segunda-feira, 28 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 4

Hoje o dia foi emocionante! Batemos nosso record e fechamos a jornada com 63 km. Santiago se aproxima a cada pedalada.

A noite passada foi quente. Nem uma folha mexia na Galícia. O Sol, teimoso, foi se deitar lá pelas dez. Foi difícil pegar no sono, não só pelo calor, mas também porque cada vez que eu fechava os olhos, via trilhas e mais trilhas de pedra, estreitas, todas descendo num downhill infinito. Acordava assustada achando que ia tomar uma queda a qualquer momento.

As seis da manhã o tempo já estava bem mais fresquinho. Era hora de se preparar para mais um dia de pedaladas. A meta era chegar a Pontevedra (47km desde Tuy). Se conseguíssemos chegar cedo, pretendíamos dar mais uma esticadinha no Caminho para tentar ganhar algum tempo.

Pois o dia nos saiu melhor que a encomenda! Confesso que os primeiros 20 km foram preguiçosos. O corpo não doía, mas as pernas simplesmente não obedeciam ao comando. Embora tenhamos acordado cedo, precisamos esperar o moço da hospedaria acordar para liberar nossas bikes. Com isso, só pudemos sair as 9. Isso contribuiu com nossa preguiça.

Até as panturrilhas acordarem levou tempo. Mas, não teve jeito. Tivemos que nos jogar morro acima e ladeira abaixo sem reclamações. Afinal, isso é uma peregrinação e não um passeio no Ibirapuera, ora pois!! Quando chegamos a Porriño era muito cedo para almoçar, então resolvemos passar sebo nas panturrilhas e seguir adiante.

Chegamos em Mós, há 9km de Redondela um pouco antes do almoço. O plano era almoçar em Redondela, que fica na metade do caminho até Pontevedra, nossa meta do dia. Acontece que esses nove quilometrinhos são feitos de ladeiras intermináveis e sinuosas, morro acima. Parte das nossas pernas ficaram nos pedregais de Rubiães ontem. Com o que sobrou não ia dar para subir sem sustança!

Resolvemos comer por ali mesmo num barzinho que não servia almoço. A dona, muito simpática, improvisou um menu composto de macarrão e molho de tomate com pão e azeite. Nada mal para dois peregrinos.

Pausa para o almoço:


Descansamos um pouquinho numa pracinha para logo encarar o morrão.

Depois de subir, subir, subir e subir... Vem o descer! Tudo! De uma vez só...
Eis que me deparei com uma ladeirona de asfalto ultra inclinada e cheia de curvas. Vand desceu e sumiu da minha vista em um segundo... Eu, tive um acesso de pânico e travei. Não consegui. Desci a ladeira empurrando a bike e enxugando as lágrimas, vendo peregrinos a pé me ultrapassarem.

Troço estranho é o medo. Não há razão para tê-lo, mas mesmo assim ele vem e te domina. Que coisa!

O caminho todo é entrecortado por bosques, trechos de rodovia, ladeiras subindo e descendo, vias de areia, de barro, de cascalho... Ou seja, tem para todos os gostos!

Numa dessas trilhinhas tomei um susto danado! Passei na frente de um portão que se abriu num estrondo e de lá saiu um cachorro correndo e latindo em minha direção. Pulei da bike na hora e a usei de escudo. Eis que da casa me sai uma senhorinha em seu avental de cozinha a bradar com o cão em galego. Aproveitei a deixa para descer a trilha a toda, só parando no final. Até agora minha perna treme! Incrível como um medo pode te ajudar a superar outro! Não é que eu desci a ladeira????

Pois bem, passado o susto, seguimos viagem por mais trechos de lindos bosques. Todo esse teecho é protegido pela Virxem da Guía, ou Virgem do Caminho, protetora dos peregrinos e das crianças, conforme a fé local.

Chegamos em Redondela por volta de 13h. É uma cidade grande, cheia de carros e gente para todos os lados. A sinalização é confusa, o que nos fez perder o caminho algumas vezes. A sorte é que sempre aparece alguém na hora H para nos ajudar. Sorte não. São as bençãos do Caminho.

Em um dos trechos de Rodovia, desses que não tem ciclofaixa e passam caminhões a toda, eu desejei ardentemente uma rota fora da estrada. Era um trecho bastante perigoso. Eu calculava mentalmente os riscos de uma queda ali. A direita havia a vala e um provável braço quebrado. A esquerda, a rodovia e uma morte instantânea... Decidi que era melhor não cair e tratei de ficar bem direitinha no caminho do meio!

Em dado momento, encontramos duas sinalizações contraditórias. Uma apontava para seguir a rodovia e a outra indicava uma trilhinha ladeando um rio. Enquanto decidíamos o que fazer, um Galego se aproximou e explicou que os dois caminhos estão certos, mas o da margem do rio nos tiraria da "carretera" (rodovia). Era tudo o que queríamos! Agradecemos a Deus e a Virxem e descemos a trilha.

Ainda houve outros momentos de rodovia, o que sempre me deixa muito tensa. Mas, todos bem curtos. A maior parte do caminho foi ou por trilhas perto de propriedades rurais ou por dentro de bairros residenciais com muitas, muitas ladeiras infindáveis de asfalto, outras de terra, cascalho ou areia.


Depois do meu último xilique e aprendida a lição com o cão perseguidor de ciclistas medrosas, resolvi inventar uma técnica antipânico. Consistem em colocar a bike na marcha mais pesada nas descidas e olhar somente um metro e meio adiante. Isso te dará a ilusão de ótica de estar pedalando no plano. Só funciona se não olhar muito a frente. Se eu vir uma curva acentuada, um capacete sumir morro abaixo ou o fim da ladeira, já era. Não vou de jeito nenhum! Pois bem, a técnica antipavor funcionou. Desci um ladeirão comprido pra xuxu, olhando de metro em metro. Controlei a respiração e assim fui. Só desci da bike mesmo quando dona prudência mandava, afinal, há que se ter juízo!

Um pouco antes de Pontevedra, encontramos essa linda igrejinha antiga, dedicada a Santa Marta. Havia umas pessoas limpando e ornamentando a capelinha para a festa da santa, que por acaso é amanhã.

Pois, num instante chegamos cedo a Pontevedra e fomos invadidos por um ânimo novo. Já havíamos percorrido cerca de 50km, mas ainda queríamos mais!



Decidimos pedalar até o próximo albergue, que só chegaria uns 13 km depois de muitas ladeirinhas sobe-desce. Achamos um simpático albergue ce gente muito educada em Portela.

Havia um grupo composto de portugueses, espanhóis, franceses e uma americana. Todos nos esperaram tomar banho para o jantar. Antes da comida, o responsável pela casa pediu a um dos peregrinos que fizesse uma oração. Tudo muito agradável. Ah, e ainda tinha comida para vegetarianos, pois o dito senhor é da minha tribo!

Assim concluímos nosso objetivo de hoje, tendo vencido vários desafios. A autoestrada, o cão e as ladeiras...


As pessoas já dormem e quase não roncam. Daqui do quarto ouço o vento batendo no bosque de pinheiros que está la fora e a respiração compassada de peregrinos cansados.

Agora vou dormir também, que amanhã tem mais pedal.


domingo, 27 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 3

28 de julho de 2014.

Deixamos 140 km para trás... Faltam 118 para Santiago de Compostela.

A noite em Ponte de Lima foi um tanto pitoresca. Escolhemos ficar no albergue municipal, desenhado para peregrinos. A ducha é coletiva, assim como o quarto. E bota coletivo nisso. Mais de 20 pessoas espalhadas em caminhas de napa sem lençóis. Não há toalhas também. Os peregrinos precisam levar tudo. O lugar é bem limpo. Ainda se pode lavar a própria roupa ( a mão, é claro!). E se tiver sua própria comida, pode se servir a vontade na mesinha de madeira.

Os peregrinos são sempre muito simpáticos e atenciosos. Em nosso quarto havia portugueses, norte-americanos, um sul-coreano loiro e um alemão que andava marchando. Mesmo de sanďálias, parecia que estava de coturnos.

Na hora de dormir, outra experiência antropológica... Quando as pessoas se cansaram de andar para lá e para cá, começaram a cochichar, para logo em seguida roncar em turnos... Era só um parar para o outro entrar logo em seguida, em uma sinfonia bem sincronizada de sons guturais.

Ah, tinha também o sino da igreja que insistiu em tocar até a 1 da manhã, para voltar a tocar as 6....

Entre um cochilo e outro tive sonhos complexos. Era estranho, pois me deparava com cenas do passado bem difíceis. Mas, o final foi feliz. Eu via várias pessoas deste mesmo tempo antigo se despedindo de mim de forma bem amigável. Concluí que estou deixando o passado para trás. Senti-me em Paz. Efeitos do Caminho?

Ainda refletindo sobre a noite, desisti de tentar dormir ao sino das seis horas, sentindo-me animada para mais um dia. Nem parecia que tinha passado uma noite tão turbulenta. Dei um alegre bom dia aos meus colegas de quarto, enquanto Vand já se aprontava para mais um longo dia. Arrumamos as bikes, tomamos um café com pão quentinho e rumamos para Rubiães as 7:20.

A manhã estava fresca e muito agradável. Saímos junto com vários peregrinos de todos os lugares. Eles iam a pé, com suas enormes mochilas e seus cajados.

A rota até Rubiães é a mais difícil do Caminho. Os Peregrinos experientes dizem que só há dois modos de fazer o percurso de bike. Ou ela estará ao seu lado, ou as suas costas! São 19km de serra, que vão ficando mais e mais difíceis conforme avançamos.

Os últimos trechos são duros até para quem vai a pé. São subidas de pedra que lembram Igatu, na Chapada Diamantina, mas um pouco mais difíceis.

Os peregrinos que estavam a pé ganharam alguma vantagem sobre nós, porque era preciso carregar as bikes morro acima. No trecho final, dois amáveis peregrinos italianos se ofereceram para nos ajudar. Só assim conseguimos subir as duas bikes nesse que foi o trecho mais difícil de todos.

Ainda voltamos a nos encontrar várias vezes, pois o Caminho ora ficava pedalável, ora escalável!

Depois do sacrifício, vem a recompensa! Chegamos a Rubiães antes das 10h! Paramos em um pequeno bar a beira do caminho onde nos informaram que dali era ladeira abaixo! Uhuuuuu!

Cheguei a me empolgar nas primeiras ladeiras, mas logo comecei a sentir saudades das subidas! Lá pela hora do almoço eu não tinha mais pernas, nem equilíbrio, de tanto sacudir por pedras soltas e ladeiras íngremes.

Para quem for fazer o Caminho Português, é importante ter um suprimento extra de água e comida ao seguir para Rubiães. O trecho é bem duro e requer paradas para comer e se hidratar. Matamos as últimas bananas e nossa água acabou. Ainda levou cerca de uma hora para acharmos água novamente. Esse pedaço é bem rústico, passando por belos single trecks e bastante mato. Não há fontes de água nem civilização.

Após esse trecho que mais parecia uma corrida de aventura, chegamos a um belo povoado, chamado São Bento da Porta Aberta. Ali encontramos essa linda igreja que virou hospedaria. A casa da Capela:

Várias descidas depois, chegamos a Fontoura que já pertence a Valença do Minho, ao meio-dia. A fome e o calor dominavam nossos corpos e mentes. Mesmo parando para comer a cada 1,5h, meu corpo pedia por arroz com feijão. Comemos um belo prato peregrino e descansamos um pouco numa cama de folhas secas e espinhos, no meio da trilha seguinte.



E haja ladeira abaixo e montanha acima!

Chegamos ao centro de Valença do Minho onde descansamos um pouco no parque que fica ao lado da Fortaleza da cidade. Muralhas imensas e muito antigas. Uma cigana nos vendeu quatro pêssegos por 1 euro. Outro feirante vendia artesanato e vinho.

Esse trecho era muito urbano e por isso ruim para pedalar. Ruas com carros e calçadas com pedestres. Eu já queria voltar para a trilha.

Foi com enorme alegria que cruzamos a fronteira e chegamos a Tuy, na Galícia. Eram 16:00 quando a Espanha nos recebeu com muito calor e muitas bandeiras. Portugal ficava para trás, com seu caminho de pedras e suas belas paisagens. O Rio Minho sob nossos pés enquanto cruzamos a Ponte Internacional seguia seu curso caudaloso e imponente.

Tuy nos aguardava com suas escadarias de pedra e enormes igrejas. Aqui, o j vira x. A virgem é virxem e a junta comercial vira Xunta. Vocé pode falar galego, português ou espanhol que dá no mesmo. Todo mundo se entende.

Aos poucos as setas foram ficando cada vez mais raras, sendo substituídas por vieiras de ladrilhos. Vieiras são conchinhas, símbolos do Caminho de Santiago.

A cidade foi feita para a eternidade. Observem esses prédios. São muito altos e parecem indestrutíveis.



Passeamos um pouco, mas logo fomos buscar pousada para os pés. O dia foi longo, mas muito gratificante. Agora é hora de descansar as perninhas, que ainda falta muito chão!

¡Buen Camino!

sábado, 26 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 2

Hoje foi um dia bem puxado. Fizemos cerca de 44 km de muitas ladeiras, ora de pedra, ora de asfalto. Algumas trilhas bem técnicas e muito calor.

Saímos de Arcos pela manhã sob uma agradável neblina. Como se diz lá no Sul "neblina baixa, sol que racha". Foi no que deu! Um céu azul de dar vertigem e um belo dia de sol. Cheguei a ter miragens com as setas amarelas que existem para indicar o caminho. Uma delas apareceu em um muro, só para imediatamente sumir, tão logo fixei os olhos nela. Cansaço e calor. Experiências que maltratam o corpo, mas ajudam a limpar a mente.

Essas setas tem provocado um efeito muito bom em mim. Como precisamos delas para não perder o rumo, acabo me obrigando a manter o pensamento no momento presente. É um ótimo remédio para a ansiedade. Eu só via e pensava no próximo metro a minha frente. Assim, deu para curtir a paisagem, o vento no rosto nas descidas e as agradáveis sombras das oliveiras. Sem pensar em nada do mundo confuso do nosso dia-a-dia.

A brisa fresca amorteceu um pouco o calor. As fontes de água limpa que encontramos com facilidade ajudaram a manter a hidratação. Não tivemos dificuldades em achar comida boa e barata. Tudo o que precisamos está aqui. Ao nosso dispor.

Parece que aos poucos a urbanidade vai saindo da gente, conforme as paisagens vão ficando mais e mais agrícolas. Muitas plantações de milho e muitas igrejinhas antigas por todo lado. Aqui e ali, alguns peregrinos a pé e bem poucos de bike.

Há trechos em que se fica por quase duas horas sem ver uma viva alma. Só escuto as cigarras e o som das correntes mudando de marcha... É que vem aí mais uma subida daquelas.

Houve momentos de muito cansaço, mas o visual compensou o esforço.
 


O trecho da manhã levou cerca de 20 km. Paramos para almoçar em Tamel. Um pouco depois de Barcelos. Ali tem um albergue municipal muito simpático. Preparamos a nossa própria comida, sem pagar nada e usando o que estivesse na geladeira.

Ficou uma delícia e ainda pudemos relaxar um pouco para a outra parte do dia.

Olha a pinta da cozinheira!

Rolou um spaguetti com ovo frito e salada de alface com tomate. O Vand pescou uma lata de atum na geladeira e garantiu seu aporte de proteína para a segunda etapa. 

Tentamos tirar um cochilo depois do almoço, mas a atendente do albergue não deixou. A simpática senhorinha estava tão feliz de nos receber que não parava de puxar assunto, ignorando solenemente meus olhos piscantes e cabeça pendente de sono...

Debaixo de um calor quase nordestino, nos imbuímos de coragem para mais um trecho. Eram mais 23 km até Ponte de Lima. O primeiro trecho era passeio comparado a este. Nem na ladeira do perrengue tinha tanta pedra! 

Valei-me meus treinos da Sapiranga! Ai, minha Nossa Senhora das pernas fortes!! Vamos subir!!! Agora, vamos descer! E eu... proibida de desmontar da bike sob pena de muitas broncas do noivo, desci ladeiras e mais ladeiras abaixo....Algumas pareciam intermináveis, mas não eram.... sempre terminavam no pé de uma nova subida....

Finalmente chegamos a bela Ponte de Lima. 
 
Exaustos, paramos no albergue dos peregrinos em busca de banho, cama e sono.

O banho e a cama já conseguimos... agora o sono, só depois que os outros 50 peregrinos resolverem dormir!

Soube que o trecho de amanhã é o mais difícil de todos! É Serra acima!

A meta é chegar em Tuy, na fronteira com a Espanha.

Que sejamos fortes na fé e alegres na esperança em nosso caminhar de peregrinos.

Bom Caminho!


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Nosso Caminho de Santiago - Dia 1

Eu não sabia, mas, hoje, 25 de julho, é dia da Festa de Santiago de Compostella! Excelente dia para começarmos nossa aventura.

Depois de duas noites e um dia em Porto, usufruindo da hospitalidade de amigos, passeando, comendo e dormindo bem, chegou a hora de por o pedal na estrada.

Cansados dos passeios, decidimos dormir mais perto da "largada". A ideia era acordar cedo, mas ninguém escutou o despertador e acabamos nos levantando as 9! Daí, até arrumar tudo, desembalar as bikes, comer e sair, foi-se um tempo precioso.

Chegamos ao ponto inicial da rota que escolhemos, a Praça da Ribeira, por volta das 11:30. No trecho até ali, conhecemos o Sam, que pretendia fazer o Caminho em dois dias, mas estava perdido em busca do seu ponto inicial, a Sé Catedral.
Sam e seu capacete rosa nos acompanharam ate a Sé Catedral. Ali paramos para pedir a Deus proteção. Sam pegou seu mapa e seguiu adiante, pois estava ávido por percorrer seus 100km do dia. Deus lhe ajude e Nossa Senhora da panturilha lhe dê forças!

Nós partimos da Praça da Ribeira, porque havíamos escolhido a rota do litoral. Os peregrinos dessa rota costumavam desembarcar a beira do Rio Douro e seguir até Santiago por terra, a pé ou a cavalo. Queríamos repetir seus feitos em nossos camelos de alumínio. Porém, todo mundo precisa passar pela Sé, se fizer o caminho português. É ali que se pegam os mapas e as credenciais dos peregrinos. Lá se ganha o primeiro carimbo no passaporte. Conosco não seria diferente.
Difícil foi sair de Porto. Muito trânsito, sinalização confusa e muito empurra bike. Ainda bem que pudemos contar com a solidariedade dos portenses. Especialmente dos mais idosos. Todos foram muito solícitos em ajudar. Devido a essas dificuldades iniciais, acabamos gastando 4 horas até a Maia, nossa primeira referência, apenas há 12 km de Porto!

Paramos ali para almoçar. Pátio Santa Luzia. Comida boa, barata e atendimento muito agradável. Ganhamos o segundo carimbo e seguimos viagem rumo ao que pensávamos ser o litoral....

Passamos por Gião e Vilarinho, trechos do Caminho Central. Chegamos a Vila do Conde por volta das 18h e só então descobrimos que estávamos muito, muito longe do litoral. Seguimos adiante já pensando em encontrar uma pousada e repensar a navegação quando nos deparamos com um verdadeiro oásis. Era a Quinta São Miguel, em Arcos. De novo estávamos no Caminho Central. Concluímos que a rota da Costa não seria o nosso Caminho e decidimos seguir pelo interior.

Depois de sair da zona urbana o roteiro vai ficando mais e mais bonito. São milharais, vinhas, casarões antigos, algumas trilhas de terra e muitas ladeiras de paralelepípedos. Tudo muito lindo.

De Maia até Arcos são cerca de 30 km, que fizemos em 3 horas. Uma velocidade bem melhor que a do trecho inicial, mas ainda abaixo do que podemos fazer.

Um longo banho e uma deliciosa sopa acompanhada de pão caseiro e uma taça de vinho português nos revigoraram a alma.

A meta amanhã é almoçar em Barcelos e dormir em Ponte de Lima. Em albergue, pois já estamos mimados demais!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nosso Caminho para Santiago - Prólogo rumo a Lisboa

Promessas que você faz a si mesma, se esquece e só volta a se lembrar quando é tarde demais...

Nunca mais viajo de classe econômica....Não viajo mais a noite.....

A lembrança da promessa quebrada me vem apertada em um assento que quase não reclina em meio a milhões de ruídos insones....

E por falar em ruídos... Troço difícil é calar o pensamento. Como a mente é tagarela!

Basta uma turbulência, para imaginar o avião caindo e minha família sabendo da minha morte pelo jornal nacional....Basta lembrar da insônia, para que ela, intrépida, me lembre que jamais vou dormir de novo....

Sempre fui assim. Imaginativa demais. Minha mente sempre tentando me roubar o momento presente. Construo roteiros complicadíssimos a partir de uma simples ideia, um cheiro, um olhar, um papel que cai no chão... Alguns pensamentos são facilmente descartados. Bastando olhar para o lado e...pensar em outra coisa. Outros insistem em voltar, como um disco arranhado.

Tenho aqueles pensamentos recorrentes muito doidos. Coisa de filme! O meu favorito é aquele em que me vejo inesperadamente em uma zona de conflito. Busco refúgio em um abrigo da Cruz Vermelha e lá trabalho como voluntária até conseguir voltar para casa... A primeira vez que essa ideia me ocorreu foi quando passei de ônibus pela praça da Cruz Vermelha, no centro do Rio. Eu era criança e estava indo para a escola. Tive ímpetos de descer do ônibus e me matricular no curso de enfermagem, ali mesmo. Certamente, seria muito útil no caso de me ver perdida em uma guerra...

O tempo passou. Eu não desci do ônibus e não me tornei enfermeira. Fiz um curso prático de Primeiros Socorros em algum momento da vida, virei mãe... Bom, imagino que isso me qualifique para dar banho em crianças de um campo de refugiados e passar methiolate em suas feridas.

Eu usava a imaginação para me fazer companhia em um tempo em que era muito sozinha. Hoje, não tenho mais tempo para esses devaneios. Mas, quem disse que me livro deles?

Essa foi minha primeira noite rumo ao Caminho de Santiago. Insone, com mil pensamentos simultâneos e ansiosa como uma criança.

Lisboa nos recebeu moderna e cheia de prédios. Muito diferente da expectativa que eu tinha. Esperava uma cidade velha e de ruas estreitas. Encontramos largas avenidas, transporte público eficiente, gente apressada e séria. Muitas caras tristes no metrô. Como em qualquer outro lugar do mundo.

Assim como em qualquer outro lugar, também achamos pessoas agradáveis, como o jovem casal de mochileiros que nos doou seus cartões de transporte... Eu muito desconfiada, achei que queriam vendê-los. Não! Queremos dá-los a vocês! Não vamos mais precisar deles!

Surpresos e felizes, colocamos mais créditos e aproveitamos o dia para passear.
Fomos a Torre de Belém e seus arredores.
Almoçamos num restaurantezinho bem simpático, com opções vegetarianas. A siesta foi no Jardim Botânico. Na grama mesmo! Vencidos pelo cansaço dormimos ao som de folhas farfalhando e cigarras cantando.

Acordei com um simpático marreco a me observar....


Tomamos um trem para Vila Nova de Gaia. Célere, silencioso e com wi-fi grátis! Vamos ali abraçar alguns amigos queridos, para em seguida rumar a Porto, onde o Caminho de fato começa.