domingo, 17 de outubro de 2010

O menino da porteira e o jovem boiadeiro

Hoje me deu vontade de comprar um vinho, uns queijos e ver um bom filme. Comprei um Carmenére chileno, muito gostoso por sinal. Comprei meus queijos e fiquei procurando um filme pra ver. Achei um filme nacional. "O menino da Porteira". Ele me lembrou a infância então, resolvi assistir.

Quando eu era criança, morei por uns tempos num lugar chamado Prata, dentro de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Ali todo mundo era primo ou tio. Era um bairro cearense. Eu tinha uma tia velha. Não lembro o nome dela. Ela tinha um monte de filhos e eu ficava com ela quando minha mãe estava no trabalho.
Minha tia anônima adorava o Sérgio Reis. Achava-o lindo e gostava das suas músicas. Naquele tempo, "O menino da porteira" era um sucesso. Quando tocava no rádio, ela punha no volume máximo. Dava pra ouvir do fim da rua quando eu voltava da escola. Ela chorava com aquela música. Eu também achava triste. Pobre menino. Morto por um boi brabo.
Hoje vendo o filme, chorei como minha tia velha. O menino era como imaginei. Lindo, trigueiro e fofinho. Não tem como não se emocionar. Chorei também porque lembrei da minha mãe e das histórias que ela conta da sua infância. No filme, o pai do menino se chama Otacílio. Minha mãe tinha um irmão, chamado Otacílio.
Meus avós, Dona Carminha e Seu Conrado, moravam no interior do Ceará. Herdaram uma terrinha, parte do império do meu bisavô. Brígido Alves de Moraes. Vô Brígido era dono de Bela Aliança. Até hoje, há lugares lá perto que fazem menção ao seu nome. Não é preciso dizer que a terra se dissipou entre as dezenas de filhos que nada entendiam de agricultura. Mas isso é assunto para outra história.
Otacílio era o filho favorito de dona Carminha. Bonito, forte. Muito parecido com o pai, Aliás, Vô Antônio Conrado só confiava nele para cuidar do gado. Naquela tarde, Otacílio saiu, como sempre, para tanger os bois do pasto de volta para a fazenda. Vó Carminha sentiu um aperto no peito, mas como era sempre muito sensível, achou que era fricote. Otacílio pegou sua égua mansa. Um animal bonito e forte como ele. Estava acostumado com aquele bicho. Tudo transcorria na mais perfeita normalidade.

O gado comia seu pasto tranquilamente. Otacílio, como sempre, conduziu os bois com maestria. Passou pela porteira, pôs todos os bichos no lugar...

Otacílio então, resolveu voltar para casa, De repente, algo estranho aconteceu. Dizem que foi cobra, mas na verdade ninguém sabe ao certo até hoje. Só sei que aquele animal tão manso começou a correr desembestada fazenda adentro. O casarão tinha um alpendre comprido na frente (espécie de varanda estreita e longa). Mas fora construída em desnível. A ponta do alpendre dava para um vão muito alto. A égua enlouquecida avançou para o casarão, subiu no alpendre e correu até o final, empacando bem na ponta do vão. Meu tio foi jogado no chão com tal violência que quebrou o pescoço na hora...

Valei-me minha nossa senhora!!!Antônio! Antônio! Acode meu filho pelo amor de Deus! Meu Deus. Que desespero. Vó Carminha soluçava como se todos seus filhos tivessem morrido ao mesmo tempo. Vô Conrado, valente que só, não chorou na hora. Tentou acudir o filho, em vão. Lhe deu colo, jogou água em sua cara.... Nada.. Tio Otacílio já tinha partido. Tão valente. Tão forte. Tão Conrado! Ao ver que não tinha jeito, Vò Conrado fez a única coisa que julgava ser certo. Levou a égua louca para a manjedoura e lá a sacrificou. Para ter com seu cavaleiro no outro mundo e expiar sua culpa.

A tristeza dominou a fazendinha. Por muitos anos. Uma cruzinha branca foi posta no local. Pessoas que passavam a cavalo deixavam flores. Otacílio virou lenda. Vó Carminha teve muitos filhos, mas nenhum foi como Otacílio. Ela jamais esqueceu sua dor.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Carrasco Fast 2010 -55 km de diversão

Decidi escrever logo meu release enquanto os arranhões e as marcas de cansanção estão bem vivas na memória.. e na pele!
A prova foi linda. De todas, a que eu mais curti até agora. Não tanto pelo pódio, porque isso a gente só sabe no final. Mas por cada etapa, cada superação, cada dificuldade que tivemos que resolver.

Igor e eu queríamos correr a prova de 100 km. Tentamos montar um quarteto, mas nossos convidados tinham compromissos de trabalho no feriado.
Conformada com a frustração atendi a um telefonema do Mauro, sexta à noite perguntando se eu topava correr a prova de 55km. Meu bom senso levou menos de um minuto para ser convencido por minha insanidade a correr a prova. Sem planejamento, sem apoio, sem nada pronto.
- OK. Eu topo! Vou ligar pro Igor. A insanidade dele também estava de plantão e ele topou sem perguntar como!
A ideia era compartilhar o apoio da turma da Makaíras 2, o que foi muito importante especialmente nos trechos mais difíceis de navegar, logo no início da prova.

No sábado, eu joguei tudo o que achei importante levar no carro e lá fomos nós. Peguei Igor em casa e saímos, rumo a Feira de Santana. Só pudemos sair as 18h porcausa dos nossos compromissos. Fizemos a inscrição na hora, na maior correria. Conhecemos a turma do nosso apoio compartilhado, arrumamos as coisas e entramos no clima. Enquanto a turma estudava os mapas, a gente engolia o jantar. Enquanto a turma curtia o show, a gente tentava entender o mapa!!!


Pontualmente, as 22h, começou a corrida. 5.2k de asfalto. Só pra aquecer! O jantar conversando conosco a corrida toda. Que delícia!!! Chegamos ao PC1. Nossa primeira dificuldade foi entender como sair da cidade. Nada fazia sentido. Como bons novatos, pedimos apoio... Nesse momento a navegação do Mateus (Makaíras 2) nos salvou. Sem ele a gente estaria procurando o PC2 até agora. Trechinho curto de bike, mas muito escuro. A trilha ficava bem escondida.

Tinha uma pequena descida de cascalho, no escuro, que passava por numa ponte sem proteção lateral. Meu primeiro grito:

- IGOR!!! Eu tenho medo de ladeira!!!!
Eu só via o que o farolete da bike mostrava, o que era nada! Igor foi. Eu também fui!! Nada de mais para quem pedala, mas para mim, foi a primeira superação. A coisa melhorou um pouco quando os carros de apoio começaram a chegar. A luz dos faróis me mostravam o caminho e aí eu vi onde tinha me metido!
Dali partimos para o PC3 para acompanhar a prova e esperar a galera que voltava do remo. Ficamos alí com os apoios e deu pra tirar um cochilo. Deu pra ver a Aventureiros chegando e até dei uma forcinha na transição. Aliás, Fred se saiu muito bem no apoio. Dedicado, concentrado. Preocupado em não deixar faltar nada. Entre um cochilo e outro, conversamos bastante.
Fred - ainda quero correr com você. Quero ver se vc é essa brabeza toda, mesmo!! A gente vai rasgar muito mato!!!
Lá pelas 4h da manhã, fomos direto para o PC11 junto com a Makaíras 2 de onde partiríamos as 5:15. Como ninguém aparecia, dormimos mais um pouco. Finalmente, chegam Paulinho e Marcia e autorizam a Re-largada: 5:50!!!
Vamos escalar aquele morro ali. Pensei: fichinha!!! Perto do morro do castelo, aquele parecia uma leve ondulação!! Beleza. A subida foi mole. Batemos o PC12 a 180m de altura e curtimos o belíssimo visual do lugar. A descida foi punk!!! Tinha que ir de rala-bunda mesmo, pra não se estabacar no precipício. Aí, minha gente, foi rasgar mato! Os pés de espinho nos abraçavam com tanto amor, que não queriam mais largar! Em uma das equipes tinha um pobre rapaz que resolveu fazer a prova de bermuda. Não preciso dizer que ele deu o sangue pela prova!
A Giramundo nos encontrou e rasgamos mato juntos até achar a trilha para o PC 13, que encontramos graças a um gentil nativo que com toda delicadeza nos mostrou o melhor caminho:

- Vocês é doido!! Quer ir por aí, vai, problema seu, mas tá errado. O caminho é por ali, por dentro da fazenda! Agradeci a gentileza, mas o moço me ignorou solenemente!
Quando achamos a trilha principal, Igor e eu entramos de fato na competição. Começamos um trekking forte e rolou até uma corridinha. Abrimos uma boa distância com relação às outras duplas e à nossa frente, só havia a Giramundo. Passaram por nós a Gantois e a Raso da Cata também. E toma treking... anda... anda...

No PC 13 a diversão começou pra valer. Chegamos 9:15. O corte era 9:30. Conseguimos sair antes do primeiro corte. Animados, pegamos as bikes e saímos com sangue no olho. Vendo que não tínhamos mais ajuda na navegação, tivemos que nos virar sozinhos. Igor deu um show!!!
Cada PC batido aumentava nossa disposição. Estamos na briga!!! Era como competir com as equipes de ponta. Batemos todos os PCs entre os 4 primeiros. Toda hora eu via a Gantois, a Makaíras 1 e a Raso da Cata. Estávamos na cola da Giramundo. Batemos quase todos os PCs do trecho de bike junto com eles. O capitão da Giramundo me deu parabéns! Disse que eu estava indo muito bem! Aí mesmo que pedalei. Subi e desci todas as ladeiras daí em diante! Eu estava me achando o máximo!
Turma, vocês tinham que ver Igor navegando e pedalando! Dava gosto! Além de bom na bike, ele é muito inteligente. Tem intuição e pensa rápido. Escolhemos navegar pelo caminho mais longo, porém, mais pedalável. Com isso, pude aumentar minha velocidade. Foi o que nos ajudou a bater todos os PCs rapidamente, enquanto outras equipes se atrasavam em trilhas estreitas e ladeiras de cascalho! Quem precisa de ladeiras de cascalho?

Felizes e motivados chegamos na zona de transição. PC 19. Era para encontrar o apoio, reabastecer água e comida, pegar os coletes e seguir de trilha até o remo

... Apoio.... Onde estará o nosso apoio?.....
Complicou!! Como o carro estava apoiando outras duas duplas, acabaram se desencontrando da gente. Com pouca comida, a água acabando e sem coletes, aquele poderia ter sido o fim da prova para a Aventureiros 2.
Mas eu não me conformei. Igor, chegamos até aqui. Vamos chegar até o final. Não vou desistir agora! Paulinho, precisamos de coletes, nos ajude!!! Paulinho ficou comovido. Viu que a gente não ia desistir mesmo e se ofereceu para levar nossas bikes para a outra transição.
Paulinho nos orientou a fazer o trekking até a beira do rio, esperar a lancha da organização e ver se conseguia coletes com eles.
Lá encontamos a Aventureiros 1 atravessando. Pedi ao Mauro pra avisar lá no outro trecho e mandar a lancha nos dar apoio. Comemos o que nos restava e lá ficamos, dependendo da sorte... Ao nosso lado, dois integrantes da Kalangos se preparavam para atravessar. Um deles com cãimbras até na sobrancelha, não conseguia nadar. Entrava no rio. Saía do rio.. nada. E a gente ali. Quietinhos, rezando pra chover colete!

Meu anjo da guarda, (pra quem não conhece, é menina e se chama Luiza) ouviu minhas preces. A gentil dupla nos ofereceu os coletes. Estavam abandonando a prova. É claro que não desejei que eles abandonassem. Mas os coletes foram muito bem vindos! Agradecemos e nos jogamos! Amarrei meu tênis cuidadosamente na mochila e lá fui eu. Nunca tinha feito travessia antes! Foi uma delícia. Nadamos uns 700m e quase no final da percebi que não sei dar nó!!! Cadê meu tênis!!!!! f¨&*%!

Fiz um rápido cálculo de probabilidades e concluí que era mais fácil chover tênis que eu encontrar o meu naquele rio. Vamos em frente Igor!Vou descalça mesmo!

Chegando na margem calcei os dois pares de meia que restaram e seguimos por uns 3 km pelo mato. Tava até gostoso. Brinquei com Igor: Não tô sentindo nada! Não tô sentindo meus dedinhos, meus pezinhos.... Ai KCT, o chão tá quente. Tem espinhos. Não dá pra correr!!!

Daí eu tirei a lição número 1: Quando você achar que está cheio de problemas, abrace-se a um cansanção! É milagroso! Tudo o mais se torna relativo após um breve contato com essa adorável espécie nativa! Igor só escutou meu grito: P%¨& que P%$¨&*&!!! P##$$$. M@!#$!

O que foi, Lucy? Respondi quase chorando: Cansanção! Mas tudo bem, vamos embora que agora é que não estou sentindo nada mesmo! Esqueci a fome, os pés molhados queimando na trilha, a sede... Só sentia o banho de pimenta nas pernas!

Saindo da trilha encontramos um bar e resolvi pedir apoio:
- Moça, é o seguinte: não temos dinheiro, não temos água, eu perdi meu tênis e ainda temos uma prova para terminar.

Os meninos da casa encheram nossos skeezes com água quente da bica e nós pagamos com o que restava de amendoins!! Na realidade, o amendoim estava dentro de um dos skeezes pra não molhar. Acabamos dividindo com eles pra liberar o skeeze. Isso tudo no maior bom humor!! Eles se admiraram de como alguém poderia estar tão feliz numa situação dessas! A turma do bar nos ofereceu um mocotó que estava até bonito. Mas achamos melhor não abusar da hospitalidade...

Seguimos para os remos. Lá estava o barquinho que a ´Olhando´ emprestou pra nossa equipe. Lá estavam nossos remos, gentilmente alugados pelo Reizinho. Estávamos muito felizes! Tudo o que a gente queria era remar!

Igor nunca tinha feito leme na vida! Dei a ele algumas dicas teóricas e ele foi se ajustando. Aprendeu ´natora´! Parece que nasceu pra fazer leme. Remamos por quase quarenta minutos e eu perguntei se faltava muito. Igor disse que faltava um pouquinho. Pedi pra ver o mapa.....

-CARACA!!! A gente vai remar isso tudo!!! - Disse eu apontando para o primeiro PC que vi, que era o 3.

- Não, Lucy

- Ah, bom!

- A gente vai remar até aquele alí ó. O PC 21, lá em cima!!!

- P$%%¨¨¨##@@!!!!

Oito quilômetros de remo. Quase duas horas da tarde. Céu azul. Sol castigando!!!

- Tá ótimo!!! É pra remar, né? Então, tá! Você ´lema´ que eu remo!!!

Decidimos quebrar os 8km de remo em referências e celebramos cada pequena chegada. Agora, é até aquela curva. Agora, até a península, até aquela pedra, etc. Vamos remar até aquela casa bonita ali na frente. Lá deve ter uma feijoada nos esperando....

O visual do remo foi um show à parte. Eu vi um carcará, tinha gaivotas e Igor viu um tatu enorme. Foi lindo.

Igor, tô com fome! Dividimos as últimas balas de mel e isso foi suficiente para me reanimar. Rema, Rema, Rema...

Igor ficou quieto. Um bom tempo. Não ouvíamos nada. Só o barulho dos remos. De vez em quando passava um barco, um jetski, um boi mugia. Nada de equipes. Nenhum caiaque sequer! Estamos sós no mundo. Todos nos esqueceram..

De repente, Igor fala baixinho... Estou vendo uma estrada... ela é alta.... é a ponte. A PONTE!!!! A PONTE!!!!

A gente começou a gritar feito náufragos quando avistam a praia. Que alegria!! Quase duas horas remando com o sol quente na moleira, água de beber mais quente ainda e praticamente sem comida!! Foi lindo!

Cadê o PC 21? Onde estará o apoio? O que foi feito das nossas bikes?

????????????

OK. Entendido. Escapamos do primeiro corte, mas tivemos que engolir o segundo!! Mais dois quilômetros de remo até a chegada...

Chegamos, estacionamos o caiaque e corremos pro abraço. Marcinha nos recpcionou, deu os parabéns e trouxe os troféus. Parabéns, vcs ficaram em segundo lugar!!!!Igor e eu nos abraçamos e comemoramos muito!!!

Mas então, curiosa como sou, quis saber pra quem tínhamos perdido. Marcinha começou a explicar sobre os cortes, como funciona, etc, etc....

...

- Péra aí!!! Um momento!!! Vocês NÂO tomaram o primeiro corte!!! Devolve aqui esses troféus... Ela foi lá, conferiu suas anotações e voltou.

- Desculpa, gente! Vocês ganharam! O primeiro lugar é de vocês!! E é bem merecido! Podem se abraçar de novo!!


Aí comemoramos muito de novo!!! Inesquecível!