domingo, 20 de março de 2011

Contos do Sertão

Nena

Nena corre... o Canavial espesso e quente abafa o ar. A atmosfera está pesada. O boi. O boi. Vai me pegar! Pensa a menina.

Castigo. Quem mandou roubar frutas no pomar do vovô? Minha mãe vai me bater. Meu avô vai me bater. E meu pai? O que vai pensar meu pai? Vai ficar triste comigo. Vai fazer aquela cara de decepção que me mata! E isso é o que mais dói.

Ai! A dor quase a deixa cega, mas ela não pode parar. O boi. O boi. Já sentindo o bafo do animal enfurecido ela corre ainda mais. Sente um líquido quente escorrendo pelas pernas. Sente o cheiro do próprio sangue. Estaria o boi também sentindo? Acho que vou morrer!

O touro Bento é o mais bravo de toda a fazenda. Anda com um sino no pescoço, para avisar a todos quando está por perto.

... ..

A menina saiu de casa cedo. Ia ao açude buscar água, como era sua obrigação todas as manhãs. Era verão, e como o açude estava seco, ela e seu irmão Elias andaram até o poço recém cavado no leito do velho rio e tiraram água de cacimba. Estavam acostumados a esses trabalhos pesados. A seca era parte do seu cotidiano. Não conheciam outra realidade, de modo que tudo acabava virando brincadeira de criança. Costumavam banhar-se no açude quando tinha inverno. Na estação seca, sabiam que era preciso economizar água. Era para beber e para cozinhar. O banho, ficava para o final do dia e se tomava de caneco, no fundo da casa.
O açude na verdade é uma represa. Como este ano choveu, está bem vistoso e cheinho.

O verão secava o rio, mas a água de algum modo inexplicável chegava ao pomar. As árvores naquela época ainda insistiam em ter frutos. Assim como as mulheres que insistiam em ser férteis. Mesmo se alimentando de farinha e rapadura. O pomar estava carregado de mangas. Era uma tentação para qualquer criança.

Que mal vai fazer? - Pensou Nena rapidamente e decidida disse: - Elias, leva a água para mamãe. Vou passear no pomar.

Você maluca? Vovô não gosta de menino no pomar. Botou o boi Bento lá para espantar ladrão. Vai te pegar! Se escapar do boi, vai ter que se entender com o chicote do vovô!

O boi não vai me pegar. Sou muito esperta. Muito mais rápida do que ele. Vá embora. Encontro você antes do almoço.

Como previsto, havia quase mais mangas do que folhas. Todas "de vez". O que quer dizer, prontas para serem colhidas e transportadas para a cidade. Prontas para serem vendidas ou trocadas por tecido, sal e sementes.

Assim como as demais frutas, o café e a cana, os bois, porcos e galinhas faziam a riqueza do coronel e sustentavam todas as bocas que dele dependiam. Que não eram poucas.

Havia mangas no chão, mas essas não tem  nenhuma graça. O bom mesmo é subir no pé. Comer manga verde, de vez e madura. Com uma agilidade de cabrita montesa, ela subiu na árvore. Era muito alta para sua idade. Mas o que importa? Era sua mangueira favorita.

...
Várias mangas depois, o pé da mangueira se coalhava de cascas, galhos e caroços de manga chupada. Era hora de voltar. Sua mãe logo sentiria sua falta. Tinha que ajudar a preparar o almoço dos meninos que trabalhavam na roça.

Desceu alguns galhos e com um pulo estava no chão. Aterrissou agachada como uma índia. Antes que se levantasse, ouviu um som. Blém. Blém. Ouviu outro som... Era uma respiração pesada, daquelas que seu avô fazia quando estava com raiva. Uma sensação ruim lhe percorreu a espinha. Suas pernas tremeram. Era Bento.

Com medo, levantou-devagar e olhou para trás. Lá estava ele. Quando a mirou com seu olhar vermelho de fúria, abaixou a cabeça. Apontou-lhe os chifres e cavou a terra com sua enorme pata de touro campeão.

Ela não pensou duas vezes. Correu, correu e correu. Deparou-se com o canavial. A cana estava alta, como é comum nessa época. Vou me arranhar toda, mas ali o Bento não me pega. E assim foi. O canavial é difícil de atravessar para pessoas, imagine para um boi. Ele a perseguiu enquanto pôde, mas logo desistiu.

Enfim, após uma corrida que lhe pareceu eterna, a menina saiu do canavial. Ao longe, viu um sertanejo. Era baixo e gorducho.  Vestia uma roupa de couro de bode e um chapéu de palha. Viu quando tirou de um só golpe o chicote que trazia preso à cinta. Escutou o tilintar do couro seco no ar. Era vovô Brígido! Dono da fazenda. Patrão e sogro do seu pai. Mesmo de longe ela pôde sentir seu olhar. Vermelho de fúria, como o de Bento. Em sua cabecinha de menina, ambos se transformaram numa coisa só. Bento-Brígido. Não sabia mais onde terminava o touro e onde começava o avô. Eram ambos a mesma fera e tinham como único propósito castigá-la até o fim do sertão. Ora com os chifres. Ora com o chicote. Seriam todos os homens assim?

Talvez não. Pelo menos papai não era assim tão mal. Pensou a menina.

Venha cá sua negrinha! O que faz aí no canavial? Roubando fruta de novo? Não tem comida em casa? Venha cá que já lhe ensino a ser uma moça.  Parece um moleque macho! Assim nunca vai arrumar marido.

Nena corre ainda. Agora não mais do boi, mas do chicote do avô. Avista uma casinha. Pertence a uma das tias. Tia Jacinta! Tia Jacinta! Me acode tia Jacinta. O boi, o vovô, o canavial! O sangue nas pernas e o vestidinho de chita molhado de suor e urina davam a menina um ar de mendiga. Oh, menina! Que fizeste? Parece um mulambo! Vá já tirar essa roupa suja e se lavar.

A tia lhe banhou a ferida com água e sal. Era um corte feio causado por uma folha de cana. A marca permaneceria para sempre. Na pele e na lembrança. Nena chorava. "Tá doendo, tia" Aguenta, muleca. Dizia ela enquanto improvisava um curativo feito de trapos. É bom para aprender! Você não se comporta! Vamos, vista essa roupa. O vestido era limpo, mas tinha espaço para duas nenas e meia. Deixava ainda mais evidente seu estado de quase subnutrição.

O que vai ser dessa menina? - Pensou a tia. Tem que arrumar logo marido, se não vai se perder no mundo ou vai virar mulhé-homi! Mas quem é que vai querer essa cabrita??? - Disse a Tia Raimunda tristemente enquanto a menina voltava para casa. Pensando que ainda haveria de enfrentar a mãe. Outra fera. Exigente e rigorosa. Como seu pai, o coronel.
...   ...   .... .... .... ....

A pré-história de Nena

Senhor Coronel Brígido Alves de Moraes. Dono da vila de Bela Aliança. Todos os morros, todas as várzeas e todos os açudes são dele. Manda prender e manda soltar. Manda matar. E se o cabra tentar morrer e isso não for do agrado do coronel, até com a morte ele peleja! Sinhá morte o respeita. Não foi nada fácil levá-lo, quando chegou sua hora.
O coronel a essa altura é viúvo de uma cabocla muda, que de acordo com as lendas era descendente de uma índia catada no mato por um português que apareceu por essas terras lá nos idos de 1700. Era uma bugra. Não tinha nem nome. Ou pelo menos, ninguém se lembra mais dela. Uma mulher bonita, mas bruta. Calada. Trabalhadeira. Forte. 
 
Se sofreu, ninguém soube. Só o que ela sabia era botar menino no mundo. De tanto exercer esse papel, acabou morrendo de parto. Como todo bom macho sertanejo, o coronel mal esperou a defunta esfriar e logo se enrabichou por outra. Essa outra vinha a ser prima da primeira e sempre nutrira uma paixão secreta pelo cunhado. Mas isso é tema para outra história...

Antiga casa grande - pertenceu a Brígido Alves de Moraes

...
Essa conto remete ao início do século XX e é baseado em pessoas reais. A história é uma ficção, construída a partir de pedacinhos de histórias reais. 

Estou em fase de pesquisa, coletando histórias de pessoas simples, mas de carne e osso. Elas contam o que os livros não registraram. Fragmentos da história do Brasil que se não forem resgatados, se perderão no tempo como se nunca houvessem acontecido.

Em breve, novos contos serão publicados. Quem quiser, poderá contribuir com histórias sobre o sertão do Ceará. Farei questão de citar as devidas referências.

Para saber mais sobre o 12o. estado mais próspero do país, acesse o link abaixo
Ceará
Portal do Ceará

3 comentários:

  1. História muito legal eu apresentei ela na escola

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    1. Que legal, Carlos! Fico feliz de ter gostado e de ter compartilhado essa história na sua escola. A "Nena" é a minha mãe. Ela me contou essa história muitas vezes, quando eu era criança. Eu dizia que um dia iria com ela até o lugar onde a história aconteceu. Cumpri minha promessa em 2014, quando aproveitei para publicar este conto. Um grande abraço.

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