sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Era uma vez... Um baile de debutantes em Viena

Sua irmã maior é bonita, popular e fútil. Procura um marido. Vive cercada de amigas igualmente leves e vazias. Tem um roteiro a seguir. Ir aos bailes. Ver e ser vista. Ser escolhida por um jovem rico e atraente. Casar-se, engordar e ter filhos. Como sua mãe.

Ela é a caçula. Beleza discreta e pouca pompa. Os vestidos mais vistosos são da sua irmã. Ela se veste com decoro e simplicidade. Prefere os livros às aulas de dança. Mesmo assim, sua postura e aura de nobre fazem com que os tules e os cetins ganhem um brilho especial. Ela não passa despercebida.

O baile começa.  Os músicos tocam valsas. Viena é uma cidade festiva.  Servem bebidas e comidas em abundância. Ela nada prova. Quieta, mas segura de si, apenas se faz presente.


Sua irmã e seu séquito de abelhas desfilam pelo salão, atraindo olhares curiosos e cheios de cobiça. Ela, passa incólume e aproveita sua invisibilidade para observar.

Um distinto cavalheiro se aproxima. Ela o nota pela visão periférica. É mais velho, porém  bem apessoado. 

-  Boa noite, jovem dama. Posso aproximar-me de sua senhoria. 

-  Pois não. Boa noite. 

Ela responde educada e reservadamente. Sente seu corpo encolher, como quem se esconde. O pelo da nuca se eriça, como quem fareja o perigo. Ela está em alerta. Não confia em ninguém.  Muito menos em homens...

Ele percebe que a moça é arredia e resolve ir devagar na abordagem. Para impressionar a moça, ele fala da luz e das sombras dos quadros de Rembrandt e recebe dela uma aula de história da arte. 


Ele fala de Chopin, que alguém toca ao piano no fundo do salão, e ela descreve com delicadeza o amor escondido do pianista por uma certa "Elise"* que, segundo ela, permanece escondida dos livros de história, pois madame Sand jamais deixaria que descobrissem essa indiscrição...

O baile segue alegre. As notas parecem tomar formas tridimensionais e se misturar aos vestidos que giram no salão. Os risos, as cores e o frescor da juventude deliciam a moça, que prefere observar a viver aquela ilusão.

Deliciado com o mexerico e intrigado, o homem se perguntava como uma moça poderia ser tão letrada e ao mesmo tempo tão divertida. Que jovem inteligente. Quanta cultura em um corpo tão frágil. Não é como as outras. Não será tão fácil seduzi-la.

Enquanto ele a ouve descrever como aprendeu cultura clássica, diante de uma escultura de Ártemis, à entrada do salão, um jovem duque se aproxima. Ela nota seus olhos já vermelhos de vinho. Ele a convida para dançar. Ela agradece e diz não. O jovem, desconcertado perante tão gentil recusa, sai em busca de outro alvo. O homem, observando a atitude da moça a questiona: 

- A moça não gosta de dançar?  Ou... talvez não saiba...

Ela responde:  - Ah, sim. Gosto muito de dançar. Mas, a conversa está tão agradável que não quero perder o momento. Ademais, aquele jovem está bêbado. E o álcool desperta excessiva ousadia. 

Inebriado pelo que ele entendeu como elogio à sua pessoa, ele se sente à vontade para se aproximar. E lhe oferece uma taça de vinho. Quem sabe despertaria a mulher escondida sob aquele discreto vestido.  Ele sentia a vida que pulsava naquele corpo jovem, mas percebia que ela mantinha seu desejo muito bem guardado.  Seria virgem? Provavelmente.  E caberia a ele, sagaz e experiente, descobrir...

Mas, ela disse não.... 

- Eu não bebo em festas. Prefiro guardar o juízo enquanto tenho controle sobre ele. 

Ele então, a convida para a próxima valsa. E ao tocar sua cintura e sentir seu cheiro de jasmim se imagina no céu. É uma musa. Uma ninfa. Uma deusa. Ela dança com leveza. Flutua pelo salão. Tão linda, tão alegre e tão leve que chega a ofuscar a irmã, que gira majestosamente em seu cetim dourado.

Ele se encanta com a moça. Mas, ela permanece firme em seu espaço.  E não dá ocasião para suas investidas. 

Ele apela então para o velho golpe do passeio no jardim. 

- Está calor aqui. Vamos passear no jardim?

- Meu caro.... pelo que me tomas? Não estrague esse belo momento. A propósito,  sinto que nossa conversa deve terminar aqui. Vejo ali algumas amigas. Vou até lá,  conversar sobre coisas fúteis e voltar ao meu mundo de donzela. A conversa estava boa, e o senhor me parecia inteligente. Mas, vejo que se utiliza dos mesmos ardis que todos os outros. 

- Vejo que a senhorita não é como as outras. Ninguém jamais recusou um convite meu para um passeio no jardim. Será uma inocente caminhada entre as flores, lhe prometo.

- Ao contrário,  meu senhor. Sou exatamente como todas. Apenas aprendi que não preciso seguir o roteiro que vossas senhorias, homens, desenharam. 

- Quando uma moça aceita ir ao jardim, é porque entende que causou este convite. Logo, se vê obrigada a aceitar. Algumas vezes, nada acontecerá além de uma tímida conversa à luz da Lua. Mas, quem não viu julgará que houve algo mais. E a moça acaba presa. Capturada pelo predador. Acredita-se livre para fugir, mas sem forças para escapar. Está presa das línguas maldizentes que se enroscam no seu corpo,  que não é mais seu. 

Outras vezes elas deixam lá no jardim a sua dignidade. E eles se vão, deixando-nos abandonadas, desprezadas, tristes e indignas. Para que, meu senhor? Para que colher as uvas e depois pisá-las na lama? Para que colher flores só para vê-las murchar? Dizem a amar os jardins, mas os destroem com as solas das suas botas. Eu lamento, mas nossa amizade termina aqui.

Ele olha inebriado. E tem ímpetos de beijá-la à força. Nunca antes havia sido assim tão fisgado por uma mulher. Mas, nada fez. Foi invadido por um sentimento de vergonha.  Lembrou-se de quantas moças já enganara. Quantas reputações destruídas por seu egoísmo de macho. O que antes lhe parecia vantagem, agora era motivo de constrangimento.

- Eu aprendi a dizer não. O jardim é tudo que tenho. Não o entregarei a um jardineiro qualquer.  E assim, saiu. Sem dizer mais nada.

Ela se aproximou das amigas e ali se tornou comum, rindo alto e gostosamente dos chistes que lhe contavam. O baile seguia sem ela. E ela não precisava do baile. Outros homens se aproximaram e se afastaram. Elas dispensaram todos. Juntas, formaram um elo de proteção mútua que não permitia entrada de predadores. A cada convite, elas perguntavam-se a si mesmas:

Você quer mesmo dançar essa valsa, ou apenas acha que tem que aceitar o convite?


* Essa amante não consta na biografia de Chopin, mas me ocorreu enquanto escrevia. Sendo Chopin tão romântico, poderia ter mesmo uma amante secreta. Quem sabe proibida ou quem sabe um amor idealizado e impossível. Curiosamente, o nome que me veio a mente foi Elise, que foi musa de outro compositor - Beethoven - (Pour Elise)

As imagens foram copiadas do Google Image. Não achei o autor da pintura do baile, mas o quadro se chama "Flora", de 1635 e representa a esposa de Rembrandt, Saskia, 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Relicário - Uma interpretação simbólica livre

Era uma índia com colar...

Relicário - Eu tenho um chamego por essa canção do Nando Reis. Ficava imaginando o que ele queria dizer. Confesso que nunca entendi a letra na sua totalidade. Ela vai se descortinando e permite múltiplas interpretações. 

Um dia  uma terapeuta colocou essa música na minha sessão e se fixou em um verso: Atrás do filho vem o pai, o avô... para tratar da ancestralidade, que era o tema da nossa sessão naquele dia. Desde então, eu fiquei com essa música na cabeça. Ela trouxe uma leitura completamente nova e intrigante. 

O que você está dizendo....milhões de frases sem nenhuma cor...

Mas, será que as frases são soltas e desconexas como parecem ser? Será que cada verso tem um significado específico que não se relaciona aos outros? Será que os versos são como vitrais coloridos que o Nando foi extraindo do seu inconsciente e montando em seu Castelo à revelia da lógica? O que mais tem nesse colar indígena?

Um relicário imenso desse amor...

Depois de ouvir uma linda interpretação simbólica sobre a música "Cegos do Castelo", feita por uma professora, resolvi colocar no papel as minhas impressões sobre o relicário. 

Imagino um casal. Ele, viúvo repentinamente. Ela, abruptamente mudou-se para outra dimensão. 

Ele sente muita saudade. Ela tenta se comunicar e avisar que não está morta. Embora, tenha se esforçado para... 

Como no Feitiço de Áquila, eles têm um breve momento no crepúsculo - Que é quando se encontram e conseguem se ver em um mundo onírico, colorido pelo sol que entardece sobre as águas. O Sol - o calor dos vivos - As águas representando as emoções e o desconhecido. O Sol - ele. As águas - ela.

É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar

Ele está sonolento. Quem sabe em uma rede. Quem sabe em um barco. O calor e o balançar das ondas o inebriam e o levam a um estado de transe. Ele entra em contato com aquela dimensão onde sua amada ainda vive. Ele a vê, enrolada nas nuvens e nas cores do entardecer. Ele fica estupefato. E confuso, tenta um contato. E fala uma bobagem qualquer, como uma criança que tenta fazer amizade com um coleguinha que admira muito...

Sua cartilha tem o A de que cor?

Entre dois mundos, sua consciência tenta trazê-lo de volta à realidade....mas, o que é real e o que é imaginário afinal? Por que no mundo dos sonhos tudo parece tão óbvio, mesmo que o relógio gire ao contrário? Mesmo que as frases não tenham sentido?

O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou

Havia uma brincadeira de criança que consistia em fazer algum tipo de promessa com um cílio entre os dedos dos envolvidos no certame. Ao separar os dedos, o cílio ficava com quem ganhava... ou perdia.. não lembro direito... Mas, eles fizeram alguma promessa com esses dois cílios em pleno ar.... Que promessa seria essa?

E são dois cílios em pleno ar...

Você me leva para esse lugar onde eu não consigo ir sozinho? Você volta para me ver amanhã? Me deixe um cílio e fique com o meu. Para guardarmos na memória quando a noite levar embora essa lembrança.

Atrás do filho vem o pai e o avô

Agora que estou aqui, entendo tudo. Somos filhos do nosso passado. E dele não podemos fugir. Nossos ancestrais viveram e morreram para que tivéssemos este momento no tempo.

Por que ela se foi? O que a tirou daqui de forma tão repentina? Uma bala? Um suicídio? O tiro volta a repercutir como se aquele momento ficasse retido no tempo. Repetindo, repetindo, repetindo...ecoando pelo céu...Espantando os pássaros que sobrevoam as águas profundas e frias do seu inconsciente.

Como um gatilho sem disparar
Que invade mais um lugar
Onde eu não vou

Eu não consigo ir aonde você vai. E o portal se fechou. Estamos separados por um véu. Aqui é sempre noite. É frio e escuro. As flores não nascem. Por mais que eu tente. Veja esses vasos... Só terra seca...

O que você está fazendo?
Milhões de vasos, nenhuma flor
Oh uô uô, o que você está fazendo?


A morte não mata a dor. E meu amor continua vivo. Sangrando e doendo. Cada vez mais. Cada vez maior...E vou guardando relíquias de memória nas conchinhas que cato nas tardes infinitas do meu mundo.

Um relicário imenso deste amor

O tempo passa. E como no Feitiço do velho bispo, nosso tempo se esvai. Já vai longe a noite. Logo você vai acordar e não vai se lembrar de mais nada...

Corre a lua porque longe vai?
Sobe o dia tão vertical
O horizonte anuncia com o seu vitral
Que eu trocaria a eternidade por esta noite

Eu não quero esquecer. Não quero que a noite passe. Não quero que o Sol nasça. Quero a noite eterna do seu olhar de índia. Quero curar a sua dor e cuidar do seu jardim.

Porque está amanhecendo?
Peço o contrario, ver o sol se pôr oh uô uô uô

Mas, o Sol continua a nascer, apesar dos meus esforços. Debalde os meus pedidos. Eu não vou lembrar de tudo. Mas, guardarei as cores da sua pele. E lembrarei de ti a cada pôr do Sol. Somente no sonho posso te tocar. Mas, não consigo te sentir. Por que você se foi? 

Porque está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for…

E se nossa alma for mesmo eterna? E se o amor que vivemos ontem virar semente para um novo encontro no futuro?

Quem nesse mundo faz o que há durar
Pura semente dura o futuro amor

De onde estou, me comunico pela natureza. Você me encontrará no som da chuva, no arco íris e no bater de asas de uma borboleta...

Eu sou a chuva pra você secar
Pelo zunido das suas asas você me falou

Mesmo que não entenda o que eu digo, por que o sonho subverte a lógica vigente, ainda assim estarei lá. E o que você não entende no nível da consciência, sua emoção traduzirá em poesia.

E o que você está dizendo?
Milhões de frases, nenhuma cor, ôô
O que você está dizendo? Uh huh
Um relicário imenso deste amor
O que você está dizendo?

O sonho se esvai. E o que parecia tão real e tão claro agora é obscuro e confuso. A índia, o colar, o Sol, as águas.. .tudo se embola em um redemoinho estranho... Eles se despedem. E o dia amanhece, implacável como a realidade.

O que você está fazendo?
Por que que está fazendo assim?
Está fazendo assim?
Está fazendo assim?
Está fazendo assim?

E o poeta volta a dormir. Pela manhã, se levanta. Sente uma dor imensa. Uma saudade indefinida. Compra um vaso. Planta uma flor. Cuida de um jardim. E segue a escrever poesias. Ele não quer mais dormir. De olhos abertos lhe esquenta o Sol....

Descanse em Paz, Índia. Nos vemos no crepúsculo.... Mas, se você quiser me olhar...se você quiser me achar... E se você vier de novo, eu vou cuidar de você, do seu jardim, do Céu, do Mar, de você e de mim....

OBS: O Nando Reis explicou o que ele sentiu quando escreveu essa música. Porém, como é uma obra de arte, ao ser entregue ao mundo não pertence mais ao autor. Ele mesmo concorda que o significado muda, transmuta, transforma-se, a depender do estado de quem lê. Essa é a interpretação que me ocorreu. Compartilhe suas impressões. Adoraria ler sua análise.

Aqui vai a explicação do autor: 


Namastê.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 4 - Ártemis

São tempos estranhos esses... As estações parecem estar fora da ordem...

Afrodite também foi convidada para o baile. Acordou cedo. Tomou seu banho de flores e passou horas escolhendo o vestido que usará à noite. Diverte-se tocando os tecidos e imaginando as possíveis combinações. Sapatos, bolsas, maquiagem, jóias, cabelos. Tudo perfeitamente harmonizado. Ela não tem dúvidas. Poderá usar qualquer cor, desde que seja vermelho. Equilibra-se graciosamente em seu salto mais alto. Elegante, leve e trigueira. Fatal e linda. 

- Como será que está o clima hoje? O mundo anda tão estranho que as estações parecem estar se atropelando. Era para já ser verão a essa altura. Então eu poderia colocar um vestido leve e esvoaçante. Mas, o tempo parece que vai virar. Ouço trovoadas. As árvores andam agitadas. Parece que vai chover. Sinto cheiro das folhas de outono...

Ela não tem pressa. Sabe que a qualquer hora que chegar vai ser bem vinda. Generosa e vaidosa, deixará que suas irmãs brilhem antes dela, pois quando chegar, sabe que todas as atenções serão suas. Abre um vinho. Está pronta.  Mas não sai de casa. Não ainda... Deixa sua impetuosa irmã passar na sua frente. Ela sempre foi ciumenta mesmo...

Enquanto isso,  segue o baile...

Um redemoinho de vento. Folhagens formam uma espiral infinita no jardim. De cima para baixo, as folhas vão desenhando uma silhueta. É uma mulher. Vestida de folhas. Tem um diadema em forma de Lua na cabeça. Traz um arco às suas costas, com uma aljava cheia de flechas de madeira.

Com um ar confiante e pés feitos de plantas trançadas, ela sorri. Olha a sua volta. Cumprimenta a todos com uma leve deferência. Apenas acena com a cabeça. Não se curva. Não baixa a guarda.

Muito prazer. Sou Ártemis.Venho das florestas ancestrais. Do tempo em que a humanidade honrava a natureza. Danço sobre o fogo, pulo os penhascos, luto como os lobos, os ursos me servem.

Para dançar comigo, tire seus sapatos. Sinta o crepitar das folhas secas do outono debaixo dos seus pés. Sangre-os nos espinhos, torne-os grossos nas pedras, galhos e troncos. 

Uma chuva muito fina começa a cair. Uma brisa perfumada e fresquinha percorre o jardim. Folhas amarelas e vermelhas formam um tapete suave e colorido. Um a um, pouco a pouco, os convidados vão se aproximando. A orquestra se ajeita para a próxima música. 


Uma senhora rechonchuda e sorridente, tanto quanto falante e espontânea, é a primeira a tirar os sapatos - Já não via a hora de me livrar desses saltos! Suja os pezinhos redondos na primeira poça d´água, mas não se intimida. As crianças, ainda suadas da ciranda de Perséfone, aproveitam a deixa para se sujarem mais um pouco. Algumas mulheres apenas observam divertidas. As meninas porém, por ainda não terem aprendido o que é vergonha, atiram-se ao baile.

Todos se divertem. A melodia envolve a floresta que circunda a casa do baile. Os corpos entram em sintonia com a música e a harmonia prevalece. As árvores parecem dançar com o vento ao som do violino. Pássaros passam em revoada em um balé lindíssimo. 

Ártemis coloca uma flor no cabelo de cada menina. Beija as mais velhas acena às jovens. Recolhe seu arco e se vai, flutuando sobre as folhas secas de um outono fora de hora. 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

No fim da trilha escura

No fim da trilha escura 15/02/2020

Sentia que não tinha mais ânimo para escrever. Parecia perda de tempo.
Para quem? Por que? Sobre o quê? Não tinha mais motivação.

O mundo anda tão impaciente! Quem quer ler um monte de letras misturadas, quando é mais fácil ver o último viral no YouTube? Como conseguir leitores em um mundo dominado por imagens?

Ler cansa. Mas, é também um bom exercício. Ao ler, nossa mente constrói imagens e isso requer muitos neurônios. 

Imagino como eles se divertem quando são chamados a cooperar com o entendimento de uma cena. Como crianças, saem a transmitir sinais elétricos que viajam loucamente, desenhando figuras em nosso painel mental.

E por falar e viagem....

Uma mulher, entra em um quarto muito escuro. Dá um passo de cada vez. O chão é de madeira e faz ruídos estranhos. Ela tem medo. Não vê nada adiante, não sabe o que tem lá.

Perdeu a noção de espaço e de tempo. Não sabe onde está nem sabe como voltar. A porta se fechou. 

Sente os batimentos na garganta. Preciso sair daqui - pensa ela.
Mas, como? Sequer sei onde estou.

Por que abri essa porta? Pergunta-se, desorientada. Onde eu estava antes? Já não se lembra mais.

Ela segue. Passo a passo. Tateando em busca de paredes. Não há paredes. Só o chão que estala sob seus pés. Está frio, mas o ar é pesado. A escuridão é tão espessa que ela não consegue discernir nem mesmo sombras. Não há luz. Não há saída.

Não há ruídos, além do estalar dos tacos. Tacos? Onde já vi isso? Sua mente então dispara uma lembrança. É de uma casa. Escura e fria, com piso feitos de tacos de madeira. Ela é criança e está só nesta casa. 

Onde ficava mesmo a porta? Só há uma saída. Ela precisa achar o caminho de volta. Seria a mesma casa? E se não for?

Ela decide arriscar. Não vai ficar aqui esperando. Uma nova lembrança...João e Maria na floresta....Mas, os passarinhos comeram todo o pão..... A lenda do Minotauro...ah, se eu tivesse um novelo de lã... Para que servem as lendas, afinal?

Ela busca fundo na memória, pois já entendeu que seu cérebro está trabalhando duramente em busca de uma solução.  Ela imagina uma grande caixa de ferramentas aberta em sua tela mental. Está tudo muito bagunçado.  Ela se pergunta por que não organizou isso antes...

Enfim, essas ferramentas são tudo o que tenho. Qual delas vou usar? Não há luz aqui fora, mas, será que eu encontro uma lamparina?

Enquanto pensa, está parada. De que adianta andar, se não sabe onde está, nem para onde ir. 

Ela acalma sua mente.  Procura sentir os cheiros, ouvir os sons, perceber a temperatura... um calafrio lhe perpassa. Como se um vento frio e fugaz, ou como se alguém passasse rapidamente por ali. Há mais alguém aqui?
Apura os ouvidos. Parece ouvir o farfalhar de folhas....É o vento?

Não é mais a casa? Como foi que eu saí de lá, se nem me  mexi?

Agora é uma floresta. O som da madeira é substituído pelo som de folhas secas. Folhas secas. Ela gosta desse som, pois lhe faz lembrar de trilhas na mata, que gostava de fazer à luz do dia. Agora está muito bem. Posso andar por horas...

Mas... é noite. Fria e escura. Há animais à espreita. A trilha é demarcada? Como saber? Ela volta a andar e percebe que está subindo, pois sente que está se esforçando mais a cada passo. Subir é bom.... aumenta a perspectiva. Em breve verei a Lua ou as estrelas. Preciso de luz. É só do que preciso.

Arfante,  se apega a essa esperança. Chegar ao topo da montanha. Quem sabe lá haverá uma casa? E água? Tem sede e frio. Mas, não tem mais medo. A floresta lhe acolhe e protege.

A montanha parece infinita. O ar começa a faltar. Já não anda, engatinha. Se apega às pedras. Suas unhas sangram. Seus pés doem. Ela insiste. Não vai voltar atrás. Não quer a prisão da casa e não há de morrer no vale.

Vamos subir essa montanha, ou morreremos tentando. Morrer não é uma opção... mais quem sabe se eu dormir um pouco? Quem sabe o dia amanhece?

Enrolada no próprio vestido, ela dorme num cantinho. É um tronco. Se há perigos, não tem como se saber. Ao que parece, os bichos lhe dão uma trégua. Ou até a protegem... Pobre humana... Não sabe onde está se metendo....

Ela dorme por mil anos. Ou duas horas. Jamais saberá. Aqui não há tempo. A floresta continua lá. Espessa, escura e fria. Ela levanta, sacode a roupa e anda.

Uma luz pálida parece surgir. Não é mais montanha. É um platô. Uma trilha bem definida se abre à sua frente. Ela corre. Arrasta o corpo dolorido e magro. A luz parece piscar. Ora some, ora tremula no horizonte. É a Esperança. Sabemos que ela está lá, mesmo quando os olhos não podem vê-la.

Alcança a casinha. Ela se ilumina. A casa? Não! A menina! Olha para si e estranha. Não é mais uma mulher. Mas, uma garotinha. Com seu vestido de flores e um laço no cabelo. Ela bate à porta, desconfiada.

Uma senhora de bochechas rosadas e sorriso bondoso abre a porta. A casa é clara e muito ampla. Há uma enorme mesa de madeira. A senhora tem os cabelos grisalhos presos em um coque. Tem um vestido comprido e um avental gasto. A mesa está metade ocupada com farinha. Um rolo denuncia que alguém está preparando massa... na outra metade da mesa há cucas frescas. De uva e de maçã. A menina sente fome.

A senhora acolhe a menina e lhe põe um casaquinho. Pergunta quem ela é e de onde veio. A guria não diz nada. Ainda está confusa. Não sabe quem é nem como chegou aqui. Não entende como driblou o espaço e o tempo. Ela só sabe que andou, andou, andou....Até que chegou.

A vovó muito bondosa, porém rigorosa comanda a menina ao banho. Você está muito sujinha, minha filha. Não pode se sentar à mesa assim! Logo os outros vão chegar. Vá já se lavar!

Mas, não tenho roupas. Balbucia a garota. Tem sim! Responde a mulher. Suas roupas esperam por você no banheiro. Lá tem tudo o que você precisa. 

O banheiro, muito limpo, parecia coisa de filme. Uma banheira. Água quentinha. Toalhas felpudas com nomes bordados à mão! Tinha uma com seu nome! Como isso é possível? E roupas? Dão certinho em mim! Admirou-se a menina.

Após um demorado banho, afinal, nunca tinha visto tanto cuidado, a mocinha estava pronta. Arrumou seus cabelos em um rabo de cavalo com a fita azul que combinava com seu novo vestido. Colocou meias de algodão que pareciam proteger suas feridas. Calçou seus sapatos. Davam certinho no pé!

Ao chegar, todos estavam ao redor da mesa, conversando alegremente. Era uma família grande. Todos tinha o rosto rosado. Seu lugar estava reservado e ela se sentou. Todos falavam com ela com muita familiaridade. Curiosos, queriam saber de tudo. Ela ia respondendo em monossílabos.  Por que não tinha respostas.

A avó oferece um prato quente. É uma massa com molho de tomate. Tudo feito aqui! 

- Está uma delícia! Responde a mocinha.

Fim da noite. Ela se oferece para ajudar na limpeza. São muitos pratos. Todos ajudam. Em minutos, não há mais nada a fazer e todos podem ir dormir.

Ela tem medo. E se eu acordar naquele lugar horrível de novo? E se não achar o caminho de volta dessa vez?

A avó lhe consola. No meio de um abraço apertado e aconchegante ela diz: lembre-se da caixa de ferramentas. Foi mexendo nela que você encontrou a luz que te guiou até aqui.

Você tem luz. E tem família. Você tem quem olha por si. Enquanto houver luz, haverá esperança. Confie na luz, mesmo sob trevas densas. Após uma longa jornada haverá descanso. Eu estarei aqui para acolher você, sempre que precisar. 

A menina dormiu. E acordou mulher. Em sua casa. Como seus boletos para pagar e seus problemas para resolver. 

Que sonho louco! Ela se levantou sem lembrar direito dos detalhes. Mas, como uma vontade enorme de cozinhar.  🤗😊

...

Se chegou até aqui, muito obrigada por sua leitura

Conte nos comentários como imaginou a cenas? Como era a avó, a menina e a mulher na sua imaginação? 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Intuição

Intuição: Faculdade ou ato de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.... (dicionário do google)

Houve um tempo em que todas as mulheres tinham a "visão". Ela vinha em sonhos ou em pressentimentos. Aparecia em momentos de transe enquanto fiavam suas mantas ou quando mexiam seus tachos. Tempos que desapareceram nas brumas do esquecimento.

Foi antes da ansiedade gerar a paranóia. Filha e mãe de toda essa bagunça.

A intuição, ou a antiga "visão" virou maluquice. Coisa de mãe velha ou de bicho-grilo. Envergonhada, ela se recolheu. Mas, de vez em quando ela timidamente tenta se comunicar. É aquela acelerada no coração quando a gente se depara com uma boa ideia ou uma grande oportunidade. É aquele brilho no olho e imediata conexão quando encontramos uma alma irmã. É aquele aperto no peito....aquele isso-não-está-me-cheirando-bem...

Você já entrou em um ambiente e sentiu um peso no ar? Como se houvesse uma hostilidade sutil dissolvida na atmosfera? Já olhou para um sorriso e enxergou uma máscara da maldade? Já sentiu que alguma coisa errada não estava certa?

Por outro lado, já conheceu alguém e desde a primeira vez sentiu uma conexão inexplicável? Já recebeu um abraço espontâneo de uma criança que nunca havia visto antes? Ou já fez uma criança abrir o berreiro só de olhar para ela? Sim. Elas têm intuição.... Elas viram algo que você ainda não enxergou.

O que sua intuição está lhe dizendo hoje?

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Resenha do livro - Na minha pele. (Lázaro Ramos) - Editora Objetiva - Rio de Janeiro - 2017

Recebi esse livro de uma amiga do trabalho alguns dias antes das minhas férias. Ela me emprestou com tanta gentileza que me dispus a ler com atenção em reconhecimento ao carinho demonstrado. Nem precisei me esforçar muito. O livro é tão bom que li em menos de 48 horas! 

Escrevo essa resenha com o objetivo explícito de fazer propaganda escancarada e gratuita, sim! Gostaria que todo mundo lesse essa obra. Se não o mundo, ao menos o Brasil. Se essas letras estimularem pelo menos mais um leitor, que assim recomende o livro a outro, já ficarei satisfeita.

"É muito mimi...vocês vêem racismo em tudo!" - essa frase foi dita a mim por uma pessoa branca, durante uma discussão acalorada em que eu tentava ensinar-lhe a não se referir aos meus antepassados como escravos. Dizia-lhe eu: "não descendo de escravos, mas de africanos escravizados"...Eu ainda não tinha lido o livro do Lázaro e já concordava com ele quanto a essa terminologia. A briga foi feia e eu perdi, como frequentemente perco ao tentar erguer a voz contra a opressão do racismo. Pelo olhar do outro, ou estou exagerando ou criando caso. Via de regra, sou convidada a abaixar a cabeça e a me resignar. As coisas são o que são...

Cresci ouvindo que tudo o que é feio e ruim vem "do lado de lá". Desafortunadamente, eu sou a cara do lado de lá! Puxei para "o outro lado"....nasci "assim"...com esse cabelo ruim e essa cara, esse jeito, esse temperamento .... tudo coisa de preto!



No confronto aberto, sempre me dou mal. Por isso, entre Malcom X e Martin Luther King Jr prefiro a não-violência deste último. Evito polêmicas e detesto bate-boca. Outro ponto em comum identificado com Lázaro. 

Não tive oportunidade de assistir a peça "Do topo da montanha", dirigida e encenada por ele, mas tenho certeza de que foi linda, pois se baseia em um dos discursos mais impressionantes que já foram escritos pelo citado reverendo que é uma referência de ser humano para mim, como também o é para o autor de "Na minha pele".

Voltando ao livro, Lázaro faz uma agradável conversa com o leitor. Conta suas experiências e, usando sua trajetória como pano de fundo, nos faz perceber quão sutil, dissimulado e insidioso o racismo pode ser. 

Coisas que antes eu julgava serem defeitos meus, meramente psicológicos, como a frequente sensação de inadequação, de não-pertencimento e até de menos-valia são reveladas no livro como traços do perverso racismo que vigora em nosso país. Coisas que só quem veste a pele negra entende. 

Termino a leitura com uma vontade imensa de tomar um café com o autor. Ou melhor, um Carmenère chileno. E conversar horas a fio sobre as experiências que eu vivi e ainda vivo, validando e reforçando tudo o que ele coloca em seu livro. 

Concluo que muitas vezes sou racista comigo mesma, quando deixo o olhar desconfiado do outro me ferir. Quando deixo de me posicionar por achar inadequado ou quando me sinto envergonhada de ser quem sou e estar onde estou apenas por que tantos outros como eu, ou até melhores, ainda não conseguiram chegar.

Obrigada, Lázaro Ramos. 
Obrigada por tratar desse assunto com leveza e profundidade. Com amor e respeito. Eu  me via feia e inferior refletida nos olhos do preconceito. Você me ajudou a vestir a minha pele e ficar mais à vontade nela. Que seu livro seja lido em todos os bairros de periferia, escolas públicas e particulares, bancos de praças, filas de banco...viagens de avião, de trem e de barco...e até de "Tomaquêeee"*.

Notas:

Sou negra de pele clara. Embranquecida pela mestiçagem. 
Recentemente escrevi o texto " Em cima do muro mestiço" que trata um pouco dessas reflexões. Foi dias antes de ler o livro do Lázaro e traz as minhas percepções sobre ser mestiça. Acho uma condição bem difícil essa de ser misturada. Não ser nem preta nem branca é bem complicado. Não tenho as facilidades da raça dominante, porque não sou branca o suficiente... (ah, esse cabelo....). Nem sempre meu ativismo como negra é visto como legítimo, porque sou branca demais pra ser preta. O texto está no link: 
*Lázaro Ramos insere essa expressão em seu livro. Não vou explicar para não dar spoiler...para saber o que significa, recomendo que leia o livro.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Em cima do muro mestiço

Minha cor? Não sei....

"Já me disseram que eu sou branco demais pra ser preto. Já me disseram que eu sou preto demais pra ser branco" (PROJOTA)

Os detectores de melanina sempre funcionam para mim.... aeroporto, banco...shopping de luxo.

Impressão? Mania de perseguição? "mimimi"?... Não é nada disso... Se você nunca passou por esses sutis constrangimentos, você nunca vai entender....

Eu tenho o sangue galego de íbericos ancestrais. Sangue Celta corre em minhas veias, de bruxas e magos de um tempo imemorial que cruzaram o oceano levando seus costumes para Portugal.

Eu tenho sangue preto de negros valentes. Daqueles que corriam descalços vestidos de palha. Fortes e orgulhosos. Guerreiros. Homens e mulheres de extraordinária força física e mental. Sangue que suportou a violência do exílio, do cativeiro e do trabalho forçado.

Aqueles,  escravizaram estes. Em minhas veias, corre um sangue contraditório. Corre o ódio e a arrogância. Corre a resignação e a revolta. Corre o banzo e a saudade.

Tenho no DNA as marcas do chicote. Mas, também, os calos de quem o carregou por tantos anos. Tenho na mão direita ainda a chibata que fere minhas próprias espaldas.

Uma inclinação inata pelas artes, pelos pratos e talheres. Pela fina culinária.
Um amor visceral por correr pelo mato, abraçar as árvores e falar com os animais.
O conhecimento natural do uso das ervas.
A conexão com as energias cósmicas.

Está tudo aqui. No mesmo caldeirão.

Mas, o que sou? Branca? Negra? Indígena? - Uma. E também outra....

Nessa mistura de cores, não dá para ser racista. Nem para um lado, nem para o outro.

Somos elos. Conexões. Viemos para dar as mãos. De um lado e de outro. Viemos para reconciliar. Patrão e empregado. Proprietário e colono. Coronel e escravo. Homem e mulher. Senhora e mucama. Sinhazinha e cunhã....

O brasileiro é uma criação divina para prover o perdão.

Perdão pelas chibatadas...Perdão pelo rancor produzido por elas.
Perdão pelos maus tratos...Perdão pelo ódio que esses maus tratos geraram...

A mistura reconcilia os povos. Casa marabás com mamelucos. Une mouros e ibéricos. Aplaina os orgulhos e suaviza as opiniões.

Somos um país de mestiços! Agora, vamos largar de brigas tolas e fazer uma grande festa, unindo nossas cores, costumes e crenças.

Daqui de cima do muro vislumbro o país mais belo do mundo!


Marabá - Gonçalves Dias

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

domingo, 14 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 3 - Deméter

Deméter vai ao baile...

Foi difícil para ela aceitar o convite, porque precisava cuidar das crianças que são muitas. Mas, aceitou porque soube que Perséfone estaria lá e ela tinha muitas saudades da sua filha.

Deméter não tem um vestido de baile e seus cabelos estão bagunçados.
- São as crianças - ela diz. - Estou sem tempo - Comenta sorrindo.
Ela é linda assim mesmo, com seu cabelo desgrenhado e sua roupa amassada.

Afrodite lhe empresta um vestido e penteia seus cabelos. Deméter está deslumbrante. Ela vai só observar. Precisa voltar cedo. Tem que cuidar da plantação.
Ela chega discretamente. Não quer ser anunciada e não pede uma música para si.

Ela entra no exato instante em que a ciranda começa. Perséfone no meio, as meninas em volta e as mulheres no círculo maior. A música é alegre. Deméter chora.

Ela não está triste, mas emocionada. A maior alegria de uma mãe é ver seus filhos felizes. Perséfone dança como se não houvesse amanhã. Como se não existisse o Hades e o tormento da prisão. O salão brilha. Todos estão alegres.

Deméter observa as suas meninas. Estende os seus braços de proteção materna. Pronuncia algumas palavras e canta baixinho.....


Honra teu pai e tua mãe...

Uma brisa leve agita o jardim e espalha pólen para todo lado. Ninguém vê, mas nesse instante milhares de flores são fecundadas. São o prenúncio dos frutos que logo iremos colher.

Deméter permanece observando discreta. Está a postos, para quem precisar.

Nota: Procurando referências, achei esse texto bastante interessante: Deméter

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 2 - Perséfone

"Você já viu a Morte, Harry? Somente quem já viu a morte consegue ver os testrálios" - assim dizia Luna Lovegood em Harry Potter e a Ordem da Fênix - ( J. K. Rowling - escritora e diva)

Capítulo 2 - Perséfone vai ao baile, vestida de Primavera.

Luna chega à grande mansão. Há testrálios no jardim. Há um pouco de bagunça no ambiente. Esse jardim já foi mais bonito... Parece que um bando de dragões passou por aqui, desfolhando tudo. Há galhos e árvores caídas por toda parte. Há também criaturas invisíveis, habitantes das mentes perturbadas dessa casa. Elas voam ao redor das cabeças dos seus donos. Mas, eles não podem ver.

Luna tem boa intuição. Ela se faz de tola para não se dar a conhecer. Tem uma conexão muito forte com o Invisível, mas prefere manter isso em segredo. Para que mostrar o que ninguém quer ver...

Luna é a encarnação perfeita de Perséfone. A deusa dos mistérios. A bela jovem eterna que esconde uma profunda dor, também eterna. Aquela que foi levada ao inferno e sobreviveu. Raptada, teve sua inocência interrompida pelo tenebroso Hades. Seu hálito é de alecrim, seus cabelos e olhos são de mel. Quando ela passa, as flores se abrem, também se abrem os olhos e os sorrisos...tudo que ainda tem luz brilha em sua presença. Ela é capaz de acender o Sol depois de uma noite gelada.


Perséfone entra no salão e uma valsa alegre começa a tocar. É a primavera.
As mulheres maduras abrem espaço para as donzelas e fazem um grande círculo de proteção ao redor delas. Jovens e barulhentas adolescentes dão as mãos e dançam alegremente. Dispensam os homens, que ficam de fora da roda olhando. Admirando. Sem poder se aproximar. Não é seu tempo. É a hora delas.



Perséfone baila sozinha no meio da roda e de seu vestido saem pequenas estrelas que iluminam ainda mais o salão. Em torno dela, uma roda de meninas gira em ciranda. As mulheres estão no circulo maior e marcam o passo da valsa. Vistas de cima, formam um imenso caracol colorido.



Passou a chuva. Ainda está tudo meio caótico. Nada permanece igual após uma valsa com Hécate. Mas, a alegria das meninas enche o coração de todos de esperança. Ninguém mais se lembra da dor. Uma fênix renasce das cinzas do jardim e voa em direção ao infinito. Ninguém repara. Luna vê com o canto do olho e sorri discretamente.

As meninas cantam. As mulheres batem palmas.
Sobrevivemos ao caos.
Conquistamos a Força.
Criamos Coragem.
Renovamos a Esperança.
Estamos prontas para mais uma dança.

Nota: as fotos foram copiadas de pesquisas no google image.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Arquétipos - A ciranda das deusas - Capítulo 1 - Hécate

"E eis que do alto da sua soberba, o homem criou deus à sua imagem e semelhança" (Friedrich Nietzsche)

Começo essa série com uma frase controversa, dita por um filósofo que tinha problemas de relacionamento com seu pai e que acabou morrendo louco. No entanto, havia uma certa razão no seu pensar desvairado.

Parafraseando esse meu amigo alemão, eu diria que o homem, no auge da sua inteligência, se valeu da mitologia para explicar a própria complexidade. Os deuses criados foram para trazer compreensão sobre muitas coisas... tais como as emoções, os poderes da natureza e as fases da vida. Muito se pode aprender com a Mitologia - A filha da Filosofia e irmã da Poesia.

Nessa série de textos possíveis, vamos sambar na cara da filosofia. Você vem comigo? Então calce seus sapatos vermelhos e deixe a Música te levar. Vem dançar comigo na ciranda das deusas.
...
O baile começa. Uma chuva de açoite aparece do nada. Um vento gelado agita os vestidos das damas. Lá fora se ouvem trovões. O céu escurece e subitamente é iluminado por relâmpagos. De repente, o silêncio. A chuva para. O tempo também.

Uma mariposa voa pelo salão e se transforma numa linda mulher madura. Longos cabelos mesclam fios negros e grisalhos. Um vestido de veludo preto e verde. Olhos negros fundos como o abismo e misteriosos como a noite. Uma valsa começa a tocar. É o inverno, de Vivaldi. Ela se apresenta. E todos a reverenciam em silêncio.

Meu nome é Hécate.
Sou a destruição e a morte. Trago temporais e catástrofes.
Sou a hecatombe. O caos. A dor.
Trago o desespero e o medo. A fúria e a revolta. A raiva e a loucura.
Ensinei Iansã a dançar. A Hela dei meus cabelos e Morrigan comigo aprendeu a voar pela noite.
Brenthis Hecate
Sou a noite fria que tens que enfrentar para ver a luz da manhã.
Sou o terror e o medo que tu vais ter que vencer se pretendes continuar a viver.
Sou a escuridão e a força que te empurraram para fora do ventre da tua mãe. Sou a luz que cega teus olhos. O ar que invade teus pulmões a força. O fôlego que te falta. O fôlego que te falta. Sou o que te falta.
Sou a força. A força que tu tiras nem sabes de onde, para virar o mundo ao avesso por aquele a quem amas. É a mesma força do ódio e das matanças. É a força da Guerra. A Força que te dou é o que tu fazes dela.
Sou eu. O desmantelo que precede os começos. O caos e o berço da criação.

Se quiseres dar um passo adiante, vais ter que passar por mim...
Dá-me tua mão e vem girar comigo nessa espiral sem fim.


Se por mim passares e eu não conseguir te despedaçar, te darei a manhã depois da chuva e porei teu barco em  mar sereno. Não faltará força em teu braço nem coragem em teu coração.

Teria Nietszche dançado com Hécate numa noite sombria? Teria ele abandonado o baile antes do tempo? Se entrares nessa dança, segue a música até o final. Não se abandona uma Hécate no meio da valsa.

Aguarde a próxima música...

sábado, 25 de maio de 2019

Transracional - racionalizando as raças.

Está na moda. Hoje em dia todo mundo quer ser trans alguma coisa.
Pois, eu não vou ficar de fora! Também quero ser trans. A partir de hoje, sou trans...transracial!

Passei muito tempo tentando me encaixar em uma definição de raça e não consegui. Entre negros, sou branca. Entre brancos, sou negra...ou moreninha....ou mulatinha...
A verdade é que sou brasileira. Ou seja...tudo isso aí misturado em generosas e mal distribuídas porções.

Minha linhagem materna ancestral um dia oprimiu minha linhagem paterna. Sim, é verdade. Um dia no passado uma hélice do meu dna estava tratando sua outra parte na base da chibata! Ok! Mas, por outro lado, essa mesma linhagem criou coisas incríveis, como as caravelas e o pastel de nata.....ah....o pastel de nata! Quem inventa uma coisa dessas só pode ser boa gente!

A hélice oprimida por sua vez não tem só mocinhos. Também existe opressão e morte nas tribos. Negar isso seria negar a natureza humana.

Pois, de hoje em diante não sou branca, nem preta, nem morena, nem mulata. Sou s.r.d....raça indefinida....transracial!

Acredito que o brasileiro nasceu para reconciliar. Imagine que no mesmo corpo você traz a herança genética de conquistadores e de colonizados. Células de guerreiros, de escravos, de ladrões, de assassinos, de violência e de dor. Bem como, de coragem, fibra, resiliência e amor.

Minha mão direita chicoteia minha espalda esquerda, só para perceber que a dor é a mesma, pois somos um só corpo. Uma só humanidade. Até quando? Essa luta desigual irá aos poucos destruir o que há de mais belo em todos os povos.

Quando eu estava no Colégio, em uma das aulas de literatura a professora apresentou o poema "Marabá" de Gonçalves Dias. Ele apresenta a angústia de uma mestiça rejeitada pela tribo a qual ela queria pertencer. Observe que o que ela possuía de mais lindo de uma ancestralidade era visto como defeito pela outra parte. E ela viveu triste se vendo feia, por se espelhar nos olhos de quem não via a sua beleza.

Abracemos então o belo e o feio de todas as etnias que nos compõem. Somos todos filhos da humanidade. Que os erros do passado nos permitam mudar o futuro na direção de um mundo colorido, mestiço e belo, como Marabá. Que as diferenças sejam somadas e as divisões subtraídas. Somos todos um!


Marabá - Gonçalves Dias 

Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!

— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

— É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
— Da cor das areias batidas do mar;
— As aves mais brancas, as conchas mais puras
— Não têm mais alvura, não têm mais brilhar. —

Se ainda me escuta meus agros delírios:
"És alva de lírios",
Sorrindo responde; "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

— Meu colo de leve se encurva engraçado,
— Como hástea pendente do cáctus em flor;
— Mimosa, indolente, resvalo no prado,
— Como um soluçado suspiro de amor! —

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
"Qual duma palmeira,
Então me responde; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
"Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram,
— De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá."

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O aniversário de Jesus - Um conto de Natal

A historinha abaixo é fruto da minha imaginação. Não tem a pretensão de ser relato histórico nem religioso. O objetivo é somente provocar a reflexão sobre o real sentido do Natal. Espero que gostem.

Em uma aldeia remota, no que hoje chamamos Oriente Médio, vive uma família. O tempo é também remoto. Tão remoto que está fora do nosso calendário e por isso, só pode ser estimado. Faz muito.... muito tempo mesmo. 

Eu hoje viajei nesse tempo, observei coisas incríveis e escrevi a seguinte história:

Hoje é um dia especial na casa do Carpinteiro José. Seu filho, Jesus, completa 7 anos. Nessa idade, ele já tem aguçada percepção das coisas. Já sabe diferenciar o certo do errado. Sua mão já sustenta uma ferramenta de trabalho. Ele não é mais um bebê. Já está se tornando um rapazinho.

Os pais conversaram escondidos bem cedo, após o café da manhã, pensando no que fazer para celebrar esse dia. Eles são muito simples e Jesus não tem muitos brinquedos. Mesmo assim, parece muito satisfeito com os cavalinhos que seu pai faz na sua oficina. Sem saber o que fazer para agradar o pequeno, decidiram perguntar.

- Meu filho, hoje é o dia em que você celebra 7 anos nesta terra. O que você gostaria de fazer para agradecer ao nosso Pai do céu por sua vida? – Perguntou sua amorosa mãe, Maria.
- Mãe querida, eu posso chamar meus amigos para a ceia? Podemos fazer uma comida bem gostosa para eles? 
- Mas, é claro que sim! Está combinado então. Hoje você escolhe a ceia e os convidados!

Jesus é um menino não tão diferente dos demais. Não pára quieto, só vive correndo e gosta de brincar. O pai tem lhe ensinado algumas coisas simples do seu ofício, mas o guri não consegue se concentrar por mais de uma hora no trabalho. Toda hora encontra uma ovelha perdida do rebanho, um cachorro doente, um cavalo com dor na pata ou um amigo para brincar...

Ele observa o trabalho do pai e é muito perguntador. Um dia, ao ver seu pai com a cabeça baixa, segurando um prato com pão, lhe perguntou – O que está fazendo, pai José?
-Estou agradecendo ao Pai celestial pelo pão de cada dia. - respondeu o carpinteiro.

Outro dia, Jesus se escondeu atrás de uma porta e pôs-se a espiar seu pai. Ele parecia muito bravo, batendo as ferramentas com força em um velho carvalho e falando alto com um cliente. O cliente não pagou pela mesa e ainda desdenhou do trabalho, chamando José de amador. José, enfurecido, xingou o dito cujo de mentiroso e mesquinho. Os dois quase saem no tapa. Jesus, preocupado, pediu ao pai do céu ajuda. Foi quando José respirou fundo e pediu perdão ao cliente por sua ofensa. E se dispôs também a perdoá-lo por sua impertinência. José propôs fazer os ajustes necessários na peça e o cliente, satisfeito, concordou em efetuar o pagamento.

Jesus tinha uns sonhos estranhos. Ele via antigos mestres que lhe ensinavam coisas sobre fé e amor ao próximo. Eles diziam que ele tinha uma missão difícil, mas que sempre teria ajuda no que precisasse. Ele não contava isso para ninguém, mas anotava tudo o que aprendia e observava em seu caderninho. Que guardava bem escondido, aguardando o momento certo de usar.

Voltando aos preparativos....
http://oratoriosaoluiz.com.br/fevereiro-e-o-mes-dedicado-a-sagrada-familia/ 

Jesus saiu da conversa com Maria muito animado. Esse seria um dia especial. Seria a primeira vez que ele iria comemorar seu aniversário. Fazia um dia fresquinho e uma brisa geladinha soprava no ar. 

Ele foi de casa em casa convidando seus amigos para a ceia. À tardinha, as crianças começaram a aparecer. Cada uma trazendo um agrado para o dono da casa. Um trouxe um pãozinho assado pela mãe. Outro, trouxe um pouco de frutas secas que seu pai comprara na feira mais cedo. Um terceiro, de família mais abastada, trouxe um vinho da casa do seu avô. Uma mocinha trouxe uma toalha tecida pela sua mãe. Esta, se apresentava como viúva, mas na verdade fora abandonada grávida por um aventureiro. Ela sobrevivia de tecer mantas e toalhas de mesa. Por isso, seu presente tinha tanto valor. Era tudo o que ela tinha a oferecer...

Maria ficou tão grata, que mesmo já tendo quase concluído a arrumação da mesa, tirou tudo de novo somente para usar a toalha nova. Presente dessa outra mulher, que também se chamava Maria.

Uma outra menina, muito pobre, não tinha o que levar. Seus pais nem queriam deixá-la ir. Ela era bastante maltratada em casa. Seu nome era Míriam. Seus pais, com a desculpa de “educá-la para ser uma boa esposa” obrigavam a menina a trabalhar de sol a sol e batiam muito nela se alguma coisa não ficasse ao gosto deles. Precisou Maria interferir para deixarem a menina ir.

E ela foi de mãos abanando, porque eles não quiseram que ela levasse nada. Ela se apressou em ir logo, antes que eles mudassem de ideia. Tomou banho e colocou sua melhor roupinha. Um vestidinho de tecido encardido e sem graça.

Chorando, ela chegou na casa de Jesus com muita vergonha. Pediu se podia ajudar na cozinha, já que não tinha com o que contribuir. Maria recebeu a menina com um abraço e deixou que ela entrasse. Por uma noite ela não precisou trabalhar e foi tratada como criança. Ela foi autorizada a brincar!

As outras crianças foram chegando e os nervos de Maria foram se agitando! Cada um mais bagunceiro que o outro. Alguns nem tinham se lavado para jantar. Outros tinham até terra nas unhas! Que absurdo!

- Jesus – trate de dar conta dos seus amigos. Estão imundos! Ninguém entra na ceia desse jeito. Convença-os agora mesmo a se lavarem!

O menino Jesus prontamente acatou a ordem. Afinal, não era dia de contrariar a mãe! A barriga já roncava e o cheirinho de comida já cruzava a esquina. Um por um, os meninos e meninas foram lavando as mãos, o rosto e os pés.

No cantinho da sala de brincar, estava um pequeno. Seu nome era Jônatas. Ele não queria brincar, mas estava feliz de ter sido convidado apesar da sua condição. As crianças não tocavam nele. Somente Jesus lhe dirigia a palavra. Aliás, Jesus era o único amigo que o menino tinha. Ele morava nos muros da cidade afastado das demais pessoas. Alguns parentes de vez em quando lhe davam comida. Jônatas tinha lepra. Estava no comecinho, mas as manchas brancas e rosadas pelo corpo já provocavam o asco e a repulsa das pessoas.

Jesus pegou o menino pela mão e lhe disse: Hoje é um dia especial e você é meu convidado. Vou ajudá-lo a lavar as suas feridas. Enquanto Jesus lavava as mãos e os pés do pobrezinho, o menino se pôs a chorar. As feridas pareciam estar se dissolvendo no sabão. Sua pele voltou a ser macia e limpa. Ele ficou bom!

Todos limpinhos, cheirosos e curados, sentaram-se ao redor da mesa. Antes de avançar sobre os pratos, Jesus pediu aos amigos que todos dessem as mãos. Em seguida ele disse: Nós vamos agora fazer uma oração que meu pai me ensinou:

Pai nosso, que estais no céu. Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o seu Reino e seja feita a vossa vontade. Assim na terra, como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje e perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”.

José e Maria observavam atentos o comportamento do seu menino. Eles se abraçaram e sentiram os olhos cheios de lágrimas. Era um bom menino. Sabia fazer amigos. Era educado e grato a Deus. O que mais poderiam desejar?

Após o jantar, enquanto ajudava Maria na cozinha, a menina Míriam pediu se ela queria ser sua madrinha. Maria, emocionada, abraçou-a e disse que sim. E ainda lhe falou o seguinte:
- Eu não posso evitar que o mal lhe atinja. Nem impedir que outros te maltratem. Mas, sempre que estiver triste ou com medo, você pode encontrar refúgio em mim. Eu vou proteger você com meu véu se necessário. Eu me colocarei na sua frente, se preciso for. Estarei sempre com você. É só me chamar. 

Em seu íntimo, Maria pediu: Meu Deus, por que tantos pais maltratam seus próprios filhos? Ensinai-os a distinguir entre o certo e o errado. Entre disciplina e tirania. Entre caridade e maldade. Senhor, perdoai esses pobres pecadores. Que eles se arrependam agora, ou ao menos antes da sua morte. Amém!

Desde então, todos os anos Jesus continua convidando seus amigos para sentarem com ele à mesa e celebrarem mais um ano com amor. Cada amigo continua levando o que tem. E Jesus continua acolhendo a todos. 

Desde então, a Sagrada Família continua servindo de exemplo para o mundo. Eles nos ensinam como criar nossos filhos e como repartir o pão com quem não tem. 

E você? O que você levou de presente para Jesus este ano?

https://peregrinacultural.wordpress.com/2009/12/06/natal-e-reuniao-em-familia-quadrinha/

terça-feira, 27 de março de 2018

As Sabiás


As Sabiás

Peço licença poética para chamar o sabiá de sabiá-menina. Daqui em diante, elas serão “as sabiás”.
Eu nunca vi sabiás voando em bando. Elas parecem seres solitários. Voam solo, ou em duplas, ou em pequenas famílias. Fazem pequenos ninhos. Ciscam, pulam, voam e cantam. Vivem simplesmente.
Aprendi que o sabiá é o pássaro símbolo do Brasil. E que sabiá significa "aquele que reza muito". Talvez seja por seu canto, que mais parece uma melodia celestial...

Eu conheci algumas sabiás. E hoje quero falar sobre elas.

Era uma vez uma sabiá. Ela ciscava, pulava, voava e cantava livre. Um dia, um homem a viu e achou muito linda. Ele quis a sabiá só para ele e a colocou numa gaiola. Em pouco tempo, a sabiá não cantava mais. Desaprendeu a ciscar. Comia só o que ele lhe dava, pela janelinha da gaiola. Ela engordou, e logo suas asas não aguentavam mais o peso do seu corpo. Para garantir que ela não fugiria, o homem cortou a pontinha das suas asas. Aí, ela não conseguiu mais voar, nem cantar, nem pular, nem ciscar.

Era uma vez uma sabiá que sabia ciscar. Ela se juntou com outra que sabia cantar. E ambas aprenderam a voar com uma outra companheira. Elas juntaram outras sabiás sábias. Cada uma sabia uma coisa diferente. Elas formaram uma comunidade. E criaram códigos para se comunicar. Criaram uma linguagem nova, que somente elas entendiam. Um canto suave que mais parecia uma reza...

O bando começou a crescer. Embora elas continuassem livres para voar por onde quisessem, sempre achavam um jeito de se reunir, bem longe dos predadores. Cada uma ensinava à outra o que melhor sabia.

Uma delas, era mestra em abrir gaiolas. Outra, tinha um faro aguçado para predadores. Uma terceira, cantava muito alto e era quem dava os alarmes de segurança. Juntas, elas saíram pelo mundo abrindo gaiolas e resgatando sabiás-cativas.

As sabiás recém-libertas eram muito frágeis. A qualquer momento poderiam fraquejar e serem novamente aprisionadas. As sábias-sabiás lhes ensinaram tudo de novo. Curaram suas asas, ensinaram como ciscar, como pular, como voar e como cantar. Além disso, ensinaram também como farejar o predador, como abrir fechaduras e como dar alarmes.

Desse modo, elas criaram uma grande comunidade de sabiás livres. Cada uma aprendeu o seu próprio e específico canto de liberdade. E elas cantam bem alto, quando estão felizes. E ainda mais alto, sempre que se sentem ameaçadas. E quando esse canto ecoa no céu, todas as outras prontamente aparecem em seu socorro. Elas usam suas habilidades para curar umas às outras. Elas se ajudam e se amam. Elas se abençoam mutuamente.

Elas são sabiás-sábias. Vivem suas vidas simplesmente. Ao seu modo, cantam, ciscam, pulam e voam livres. Sem medo de nada.

E nunca mais uma sabiá se tornou cativa novamente. E seus homens aprenderam que não precisam de gaiolas. Entenderam que onde estiver seu ninho, aí estará sua sabiá. E ela estará ali por seu livre arbítrio. E ela cantará para ele. Espontaneamente

E todas as sabiás se tornaram sábias, livres e felizes para sempre!

Texto dedicado às Sabiás que tenho encontrado por aí... A Sílvia Profumo, as Sabiás da Moporã e as Sabiás da Comunidade Sou Mulher. 

Obrigada por me ensinarem a voar.

Para saber mais sobre a sabiá: http://www.wikiaves.com.br/sabia-laranjeira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A certeza do Tempo e a ilusão da Ansiedade

Oi. Eu sou o Tempo.

Eu sou como Deus. Dual. Existo e não existo. Não tenho forma, nem conteúdo. Não tenho rosto. Nem corpo. Inexisto. Não Sou.

Você me sente. Me percebe no botão de rosa que desabrocha, murcha e morre. Você desabrocha. Você enruga. Você morre. Eu Sou.

Não existo nos segundos, minutos, horas ou anos...Isso é invenção humana.

Estou nas mudanças das estações. No frio inverno, na instável primavera. Na sequência infinita dos dias e das noites. Sou eu, o tempo, que perpasso as manhãs e as tardes e faço girar o ciclo da vida.

Estive com você quando eras um bololô de células. Tornei-te ser. Você cresceu. Amadureceu. E ainda não entendeu.

Todos os dias você vê o Sol iluminar as manhãs, aquecer a terra e repousar trazendo o frescor da noite. Lua e Sol se alternam todos os dias. Eles não se atrasam. Nem fazem hora extra.

Os ciclos se sucedem disciplinadamente. Primavera, verão, outono e inverno. Os ciclos se respeitam. Não se atropelam. Não concorrem para ver quem chega primeiro. E sempre cumprem suas metas.

A infância passa o bastão à adolescência, que o transfere à maturidade, que o entregará à velhice. Com ou sem o seu consentimento.

Pergunto eu, o Tempo, a você, Ansiedade. O que a faz acreditar que pode vencer o tempo? Por que insistes em violentar os ciclos e desrespeitar os estágios naturais da vida?

Com ou sem você, o Sol nascerá amanhã. Haverá chuva ou seca. Fará calor ou frio. Por mais que você tente, não conseguirá antecipar uma noite, impedir um inverno ou atrasar um verão. Os ciclos se sucederão. Com ou sem você.

Minha cara Ansiedade. Ouça a voz da experiência. Já vi civilizações nascerem e desaparecerem. Vi universos colapsarem e estrelas morrerem. Vi a Terra desabrochar em oceanos e se multiplicar em seres viventes.

Hoje vejo um planeta maltratado. Por você. Na ânsia de produzir riqueza a qualquer custo, está esgotando seus recursos. Você tem tanta fome, mas joga comida fora. É bulímica e anoréxica. Você chora e você ri. É bipolar.

Você se acha imortal e morre sem ter vivido.

Ansiedade, você está se matando. E por quê?

Enquanto você se atropela, eu continuo aqui. Gerando estrelas. Brotando sementes. Enterrando raízes. Abrindo flores. Caindo frutos maduros. Eu sigo. Você fica.

Você é menos que um grão de poeira cósmica. Não pode competir com o Tempo. Então, desista. Não resista.

Venha cá e me dê um abraço. Vou lhe fazer cafuné e lhe colocar para dormir. Depois, lhe convidarei para passear em um sonho. Vou lhe levar ao princípio de tudo. Você passeará pelas galáxias. Iremos ao topo das montanhas e às profundezas dos vulcões. Nadaremos no fundo dos mares e caminharemos pela areia dos desertos.

Você verá as correntes marinhas e as curvas que o vento faz. Você verá peixes nadando contra a corrente, garantindo o fluxo da vida. Verá tartarugas nascendo e pérolas se formando no útero das conchas. Pela manhã, levarei o Sol a sua janela e lhe despertarei com um beijo.

Toda essa vida fervilha ao seu redor, esperando por você. Sinta o fluxo do sangue e da vida em suas veias. Perceba que esses fluxos não lhe pedem permissão. Entregue os pontos e páre de lutar contra o que não depende de você.

O bicho homem é o único que acha que pode dominar a natureza. Ah....ilusão...

Venha comigo. Respire fundo. E viva com intensidade cada ciclo da sua vida. Seja flor na primavera, seja furor no verão. Deixe o vento fresco do outono lhe descabelar. Aconchegue-se e descanse no inverno.

O trabalho não coube no dia? Não tem problema. Logo após a noite será dia novamente e você recomeçará de onde parou.

Minha cara Ansiedade. Pare de lutar contra mim. Case-se comigo e eu lhe transformarei em Vida.

Com amor,
Tempo.