Isso é empolgante e ao mesmo tempo assustador. Está na hora de parar de reclamar e agir. A mudança é de dentro para fora.

E aí???? Vambora? Ou vamos embora de vez????