quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Sevilla

Sevilla tuvo que ser, com su lunita plateada
testigo de nuestro amor, bajo la noche callada
Y nos quisimos tú y yo con un amor sin pecado
Pero el destino hay querido que vivamos separados

Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido
Por dos amores que han muerto sin haberse comprendido

Ay, barrio de Santa Cruz. Ay, plaza de Doña Elvira
Os vuelvo yo a recordar y me parece mentira
Ya todo aquello pasó todo quedó en el olvido
Nuestra promesas de amores en el aire se han perdido


Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido

Por dos amores que han muerto sin haberse comprendido
Estan clavadas dos cruces en el monte del olvido
Por dos amores que han muerto que son el tuyo y el mio
 



Com essa velha cançao inicio minha resenha sobre Sevilla. Nao pude parar de lembrar dessa música enquanto caminhava por suas ruas. A cidade é bem moderna e preservou pouco das suas muralhas originais. Há ruínas dos portais antigos aqui e ali. Mas há muitos prédios antigos bem conservados e abertos à visitaçao.
 
Hoje eu iria a Granada, mas como a viagem é muito longa (4 horas) escolhi Sevilha. Duas horas e meia e vários capítulos de La Isla bajo el mar (Isabel Allende) depois, o confortável trem me deixou em Sevilla. Tratei logo de comprar um mapa porque nao queria me perder. Esperava um frio glacial, mas a cidade me recebeu com confortáveis 15 graus e muito vento. Estou no Sul da Espanha e nao faz muito frio por aqui. Afinal, é Andalucia. Caliente por naturaleza.
 
As ruas estao cheias de laranjais e estes cheios de laranjas maduras! Ninguém toca nas laranjas, o que me impediu de saboreá-las por pura vergonha. Afinal, "estando em Roma, faça como os romanos". Como nao pude levar as laranjas, levo as fotos. Ficaram lindas.
 
Minha primeira parada foi a Igreja de Sao Roque, datada do século XVIII. Por alguma razao que eu nao sei explicar, ele nao ocupa o altar principal. Quem o faz é a "Nossa Senhora da Graça e Esperança coroada". Uma bela imagem posta em um riquíssimo altar de ouro e prata, extraídos das colônias espanholas bajo mucha sangre y muerte.
 
Ao lado direito do altar há algumas imagens do Cristo Crucificado e da Virgem Maria. Em detalhes nao muito evidentes pude encontrar referências místicas, tais como a Cruz Templária em um estandarte junto ao cordeiro e um alto relevo representando um ganso. Durante esta viagem descobri que este é um animal místico e que de acordo com as lendas, é capaz de arrancar pedaços do seu próprio corpo para alimentar suas crias.
 
Na entrada da igreja, ao lado esquerdo, há uma imagem da Virgem coroada que é idêntica à Nossa Senhora Aparecida, salvo que a imagem é branca. Fiquei curiosa. Vou pesquisar mais tarde para entender se é apenas mera coincidência.
 
Achei a igreja bastante familiar, talvez pelo seu estilo barroco e pelas semelhanças com as velhas igrejas do Pelourinho. Podem achar engraçado, mas até o cheiro é parecido. Após um pouco de reverência e uma breve oraçao, deixei a igreja para continuar minha jornada.
 
As folhas fazem redemoinhos no chao e às vezes tenho que fechar os olhos devido ao pó que o vento levanta. Mas tenho que ter atençao. Há bicicletas por aqui. Muitas bicicletas. Podem ser alugadas, mas você precisa ter um cartao específico para isso. Aparentemente, todo mundo aqui anda de bicicleta. De entregador de pizza a executivo! O "El País" diz que a crise fez com que os espanhóis aumentassem seu interesse pelas bikes. A Espanha apóia a iniciativa sustentável de seu povo e provê condiçoes decentes  para quem prefere as duas rodas.
 
Ao contrário do que estou acostumada a ver no Brasil, a ciclovia nao fica na rua. Fica na calçada e é bem delimitada e sinalizada. Só mesmo uma turista muito distraída mesmo é capaz de ficar no meio do caminho e quase ser atropelada por uma ciclista, que pela pouca habilidade ao guidao deve ser turista também!!
 
Depois de muito andar e fotografar, já quase na entrada da cidade velha, parei num café para comer. Ao fundo, Shakira cantava uma música triste o que me fez lembrar de ilusoes passadas. Decidi virar a página do passado e com ele todas as suas ilusoes e me concentrar na viagem. É o melhor que tenho a fazer agora.
Comi meu sanduíche de jamón y queso. De sobremesa, para nao perder o hábito pedi um brownie e um capuccino.
 
De calle en calle e de iglesia en iglesia acabei parando na Universidade de Sevilla que antigamente era a Real fábrica de Tabaco. Em frente à universidade havia uma filial dos 100 montaditos. E como hoje é miércoles (dia de tudo por um euro), o lugar estava lotado. Havia chegado um carregamento de alemaes. Todos com camisas da seleçao deles e tomando muita cerveja. Estavam cantando um hino, provavelmente de algum time de futebol e fazendo muita algazarra. Quando perceberam que eu estava gravando, pararam de cantar. Mas recomeçaram assim que desliguei a câmera. Provavelmente nao queriam aparecer no You Tube!! Verde de vergonha, mas fingindo que nao era comigo, tratei de sair logo dali.
 
Adiante avistei uma torre. Será a Catedral? Estava longe e fui procurando o caminho até achar a entrada. Perdi o fôlego. Nunca tinha visto uma fortaleza como aquela antes. Nao era a catedral. Era o Real Alcazar (ou Fortaleza Real, também conhecida como Plaza de España). A fortaleza tem duas torres, Norte e Sul. É toda feita de arcos mouros e muito bem conservada. No centro da plaza há um lago onde se pode passear de barquinho e ao redor do grande edificio que une as torres há mapas de todas as províncias espanholas, com um pouco de sua história e ilustraçoes. Tudo feito em azulejos! Nao dá para explicar. Só vendo! Fotografei tudo o que pude. Mesmo assim, o que os meus olhos viram nao coube na telinha de LCD da minha máquina chinesinha. Visitem quando puderem. Vale a pena!
 
Como estava com fome e como hoje é quarta, nao resisti e voltei aos 100 montaditos. O bar estava mais vazio e os alemaes cantantes já tinham ido embora. Pedi meu sanduichinho com uma salada mediterrânea, um copo de vinho e uma água mineral. Total: 4 euros! Increíble!
 
Enquanto saboreava meu lanche chega um pedinte. A princípio nem entendi o que ele queria. Logo depois, vi que o pobre estava com fome mesmo. É tao estranho ver gente pedindo dinheiro aqui! Mas a pobreza está por toda a Europa e nao é privilégio de Sevilla. Em Dublin eu vi jovens moças e rapazes. Assim como maes com bebês de colo. Todos sentados nas ruas frias se agasalhando como podiam e pedindo esmolas. Parecia capítulo de livro do Charles Dickens. A diferença é que nao estamos mais na Revoluçao Industrial do século XVII. O que está acontecendo com o mundo, meu Deus???
 
Agora já é hora de voltar. Infelizmente, porque ainda há muito para ver por aqui. Ainda páro para ver a Igreja de Santa Maria, la Blanca e fotografar algumas ruelas muito estreitas e bonitinhas. Faltou ir à Plaza de Toros. Mas fica para uma próxima vez. Estou numa fase de ver arquitetura antiga e de rezar em igrejas medievais.
 
Até amanha!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Avila

Longe... e frio...mas linda. Se Toledo se gaba se ser o maior museu ao céu aberto do mundo, Ávila se gaba de ser o melhor!

Mal acostumada com o clima acolhedor de Toledo e seus confortáveis 14 graus, coloquei uma roupinha mais leve hoje. Ainda tinha três camadas de roupa, mas nao eram tao quentinhas como as de ontem...

Ávila tinha um lindo dia de céu azul, sem nuvens e... 3 graus! Um vento frio de tilintar os ossos! Só ali descobri que estava na cidade mais alta de toda a Espanha e onde a temperatura média nessa época do ano nao passa de 4 graus. Ai, ai...Turistas!

O passeio valeu muito a pena. A exemplo de Toledo, a cidade é cercada por uma sólida e milenar muralha. Construida primeiro por Romanos, depois por cristaos, com contribuiçao dos mouros. Também está na rota do Caminho de Santiago, o que eu desconhecia. Há varias "sendas peatonais" sinalizadas  (caminho exclusivo para pedestres). Diante de tanta beleza, nao resisti e voltei ao centro comercial decidida a comprar uma camera.

Só encontrei duas lojas. Uma tinha uma Sony cheia de predicados por 309 euros. Pensei bem e achei melhor nao fazer um investimento desses. Poderia achar uma melhor e mais barata no freeshop. Andei mais um pouco e achei uma igualzinha a Sony, só que com o olhinho puxado... Pensei bem... Será que devo alimentar esse dragao que nos devora as entranhas? Por outro lado, sei que nao só a Sony como muitas outras marcas de renome mandam produzir seus componentes na China e depois colocam seu selo sagrado por cima... Daí o custo... Decidi contribuir com a nova ordem mundial e comprei o similar chines por 110 euros! Um achado! Como ainda nao comecei meu curso serio de fotografia, achei minha máquina um espetáculo.

Muitas fotos depois eu sentia o meu sangue fugindo do corpo. Estava com muito frio. Acho que o termômetro mentiu. Nao podia estar só 3 graus. Deveria estar uns -3! Decidi abrir a mao e comer direito. Talvez isso me aquecesse. Dei-me de presente um menu completo em um simpático café. Entrada: Judías con Jamon. (judías sao vagens e nunca entendi por que tem esse nome em espanhol). Temperadinhas com alho e azeite. Uma delícia. O prato principal: Ternera con patatas. Tudo acompanhado de um bom vinho da casa e uma cesta de pao. Eu me senti a Reina Sofia! Tinha direito à sobremesa, mas a essa altura nao aguentava mais comer e tomei só um cafezinho. Até que o preço foi viável. 11 euros. Nada mal para um banquete.

Senti o meu sangue voltar a circular e me deu até uma preguicinha, contaminada que fui pelos costumes do lugar. Esse hábito da siesta deveria ser implementado no Brasil! A cidade pára. As janelas fecham. As lojas também. Nadie camina por las calles.

Segui minha jornada solitárias pelas ruelas estreitas, igrejas do século XII e muitos signos sagrados espalhados por toda a parte. Entrei na catedral, mas esta também estaba cierrada por la siesta. Nao havia ninguém e percebi que uma porta lateral estava destrancada. Curiosa, entrei.. Me vi na Capela de San Segundo, um dos principais santos da cidade. Nao sou católica, mas por alguma razao essas igrejas antigas me emocionam. Como estava ali sozinha entre paredes e obras de arte milenares, ajoelhei-me e fiz uma oraçao. Agradeci por estar ali. Por pisar aquele chao de peregrinos e ter o privilegio de entrar em contato com tanta beleza.

Com os olhos molhados saí da capela. Tive um pouco de medo de algum padre desavisado da minha presença resolver trancar a porta por fora. Aí eu seria forçada a passar a siesta rezando. Até que nao seria má ideia...

Feliz, alimentada, quentinha e com minha nova câmera, me aventurei por toda a cidade. Encontrei um ciclista e um andarilho. Mais adiante, uma corredor solitário... Que lugar lindo para praticar esportes! Decidi me perder pelas calles da ciudad. As muralhas estao por toda a parte e nao é possível ver as referências externas. Com isso, é muito fácil se perder. E eu me perdi. Passei a andar em círculos e cheguei à praça da catedral por todos os acessos possíveis! Estava andando em círculos.

Quando nao aguentava mais andar e o frio voltou a incomodar, decidi que ia sair do labirinto. Aí, meus parcos conhecimentos de navegaçao foram muito úteis. Refiz o caminho da entrada e segui o sol. Consegui sair. Cansada, com os pés em bolhas, mas muito satisfeita com meu dia. Mal posso esperar até amanha para mais uma aventura.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Alrededor de Madrid - Toledo

Hoy he descubierto algo mágico. ¡El tren! Se puede llegar donde quieras con el tren! El se llama ´Renfes'. Se lo toma en la estación de Atocha, línea 1. Pienso que estoy enamorada del señor tren...Volveré a verlo mañana, y despues, y despues de nuevo.

Intentaba yo viajar hasta Ávila para mirar los castillos que existen allí. Pero llegué tarde. El tren se había partido hacía una hora.  Para aprovechar que ya estaba en la estacion, muy cerca de todos aquellos hermosos trencitos, decidí cambiar los planeos y viajé para Toledo. No me he arrependido de nada. La ciudad es muy hermosa. Hay castillos, murallas, iglesias....

Toledo está en una de las rutas del Camino de Santiago. Precisamente la ruta de Cervantes. Así me han dicho allí. La ciudad está llena de leyendas muy antiguas que mezclan los árabes, los judíos y los cristianos. Todos en la misma ruta. La ruta Sagrada de Santiago.

Ahora, volveré al Portugues para que todos mis amigos me entiendan y también para que no se acabe mi pequeño vocabulario (risas).

O trem leva 30 minutos para chegar a Toledo. A viagem é tranquila e confortável. O romance ´La Isla bajo mar´, de Isabel Allende me faz companhia no percurso. Nem vi o tempo passar.

Ao chegar na estaçao de Toledo, voce pode comprar um mapa por 2 euros com um simpatico velhinho que lhe dará uma dica preciosa: Nao pegue o onibus na porta da estaçao. Ele custa 8 euros. Voce pode fazer o mesmo passeio pela cidade em um trenzinho bem simpático por apenas 4 euros. Basta andar 20 minutos até a estaçao, na Plaza de Zocodover. Ele me vendeu o mapa e me orientou como chegar lá. E eu, feliz da vida, saí a navegar!

O caminho para a praça inclui a entrada do Castillo de San Servando e a Puente de Alcântara. Magníficos monumentos à Arquitetura. O castelo virou albergue e nao pode ser visitado, o que é uma pena. Mas a ponte é acessível. Soube alí que o castelo foi construído para proteger a ponte dos invasores mouros. E que aquela ponte nunca foi tomada pelos inimigos. Por sobre a ponte é possível ver as ruínas de um antigo aqueduto romano e um rio belíssimo. O Rio Tajo. De acordo com as lendas do lugar, o rio foi batizado por um descendente direto de Noé. Aquele mesmo, o da Bíblia.

No caminho para a plaza, me deparei com uma escadaria moura que dava vista para a cidade. Resolvi parar ali para refletir e comer o meu lanchinho, furtado ao café da manha do Holliday Inn. Alimentada e inebriada com tanta coisa bonita de se ver, continuei a caminhada.

Chegando à Plaza, tomei um café para esquentar, enquanto esperava o trem, que só sairia em 30 minutos. Deu tempo de passear e tirar várias fotos. Peguei o trem e pude vislumbrar a vista mais linda dessa viagem. Que lugar lindo para fazer uma trilha, uma corrida de aventura ou... O Caminho de Santiago.

Ao descer dos 45 minutos de passeio de trem, resolvi sentir um pouquinho do gostinho dos peregrinos e explorar a cidade a pé. Continuei tirando minhas fotos até que algo muito estranho aconteceu. Minha câmera resolveu que todas as fotos ficariam sobre-expostas. Com flash, sem flash, em manual, no escuro. Nao tinha jeito de funcionar. Todas as fotos pareciam fantasmas. Brancos. Super iluminados.

Depois, para ficar melhor, percebi que todas as minhas fotos tinham desaparecido. Nao somente as de hoje. Todas. Todinhas. Desde o início da viagem. Me deu até vontade de chorar. Nao sei o que aconteceu. Parece que Toledo se sentiu invadida por minha audacia em fotografá-la. Ainda bem que guardei tudo na retina.  É só lá mesmo que as imagens ficarao, ao final das contas! Decidi descrever o passeio hoje mesmo para nao esquecer de nada.

Continuei paseando pelas ruelas estreitas até me deparar com a Igreja dos Jesuítas. Uma belíssima igreja. Ampla, clara, inspiradora. Por 2,30 euros voce pode passear pela igreja, rezar, tirar fotos e subir até as duas torres para ver a cidade de cima. A vista é estonteante. Um privilégio estar ali. A igreja dá vista para uma catedral em estilo Gótico muito bonita também, mas infelizmente, estava em obras e nao pude entrar. Só vi por fora mesmo.

Tinha também uma exposiçao de instrumentos medievais de tortura. Pensei bem... Achei meio Klu Klux Klan e resolvi nao ir conferir. Muito deprê. Preferi continuar visitando as igrejas.

Em Toledo, tem um mazapan famoso que pode ser comprado no convento das Carmelitas descalças. É uma iguaria do lugar. Além da boa comida, todas as pessoas sao simpáticas e atendem muito bem. O único inconveniente é que a maior parte das vendinhas nao aceita cartao de crédito. Nao faça como eu! Leve dinheiro.

Eu moraria em Toledo sem receios. A cidade é toda cercada por muralhas medievais que foram feitas para a eternidade. As construçoes modernas, por mais sólidas que sejam, parecem de papel diante da imponencia da cidade.

O Alcazar, que quer dizer fortaleza em árabe,  além de forte militar, foi também um castelo. Alí tem uma bonita história de amor em que se diz que Don AlfonsoVII, Rei de España, se enamorou de uma judia, Raquel. Obviamente que o romance era proibido. Assim como o era o da Dama de Cava, que se suicidou por seu amor e da jovem árabe por quem um Caballero se apaixonou e que acabou decapitada diante dos olhos pasmos e impotentes de seu amante. No fim, todas as mulheres se dao mal nessa história.

Pelas redondezas da cidade, também há uma praça, onde se executavam criminosos e... adivinhem? Se queimavam bruxas! Só bruxas, por que os bruxos sao mais espertos e aparentemente nunca foram pegos, embora andem soltos por aí, todavía.

Ainda há muito mais a se ver em Toledo. Merece uns dois dias de viagem pelo menos, começando bem cedinho para dar tempo de ver tudo com calma. Há antigos castelos que hoje viraram hotéis. Penso em voltar ali e me hospedar em um deles. Amei Toledo. Recomendo. Hasta mañana

Baile Atha Cliath

Dublin e a fase "Rezar"

Dublin (ou Duvhlin - Lagoa Negra) é uma cidade curiosa. Você pode se perder ali. Por um lado, há construçoes do século XIII em excelente estado de conservaçao. Por outro, ruelas estreitas onde a noite se vêem jovens bêbados, garrafas quebradas e prostituiçao - Sexo, Drogas e Rock'n'Roll.

Chegamos na sexta à noite. Estava frio, bem frio! Hugo nao conhecia a cidade e olhava tudo com admiraçao. Para mim, Dublin tambem parecia nova. Alguma coisa mudou de 2008 para cá. Nao sei se fui eu ou a cidade. Ou ambas. Tudo me pareceu maior, mais cheio de gente.

O Hostel (The Avalon House) era um portal para os anos 60. No radio tocava Beatles.  Dois adolescentes cabeludos e simpaticos na recepçao nos explicam como tudo funciona por ali. Hugo achou tudo muito estranho. Eu achei graça. Todos os sotaques do continente estavam ali. Espanhol, Francês, inglês. Ahhh, esse sotaque inglês- suspirava o Hugo. - Tenho que voltar aqui mae, sozinho! Nunca vi tanta mulher bonita junta!

Eu estava mais interessada em visitar as igrejas antigas. Há algo de inspirador nessas igrejas. Sao todas muito altas e tem uma arquitetura peculiar que mistura os estilos gótico e romanesco. Começamos o sábado indo à Catedral de Sao Patrick. Construída no século XIII e reformada duas vezes desde entao, está muito bem conservada. A planta tem forma de Cruz Celta e guarda algumas reliquias como pedras de tumulos druidas e belíssimos vitrais. Uma curiosidade: Nas igrejas irlandesas nao é comum encontrar imagens de escultura. Se a historia for verdadeira, Sao Patrick nao gostava de esculturas e assim educou o povo de lá. Ele foi um missionario que por volta do século V encontrou sua vocaçao e voltou à Irlanda, após um exílio como escravo, decidido a varrer o paganismo do mapa.

Sao Patrick foi muito bem sucedido em sua missao. Fora alguns símbolos sagrados celtas e normandos que encontramos esparsos aqui e ali, quase nao há vestigio da antiga religiao. O Santo é muito querido e tem uma festa importante todos os anos, no dia 17 de março.

Saímos da igreja em busca do Castelo de Dublin, mas esbarramos com uma exposíçao viking e resolvemos entrar para conferir. Valeu a pena. Os Dublinenses montaram uma exposiçao com bonecos de cera e cenários reproduzindo várias fases da cidade, desde o ano 801 até o começo do século XX. Em algumas salas podiamos experimentar as roupas da época e tirar fotos. Eu me vesti de dama do século XIV e o Hugo de cavaleiro. As fotos ficaram hilárias!

A exposiçao conta como os normandos invadiram Dublin e ali se estabeleceram. Mostram como a cidade foi próspera durante o Mercantilismo. Poderia ter se tornado uma potência se nao houvesse tanta disputa interna por poder. Os irlandeses nunca foram muito unidos. Em raros momentos, um líder aparecia e trazia algum sentido de pátria. Mas logo depois, o povo se dispersava novamente em suas tribos e era cada um por si. Os irlandeses sao conhecidos por sua constante busca por liberdade. Nao aceitam se submeter a ninguem. Sao como adolescentes rebeldes. Só mesmo uma ameaça externa muito forte era capaz de uni-los.

Pude ver como a peste negra assolou a cidade na Idade Media e como eles se reergueram na Idade Moderna. Nao podemos negar que os irlandeses sao muito trabalhadores. Sao também teimosos e rebeldes. Simpáticos e alegres.

Com o tempo, quase todos os normandos se converteram ao cristianismo. Deixaram muitos legados para a Irlanda, dentre eles, o Castelo de Dublin e a belíssima Catedral ChristChurch, construida por eles em 1030. Achei essa ainda mais bonita que a de Sao Patrick e mais aconchegante também. Ali há varias minicapelas onde se pode parar e meditar, rezar ou simplesmente contemplar a arte sacra. Em uma das capelas havia um espaço para você acender velas e escrever seu pedido de oraçao. No livro, pude ler os pedidos de pessoas dos mais variados lugares. Peço a cura para meu irmao que está com cancer, emprego para o meu cunhado, paz para o mundo..... Quase escuto aquelas pessoas rezando enquanto escrevo. Nao resisti e parei para fazer uma oraçao. O lugar inspira calma e paz. Nos vitrais, há representaçoes de heróis antigos, St Patrick e Santa Brígida (esta, na verdade era uma deusa do paganismo adotada pela igreja como santa).

Seguindo o mapinha encontramos outros prédios antigos que eu parava para fotografar. Paramos num lugar chamado 'Temple Bar' (Nao! Nao é um bar.  Nesse caso, o 'bar' tem sentido de bairro, ou área). Todo o quarteirao é cheio de referencias aos templarios, seja no nome dos bares, seja na arquitetura ou nos símbolos. Quis parar num deles, mas a historia escrita na parede dizia que ali uma mulher havia sido executada no século XVII e o Hugo achou melhor nao.... Acabamos parando na "Queen of Tartes" e comendo a "Soup of the Day". À noite, fomos a um restaurante libanês próximo à George St onde comi o melhor jantar de toda a viagem até agora. Sopa de lentilha, salada libanesa, arroz libanes, cafe libanes... Tudo de bom!

O idioma antigo está por toda a parte. O Gaerlico ou irlandês é um idioma derivado dos dialetos vickings e lembra a língua dos Elfos do Senhor dos Anéis. Muito difícil de pronunciar, mas delicioso de ouvir. Todas as ruas e prédios tem seu nome em inglês e seu correspondente em Gaerlico. Baile Atha Cliath é o nome que dao para a Cidade de Dublin.

Voltei a Madrid no domingo a noite e vou explorar as pequenas cidades antigas ao redor da província. Hoje vou a Ávila. Depois eu conto como foi. Agora, deixo um ditado em gaerlico para os leitores.

"Ní neart go cur le chéile" ou " There is not strength without unity".

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 3
Hoje falarei sobre a Madrid cultural.
Madrid é uma cidade relativamente jovem, quando comparada ao resto das cidades da Europa. Começou a desenvolver-se junto com  o Mercantilismo e na ocasiao, nao passava de uma vila onde se fazia comércio.

Um dos pontos turísticos mais visitados é a Plaza Mayor. Voce se sente num burgo mercantilista. A praça é cercada por grossas muralhas e em seu interior se encontram várias pequenas "tiendas" onde voce compra de tudo. Se fechar os olhos voce poderá imaginar ali padres, vendedores de galinhas, peregrinos, prostituras e ladroes... Como num conto de Paulo Coelho.

Aproveitando a estrutura das muralhas no entorno, voce encontra restaurantes, bares e cafés. Comi num lugar chamado Le Pain Quotidien. A estrutura interior é muito bonita. O restaurante fica no subsolo e manteve a arquitetura original do lugar. A paella é bem servida e o tempero é ótimo. Mas se voce se afastar um pouco das muralhas encontrará restaurantes mais baratos. No entorno da Plaza voce encontra Paella com uma taça de vinho tinto e uma cesta de paes por 7 euros. Por ali também há um restaurante que os madrileños afirmam ser o mais antigo do mundo. Nao acreditei muito... Vou conferir, depois conto para voces.

Seguindo a linha tres do Metro voce chega ao Templo de Debot (Estaçao Ventura Rodriguez). O pequeno templo foi trasladado do Egito para Madrid como um presente do governo Egípcio ao Espanhol em virtude do apoio dado por estes na proteçao do templo Núbio. É possível tirar fotos e com sorte voce vai se deparar com uma simpática professora do ginasial e poderá "pongar" na aula de história. A entrada é gratuita. O templo tem janelas orientadas conforme os pontos cardeais e se pode ver a luz do Sol entrando nos saloes escuros com efeitos quase espirituais. Os jardins no entorno e o chafariz ao fundo do templo sao um carinho a parte. Muito bonito. Vale a pena conferir.

Continuei meu dia caminhando sem rumo, seguindo as placas que direcionavam para um ou outro ponto turístico. Cheguei aos Jardins de Sabatini, que tem a grama podada em forma de linhas gregas e esculturas de mármore representando figuras históricas espanholas. Lindíssimo.

Andando mais um pouco chega-se à Plaza del Oeste, dedicado pela Rainha Isabel II às Artes e à Beleza. Ali se encontram estátuas de Reis de províncias espanholas de vários séculos passados.

A Catedral e o Palácio Real têm uma arquitetura imponente. É bem bonito de se ver. Nesse caso, é preciso pagar a entrada. O Palácio Real cobra 10 euros e a Igreja cobra 6. Deixei para outro dia. Voltarei na semana que vem.

Outros lugares bonitos de se fotografar sao a Puerta de Toledo, onde voce encontrará um relógio de Sol e A Puerta de Alcalán, já perto do Paseo del Prado.

Paseo del Prado - imperdível! Alí há três museus que nao se deve deixar de visitar. O Reina Sofia, o Museo do Prado e um terceiro museu de nome difícil, que prometo postar em breve, quando lembrar de anotar. Ainda nao fui a este nem ao Reina Sofia. Porém, já fui duas vezes ao Museo do Prado e ainda nao vi todas as obras. Durante a semana se entra de graça entre 18 e 20h. Como o museu fecha às 20h, Já tem fila às 17:30! Vale muito a pena. Tem obras de Caravaggio, El Bosco, El Greco, Rafael, Titoretto e muitos outros. Fiquei impressionada com a ala reservada as pinturas medievais. O trabalho de restauraçao foi muito bom. As obras mais antigas datam do século XIV!.

A vedete do museu é o Jardim das Delícias de El Bosco. Feito em 1500 o quadro impressiona por ser o precursor do Surrealismo. Está sempre cercado de gente. Eu e Hugo passamos mais de uma hora contemplando o quadro e observando cada detalhe. Por 3.50 euros voce pode levar um aparelhinho de audio e escutar explicaçoes sobre as obras.

Outro quadro impressionante é o "El Lavatorio" de Tintoretto. Voce tem a impressao de estar dentro do salao representado na tela, graças aos efeitos que o artista imprimiu ao quadro. Hugo ficou extasiado ao explicar como ele deve ter desenhado o quadro e como aquela era uma obra prima da perspectiva. Nada como ir ao museu com um estudante de Design! Hoje aprendi muito. Mas ainda há muito para ver.

A noite embarcamos para Dublin. Segunda, estarei de volta a Madrid e concluirei minha tríede museística.
Hasta luego

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 2:
Hoje é dia 08 de dezembro. Faz 11 graus Celsius. O dia está uma delícia. Minhas malas chegaram ontem à noite e isso faz com que o dia pareça ainda mais bonito.Hugo teve trabalho da faculdade e fiquei só. Tirei o dia para refletir sobre a vida. Hoje é um bom dia para refletir. Chove. Há pouca gente na rua. É feriado de Nossa Senhora da Conceiçao. Segunda, dia 06, também foi feriado: Dia da Constituiçao, mas a cidade estava intoleravelmente cheia. Hoje está bem melhor.


Saí para passear e vi pessoas passeando de bicicleta. Que vontade de ir também!! Vou já descobrir como "Alquilar una bici" :).
 
Sem ter o que fazer e sem bici, fui passear na Gran Vía com a intençao de tomar mais um café na loja da Nat Geo. Acontece que a loja sumiu! Ninguém sabe, ninguém viu! Ela me apareceu na segunda-feira como a "Sala Precisa" aparecia para o Harry Potter, nos momentos em que ele mais queria. Hoje, nao conjurei o feitiço certo ou nao desejei o bastante. Nada de Nat Geo! Perguntei na rua. Um jornaleiro me disse: - Hay una tienda, verdad, pero no sé donde se queda.... (!mierda!)

Bueno, depois de subir e descer a Gran Vía em vao resolvi parar no McDonalds e ajudar o Hugo a colecionar seus tickets. Como me recuso a comer McGorduras, resolvi tomar um café. Nao deve ser tao ruim e ainda ganho dois tickets! Pedi um cookie triple chocolate para acompanhar. Estava gostoso. Saboreei minhas calorias vazias e fiquei refletindo sobre Madrid, sobre a Nat Geo e a razao por nao tê-la encontrado.
Devolvi a bandeja para a mocinha da loja e fui em busca de um "aseo" (toilette)... EPA, PÉRA AÍ! PÁRA TUDO!! MEUS TICKETS!! Voltei correndo e ainda encontrei meu copinho caracteristicamente manchado de batom sobre a pilha de lixo... mas os tickets.... nao estavam lá! Algum esperto foi mais rápido que eu. Maldisse o McDonalds, o café e o banheiro e saí da loja cuspindo marimbondos. E se o ticket azul estivesse lá!? Jamais saberei.

Os madrileños estao pirando com essa promoçao. As lojas vivem cheias e temos mesmo que ter cuidado senao tomam os tickets da gente. Parece a busca pelo "Golden Ticket" da Fantástica Fábrica de Chocolate. Tomara que o Hugo encontre logo esse ticket azul, assim, jamais terei que entrar num McDonalds de novo!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Madrid sob a ótica de uma mochileira

Parte 1
Tudo começa como plano de vôo. O circuito mais econômico incluiu uma breve passagem de 12 horas por Miami. Salvador-SP-Miami-Madrid. Um total de quase 36 horas de viagem! Aproveitei meu ócio em Miami para refletir sobre a minha vida e ler um livro. Estou lendo 'Comer,Rezar,Amar` da Elisabeth Gilbert. Achei bem adequado para esse momento da minha vida. Quero que essa viagem seja um momento para refletir sobre tudo. Ao final desses 30 dias, saberei claramente o que quero dos meus próximos 38 anos!

Quando eu tinha 14 anos já sonhei em ser fotógrafa da National Geographic. Já me imaginei cheia de poeira, com os cabelos desgrenhados e aquela roupinha cáqui cheia de bolsos que os fotógrafos usam. Uma máquina profissional e muitas ideias na cabeça. Imaginei também que seria repórter. Eram fotos. Eram matérias. Era o Afeganistao! Era muito emocionante.

Quase 30 anos depois eu vejo que segui um rumo bem diferente. Isso porque eu também sonhei em ser cientista. Embora achasse tudo muito complicado. Entrei para a faculdade de Química. Fiz mestrado e meio doutorado. Até descobrir que esse nao era o caminho. Migrei para liderança. Tenho uma posiçao austera e bem responsável. Gosto do que faço. Sinto que minha missao é cuidar de pessoas. Garantir sua segurança e bem estar. Tenho muito orgulho disso.

Mas vez por outra, eu me pergunto. O que terá sido feito dos meus sonhos? Enquanto relembro de como fui sonhadora, entro no aviao. Meu vôo parece a Torre de Babel. Um homem fala italiano logo atrás de mim. À minha frente seguem duas francesas. Pensei em ter ouvido um pouco de alemao... O atendente da Iberia checa meu bilhete e me devolve o passaporte com um ´Buen Viaje´. Eu respondo um sonoro `Obrigada`. Em bom português!

Agora vou dormir. O aviao da Iberia é até bem confortável. Talvez eu sonhe. Talvez encontre as respostas que procuro. Dormi o voo inteirinho,  o que é uma raridade. Eu estava mesmo cansada.

Chegando na aduana, o mesmo desconforto de sempre. Por que está aqui? Está só? Onde estao suas reservas? Por que fez reservas para dois no hotel? Quem é o seu filho? Ele tem papéis?

Metódica como sou, imprimi todas as reservas na ordem em que aconteceriam. Acho que a moça gostou da minha organizaçao e e parou com as perguntas. Fui aceita e agora estou oficialmente em solo madrileño.
Cambiando de Idiomas...
Bueno, despues de 36 horas, finalmente llego a Madrid.  Pero... mis maletas non... No tengo maletas... Ni ropas... ni cosmeticos... Mi hijo me espera hace dos horas. Ya piensa en llamar la policia. Piensa que yo fue denegada en la aduana.
Yo admiro el aeropuerto de Barajas. Muy lindo. Su architectura es especial. Las personas caminan apuradas. No pierden un segundo para mirar las pareds con paineles de obras cubistas. Intento sacar unas fotos pero tengo que marchar. Todos marchan.. apurados.

Primeiro dia em Madrid - 06 de dezembro de 2010
Meu filho se encontra comigo no metrô, ainda no aeroporto. Ele teve a ideia genial e de ligar para o meu celular. E eu, tive a ideia genial de ligar o aparelho, mesmo achando que nao funcionaria ali. Só assim nos encontramos. Hoje meu filho faz 19 anos. Ao vê-lo, esqueci que nao dormia numa cama havia dois dias, que estava sem banho e sem roupas para trocar. Nada disso tinha nenhuma importância agora. O que faremos mae? -Você é quem manda. Hoje é seu aniversário. O que você quer fazer?

Saímos por Madri. Hugo foi me mostrando o caminho, as ruas, as histórias da ditadura de Franco. E eu fui tirando fotos. Na hora do almoço. McDonalds! Nao acredito que comi no McDonalds! Mas era aniversário do Hugo e ele está colecionando uns tickets que valem uns prêmios bem interessantes. Resolvi abrir essa exceçao. Ainda nao ganhamos o ipod, mas isso é questao de tempo. Continuaremos tentando, amanha. Parece que essa será a fase `Comer` da minha viagem!

De repente, depois de horas de passeio, risadas e fotos, me deu uma vontade louca de tomar um café. Eis que surge à minha frente.... O National Geographic Café!!!! Isso só pode ser um sinal! Hugo! Eu tenho que tomar café ali!!!

A loja é uma graça. Tiro várias fotos até o gerente gentilmente me dizer que nao posso fotografar ali. Como nao se pode fotografar numa loja da National Geographic?? Educadamente, guardo a câmera e saboreio meu capuccino ao final da tarde. Ficamos um bom tempo ali. Foi muito gostoso. Saí de lá com meu mapa mundi que há anos quero ter e um postal para uma amiga que coleciona.

Mais passeio e achamos um grupo de jazz tocando na rua. Uma graça. Eram uns senhores dos seus 60 anos. Tocavam com tanta animaçao que fizeram a rua inteira dançar. Eu, claro!! Dancei também, para desespero do meu filho!

A tarde foi caindo devagar. O tempo parecia que estava com preguiça de passar e eu achei isso ótimo! Bateu uma fominha e Hugo me levou em lugar maravilhoso! El Museo del Jamón. Comemos um delicioso sanduiche de presunto tipo Parma com uma taça de vinho (eu) e um copo de cerveja (ele). Cada lanche custou 2 euros! Eu recomendo!  Uma delícia! Depois dessa relaxante refeíçao o cansaço bateu em nós dois com força e resolvemos voltar para casa, quer dizer, para o Holyday Inn.

Ainda estamos procurando um cinema para ver Harry Potter em inglês. Aqui, quase todos os cinemas passam os filmes dublados em espanhol. Herança cultural da ditadura de Franco. É muito difícil achar filmes em versao original. Continuaremos tentando amanha.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Adriana Calcanhoto, o avião o inverno e o silêncio

'No dia em que fui mais feliz, vi um avião. Se espelhar no seu olhar até sumir. De lá pra cá, não sei. Caminho ao longo do canal. Faço longas cartas pra ninguém e o inverno no Leblon é quase glacial. Algo que jamais se esclareceu. Onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo, o leão que sempre cavalguei. Lá mesmo esqueci que o destino, sempre me quis só...'

Gosto muito dessa música da Adriana. A sensação de escrever longas cartas pra ninguém me é bastante familiar. A história do leão realmente nunca se esclareceu. Como pode uma pessoa matar um leão por dia e não conseguir domar seus próprios sentimentos? Não tem cabimento. Mesmo!

Escrever é uma terapia. A gente põe tudo no papel. Depois fica olhando para as letras. É possível assim ver a dor em perspectiva. Só isso já é suficiente para começar a curar as feridas.

Feridas? Como diz minha sábia mãe, dor mesmo é passar fome. O resto é relativo. O resto se ajeita. Fagner já disse: Deixemos de coisa e cuidemos da vida! Antes que chegue a morte ou coisa parecida... E a coisa parecida pode ser pior que a morte. Nada mais fúnebre que morrer em vida.

Embora não seja propriamente dor, já que tem comida na geladeira, o que sinto dói. É preciso admitir. A decepção enfraquece os ossos, baixa os olhos, apaga o sorriso. Vai passar. Como tudo na vida. Nada dura para sempre. Nem a felicidade. Nem a dor.

Agora, vou fazer um chá. É o que faço quando não há o que fazer. Tomo um chá. Respiro fundo e toco a vida. Vocês estão servidos?

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Circuito Explorer Etapa Sauípe - 28 de novembro de 2010


A prova vinha sendo anunciada há alguns dias. A FBCA fazia suspense. A princípio eu nem queria saber onde seria. Queria correr!  Precisava de um parceiro! Comecei a 'prospectar'  candidatos dentro do nosso grupo de aventura. Só o silêncio me respondeu. Algumas ligações, vários e-mails e nada de fechar dupla.
De repente, bateu um desânimo daqueles. Parei de treinar, desisti de correr uma prova de orientação que já estava paga. Desisti de ler emails. Estava decidida. Ninguém me faria mudar de ideia. Não ia correr a prova e pronto....

trriiiimmm.. - Alô.
- Oi, Lucy! É Mauro! E aí?? Animada? Vai correr com quem?
- Oi, Mauro. É que... ãhn... bem...eu não vou. Tô sem dupl...
- Tem um colega aqui para correr com você. É o Igor. Tá procurando dupla, e tal...
- Mas...
- Mas o quê? Eu não admito que você desista!!! Não admito mesmo!

Bom.. três 'eu não admitos' depois, desisti de tentar convencer o Mauro e resolvi correr. Sem nem saber com quem...No fim, todas as duplas estavam montadas. Igor 1 com Tadeu; Igor 2 com Mauro; As Penélopes com Lu e Gabi; Fernando com Adriana e Lucy com.... ??

Resolvi chamar uma amiga. Eu já tinha falado com ela sobre a prova e ela até se animou. Eu achei que ela não iria topar porcausa do trabalho, mas tentei assim mesmo. Para minha surpresa, ela topou! Então, tá né??  Vamos correr! Fernando gentilmente nos inscreveu e corremos como AG2+2.

Combina daqui e dali e saímos todos rumo ao Sauípe. Levei ainda uma outra convidada de honra. Minha mãe, que achou o máximo fazer o apoio da gente. No fim, ela queria fazer apoio pra todo mundo. Tão bonitinhos todos! Tadinhos, tão cansados!! Ai, ai... só mãe mesmo!

A ideia era correr duas duplas juntas com Fernando navegando. Mas quando vi o mapa eu me assanhei toda! Duas corridas de orientação no currículo e eu já estava me achando! Pensei comigo mesma: Quer saber? Eu vou navegar!!! Melhor me perder agora que depois! É sempre melhor fazer qualquer coisa agora que depois, by the way.

A foto dispensa explicações. Dois mapas. Duas escalas. Uma novata e uma navegadora saindo das fraldas.... Onde eu fui me meter?

Decidida a navegar, chamei minha parceira de aventuras e  nos mandamos pro mato. Perna de trekking, uma belezinha! O mapa estava muito bem feito. Achamos todos os PCs sem dificuldades. Nessa etapa concorríamos com dois pontinhos cor-de-rosa serelepes e falantes... Alguém adivinha?

Naveguei até direitinho. Na maioria das vezes eu achei os PCs sem dificuldades. Também tivemos um pouco de sorte. Alguns PCs pularam em cima da gente e em outros dicas valiosas nos salvaram. Ninguém facilitou pra AG2+2, o que achei ótimo! Mas na hora do sufoco, uma piscada de olho, um aceno de cabeça ou qualquer outro sinal corporal eram suficientes para nos colocar de volta no caminho certo.


Chegamos no PC6 - primeira transição - não muito longe das primeiras equipes. Minha mãe ficou toda orgulhosa! Trouxe água, barrinha de proteína e fez a maior festa.
Aproveitamos o chuveirão. Ainda tinha a perna de bike. Eu pensava com meus cabelos... Como vou pedalar e segurar o mapa? Pensem numa  pessoa desajeitada!!!

Quando Vânia começou a pedalar, eu aprendi muito rápido a navegar, ler mapa e controlar a bike com uma mão só! A pessoa é profissional! Descia as ladeiras sem freio, pedalava na areia e ainda me dava bronca! Que atrevimento!!

Por causa dela eu fiz meu primeiro downhill em alta! Tudo bem que era um morro gramado bem lisinho. Mas era alto, gente!! Deu medo! Desci rezando em voz alta! Passei dizendo pra quem estivesse por perto! 'Você viu? Eu desci aquele morrão ali!' Como se fosse a coisa mais legal do mundo! E era. Pelo menos para mim.

No areal, a caminho da Igrejinha, Vânia já tinha feito amizade com metade das equipes, enquanto brincava de pedalar. E eu ali, me entendendo com o areal, as ladeiras e os DOIS MAPAS!!! Tive que me virar em duas! Um olho no mapa, outro na trilha, outro na Vânia, pra não perdê-la de vista!

Passamos por mais uma transição. Vânia se ofereceu para nadar e eu me joguei na tirolesa. Quando vi aquela escada, lembrei de todos os procedimentos de segurança deste e dos outros mundos! O que era aquilo gente!! Que medo! Observei os pontos de fixação da escada, as condições do mosquetão, da cadeirinha... Enfim, decidi. Vou subir esse troço. A escada balançava. Ventava. Eu pensei em mil possíveis consequências da minha inconsequência! Resolvi respirar fundo e treinar meu autocontrole. Afinal,eu estava mesmo precisando disso! Valeu a pena! A tirolesa foi uma delícia!


Vânia já tinha nadado e estava pronta para a etapa de remo. Como eu não sei fazer leme, pedi a ela para fazê-lo. Que comédia! Nenhuma das duas tinha intimidade alguma com aquela tal de canoa canadense. Depois de vários loops, encalhamos. Todo mundo achando graça da nossa inabilidade. Decidida, resolvi a parada na raça mesmo! Me joguei na água e sentindo umas coisas molengas se enroscando nas minhas pernas (seriam cobras??), desencalhei o barco na força bruta. Vânia passou pra frente do barco e eu... milagrosamente... fiz o leme!!! Mais uma lição: Nada como uma crise para você descobrir novas habilidades!!

E toma de navegação. Os PCs vinham ao nosso encontro com a maior facilidade. Passamos várias duplas, Eu já acreditava que conseguiria tirar a diferença.... Até chegar ao PC 16....

Que P%¨&*!! aquele PC! Eu bati o 15 e o 17 umas três vezes e nada!!! Navegava, azimutava e nada!! Acreditem!! Enquanto eu procurava esse PC, lá no meio do mato, ouvi um rugido de onça!! Como sei que era onça?? Não sei! Só sei que não me pareceu nada amigável!! Vânia preferiu ignorar meu comentário e atribuí-lo à minha latente insanidade. Afinal, quem é que resolve passar o domingo no meio de um mato desses!! Só sendo muito doido!

Um pontinho cor de rosa pousou de seu vôo rasante e rapidamente me soprou algo no ouvido! Tcharan!!! Achei a trilha que procurava! Era só o que eu precisava! Dê-me uma letra! Eu te dou o abecedário! Lá estava o PC 16 e a Aventureiros 3000!! Dá licença! Esse PC aí é meu!!!

Batido o 16, chegamos ao PC 17 faltando 2 minutos para o corte! Vânia corajosamente enfrentou o arborismo enquanto eu corria atrás de água. Compartilhei meu lanchinho com Manu 'o véio', dissemos algumas besteiras, demos algumas risadas e saímos de novo rumo à penúltima etapa da nossa aventura. PC 18, PC 19... Mais bike!

Batemos o PC 20 e o 21. Agora era só achar a estrada e fim! Tomamos fôlego, água e coragem! Pedalei tudo o que tinha. Mesmo assim, era difícil alcançar minha amiga. Era como correr com o Papa Léguas!!!

Linha de chegada. Ladeirinha. Decidi que ia chegar pedalando. Quase ponho os bofes pra fora, mas consegui! Foi lindo. Chorei tudo o que estava engasgado a semana inteira. Nada como uma prova de aventura pra gente pôr as emoções em dia!!!

Como sempre, cada corrida de aventura me traz uma lição de vida a mais. Eu estava precisando muito dessa prova. Voltei mais tranquila, mais serena e mais corajosa!

Mauro - obrigada por ter insistido. Vânia - Você tem a Aventura no sangue! Ótima companheira. Excelente atleta! Juju tem muitos motivos para ter orgulho da mãe! Quero correr com você de novo! Lu e Gabi - obrigada pelas dicas e parabéns pelo resultado.

Quanto à minha mãe, já quer saber quando será a próxima pra fazer o apoio de novo!

À Turma da Explorer eu só tenho a agradecer. Vocês fizeram mais uma prova linda! Parabéns.