terça-feira, 5 de setembro de 2017

Cambo IV Etapa - Campeonato Baiano de Orientação - 03/09/17

CAMBO IV – 03 de setembro de 2017

Quarta etapa do CAMBO – O campeonato Baiano de Orientação. Fazenda Xavante - São Gonçalo dos Campos - Bahia
Local da Largada

Eu invariavelmente tenho dor de barriga antes de qualquer competição. Bate nervosismo, penso em desistir cento e cinquenta vezes. É uma guerra interna entre o desejo de me divertir e o medo de dar tudo errado.

Nessas horas, temos sempre uma escolha a fazer: Ficar em casa vendo um filme de aventura no Netflix, com todo o conforto e segurança na solidão do lar...ou... Sair da cama quentinha em pleno domingo de manhã para se embrenhar no mato, se arranhar na tiririca e se cobrir de lama...junto com mais um monte de gente doida!

Em um dilema como esse, só o que a gente precisa é de alguém para segurar firme em nossos ombros, olhar no fundo dos nossos olhos e dizer com todo amor: “Larga de mimimi. Levanta dessa cama. Vai lá e navegue sua p#rr@!”.

Eu fiz esse exercício de amor aí que acabei de citar e decidi que ia correr. Naturalmente, que mal dormi.... Naturalmente, que tive dor de barriga, e de cabeça, e no joelho... Pensei nos relatórios que ainda tenho que ler e no vôo que ainda tinha que pegar no mesmo dia à noite...Aí choveu horrores... As portas batiam, as janelas rangiam e os fantasmas rondavam minha cama... Você vai chegar em último...É muito lenta... Não vai conseguir enxergar o mapa com essa chuva...Não vai dar tempo de revisar aquele relatório.....Vai perder o avião.....

Esses conflitos internos não são brincadeira. Os médicos chamam isso de “ansiedade”. Tem até remédio... tarja preta... Mas, eu prefiro sair correndo...literalmente. O contato com a natureza acalma e cura. Deveria ser receitado pelo médico: Respire cheiro de mato e pise na lama por duas horas, ao menos uma vez por semana...e pode abandonar os ansiolíticos...

Alguém aí também passa por isso? Sinta-se acolhido(a). Compartilha aí como lida com o  seu nervosismo. Ansiosos - uni-vos!

Por um daqueles acasos que só Kardec explica, Gabi e Mauro nos pediram carona. Foi muito bom. Melhor que isso! Garantiu uma chegada segura ao local da prova, o que reduziu bastante o meu stress. Ainda encontramos Andrea Ulm no caminho e seguimos todos de comboio. Não sei se acertaríamos o caminho sem eles. Além disso, a conversa foi muito boa. Um astral super alegre. Só isso já recompensou a minha decisão de sair da cama.

Antes da largada, houve um momento muito especial. Aquela turba barulhenta de mais de 300 pessoas de repente silenciou o “converseiro” para cantar o Hino Nacional. Completo, com segunda estrofe e tudo! Adulto, velho e criança. Todos juntos em um coro emocionante. Eu sempre fico com a voz embargada na segunda estrofe. Desde de criança. Não sei porque, mas adoro essa parte do Hino: “Mas se ergues da Justiça a clava forte. Verás que um filho teu não foge à luta. Nem teme quem te adora a própria morte...”.

Todos os dias, milhões de brasileiros enfrentam suas próprias lutas. Contra a ansiedade. Contra a depressão; pelo pão de cada dia; enfrentam preconceitos, limitações físicas, dificuldades de acesso. Andando em ônibus lotados, sendo assaltados, aturando governantes corruptos, pagando impostos abusivos. Sobrevivemos. Construímos e prosperamos. Sem apoio. Apesar do Governo. Apesar da violência. Contando somente com a firmeza de propósito e a força dos nossos braços para o trabalho. Se por um lado, uma parte do nosso povo é mal educada e corrupta por natureza, por outro lado, somos muitos do lado do bem! Corajosos, criativos, otimistas e persistentes. Somos brasileiros, e não desistimos nunca, ora pois!
...
Ainda chovia no início da prova e logo os primeiros aventureiros foram ganhando a pista. Mauro, Lulu, Victor, Vand, Andrea.... Eu larguei quase às onze da manhã e Gabi, ainda largou depois de mim. Até chegar nossa vez conversamos longamente sobre tudo. Sobre ser mãe, sobre aceitação, sobre planos, sobre abusos...sobretudo sobre ser mulher no mundo de hoje. O mundo está mudando e nós somos agentes dessa mudança. Que bom viver em um mundo onde certas coisas não são mais aceitas. Mulheres que reagem, não desistam! Não fujam à luta! Estamos construindo um mundo mais seguro para nossas filhas e netas.

Chegou minha vez e entrei no cone de largada já com o coração na boca. Conferi mapa e sinalética e entrei na pista com o compromisso de fazer minha melhor corrida. Qualquer que fosse o resultado, daria o meu melhor. 

Procurei manter a cabeça na prova e me concentrar no mapa. Mas, logo no prisma zero veio meu primeiro desafio. Deu branco! Eu orientei o mapa, acertei “Norte com Norte”, mas o mapa não me dizia nada. Fiquei olhando para aquele monte de linhas, pontos e traços sem saber o que fazer. Respirei fundo e admiti... Deu merda, não vou conseguir sair daqui...Travei!

Um atleta se aproximou e eu tive coragem de pedir ajuda: - Moço, enguicei aqui, não consigo orientar meu mapa... Estou olhando, mas não vejo nada....Ele carinhosamente me ajudou a me situar. E me disse: - Olha, eu vou por aqui... Vem, que teu prisma é o mesmo que o meu... E passou para o outro lado da cerca. Eu o segui, com um olho na trilha outro no mapa e logo consegui me localizar. Ao achar o primeiro prisma, senti um enorme alívio. O medo passou. A corrida começou! Ufa!

De prisma em prisma fui ganhando confiança. Quando dava para correr, corria, quando não dava, andava. Mas sempre seguindo o mapa. Embora muito detalhado, estava bem certinho. E todas as referências estavam onde deveriam estar. Para não errar, eu andava por cima de cada linha daquele mapa e na dúvida, voltava até ter certeza de onde estava pisando.

A turma da organização fez um ótimo trabalho! Cada encontro de cerca, com todas as suas curvas, porteiras e reentrâncias. Cada mandacaru. Cada árvore distinta...tudo no lugar. Todos os detalhes necessários para uma boa navegação. Só faltou desenhar uns bois e porcos passeando em 3D...

Entre o quinto e o sexto prisma uma simpática competidora pediu ajuda... –Ei, você está procurando o 108? Eu ainda estava atrás do 100 (que era meu 5º. Prisma...)[i]. O tal do 108 era o meu próximo e a pessoa vinha atrás falando sem parar....Acho que é pra lá....não... .mais pra cima... Tem um povo indo pra lá, óh! Ói..., tem um prisma ali...

E eu tentando seguir meu azimute... Eu sabia que tinha que atravessar uma cerca e localizar uma outra, que deveria ser cruzada também, mas em campo aberto todas as cercas são iguais, todas as árvores são verdes e se você não tiver cuidado, sai do mapa e vai parar em São Paulo!

Antes de me perder para sempre e levar a falante comigo, voltamos as duas juntas para o prisma anterior para azimutar[ii] novamente, juntas dessa vez. Em alguns momentos, o melhor é ajudar e aceitar ajuda... orgulho demais engorda! E eu estou querendo emagrecer...J

Norte com norte...linha com linha... É para lá...Uma vez definido o sentido, travei a bússola no mapa com o polegar e saí correndo morro acima feito cabrita desembestada. Um olho no mato, outro no mapa! Minha amiga comigo. Mais adiante, encontramos outra competidora. Parada, observando a natureza.... E minha falante companheira perguntando: Ói... Você tá atrás do 108? - Sim, vou bater esse aqui primeiro (tinha um prisma do mapa dela logo em sua frente), em seguida vou atrás dele.... Está naquela direção...E apontou para sudoeste... mas, vou ficar aqui esperando aquela boiada passar...

Minha falante nova amiga perguntou se eu tinha medo de boi... respondi que não e seguimos em frente. Convidei a outra para vir com a gente. – Vamos juntas que é mais seguro...- disse eu. (Sim! Eu tenho medo de boi, mas só quando estou sozinha...rsrs. Cercada de gente eu acho que as vacas vão me respeitar... Mais um daqueles medos que não fazem sentido algum...)

Como o gado estava do outro lado da cerca, subi intrépida e deixei para atravessar só quando estava bem longe dos bovinos... Nova carreira de cabrito montês e mais um prisma para a minha conta.

E lá vem a falante corredora atrás.....(Ai meu Deus.... Ela vai ficar me seguindo agora – pensei aflita). Pessoalmente, não gosto muito que me sigam. Como também não gosto de seguir. É uma responsabilidade enorme! E se eu me perco? Ainda desencaminho alguém! Tentei ganhar distância, mas logo ela me alcançou. Ela tem boas pernas. Corre direitinho, a danada....e navega certo também... Só precisa ganhar mais auto-confiança.

Foram mais três prismas de pique-pega. Até que ganhei uma distânciazinha e cheguei ao 111 (meu décimo prisma) com alguma vantagem. Quando eu pulava a enésima cerca em busca do prisma seguinte, lá vem ela.... pulando a cerca comigo, toda animada atrás do mesmo 111 que eu já tinha pego.... Como eu sabia que ela não tinha batido este ainda, resolvi alertá-la... Com muito amor e com toda a delicadeza que me é peculiar: 

- Você vai aonde, criatura???.... Não vem atrás de mim não que você se dá mal... Teu prisma tá lá atrás. Eu já estou indo atrás de outro. Volta lá.... Pega teu mapa e ...NAVEGA A SUA P#RR@!!!....

E pulei a cerca saindo correndo em seguida... Espero que ela tenha encontrado. E que não tenha ficado chateada comigo....Foi com amor.... O jeito é de Ogra, mas o coração é de mocinha... Eu juro J.

Aqui e ali rola uma ajuda mútua sim. Não tem nada de mais. Você está perto de um prisma e alguém grita – Aêeee. Qual é o número desse prisma??? Você responde (obviamente falando o número certo, né sacana?). - OOOOh.... Tem prisma aí? Tem sim, é ali em baixo, naquela moita/árvore/pedra, dentro do toco, atrás do cumpinzeiro, à direita depois da colmeia de abelhas...enfim...

O bem que você faz, sempre volta para você. No meu caso, voltou na mesma prova. Com o mesmo amor..

Perto de um dos prismas uma atleta viu que eu tinha passado direto e me alertou... Olha, teu prisma não é aí... Você já passou... E seguiu adiante seu rumo sem olhar para trás. Ouvi o conselho e voltei. Ela estava certa! O conselho poupou-me bastante tempo. Nem vi seu nome, mas muito obrigada!

Essas dicas são valiosas. Principalmente quando você está no caminho certo, mas ainda não tem certeza disso. Ajudam a fortalecer a confiança.

Tinha prisma dentro de vala, em buraco, debaixo de cerca, no meio do mato, atrás da moita.... Onde você imaginar, o mapeador imaginou primeiro. Foi uma prova muito bem montada. Fico imaginando as risadas que os mapeadores deram pensando em nosso perrengue....Eu passei cercas tão baixas que arrastei a cara na lama...A cara, a mão, o sicard[iii], o mapa, a bússola... Tinha lama até nas sobrancelhas.

Para bater o meu prisma seguinte eu poderia atravessar um campo cheio de bois ou rodear (ou melhor... “arrudiar”) pelo estradão.... Como a essa altura eu já estava novamente sozinha, obviamente, “arrudiei”. Peguei uma trilha que saía no estradão e após a primeira esquina, quem eu encontro??? Minha amiga???? Não! Errou! Eu ficaria feliz de encontrá-la ali, confesso....

Dei foi de cara com uma boiada que resolveu seguir o mesmo caminho que eu. Cheia de novilhos saltitantes e vacas mal-humoradas... Quem é da roça sabe que onde tem novilho tem vaca braba... Elas pensam que você quer o novilho delas e ficam muito nervosas com a presença de seres humanos.... E eu que nem como carne.....Mas, como explicar isso para as vacas-mães??? Eu não falo bovinês...

Educadamente cumprimentei as vaquinhas e voltei lentamente de ré até me esconder atrás da esquina, à sombra de uma casa....Ai meu Deus.... Vou ter que ficar aqui esperando alguém passar para subir a rua comigo.... Vai demorar horas.... Socorro, Jesus.....

Mal terminei minha prece e lá vem uma moto com dois homens. Nem parei para raciocinar e fui logo pedindo ajuda:  - Boa tarde, pessoal.... Vocês se incomodam de ir bem devagar para dar tempo de andar com vocês? Tem umas vacas lá em cima e eu estou com medo de passar...
- Venha, tenha medo não... Elas não “bolem” com ninguém.... Era “Seu” Antônio, o carona... E fomos juntos pelo meio da manada. As vacas me olhando de soslaio e eu querendo sair correndo dali...No meio da vacarada, pedi licença e segurei no braço do seu Antônio...Ele desceu da moto e foi na minha frente conversando com elas... O motoqueiro ia do lado bem devagar e assim passamos incólumes!

Agradeci ao seu Antônio e aos seu motoca e segui em frente. Não vi mais boi, nem vaca, nem moto. Cada um seguiu seu rumo e só depois do fato é que pensei no que tinha acabado de fazer.... Bah! Deus protege mesmo os inocentes!

Achei a casa, o prisma e um lindo milharal... O fiscal da prova estava lá. Eu, tão azuada nem vi que tinha água... Quando vi, peguei a dele (JJJJJ). Educadamente, ele me mostrou que tinha um monte de copinhos bem na minha frente... Eu não precisava ter entrado na varanda para pegar a água que ainda estava guardada em suas caixas...Ai ai...

A casa ficava no alto e lá de cima era possível ver um monte de gente embolada no mato... Tudo perdido! Disse eu. O fiscal riu... Sabe de nada, inocente. Perdida vai ficar você! Abre teu olho!.. Ele deve ter pensado.

Peguei minha bússola e decidida atravessei o milharal, atrás dos meus três últimos prismas... decidida a não me perder. Foi um pouco difícil achar os prismas 13 e 14, mas os detalhes do mapa e uma ou outra dica quando eu já estava perto me ajudaram bastante.

Em um tempo ainda longo (112 minutos e 53 segundos), consegui completar a prova. Errando pouco, navegando com consciência e com toda a atenção na prova. Foi a melhor das 4 etapas, sem dúvida nenhuma. Normalmente, eu fico em quarto ou quinto lugar com um tempo de 20 a 30 minutos atrás da competidora que chega imediatamente antes de mim. Dessa vez, perdi meu quarto lugar por apenas 5 segundos! E para uma atleta superexperiente que está em primeiro no ranking da nossa categoria (Gabriela Carvalho). Meu objetivo foi alcançado. Foi a prova mais inteira que já fiz. Estou super contente!

E no fim, deu tempo para tudo. Para o avião, para o relatório...Até para jantar! Deu tudo certo!

A corrida de orientação é uma competição contra si mesmo. E eu me venci. Fiquei muito animada com o resultado e principalmente com a forma com que me comportei na prova. Foi uma baita vitória pessoal!

Acho que os psicólogos deveriam receitar Corrida de Orientação para os ansiosos.... É um santo remédio! Desenvolve foco, auto-confiança e controle emocional. Contra ansiedade, azimutes! Contra o pensamento acelerado, foco na trilha. Contra o medo de vacas, mais vacas! E um “Santo Antônio” para dar uma forcinha de vez em quando....

Parabéns aos organizadores pelo mapa e pela  prova. Tudo muito bem feito!
Parabéns aos Aventureiros do Agreste. Todos completaram a pista e ainda tivemos três pódios, com Luciana Freitas em primeiro na Elite; Mauro Abram (45 A) e Vanderlei Ern (45 B), ambos em segundo nas suas respectivas categorias. Um sucesso!

Aventureiros do Agreste - Galera linda que eu amo!

Ansiosa para a quinta prova. #PartiuCMS. Sem pânico, sem “branco”, sem dor de barriga. Com emoção e com amor!



[i] As corridas de orientação costumam ter de 15 a 20 prismas. Cada um deles tem uma numeração específica, que pode variar de 80 a mais de 100. O atleta tem que ter atenção para pegar os prismas na ordem correta e procurar o número que corresponde à categoria do seu mapa. Mapas de categorias diferentes tem prismas com numeração diferentes. Pegar o prisma errado, além de roubar tempo, não vale e você não pontua. Ou você tem foco, ou se foca....rsrsrs.

[ii] “Azimutar” ou “bater azimute” significa orientar o mapa com a bússola para definir o sentido que deve ser seguido em busca de um ponto determinado. É uma técnica básica de navegação. Tive uma dificuldade inicial para aprender, mas até que já estou dominando direitinho.

[iii] Sicard é um dispositivo eletrônico que carregamos preso em um dos dedos da mão nas competições. Serve para marcar os pontos de checagem (prismas). Antigamente, tínhamos que marcar uma folha de papel com picotadores. Hoje, evoluímos bem mais e o avanço dos atletas é medido em tempo real, por meio desses aparelhinhos simpáticos que registram o número e a hora que cada atleta passa pelo prisma.

4 comentários:

  1. Excelente reflexão sobre a prova. Esse esporte é sobretudo um esporte coletivo, onde ajudamos e somos ajudados o tempo todo. E nosso principal adversário, como muito bem dito, somos nós mesmos.
    Parabéns, nos veremos na próxima etapa, porém teremos a II Etapa do CAMPOR-BA (Metropolitano) antes, no dia 17/09 em Camaçari, que também será boa demais.... vamos?

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  2. É a segunda vez que tenho a oportunidade de ler seu relato e confesso que vc expressa muito bem as suas aventuras rsrss
    O primeiro foi de uma corrida de Aventura da NOITE DO PERRENGUE onde vc falava de uma arte no meio do campo
    dei muitas risadas rsss

    Hj nao foi diferente....

    Lí para meu filho que também amou!!
    continue escrevendo...
    Parabens

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  3. Quanta aventuraaa! Coragem! Gostei muitooo de ler! Fiquei empolgada ate de fazer um dia!

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  4. Show de relato Lucas. Tive a sorte de ver sua largada, após "papear" com Gabi, eu saí logo de você. Também é meu primeiro ano no esporte e estou bem feliz e empolgado com ele. Realmente, mesmo com todo "perrengue" é revigorante. Adorei seu relato.

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