sábado, 28 de março de 2015

Noite do Perrengue III - 21 de março de 2015

Mais uma Noite do Perrengue. Mais uma vez Sauípe. Mais uma vez Arnaldo e Gaia na coordenação. Mais uma vez largada de madrugada, frio na barriga e muito muiiiito perrengue.

Mas o que teve nessa prova que não teve nas outras?

Foi a maior concentração de organizadores de provas das galáxias! Estava todo mundo lá! D'Aventura, Gantuá, Fernando Severino – que andava meio sumido! E fotógrafos! Muitos fotógrafos!
A propósito, antes que eu me esqueça, as fotos que estão neste release foram selecionadas dos álbuns de Fabio Linhares, Kassi Kaiper e Claudia Tedesco. Pessoas lindas e profissionais maravilhosos da arte de fotografar!
Corredores que são verdadeiras lendas vivas também prestigiaram o evento: Alan Pedreira correu com Chiquito, Mauro Chagas levou uma turma de novatos. Tadeu se encarregou de outra trupe. E assim formaram-se 60 duplas. 120 doidos!
 
Claro que os Aventureiros não iam ficar fora dessa. E éramos muitos. E fomos de galera. E enchemos a planilha de Arnaldo, de ponta a ponta.


Os nossos preparativos começaram na semana anterior, quando participamos da nossa primeira corrida de Mountain Bike – organizada pela Gantuá. O release daquela emocionante aventura você lê neste link: Corrida do CT - mountain bike

A corrida do CT nos trouxe uma série de aprendizados. O principal deles é que eu precisava pedalar mais....Eu até consegui subir e descer ladeiras sem medo... Só estava precisando fazer isso mais rápido...

Para resolver esse probleminha, além de levar os treinos mais a sério, resolvi mudar de equipamento. Troquei minha Scott azulzinha e velhinha por uma Scott vermelhinha novinha em folha! Sempre quis ter uma Scott vermelhinha! Tudo pronto, partimos rumo a Sauípe para mais uma aventura.

O Perrengue já começou na entrega das bikes. Um ladeirão medonho cheio de buracos e com árvores que se embrenhavam nas bicicletas. Uma escuridão danada. Chegamos a pensar em deixar o carro na base do morro e subir pedalando.. Ideia abortada logo em seguida. Se não era trafegável, quem garante que seria pedalável?
 Vencemos o primeiro desafio e fomos para o clube, confraternizar com os amigos e ouvir Gaia nos meter medo! Novatos, não peguem o PC X!!! Cuidado com a pirambeira!!!
 Ai ai....
Óh minha cara de medo ao pegar o mapa!
 
Depois de estudar bem o mapa e marcar direitinho todas as distâncias, ainda sobrou tempo para um cochilinho.... até que Gaia puxou meu pé lembrando que não estávamos ali para dormir!

Hora da largada!

Meia-Noite em ponto! Parecíamos um bando de morcegos em revoada rumo ao pórtico. Eu tratei logo de comemorar a corrida toda na largada. Se não conseguisse terminar, pelo menos já estava devidamente comemorada!

 
Largamos de trekking num ritmo bom e passamos muita gente. Não faltou fôlego nem navegação! Rapidamente achamos o primeiro PC, também conhecido como PC-Gaia, do verbo Gaiamum-que-porra-é-essa????!!! Uma lama só!!!

Para completar, ainda tinha fila! Muita gente achou esse PC  quase ao mesmo tempo. Tínhamos que esperar a vez para picotar a pulseirinha. Xinguei meio mundo de gente, pois achei que estavam com nojinho do mangue.... Quando chegou minha vez de botar o pé na lama é que entendi a desgraça!

Pense o que é começar a prova com o tênis pesando meia tonelada! E tinha que pisar com cuidado mesmo, porque uma queda ali não seria nada agradável....

Na volta, ainda dei uma cabeçada homérica num tronco que serviu para colocar as ideias no lugar....Chegou a apagar minha lâmpada!

Recomposta e mantendo o pique, achamos logo em seguida o PC-2. Animadíssimos e sob um céu de um milhão de estrelas, seguimos um longo trecho de praia rumo ao terceiro PC.
A propósito, gostaria de sugerir a organização que não faça mais trilhas pela beira da praia. Ali é área de desova de tartarugas. No escuro, corremos o risco de pisar as filhotinhas. Uma dupla até parou para ajudar as bichinhas a chegarem no mar. Passamos com o maior cuidado para não bulir com as donas do pedaço. Afinal, os intrusos ali éramos nós...
Chegamos ao local do PC-3, mas ele resolveu sair antes da prova para tomar banho de mar e nunca mais voltou!!! Uma das duplas tirou até foto para servir de evidência de que havíamos passado por ali. Posei para a foto junto com mais uma galera e seguimos adiante. Não havia tempo a perder.
Íamos conversando animadamente sobre como é estimulante achar os primeiros PCs com facilidade. A navegação estava fluindo bem. Nosso ritmo estava ótimo. A corrida prometia!


 Caminho para o PC-4 - Aí as coisas começaram a ficar esquisitas....
A primeira travessia foi até fácil de achar. Era um mangue bastante fedido e lamacento. Passamos praticamente caminhando sentindo coisas estranhas se enrolando em nossas pernas e pés... raízes? sucuris? vermes? jacarés????? Melhor não parar para perguntar....Ainda bem que estava escuro!

Daí em diante, tivemos muita dificuldade para navegar. Pouca habilidade no uso da bússola, mata, ausência de lua e uma quebra na concentração acabaram por nos prejudicar bastante. Tentei orientar o mapa só para perceber que estávamos fora da rota. Começamos a andar em círculos.
Ali no meio do escuro e com todas aquelas estrelas brilhando no céu, lembrei no meu pai. 21 de março é a data em que ele nos deixou, três anos atrás. Pedi aos anjos bons que cuidem bem dele lá no "Nosso Lar".. do outro lado da vida.
Meu pai era um excelente navegador. Uma vez, quando ele estava no exército, seu comandante o deixou sozinho com uma faca e uma bússola bem no meio da floresta Amazônica. Depois de muitos dias se virando como pôde, finalmente ele chegou a um vilarejo e dali voltou a sua base, deixando seu líder e colegas boquiabertos. Ninguém acreditava que ele seria capaz de se virar sozinho. Foi o teste de sobrevivência mais difícil de sua vida. E ele venceu. Como venceu muitos outros desafios ao longo da sua vida.
Fiquei me perguntando porque não aproveitei para aprender a navegar com ele... Quantas outras coisas mais eu deixei de aprender...Deu saudade. Deu vontade de chorar...
Fiz uma prece a Deus e pedi ao meu pai que de onde ele estivesse nos desse uma forcinha. Afinal, estava muito escuro e estávamos perdidos. Pedi desculpas por não ter aproveitado melhor nosso tempo juntos aqui na terra. Enxuguei os olhos, e tratei de andar... Começava a cair uma chuva fininha... Parece que uma nuvem chorou também...
E nós dois, Vand e eu, em silêncio, continuamos a andar em círculos por minutos intermináveis...Eu queria ajudar meu navegador, mas não sabia como. O mínimo que eu podia fazer era andar o mais rápido possível sem reclamar e tentar ler o mapa para ajudar...
No meio do escuro, Vand declarou que a prova terminara para nós. Que estávamos perdidos e que ele não tinha a menor ideia do que fazer. De repente, do nada, a dupla "Advogados Aventureiros" surgiu na nossa frente. Olha gente, acho que é por aqui.... E sumiram de novo, no escuro... . Pensamos em segui-los. Chegamos a dar um ou dois passos em sua direção. Mas, Vand, desconfiado não foi. Eu parei também. Já tínhamos tentado aquela trilha antes e sabíamos que ela dava em lugar nenhum.
Normalmente não seguimos outras equipes, a menos que estejamos convencidos que é aquele o caminho. Preferimos fazer a nossa navegação. Certa ou errada.
Dessa vez, erramos... Perdemos a oportunidade de achar o caminho certo. Essa dupla chegou bem na nossa frente ao final da prova.

Mas, de qualquer forma a ajuda foi válida. Alguns minutos depois, voltamos para a trilha que eles nos indicaram e logo achamos uma estradinha bem aberta que não tive dificuldades de reconhecer no mapa. Estávamos de volta a rota!

Enquanto eu mostrava ao Vand a trilha, uma  outra dupla masculina apareceu e ratificou o meu palpite. Finalmente achamos a segunda travessia. Bem mais fluida e mais limpinha. Agradeci mentalmente a "ajudinha" do meu pai e nos jogamos no mangue.
Havia outras duplas passando. Uma mulher gritava "eu não sei nadar!!" Não dava pé. Tinha que nadar mesmo. Vand, sempre cuidadoso, verificava a todo instante se eu estava bem.
Mesmo nadando com mochila e tênis, parece que a corrente ajudou... Ou os nossos anjos da guarda, sempre de plantão, resolveram dar uma forcinha...Atravessamos sem maiores dificuldades.
Depois de muito andar, achamos o PC-4 e  saímos a caça dos demais PCs. Seguimos a trilha para o PC-5 e ainda encontramos um monte de gente conhecida no caminho. Lulu e Vitor, Gabi e Mauro, Marcelo e Claudio... Tadeu e sua trupe... Uma farra! Que alívio ouvir vozes depois de mais de uma hora de solidão no mato!
A trilha para o  PC-6 estava bem marcadinha. Não foi difícil achar a casa do Zé.
Re-animados,  finalmente chegamos a transição. Devido ao nosso erro de navegação, batemos o PC 7 uma hora depois do nosso planejamento. Mas, cada PC é uma pequena vitória e logo tomamos ânimo novamente. Afinal, agora era hora de estreiar a bike....
E eu pedalei, gente!!! Como nunca antes na história da minha vida!  Foi até gostoso subir um ladeirão pedalando enquanto alguns colegas empurravam a bike... Tentei ser educadinha, porque sei o quanto isso é irritante!! "Dá licença gente, tô passando aqui do seu lado esquerdo..." "Oh.. bike passando na sua direita.... "
E as descidas! Todas bem estabilizadas. Várias sem apertar o freio! Era um Uhuuuuuu! para subir e dois Uhuuuuuus para descer. Parecia criança com brinquedo novo! E era mesmo...
Mas, bicicleta só fica em pé enquanto se pedala! Parou, caiu!
Uma vaciladinha para admirar o menino-prodígio que encontramos num estradão de areia e puff! Caí igual a uma jaca na areia fofa! Quase fui atropelada por outro ciclista e fiquei parecendo um bife a milanesa.... A areia era a farinha e eu o bife! Até hoje tiro areia do cabelo....
Rindo da própria desgraça, levantei, sacudia  areia e botei as catraquinhas para girar!  Este foi o único momento da prova em que fiquei mais de dez metros atrás do Vand. Logo o alcancei e seguimos viagem. Meu parceiro ficou orgulhoso de mim!!!!

Os PCs da bike não estavam assim tão fáceis. As trilhas eram bem demarcadas e pedaláveis, como Gaia prometeu. Porém tinham um defeito... Eram todas iguais!!!! Era eucalipto de um lado e eucalipto do outro. Estradão no meio! Várias paralelas do azimute encontrando-se no infinito e nos afastando dos PCs. As lâmpadas começaram a falhar. A chuvinha fina ia e voltava..
E eu rezando para o dia amanhecer logo.
Ao menos minhas preces foram atendidas... É lindo ver o sol nascer... Principalmente quando você não tem mais iluminação...
 
O trecho mais difícil de pedalar foi mesmo o da tal pirambeira, tão alardeada pelo Gaia. Ainda pedalamos por um bom trecho, mas logo ficou impossível. Muita lama, muito escorregão, muito buraco.... Rolou um push-bikezinho de tirar o fôlego!

Finalmente chegamos ao PC-12. Eram 6:20 da manhã! Quarenta minutos antes do corte! Uhuuuuu! Uhuuuuuu e Uhuuuu de novo! Uhuuuuu ao cubo!!!!
Embora tenhamos decidido não pegar o PC X, eu sentia que estávamos na briga! Animadíssima, eu só pensava em remar...
Eu adoro remar. É tão gostoso! Chega a ser relaxante depois de um pedal puxado...
Renovada pelo guaramix geladinho, puxei meu companheiro que já apresentava sinais de desânimo. Ele queria desistir do remo e me sugeriu pedalar direto para a chegada....

Com muito carinho, olhei bem dentro dos lindos olhos azuis do meu companheiro de aventura e de vida e disse-lhe carinhosamente:

- DEPOIS DE TUDO O QUE PASSAMOS PARA CHEGAR ATÉ AQUI!!!! NEM PENSAR! PEDALE SUA PORRA QUE NÓS VAMOS TERMINAR ESSA PROVA!!!
E foi assim, com toda a doçura que me é peculiar, que sai pedalando sem olhar para trás... e Vand também, é claro! Afinal, ele é tão ou mais competitivo do que eu.. Não ia deixar por menos.
Fizemos um pegazinho nós dois naquelas ladeiras. Ora eu ia na frente, ora ele me passava. Foi gostoso demais! Valeu a prova toda!
Pensei que seria mais fácil chegar no PC-13. Chegamos bem perto dele quando cometemos nosso segundo erro de navegação...De repente, Vand não reconhecia mais a trilha. Tinha algo errado. Estava tudo muito estranho.... Eu fui tentar ajudar e por alguma confusão mental, eu achei que o PC-13 era no mar e já seria a transição.... Na verdade, ele era no BAR!!!!! Acho que passamos na porta do PC, mas como não picotamos nem anotamos nada.... Deixamos que ele nos escapasse. Isso nos rendeu várias posições no ranking. Até agora a gente se pergunta onde foi que nós erramos!

Quando nos demos conta de que Bar não é Mar, já estávamos há mais de um quilômetro de distância.

Decidimos em comum acordo desistir do PC e concluir a prova. Perseguiríamos o PC 14. Ainda daria tempo de terminar a prova com honra!

Eu ia pedalando e rezando para remar, mas já prevendo que tomaríamos um possível corte de segurança...
 O que eu temia me sobreveio.....
Chegamos esbaforidos no PC-14. Eu dei um grito visceral que era o desabafo de mais de 7 horas de corrida sem parar para nada. Um grito de fome, de sede e de superação.
Afinal de contas, ficamos perdidos, enlameados, areados e cansados, Mas, batemos mais um PC!
A galera até se assustou. Teve gente me pedindo calma..
Não se assustem, pessoas! Foi só um desabafo. Costumo fazer isso com alguma frequência...
Lulu calçava sua sapatilha. Uma pessoa guardava barcos em um carro. Gaia tinha um olhar triste.... Carol marcava nossa chegada....
- Vocês tomaram corte!
Poxa! De novo! Que merda! - Resmunguei eu.
Rapidamente me recompus, porque não somos de perder tempo com reclamações inúteis.  Eu só queria saber o que devia fazer. É para pedalar tudo de volta, é????? Tá bom! Então vambora!!

Havia pessoas bravas por terem tomado o corte.
Não ficamos zangados. Afinal, eu entendo que a organização tem a prerrogativa de interromper a prova em qualquer tempo, por razões de segurança ou de logística. É importante que todos entendam isso.

Vi Lulu tentando me dizer que estava indo também e que poderíamos ir todos juntos. Mas, eu estava com fome e sem água. Queria apenas concluir a prova.  Saí pedalando feito um jegue alucinado....Vand vinha atrás, já desiludido. Segui aquele estradão todo passando um monte de gente.... Ainda tinha muito pique. A raiva pelo corte e pelos PCs perdidos serviram de combustível para esse sprint final.

O desânimo bateu forte só quando chegamos na vila. Não tinha ninguém indo naquela direção... Todos os ciclistas sumiram...Alguma coisa estava errada... O mapa apresentava um caminho de mais de dez quilômetros... Não pode ser. Deve ter um atalho. Vamos perguntar...

Encontramos dois aventureiros que confirmaram que o caminho era o do mapa mesmo. Mas era pedal para mais de uma hora... Não é possível... Estávamos em Porto de Sauípe. Precisávamos chegar em Costa do Sauípe!! Um Porto por uma Costa, pois minhas costas doem... e muito! Please!!!!
Como não tinha mais o que fazer, pedi que os colegas dividissem sua coca cola com a gente. Eu odeio coca-cola!!! Mas, estava com tanta sede e fome que achei que era um verdadeiro néctar celeste!

Vand, meu amor, vambora! Quanto mais tempo ficamos aqui, mais longe estará a linha de chegada!

Resignados, fomos seguindo o mapa. Em dado momento, dois simpáticos sergipanos nos abordaram. Mais uma ajuda celeste, dos anjos do bem e do meu velho pai, também sergipano...Um dos senhores nos abordou....Reconheci sua origem pelo sotaque.

 - Ei, vocês se perderam dos seus amigos, foi???
Eu disse ofegante:  - Moço, precisamos chegar em Costa do Sauípe!

- Oh, fia, vá por aqui não... É muito longe... – Ói, tem um atalho! Vou lhe ensinar. Vocês voltam para o campinho, quebram a direita e vão sair numa rua asfaltada. Segue reto que vai sair na estrada do côco, bem “dijunto” da entrada para Costa do Sauípe... Agradeci a Deus, aos santos anjos e ao meu pai, que certamente teve algo a ver com isso!

Ânimo um pouco mais renovado, seguimos adiante. A dica estava certinha! Logo que achamos a Estrada do coco, Edilene e sua trupe nos alcançaram. Oba! Gente conhecida! Estávamos no caminho certo! Logo logo saímos da rodovia e seguimos por uma trilha de chão bastante familiar. Era o caminho para o Quintas Private Residence!

O pórtico, a buzina, a chegada! A emoção de mais uma prova completa. A certeza de que estamos progredindo. Não  importa se não deu pódio. Abrimos mão dele ao desistir de dois PCs. Deixamos escapar uma classificação melhor porque erramos bastante na navegação. E o corte no remo foi a estocada final. Mas, tudo isso faz parte da brincadeira.
Levamos para casa vários aprendizados. A análise crítica foi feita. Certamente a próxima corrida será ainda melhor.

Para Arnaldo, Gaia e toda a galera que organizou a prova eu dou mais uma vez muitos parabéns. Sabemos o quanto é difícil montar uma competição como essas e percebo nos seus olhos e atitudes que fizeram tudo com muito amor.

Para meus amigos da Aventureiros do Agreste, outros muitos parabéns!!! Lulu e Vítor são nosso orgulho! Levaram o pódio para casa. Gabi e Mauro também arrasaram. Não só completaram a prova, como garantiram o quinto lugar. Claudio e Marcelo, cada vez mais sinérgicos. Cada vez mais Aventureiros. Tadeu fazendo sempre o lindo trabalho de trazer sangue novo para as provas. Que delícia fazer parte desta equipe. Olha que sorrisos lindos...
 
Aos anjos da floresta, aos espíritos de luz e ao meu pai, que sei que de onde está de vez em quando me dá uma ajudinha silenciosa: Muito Obrigada!

Parabéns aos fotógrafos, ao pessoal do Quintas Private. Um agradecimento especial a turma que nos preparou o café da manhã. Estava tudo delicioso.

Ao meu marido, companheiro e navegador de sempre. Para toda a vida estarei ao seu lado. Perdidos no mato ou nadando no mangue. Que Deus nos permita vencer muitos e muitos perrengues. Te amo.


O gostinho de quero mais ficou na boca... Quero fazer a Noite do Perrengue IV!!!
E dessa vez, sem cortes!




domingo, 15 de março de 2015

Corrida de Mountain Bike - CT Gantuá 15/03/15

Corrida de Mountain Bike do CT Gantuá.

Hoje é um dia histórico. Milhares de pessoas estão nas ruas protestando contra o Governo.
Que bom ter liberdade de ir e vir. De ser contra e de ser a favor. Quando eu nasci, era proibido discordar. Ir para a rua protestar era perigoso. Era certo passar a noite no Xilindró, apanhar da Polícia e muitas vezes, nem chegar a casa... Ainda bem que esse período negro passou. Ditadura Nunca Mais!

Infelizmente, muitos dos manifestantes estão pedindo a volta da malfadada Ditatura Militar. É uma ignorância histórica sem mais tamanho.... Mas, enfim. Viva o direito de expressão! Viva a Democracia!

Sustentada em meu direito de ir e vir e no princípio universal do Livre arbítrio, não fui protestar. Fui pedalar. Alienada? De jeito nenhum! Também não estou satisfeita com o Governo. O setor econômico em que trabalho tem sofrido demais nos últimos 10 anos. Porém, eu já me manifestei nas urnas. Meu candidato perdeu as eleições. Aceito o resultado e sigo a vida. Paciência. Podemos tentar de novo nas próximas eleições.

Como sou desportista, sei ganhar e sei perder com dignidade. E é sobre esporte que vamos falar agora.

Existem inúmeros atletas de alto nível neste mundo. Existem muitos no Brasil. Existe um grupo expressivo no Nordeste. Existe um bom número na Bahia. Vários deles estavam na corrida do CT da Gantuá.


Gente que já correu o Brasil Ride e que treina todos os dias,  de 50 a 100 km em cada treino, subindo e descendo trilhas, comendo poeira, passando em charcos, areais e ladeirões.

E no meio de toda essa gente, lá vamos nós. Pessoas comuns. Dois trabalhadores "full-time" da indústria brasileira. Treinando uma horinha ou outra durante a semana, quando dá. Fazendo 20 ou 30 km, quando muito, nos fins de semana. E a gente vai junto com os "tops", com a cara, a coragem e nossas bikes sem clips (Calma! Já tomamos vergonha! Os clipes chegarão em abril!).

Largada da corrida do CT 15 de março de 2015

Ói nois aí....
Havia cerca de duzentas duplas inscritas. Várias veteranas de corridas de mountain bike. Nós nunca havíamos feito uma competição como essas. Fazemos corrida de aventura, que é bem diferente. Foi a nossa estréia. Por isso, fomos de coração aberto, com muita vontade, mas sem grandes expectativas.

A prova, organizada pela Equipe Gantuá de Corrida de Aventura, foi um primor de organização. Mérito dos super competentes Diana Gomes e Alan Pedreira. Este casal de jovens empresários é uma referência em esportes de aventura no Brasil, além de serem pessoas maravilhosas.
 
Quando vi aquele mar de gente com uniformes padronizados, bicicletas de última geração e aquela pinta de profissionais, eu me senti bem intimidada a princípio. Éramos apenas dois Aventureiros do Agreste. Únicos representantes da nossa equipe e ainda carregando o nome do patrocinador, a Targa Náutica. Uma baita responsabilidade, principalmente porque estamos longe de ser do primeiro escalão de atletas dessa equipe supertradicional de esportes de aventura.
 
A largada, pontualmente as 9:00, foi uma alegria só. Vários atletas levaram amigos e parentes. Um monte de gente tirando fotos. Eu senti um pouquinho do que deve ser correr numa prova grande, como o Tour de France. O coração parecia querer sair pela garganta. A respiração acelerada roubava meu fôlego. Eu chegava a tremer de emoção.
 
Os primeiros 5 km foram ladeira acima. A longa subida do Castelo Garcia D'ávila já separava homens de meninos. Atletas experientes de novatos. Treinados de todo-dia e atletas de fim de semana.
 
Depois, vieram as trilhas já nossas velhas conhecidas de Sapiranga. Treinamos muito ali para fazer o Caminho de Santiago, no ano passado. Eu conheço cada tronco e cada pedra desse percurso. Isso me ajudou bastante a desviar dos perigos das trilhas.
 
Descemos bem as ladeiras, os single trekkings e todas as pirambeiras que apareceram pelo caminho. As subidas foram mais custosas e a falta de fôlego sempre vinha me avisar que eu tinha que treinar mais. Antes do km 10 eu estava pensando seriamente em devolver o café da manhã... Vi que teve gente que o fez isso mesmo, ali, no meio da trilha... Eu tratei de engolir o engulho e pedalar. Não tínhamos tempo a perder.
 
Ofegante, concluímos a primeira parte da prova. Infelizmente, não chegamos a tempo de entrar no circuito Power e tivemos que nos contentar com o trecho "light".... Light mais ou menos, né?.... Foram 20 km de muita técnica e esforço físico!
 
Não paramos para nada! Nem nos pontos de água. Levamos um suporte extra que nos garantiu uma chegada tranquila e bem hidratada. Vand foi com o camel e eu com um skeeze e um cinto de utilidades contendo quatro garrafinhas. Elas me salvaram, mas me fizeram também perder duas posições, quando resolveram cair no meio da trilha. O parceiro ficou bravo, duas duplas nos passaram, mas as garrafinhas foram resgatadas. Porém, vão tomar penalidade e estão cortadas da próxima aventura: A Noite do Perrengue 3, na semana que vem. Nem pensar em caçar garrafas no escuro!! Vou voltar para meu bom e velho camel back!
 
A segunda metade da corrida foi bem mais fácil. Ainda tinha vários trechos técnicos, mas era só descida. E eu, que deixei o medo de ladeiras lá em Santiago de Compostella, não tive dificuldades para completar a prova.
 
Nas ladeiras mais difíceis, quando o fôlego faltava eu me lembrava de que sou mãe. Eu pari com 19 anos, e isso não foi nada fácil! Logo, o que é uma subidinha dessas?
Nas descidas mais íngremes eu me lembrei da cidade de Redondela no Caminho de Santiago, nunca vi tamanhas ladeiras! Foi lá que perdi o medo. Não ia deixá-lo voltar.
Uma das ladeiras infinitas de Redondela. Essa é uma "fácil".
Também em Redondela...Essa aqui era mais legal e igualmente infinita....
OBS: A segunda foto de redondela foi copiada respeitosamente do Blog Movimento Caminhos Peregrinos: http://movimentocaminhosperegrinos.blogspot.com.br/p/quem-somos.html

Quando achava que ia desmaiar, eu me lembrava de que já sou vencedora, por ter deixado o conforto do meu sofá e me jogado em uma corrida no meio de um monte de gente boa. E que tinha deixado vários deles para trás.
 
Subimos todas as ladeiras pedalando, enquando outros competidores empurravam suas bikes.
Descemos todas pedalando, enquanto muitos quebraram pelo caminho.
 
Os poucos trechos que empurramos as bikes são aqueles em que não dava mesmo para andar em duas rodas.
 
Não sabemos nossa posição ainda. Infelizmente, não conseguimos o sonhado lugar no pódio. Mas, isso não nos desmotiva, pois temos progredido muito neste esporte. E, quando olho em perspectiva, vejo que estamos sempre evoluindo.
 
Quando eu comecei, lá em 2008, eu nem sonhava com medalhas. Completar a prova viva já era um grande prêmio. Depois, veio a meta de completar sem tomar corte. Depois, começamos a tomar gosto pelo pódio, quando beliscamos o primeiro troféu no CICA- Etapa Peleja de 2014 (Quarto Lugar - Abr/14) e logo em seguida ganhamos mais um em outra fase do CICA - Etapa Cangaço (Sexto Lugar - set/14). Tudo isso só foi possível depois que encontrei meu Parceiro de Aventuras ideal, um alemão-gaúcho que aprendeu a pedalar antes de saber andar e que não tem medo de nada.
 
Eu, por outro lado, aprendi a pedalar com 21 anos, em uma Caloi Ceci cor de rosa com cestinha. Meu primeiro encontro com uma bike de montanha foi mais de dez anos depois. Logo, eu me considero uma eterna aprendiz nesse esporte. Mas, nem por isso menos intrépida!
 
Somos nós quem nos colocamos limites. Mesmo quando falta auto-confiança ou apoio externo, se sobra força de vontade, podemos superar todas os desafios, seja na bike seja na vida.
 
Nossa meta era estar lá, no meio daquele povo "top" e superar os nossos próprios limites. É claro que pódio é gostoso. É claro que a gente também quer ganhar, mas, no esporte como nas eleições, e como em qualquer disputa, é preciso saber perder.
 
Passamos no pórtico da chegada felizes. Subimos mais um degrau na escala dos desportistas de fim de semana. Com foco, treino e determinação, sei que podemos chegar muito longe.
 
Sou muito agradecida por ter um esporte para me dedicar. É no mato que deixo minhas preocupações do dia a dia, minhas limitações e meus medos. Troco todos por coragem, determinação e vontade de vencer. Levo tudo o que aprendi para a vida diária, que não é nada fácil!
 
A cada trilha aprendemos mais sobre respeitar os nossos limites e os dos outros; É gerenciando pequenas crises nas corridas, que aprendemos a lidar com os grandes desafios da vida. É no mato que exercitamos a paciência, a persistência e a determinação.
 
Aprendemos a respeitar a natureza, que sempre nos recebe com tanta generosidade; Aprendemos a valorizar o Interior do nosso Estado com suas belezas naturais. Fazemos amigos, ganhamos experiências. Vivemos intensamente!
 
Não deu pódio.. Não deu.. Mas, deu vontade de voltar no ano que vem e tentar de novo!
 
Parabéns Diana Gomes e Alan Pedreira por mais uma prova super bem planejada, linda e altamente profissional. Que Deus os ilumine e os faça prosperar ainda mais. Vocês são nota 10!  Sempre nos surpreendendo! Estou doida para ver as fotos e filmagens que fizeram. Devem ter ficado sensacionais.
Gente, teve até drone filmando a corrida!!!
A todos os que não foram, fica o convite. Larga o sofá e vem pedalar. Você vai sofrer, vai suar e vai se cansar... E o pior... Vai adorar fazer isso!!
 
Obrigada a todos os amigos que nos estimularam e nos apoiam o tempo todo.
 
Foi com muito orgulho que vesti novamente minha camiseta rosa. Levamos o nome dos Aventureiros e queremos continuar levando. Amo minha equipe com todo o coração!
 
Agora, vamos descansar que semana que vem tem mais...