terça-feira, 16 de novembro de 2010

Release - Sergipe praias do Sul Challenge

Luciana me ligou dizendo que havia dado o meu contato para um certo Pugliese de uma certa equipe chamada R2. Ele precisava de uma mulher para correr uma prova em Sergipe. Disse que ia me ligar. E ligou realmente. Lu recomendou tanto, falou tão bem da turma que nem perguntei muito. Topei de cara.
Não conhecia ninguém. Só sabia que a prova era no Sergipe, que tinha 140 km e que Maurão seria o navegador. Essa última referência me animou. Eu ia correr com uma lenda viva!!! Poderia contar para todo mundo! Ei, pessoal!!! Eu corri com Maurão!!

Pois é, conheci Pugliese na Eco Run. Foi muito rápido, nem deu tempo de combinar nada. Ele me passou o site do evento (http://www.nordesteaventura.com.br/index.html) e lá peguei mais alguns detalhes. Nossa turma foi muito legal! Maurão capitão - comandante da tropa; eu, Pugliese e Geraldo - este além de excelente atleta é também massoterapeuta, psicólogo amador; animador de remo e aspirante a capitão do BOPE! Corremos o tempo todo ouvindo seu grito de guerra: - Declaro aberto mais um curso de formação de aspirantes a R2!!!

Ainda havia outra dupla defendendo a camisa R2: Leo e  Fred (flintstone)... Permitam-me a brincadeira, com todo o respeito.
Acertadas as caronas e os equipamentos, chegamos à Praia do Saco na sexta à noite. Aí conheci meus parceiros de aventuras Geraldo, Leo e Fred. O briefing era para acontecer às 21h.... Foi adiado para as 22:30... Depois fomos informados que os mapas chegariam às 3 da manhã.... Mas o briefing ia mesmo acontecer às 6.... Aconteceu às 7h. Mas tudo bem, imprevistos acontecem. Tudo o mais é festa!

A turma me recebeu muito bem. Eu cheguei a me sentir como a Penélope naqueles desenhos em que ela grita SOCORRO!! e aparece a quadrilha de morte para salvá-la. Toda hora um perguntava: Você está bem? Bebeu água? Comeu? Eu estava já me achando!!

Mas não pense que tudo foi moleza não!!! Afinal de contas, sou Penélope, mas também sou do Agreste!
A largada aconteceu quase às nove da manhã. Um sol de lascar o côco!! Saí logo na frente tentando puxar o trekking pra mostrar que não estava ali pra brincadeira!! Tudo que mandavam fazer eu fazia. Sobe a duna! Lá ia eu! Procura a lagoa! Procura o PC! Agora desce a duna! Ufa!! Rapidinho achamos o primeiro PC e isso garantiu uma boa distância da Raso da Cata que vinha logo atrás com sangue no olho tentando pegar a gente!
Ainda na linha de mostrar a que vim, me ofereci para levar a mochila do Maurão. A princípio ele não aceitou a gentileza, mas quando disse a ele que na hora da bike eu ia pedir arrego, ele acabou cedendo. Lá fui eu! Toda feliz me achando o máximo naquele trekking. Eu estava com a maior disposição mesmo.

A estratégia da equipe foi bem inteligente. Quando tinha PC virtual, não ia todo mundo atrás, para não desgastar à toa. Ficávamos esperando em pontos estratégicos e depois ajudávamos de outro jeito. Seja correndo na frente, seja levando os equipamentos. Tudo na maior descontração. O que mais me admirou na R2 foi o controle emocional. A turma tem uma estabilidade incrível e um respeito exemplar um pelo outro. Gostei de ver!
Eu ficava só pensando.. Temos que abrir uma boa vantagem nesse trekking por que sei que na hora da bike o bicho vai pegar!!! Será que aqui tem ladeira????
Na perna de trekking, numa das paradinhas entre um PC e outro, encontramos uma casa muito bonita cheia de gente adorável. Eles deixaram a gente sentar na grama, nos deram água gelada, deixaram eu usar o banheiro e ainda ofereceram o chuveirão para a gente se refrescar. Depois saíram, deixando a casa toda aberta! Com a gente lá se refastelando no gramado deles! Inacreditável!

Pois muito bem,  chegamos no PC da primeira transição. Leo nadou pela dupla e Geraldo pelo quarteto. Eu e os outros ficamos de boa vida tomando coca-cola e comendo melancia. Comecei a achar que a prova ia ser moleza!! Pugliese deitou no chão e tratou de botar as pernas para o ar. Vi duplas desistindo. Acharam o trekking difícil de mais! (hã!! imagina!! um trekkinzinho mole desses! - pensei eu!)

Primeira perna de bike. Eu ainda me achando o máximo. Cheguei a abrir uma dianteira do resto dos meninos. Só estradão em declive! SEM LADEIRA!!! Que maravilha....
O vento começou a jogar contra e mesmo descendo eu fazia força de quem estava subindo. Foi ficando difícil e só ouvi um zunido do meu lado. Era Maurão provando porque é uma lenda nas corridas de aventura. Daqui a pouco passa Geraldo, Pugliese e Fred... e eu ficando pra trás.... Até que Leo começou a dar uma forcinha e consegui alcançar Fred, que segurou a onda para me esperar. Fred (fliststone) resolveu servir de quebra-vento para mim. Com um quebra-vento daquele tamanho ficou fácil.... Desenvolvi bem, até chegar ao areal...

Primeiro veio o PC da capelinha. Só uma parte da equipe subiu. O restante, incluindo eu, ficou debaixo de um pé de umbuzeiro contando histórias. Numa dessas paradinhas eu vi uma coisa inédita! Maurão estava com cãimbras e o músculo da sua panturrilha se contraía sozinho! Fiquei impressionada! Para aliviar a dor, ele baixou a meia e deixou a panturillha tomando um arzinho... Foi seu erro!
Na próxima sequência, enquanto perseguia um PC foi perseguido por um cão. Adivinha onde o bichinho foi morder??? Na panturrilha exposta, é claro!! Nem para escolher a outra que estava vestida, aquele cão safado!

Bom minha gente, tinha também o areal. Aí o bicho pegou pra mim. Pedala... Pedala...... atola, derrapa, pára, desmonta e começa tudo de novo. Incorporei o Rabugento e fiquei parecendo a Gabriela. Xinguei todos os palavrões que conheço várias vezes. Pugliese, que vinha atrás para me acompanhar não dizia nada. O que ele vai pensar de mim? (pensei eu). Que sou uma doida varrida e mal educada! Mas dava raiva mesmo! Uma ou outra vez eu conseguia passar, mas na maioria a areia me vencia. Resultado. 5x2 para o areal!

Chegamos ao remo. Cerca de 40 km!! Meu máximo havia sido 8 km na Carrasco Fast. Pensei com meus botões... vou levar umas 10 horas nesse rio! Errei... Foram 11!!
No início eu estava bem. Ia com Pugliese. Chegamos a alcançar e até passar os outros caiaques do nosso grupo, que a essa altura já havia se convertido em sexteto. Onde estão as outras equipes? Sei lá - dizia Leo - Só sei de uma coisa, temos que chegar antes da Raso da Cata, ou eu não vou aguentar a gozação de Tatiana! Taty corria na Raso da Cata e estava decidida a nos passar de qualquer jeito! A menina é uma fera!! Boa candidata a Penélope!

Aí minha responsabilidade aumentou. Tinha que remar aquela p$%#¨!! O Sol se pôs, anoiteceu, a Lua nasceu... Pegamos os três PCs desse trecho. Num deles, tínhamos que parar no restaurante da Dona Santinha. Parada obrigatória para comer. Promessa de um certo camarão ao alho e óleo que era o sucesso daquela região. Tudo escuro do lado de fora. Vento. Cachorros latindo. Pensamos todos... Não vai ter comida nenhuma nesse lugar. Pugliese foi o primeiro a abrir a porta da casinha. Meio incrédulo, abriu um sorriso quando viu uma mesa simples toda arrumadinha e uma senhora servindo a comida. Um outro senhor muito simpático e bigodudo nos recebeu de braços abertos: Sejam benvindos!! Pugliese nem acreditou. Para quem é essa comida toda? - É para vocês!!! Conforme o próprio Pugliese disse mais tarde - era como abrir a porta da esperança!

Eu chegava a estar tremendo. O que é isso Lucy? Está com frio? - Não gente! É fome! Estávamos remando há umas cinco horas. Servimo-nos! Feijão, arroz, peixe frito, saladinha e o tão esperado camarão. Tudo muito bem temperadinho e regado a coca-cola de litro de vidro! Ao final... Vocês aceitam um cafezinho? Claro, Dona Santinha!! Ela vem toda educadinha com um dedinho de café numa xícara azul... Oh, Dona Santinha, não leva a mal não...mas ... Bota café nessa xícara!! Tadinha, ficou toda sem graça com essa minha agrestia, mas me serviu quase a garrafa inteira! Ainda bem que tomei aquele café!

Comemos, compramos os alimentos não perecíveis para a ação social, conforme mandava o racebook e voltamos ao remo. Tinha mais um PC para pegar antes de voltar remando rio acima.
Pegamos o último PC desse trecho, na ponte que estão construindo para aproximar o Sergipe da Bahia. Tinha que anotar o nome do bar e do dono. Acho que era Porto do Sol e o dono era um tal de Robson.. Sei lá...

Havíamos remado 17 km. Agora, só faltavam os 17 da volta! Achamos que ia ser moleza. Alguém disse que íamos fazer em 3 horas. Eu duvidei. Rio acima é mais difícil. E eu lembrava de ter visto uma bifurcação no mapa que fazia um redemoinho. Lembrei que já fiquei presa num redemoinho desses. A sensação de remar para frente e andar para trás é horrível!
O cansaço começou a bater. Entramos naquela síndrome que nos faz acreditar no ilógico. Achávamos que estava chegando, mesmo sabendo que isso era impossível. Precisei fazer umas pausas para descansar as costas, assim como meu parceiro de remo. O resto da turma abriu vantagem sobre nós. Foi ficando cada vez mais difícil. Eu não senti sono. Talvez pela mistura de coca-cola com café e pela tensão de não querer me perder do resto da equipe.

Comecei a prestar atenção ao ambiente. Um céu lindo, pontilhado de estrelas. A Lua cruzando o céu. Acompanhei toda a sua trajetória até ela se pôr do outro lado do rio. Nunca havia visto isso antes. Repensei toda a minha vida. Meus problemas, meu trabalho, minha família, meu relacionamento... Fiz DR comigo mesma! Foi ótimo. Saí daquele remo no limite da minha resistência, mas também saí espiritualizada. Incrível como essas condições extremas mexem com a cabeça da gente.

Lá pela meia-noite (detalhe! começamos a remar às 2 da tarde), algo estranho aconteceu. Eu esqueci como remar! Não tinha jeito de botar o remo na água! Eu simplesmente não sabia mais! Pugliese ria. Eu também. Tive que reaprender tudo ali, na hora. Levou um tempão até que eu conseguisse remar de novo no automático. Eu tinha que ficar repetindo para mim mesma: Olha o lado da pá, agora gira a pá, agora olha como a outra pá entra na água... uma viagem!! Defeito mesmo. Curto circuito total!

Avistamos uma luz!! Olha, gente, é o PC!!! O ânimo se renova nessa hora. Conseguimos remar num bom ritmo. Todos em busca da luz, como mosquitos numa noite de verão.... Doce ilusão... O PC na verdade era uma iluminação de pescador. Deixada ali, no meio do rio para sinalizar sei lá eu o quê! Eu parei e falei: - Eu tô ficando doida ou isso é uma vela acesa no meio do rio? Todo mundo riu. Fred fez graça. Disse que era despacho e tal.. Achei melhor não brincar com essas coisas... sei lá... vai que alguém se zanga com a gente!

Pugliese não fala enquanto rema! Me deu saudade da Lulu. Queria conversar para passar o tempo, mas minhas tentativas não renderam muito resultado... Aí comecei a cantar... Acho que funcionou, porque de repente, meu parceiro de remo começou a falar.. Pensei com meus botões: - Ele deve estar pensando que é melhor falar comigo do que me escutar cantando!!

Cansamos de falar e de cantar. Remada monótona e silenciosa. Eu estava frustrada. Não reconhecia nada. Achei que estávamos perdidos. Lembrei de Tadeu que remou por horas até descobrir que estava no rio errado. Comecei a me conformar em remar até o dia amanhecer. Parei várias vezes para descansar, mas tinha pena de Pugliese que estava fazendo leme e não era justo ainda ter que me rebocar! Procurei não reclamar. Não ia adiantar nada mesmo!

Passou um barco do corpo de bombeiros. Escutei os caras dizendo: - É pescador! São dois barcos! Duas redes!! Nem tive força de responder. De repente eles perguntaram: - Quem está aí? É caiaque? - É sim! São dois caiaques! (Acho que Leo estava no outro, mas nem dava para ver direito). Os bombeiros foram embora sem perguntar mais nada,. afinal corredor de aventura tem mais é que se lenhar!

De repente, o silêncio ficou mais quieto ainda. Nós nos perdemos de todos os outros caiaques.

Se os espíritos das matas se zangaram, eu não sei. Porém, fomos iludidos mais uma vez. Começamos a remar em direção a outra luz... mais errada ainda que a primeira. Ela nos levaria para o outro lado do rio, se não fosse Maurão gritar: PUGLIESE - Vire para a direita!!! O PC não é aí!!! Foi a última vez que ouvi a voz do Maurão por um bom tempo! Remamos por quase uma hora e a luz permanecia à mesma distância. Creio que caímos no famigerado redemoinho. Eu  perguntava: - Pugliese, você sabe onde estamos? Está reconhecendo alguma coisa? Está vendo os outros?

Ouvi uma única e taxativa resposta: - Não!

Depois de muito tempo, chegamos finalmente ao PC. Maurão comia alguma coisa e de boca cheia nos dizia: -BORA GENTE, a Raso da Cata tá vindo aí!!! (Eu disse que não me deram essa moleza toda!!!) Nem deu tempo de descansar! Sobe na bike. Faz o areal todo de novo!!!

Pedala... Pedala...... atola, derrapa, pára, desmonta e... Quem disse que eu montava?? Não tinha força de subir na bike!! Parei de vez! Leo, com a maior paciência do mundo tentava me acalmar. A prova está terminando, você não pode quebrar agora. Aguenta firme!! Chegou todo mundo para ver o que houve! Maurão, acho que se lembrando do que eu disse no trekking, logo se ofereceu para levar minha bike. E eu fui andando. Depois de massagem no ombro, relaxante muscular e alongamento, consegui voltar a falar! Porque pedalar ainda demorou um pouquinho!

Finalmente, no final do areal, subi na bike decidida a não descer mais. Aí foi minha vez de enfrentar os cachorros. Aqueles cães assassinos, não satisfeitos de comerem a panturilha do Maurão, agora queriam a minha!!! Logo a minha!!! Eu comecei a escutar os latidos cada vez mais perto. Cheguei a sentir o bafo do cachorro no meu cangote e Leo me dizendo: Continue pedalando! Eles desistiram!!! Sabia que era mentira, mas nem quis olhar para trás. Pedalei gente! Acho que até passei por mais um monte de areia e nem senti!

Finalmente chegamos ao asfalto e voltei a pedalar feito gente. Ainda paramos para mais uma coca-cola com pastel frio num pagodão na beira da estrada. Hilário foi ver o Geraldo fazendo passinho de pagode, descendo até o chão, todo vestido de corredor de aventura!!

Mais um pouquinho de pedal, mais uns dois PCs e eu vi o dia amanhecer na linha de chegada!! Outro momento espiritual. Inesquecível!! E o melhor!! Chegamos antes da Raso da Cata para a alegria de Leo!

A prova foi uma grande diversão. A competição foi contra nós mesmos. A equipe se integrou muito bem. Mesmo não me conhecendo, todos me trataram como se eu já fosse da equipe. Maurão, por sua vez provou de novo que é um excelente navegador. 

Foram várias superações. Fred e Geraldo correram sua primeira prova. Mauro e Pugliese enfrentaram o trekking com valentia; Eu fiz meu primeiro remo noturno, virei minha primeira noite acordada em uma prova, pedalei em estradão sem sentir medo! Tudo isso valeu muito a pena! Essa corrida fez muito bem para a minha cabeça. Eu precisava daquele silêncio no remo para refletir sobre várias coisas. Saí mais forte, mais confiante e mais feliz.
Para completar, descansamos um pouco e fomos todos passear em Mangue Seco no domingo. Aí eu vi mais um pôr do Sol e renovei as energias!




Obrigada à R2 pelo convite e pela confiança!
Aventureiros - Estou pronta! Que venham as próximas provas!!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Orgulho e Preconceito

Eu quero expressar minha opinião sobre o preconceito.


Sou nordestina de pai e mãe; nascida e criada no subúrbio do Rio. Já morei na baixada fluminense e me criei num lugar longe pra burro, chamado Campo Grande - só quem é suburbano mesmo conhece! Minha rua não tinha asfalto! Estudei em colégio público, andei de ônibus e dividi merenda na escola.

Sou afro-descendente, mulher e ainda por cima... tenho cabelo 'duro'. Sei, conheço e sofri quase todo o tipo de preconceito. Posso dizer por experiência própria - Preconceito não é legal!!!

Fui professora de escola pública. Ensinei donas de casa, assistentes de pedreiro, soldadores, babás. Também fui professora da classe média. Ensinei ricos e pobres. Em todas as classes por onde andei, vi gente boa e gente ruim em igual proporção.
 
Quando vejo moças bem nascidas. De mãos lisas que nunca ariaram uma panela ou pegaram numa vassoura, humilhando pessoas por sua origem me dá uma tristeza infinita. Isso é ridículo e vergonhoso. O Brasil é um dos países mais diversos do mundo. E é essa diversidade que nos dá criatividade e força. É o que temos de melhor.
 
O que é preciso fazer para que os seres humanos se respeitem?
 
Tenho orgulho da minha origem. Minha persistência vem do Ceará; minha coragem vem do Sergipe e minha resistência vem da África. Meu 's' chiado vem de Portugal e meu amor pelo mato vem dos índios, meus ancestrais também. Sou carioca, pois nasci e me criei ali. Sou baiana, pois adotei essa terra para viver. Sou uma brasileira legítima e exijo respeito!