domingo, 12 de agosto de 2012

Mas a Copa vem aí e tudo se resolverá...


Mas a Copa vem aí e tudo se resolverá...

Eu também fiz côro para criticar o Brasil. Sempre que via algum absurdo, tipo três horas de engarrafamento em um trecho de 40 km, eu repetia, ironicamente: “Mas, a Copa vem aí e tudo se resolverá”.

Aí vem... A Copa!  Logo depois, as Olimpíadas. E eu não estou vendo a movimentação que esperava. Não sei onde estão os trens, os metrôs, os ônibus e os bondinhos para levar e trazer a gente toda para os eventos. Eu desejava que a essa altura o Brasil inteiro fosse um grande canteiro de obras e que várias coisas já estivessem prontas. Tipo... O metrô de Salvador, por exemplo...

Não sei como receberemos visitantes em nossos banheiros públicos imundos e quebrados. Nos nossos ônibus e trens sempre cheios e atrasados. Em nossos aeroportos... Enfim. Não sei como será...
Hoje, lendo o jornal “O Dia”, do Rio, tive um surto de esperança. Não sei se era matéria paga ou se realmente algo está acontecendo. Li que várias obras estão em andamento, dentro dos prazos. Li que o COB está trabalhando duro para se manter dentro do orçamento e ter tudo pronto, a tempo e a hora para as Olimpíadas.  Li recentemente que o Rei Pelé está preocupado com a infraestrutura para a Copa, mas, está confiante de que tudo dará certo.

Soube que vai ter metrô da Zona Sul para a Barra da Tijuca. Teremos competições em Realengo e na Marina da Glória. E o trânsito entre os centros desportivos será de no máximo 50 minutos. Promessa de campanha? Não sei. Gostaria que fosse verdade.

Soube que o Governo vai financiar os atletas que demonstrem hoje algum potencial para ganhar medalhas em 2016. É a “Bolsa Pódio”. Sem apologias, sem demagogias... Sei lá se a ideia é boa. Mas, ao menos é uma ideia. Esses meninos precisam mesmo de apoio. Pela reportagem, não será só dinheiro. Eles terão nutricionistas e psicólogos a disposição. É um começo.

A cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Londres será transmitida ao vivo em um telão, na zona portuária do Rio de Janeiro. Haverá música e alguém vai contar a história das Olimpíadas para quem estiver lá. Bom, ao menos, estamos entrando no clima!

Isso me deu uma vontade danada de ajudar. Estou muito preocupada com esses eventos. E se for um caos? Um vexame internacional? E se tiver apagão aéreo? Não vi ninguém mexer uma pá de pedreiro nos aeroportos daqui.... De que adiantará ter metrô se o turista não conseguir chegar ao país?

E os engarrafamentos? E a violência urbana? E se as delegações forem assaltadas? E se roubarem as medalhas? E se a bagagem da delegação norte-americana se extraviar? E se os correspondentes internacionais forem assassinados durante um assalto em frente a Vila Olímpica? E se furtarem o laptop do Presidente do COI na hora da abertura oficial? E se um incêndio destruir as fantasias da Escola de Samba que vai se exibir na cerimônia? E se o Usain Bolt for sequestrado? E se a Polícia entrar em greve?

E o que faremos com nossas ruas cheias de pedintes, mendigos, batedores-de-carteira, bêbados, drogados, traficantes, bandidos,........ O que faremos das nossas calçadas sujas, fedidas e dos nossos becos escuros?

O que faremos com os nossos políticos? ? ?

Que Deus permita que esse cenário de filme noir fique só na minha imaginação.
Será que tem algo que possamos fazer para ajudar?

Se tudo der errado, não adiantará culpar o Governo. A vergonha será de todos nós. O Brasil será escrachado publicamente, internacionalmente...

Para completar minha angústia, vamos suceder a competente Londres na tarefa de sediar as Olimpíadas. Veterana, já sediou três! Lá, tem trem desde o tempo em que andávamos de carroça. Lá, o metrô programado para as 8h30’30’’ chega nos exatos 30’’, conforme o planejado.

Lá onde você percorre a cidade inteira debaixo da terra, entrando e saindo dos “tubes”. Minding the gaps, always! Lá, todos os carros param diante das faixas de pedestre e todo mundo fica do lado direito da escada rolante.

Como vamos competir com essa gente?

Dá medo. Dá um frio na barriga...

Enquanto reflito sobre o assunto e jogo essas palavras no papel, eu me sinto impotente.

Mesmo assim, ainda quero ajudar. Vou começar estudando melhor os candidatos às próximas eleições. Quem sabe votando certo, posso contribuir de alguma forma?

Se alguém aí tiver mais ideias, compartilhe. Não vamos deixar que a Copa seja uma vergonha, nem que as Olimpíadas sejam um fracasso retumbante. Não vamos deixar que a corrupção vença. Os jogos são nossos e dos nossos atletas. Vamos tomar posse deles!

E a contagem regressiva começou: Os Deuses do Olimpo visitam o Rio de Janeiro

Conheci o túmulo de Mme Simone de Beauvoir por acaso

Numa tentativa frustrada de conhecer as catacumbas de Paris, acabei indo parar no cemitério de Montparnasse.

Era meu último dia de passeio em Paris e uma preguiça enorme tomava conta do meu corpo. Sem coragem para enfrentar trens cheios e filas, optei por ir para a estação Denfert Rochereau, onde meu mapa turístico apontava a localização das famosas catacumbas.



Pensei com meus botões... Todos os turistas devem estar no Louvre. Pouca gente se interessará pelas catacumbas... 

Lêdo engano... Não sei de onde brota tanta gente nessa cidade!! 

Ao chegar na estação, pedi orientação a um distinto cavalheiro do balcão de apoio aos turistas. Ahhh. Les catecombes... Cest lá, madame... You will need to wait 4 hours to get in... Disse ele num inglês totalmente francofônico....

4 heures!!! Quel'horreur!! Pas possible!! Respondi num francês totalmente macarrônico! 

Eu não tinha condições de ficar em fila alguma. Aliás, vou me lembrar de nunca mais vir a Paris no verão. É fila para tudo. Tem fila até para perguntar onde é a fila....

Para não perder a viagem, resolvi continuar o passeio. As ruas são agradáveis e arborizadas. Não são cheias de gente como as do centrão de Paris. Tem parques, Brasseries, barzinhos. Tudo muito bonitinho. Só tenha cuidado ao escolher onde comer. Os preços variam muito. Não pare na primeira opção! Enquanto um restaurante cobrava 24 euros o menu, o outro oferecia o mesmo por 11,80! Acabei comendo um delicioso tartine com salada, muito bem servido,  por 9 euros. Se você for mochileiro de verdade, pode economizar mais ainda, comprando um pãozinho e uma bebidinha nas quitandas que ficam pelas ruelas. Tudo bem limpinho e gostoso.


Avistei um lugar que parecia um parque. Logo descobri tratar-se do cemitério de MontParnasse.  Tão grande que ocupa um quarteirão inteiro.

O cemitério é bem bonito. Um lugar de descanso mesmo. Cheguei a deitar num dos banquinhos sob uma árvore e tirar um cochilo... Só ouvindo o canto dos passarinhos e o farfalhar das folhas anunciando que o outono está próximo.... Ali não deve nem ter fantasmas. Todo mundo parece estar descansando em paz!


Encontrei túmulos bem variados. Alguns, muito bem cuidados, com flores frescas. Outros cobertos pelo limo. Parece que foram esquecidos há séculos. Túmulos cristãos, judeus e chineses. Ricos e pobres. Antigos e modernos. Tudo bem democrático.

Havia um túmulo bem interessante. Todo em aço inoxidável de boa qualidade. Ele ainda tinha uns móbiles também de aço que serviam de enfeites. Imaginei ser o de alguma criança ou artista. Não fotografei, porque achei desrespeitoso.

Continuei caminhando em busca nem eu sabia do quê. Bom, deve ter alguém famoso por aqui.... Vejamos.... Pierre Larrousse, editor... não sei quem... Arquiteto..., escritor, cantor... Não-sei-quem-lá... Morto pela pátria....... Voilá!!... Mme Simone de Beauvoir! 

Bom, esse mereceu a foto. Afinal, ela pertence a todos nós. 


Descobri que Mme de Beauvoir está sepultada junto ao companheiro, M. Paul Sartre. Sei pouco sobre eles. Infelizmente, ainda não li seus livros. Mas, já tratei de inclui-los na minha lista.

Só sei que os dois foram precursores do amor livre e ícones da filosofia dos anos 70. Simone antecipou tendências e inaugurou o feminismo. Sartre defendia ideias esquerdistas. Beauvoir defendia as mulheres.  Pareciam ter personalidades vibrantes, pensantes e atrevidas.

O casal viveu por muitos anos. Mesmo tendo cada qual seus "affaires" aqui e ali, sempre estavam juntos.

Achei curioso que as pessoas colocam bilhetes de metrô no túmulo do casal. Já que estava lá, coloquei um também. Depois, fui procurar saber o porquê desse costume.

Descobri que tem algo a ver com um movimento dos anos 70 contra o aumento das tarifas do metrô. Um grupo de ativistas teria roubado tíquetes do metrô de Paris e os espalhado pela cidade. Ao que parece, M. Paul Sartre apoiou a ideia e se tornou editor do jornal daquele grupo maoísta. Bom isso, é o que está na rede. Se alguém souber de mais informações, me conte!! Fiquei bem curiosa.


Além dos tickets, há bilhetinhos direcionados a Simone. Vários são de mulheres inspiradas pelos seus ideais de liberdade. 

Simone teria dito: “one is not born a woman, but becomes one” ("Uma pessoa não nasce mulher, se torna uma"). Je suis d'accord, mme de Beauvoir!!! E não é nada fácil se tornar uma mulher!

Se você também sabe pouco e quiser conhecer mais sobre o casal, clique no link que direcionará para a wikipedia: Simone de Beauvoir.

Vou ler mais sobre esses dois. Depois, conto tudo para vocês.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Em defesa dos cabelos crespos



Oh yeah! I Love my hair!

Quando eu era bem pequena sofria muito por causa do meu cabelo duro. “Tão bonitinha, pena que nasceu com cabelo ruim!”. “ Ah, se não fosse esse seu cabelo...”. “Não! Não use este pente. Você vai quebrá-lo...” Cresci ouvindo coisas desse tipo.

Eu virei uma espécie de referência: Ah! É aquela do cabelo de bombril! A da juba de leão. A urso-do- cabelo-duro (desenho animado famoso nos anos 70). Aquela do pixaim!

A quem será que ela puxou? É adotada, né? Tadinha!

Fiquei assim, meio sem identidade. Entre os brancos, era preta, do cabelo duro. Entre os negros, era branca, do cabelo alisado. Era como a índia mestiça do Gonçalves Dias (Marabá).

Para tentar me adequar as exigências da sociedade racista onde me criei, mandaram alisar meu cabelo. O salão usava um produto muito forte, que deixava meu couro cabeludo cheio de feridas. Como meu cabelo é muito fininho, caía bastante. Fiquei então com os cabelos ralos, fracos, quebradiços....Porém, lisos!

Eu não gostava daquilo. Não podia pegar chuva. Tinha que dormir de “bobes” (aqueles rolinhos que usávamos para dar alguma forma ao cabelo esticado). O cabelo não crescia. Não mexia. Sair no vento era uma tortura. Horrível!

Nunca namorei na escola. Eu me achava horrendamente feia. Sempre que olhava para alguém, achava que o outro só via o meu cabelo duro. Morria de vergonha de mim.

Casei com o primeiro namorado. Ele não parecia ligar muito para o meu cabelo, contanto que eu o mantivesse arrumado. Nada de cabelo esvoaçante. Tudo muito bem comportado. Preso. Amarrado. Contido.

Tive meu filho aos 19 anos e precisei ficar um bom tempo sem usar química. Foram quase dois anos contando toda a gravidez e o período da amamentação. E o cabelo amarrado. Só que eu sou rebelde por natureza e o meu cabelo também. Ele resolveu que ia crescer e aparecer, mesmo contra a minha vontade! No começo achei estranho. Não adiantava mais fazer touca, nem usar bobes para manter a juba arrumada. Nada mais domava a fera. Ele foi tomando um formato meio híbrido. Não era duro. Nem mole....Nem liso, nem enrolado...

Fui a uma cabelereira para pedir um corte, já que desde a gravidez eu estava com muita queda de cabelos. E sem os produtos eu já não sabia o que fazer para domar aquela juba, agora ainda mais disforme. Ela olhou a raiz do meu cabelo e me perguntou: Você já reparou como seu cabelo ao natural é bonito?

Eu não conhecia o meu cabelo. Achei que ela estivesse brincando. Ela disse que não. Então ela me mostrou várias fotos de mulheres como eu. Disse que meu cabelo era muito sensível e que era um pecado colocar química nele. Fez um corte moderninho. Tirou todo o cabelo velho e “espichado”.  Ela me ensinou a tratar dos cachinhos e a assumir minha identidade afrodescendente.
Foi o início de uma nova fase. Eu tinha 20 anos. Meu cabelo cresceu, apareceu, e ficou lindo. Eu passei a me achar bonita.

Tempos depois eu me separei do meu marido. Após quase dois anos sem ninguém, conheci um outro rapaz. Um belo dia, ele me viu penteando os cabelos molhados e comentou: Seu cabelo é mais bonito molhado. Por que você não alisa?

Senti um ardor subindo pelo pescoço até deixar minhas bochechas vermelhas. Engolindo a raiva, segurei o pente de forma ameaçadora e perguntei azeda: “Você tem algum problema com o meu cabelo?” Ele percebeu a “bola fora” e nunca mais tocou no assunto! 

Separei deste e de outros. Nunca mais deixei ninguém me criticar pela crespice do meu cabelo. Ora essa! Com o tempo, conheci pessoas que achavam o meu cabelo o máximo. Isso serviu para fortalecer minha auto-estima. Aquela história de que a gente faz com que os outros vejam em nós o que nós mesmos vemos é verdade. Se você se sente bonita, as pessoas te acham bonita. 

Um dia, já trabalhando e totalmente de bem com meu cabelo, um chefe me chamou à sua sala:
- Veja bem, minha cara, vamos ter uma visita importante esta semana e eu gostaria de lhe dar um conselho. Acho que você deveria fazer uma chapinha no cabelo. Uma mulher na sua posição não deveria usar o cabelo assim...tão rebelde...
...

Nem o deixei terminar. Disse com a maior tranquilidade e auto confiança do mundo:
-Não se preocupe, chefe. Eu saberei como me vestir e como me comportar. Porém, deixe meu cabelo fora disso!

Olhei para aquele homem e vi como o mundo ainda é carregado de preconceito. Naquele dia, fui ao salão. Não para fazer chapinha, mas para ir a manicure. Aproveitei para refletir sobre o meu dia enquanto folheava revistas. Vi fotos de mulheres negras bem sucedidas. Executivas, primeiras-damas. Quase todas tinham o cabelo alisado. Por um breve momento voltei a me sentir deslocada. Senti um pouco de vergonha de mim. De novo aquela sensação de ser Marabá...

Continuei olhando revistas e achei a Taís Araújo, a Vanessa da Mata e a Sandra de Sá. A Clara Nunes também estava lá. Todas negras ou mestiças. De cabelo crespo! Lindas!

Apesar de constrangida, encarei a visita com os cabelos que Deus me deu. Tudo correu conforme o protocolo e tenho certeza de que o ilustre visitante pouco se importou com meu cabelo. Havia coisas mais importantes na pauta. Meu chefe... Ah, este nem cabelo tinha. Quem era ele para dar palpites na minha vida, afinal?

Um dia a mãe de um amigo meu me disse assim: - Minha filha, seu cabelo já fez maldade com alguém? Então, nunca mais diga que ele é ruim, tá?  Ruim é quem faz mal aos outros.

Ruim é quem quer encaixar todo mundo em padrões pré-estabelecidos. Ruim é quem tem preconceito. Ruim é o Racismo.

Quer alisar o cabelo, alise. Quer fazer chapinha, faça! Que usar blackpower use! Eu respeito sua opção. Respeite também a minha.

Tudo isso serviu para me ensinar que não devemos ter preconceito contra ninguém. Aprendi a ser compreensiva com as diferenças. A respeitar o gordo, o magro, o idoso, o “feio”, o “diferente”, o gay, a lésbica. A não rir de ninguém. Sei exatamente como eles se sentem, porque já sofri na pele o preconceito.

Vamos deixar de frescura e deixar cada um ser como quiser!
E viva o cabelo da Gabby Douglas! Uma menina de ouro! E de cabelos crespos!