domingo, 20 de março de 2011

Contos do Sertão

Nena

Nena corre... o Canavial espesso e quente abafa o ar. A atmosfera está pesada. O boi. O boi. Vai me pegar! Pensa a menina.

Castigo. Quem mandou roubar frutas no pomar do vovô? Minha mãe vai me bater. Meu avô vai me bater. E meu pai? O que vai pensar meu pai? Vai ficar triste comigo. Vai fazer aquela cara de decepção que me mata! E isso é o que mais dói.

Ai! A dor quase a deixa cega, mas ela não pode parar. O boi. O boi. Já sentindo o bafo do animal enfurecido ela corre ainda mais. Sente um líquido quente escorrendo pelas pernas. Sente o cheiro do próprio sangue. Estaria o boi também sentindo? Acho que vou morrer!

O touro Bento é o mais bravo de toda a fazenda. Anda com um sino no pescoço, para avisar a todos quando está por perto.

... ..

A menina saiu de casa cedo. Ia ao açude buscar água, como era sua obrigação todas as manhãs. Era verão, e como o açude estava seco, ela e seu irmão Elias andaram até o poço recém cavado no leito do velho rio e tiraram água de cacimba. Estavam acostumados a esses trabalhos pesados. A seca era parte do seu cotidiano. Não conheciam outra realidade, de modo que tudo acabava virando brincadeira de criança. Costumavam banhar-se no açude quando tinha inverno. Na estação seca, sabiam que era preciso economizar água. Era para beber e para cozinhar. O banho, ficava para o final do dia e se tomava de caneco, no fundo da casa.
O açude na verdade é uma represa. Como este ano choveu, está bem vistoso e cheinho.

O verão secava o rio, mas a água de algum modo inexplicável chegava ao pomar. As árvores naquela época ainda insistiam em ter frutos. Assim como as mulheres que insistiam em ser férteis. Mesmo se alimentando de farinha e rapadura. O pomar estava carregado de mangas. Era uma tentação para qualquer criança.

Que mal vai fazer? - Pensou Nena rapidamente e decidida disse: - Elias, leva a água para mamãe. Vou passear no pomar.

Você maluca? Vovô não gosta de menino no pomar. Botou o boi Bento lá para espantar ladrão. Vai te pegar! Se escapar do boi, vai ter que se entender com o chicote do vovô!

O boi não vai me pegar. Sou muito esperta. Muito mais rápida do que ele. Vá embora. Encontro você antes do almoço.

Como previsto, havia quase mais mangas do que folhas. Todas "de vez". O que quer dizer, prontas para serem colhidas e transportadas para a cidade. Prontas para serem vendidas ou trocadas por tecido, sal e sementes.

Assim como as demais frutas, o café e a cana, os bois, porcos e galinhas faziam a riqueza do coronel e sustentavam todas as bocas que dele dependiam. Que não eram poucas.

Havia mangas no chão, mas essas não tem  nenhuma graça. O bom mesmo é subir no pé. Comer manga verde, de vez e madura. Com uma agilidade de cabrita montesa, ela subiu na árvore. Era muito alta para sua idade. Mas o que importa? Era sua mangueira favorita.

...
Várias mangas depois, o pé da mangueira se coalhava de cascas, galhos e caroços de manga chupada. Era hora de voltar. Sua mãe logo sentiria sua falta. Tinha que ajudar a preparar o almoço dos meninos que trabalhavam na roça.

Desceu alguns galhos e com um pulo estava no chão. Aterrissou agachada como uma índia. Antes que se levantasse, ouviu um som. Blém. Blém. Ouviu outro som... Era uma respiração pesada, daquelas que seu avô fazia quando estava com raiva. Uma sensação ruim lhe percorreu a espinha. Suas pernas tremeram. Era Bento.

Com medo, levantou-devagar e olhou para trás. Lá estava ele. Quando a mirou com seu olhar vermelho de fúria, abaixou a cabeça. Apontou-lhe os chifres e cavou a terra com sua enorme pata de touro campeão.

Ela não pensou duas vezes. Correu, correu e correu. Deparou-se com o canavial. A cana estava alta, como é comum nessa época. Vou me arranhar toda, mas ali o Bento não me pega. E assim foi. O canavial é difícil de atravessar para pessoas, imagine para um boi. Ele a perseguiu enquanto pôde, mas logo desistiu.

Enfim, após uma corrida que lhe pareceu eterna, a menina saiu do canavial. Ao longe, viu um sertanejo. Era baixo e gorducho.  Vestia uma roupa de couro de bode e um chapéu de palha. Viu quando tirou de um só golpe o chicote que trazia preso à cinta. Escutou o tilintar do couro seco no ar. Era vovô Brígido! Dono da fazenda. Patrão e sogro do seu pai. Mesmo de longe ela pôde sentir seu olhar. Vermelho de fúria, como o de Bento. Em sua cabecinha de menina, ambos se transformaram numa coisa só. Bento-Brígido. Não sabia mais onde terminava o touro e onde começava o avô. Eram ambos a mesma fera e tinham como único propósito castigá-la até o fim do sertão. Ora com os chifres. Ora com o chicote. Seriam todos os homens assim?

Talvez não. Pelo menos papai não era assim tão mal. Pensou a menina.

Venha cá sua negrinha! O que faz aí no canavial? Roubando fruta de novo? Não tem comida em casa? Venha cá que já lhe ensino a ser uma moça.  Parece um moleque macho! Assim nunca vai arrumar marido.

Nena corre ainda. Agora não mais do boi, mas do chicote do avô. Avista uma casinha. Pertence a uma das tias. Tia Jacinta! Tia Jacinta! Me acode tia Jacinta. O boi, o vovô, o canavial! O sangue nas pernas e o vestidinho de chita molhado de suor e urina davam a menina um ar de mendiga. Oh, menina! Que fizeste? Parece um mulambo! Vá já tirar essa roupa suja e se lavar.

A tia lhe banhou a ferida com água e sal. Era um corte feio causado por uma folha de cana. A marca permaneceria para sempre. Na pele e na lembrança. Nena chorava. "Tá doendo, tia" Aguenta, muleca. Dizia ela enquanto improvisava um curativo feito de trapos. É bom para aprender! Você não se comporta! Vamos, vista essa roupa. O vestido era limpo, mas tinha espaço para duas nenas e meia. Deixava ainda mais evidente seu estado de quase subnutrição.

O que vai ser dessa menina? - Pensou a tia. Tem que arrumar logo marido, se não vai se perder no mundo ou vai virar mulhé-homi! Mas quem é que vai querer essa cabrita??? - Disse a Tia Raimunda tristemente enquanto a menina voltava para casa. Pensando que ainda haveria de enfrentar a mãe. Outra fera. Exigente e rigorosa. Como seu pai, o coronel.
...   ...   .... .... .... ....

A pré-história de Nena

Senhor Coronel Brígido Alves de Moraes. Dono da vila de Bela Aliança. Todos os morros, todas as várzeas e todos os açudes são dele. Manda prender e manda soltar. Manda matar. E se o cabra tentar morrer e isso não for do agrado do coronel, até com a morte ele peleja! Sinhá morte o respeita. Não foi nada fácil levá-lo, quando chegou sua hora.
O coronel a essa altura é viúvo de uma cabocla muda, que de acordo com as lendas era descendente de uma índia catada no mato por um português que apareceu por essas terras lá nos idos de 1700. Era uma bugra. Não tinha nem nome. Ou pelo menos, ninguém se lembra mais dela. Uma mulher bonita, mas bruta. Calada. Trabalhadeira. Forte. 
 
Se sofreu, ninguém soube. Só o que ela sabia era botar menino no mundo. De tanto exercer esse papel, acabou morrendo de parto. Como todo bom macho sertanejo, o coronel mal esperou a defunta esfriar e logo se enrabichou por outra. Essa outra vinha a ser prima da primeira e sempre nutrira uma paixão secreta pelo cunhado. Mas isso é tema para outra história...

Antiga casa grande - pertenceu a Brígido Alves de Moraes

...
Essa conto remete ao início do século XX e é baseado em pessoas reais. A história é uma ficção, construída a partir de pedacinhos de histórias reais. 

Estou em fase de pesquisa, coletando histórias de pessoas simples, mas de carne e osso. Elas contam o que os livros não registraram. Fragmentos da história do Brasil que se não forem resgatados, se perderão no tempo como se nunca houvessem acontecido.

Em breve, novos contos serão publicados. Quem quiser, poderá contribuir com histórias sobre o sertão do Ceará. Farei questão de citar as devidas referências.

Para saber mais sobre o 12o. estado mais próspero do país, acesse o link abaixo
Ceará
Portal do Ceará

quarta-feira, 16 de março de 2011

Ah esse Brasilzão de meu Deus!!! Jornada para Itaí-SP

Um colega de trabalho me pediu apoio em uma das unidades fabris durante o processo de preparação para uma auditoria externa.

Pensei eu na hora - Hummm... Adoro auditar e adoro viajar. Por que não? Procurei deixar minhas rotinas endereçadas - Confio muito na minha equipe que nunca me deixou na mão. Sei que poderei contar com eles mais uma vez. Afinal, são só três dias.

Aí vem os detalhes práticos de quem é solteira... Quem vai ficar com o Rex? Quando vou consertar o vazamento de água que está triplicando minha conta? Que horas vou passar minha roupa e arrumar a mala? Em que janela de tempo vou encaixar meus treinos??? E a consulta com o dentista? E o oftalmologista???

Prática como só uma pessoa solteira consegue ser, joguei o oftalmo pro alto, aproveitei que minha querida dentista não podia me atender e joguei os dentes pro alto também! Despachei o cãozinho pro canil e ainda fiz um treino legal na segunda-feira. Na volta da academia, passei meia duzia de blusas bem mal passadas e semi-preparei minha mala.

Como não sei consertar encanamento, fechei o registro da água -- Isso é que atuar na causa raiz!!!!!!

Com a mala semi pronta, ainda fui trabalhar na terça-feira. Duas reuniões, 100 e-mails, 20 telefonemas e um probleminha de última hora e logo eu já estava  semi-atrasada para o vôo.

Tudo bem! A essa hora não tem tráfego...... Ainda vou chegar com uma hora de antecedência, o que deve bastar....A não ser que todas as vias de acesso a Salvador estejam em obras... .... E estão! Oras!! Como não pensei nisso antes?

E lá estava eu, presa num tráfego infernal, suando em bicas e sentindo o cheiro do meu próprio suor, mesmo no ar condicionado. Não posso perder esse vôo, meu Deus! Me ajude!

Havia outros interessados em pegar o mesmo vôo que eu, porque tinha gente cortando pela direita, pela esquerda, pelo meio, por cima e por baixo!! Fiquei imprensada entre um táxi, uma caminhonete, uma moto e dois caminhões!!!

Porque todos esses carros queriam passar num espaço que mal dava para um fusca???? Je ne sais pas....

Quase meia hora depois, consegui sair do imbróglio. Aí a Ferrari fez o resto. Botei o vermelhinho para funcionar, dentro das regras do jogo - é claro!! Andando em minha faixa, sem ultrapassagens perigosas e respeitando todos os sinais. Mas onde dava pra correr, garanto que não fiz trekking...

Cheguei! 30 exatos minutos antes do meu avião fechar as portas para sempre!

A atendente foi muito gentil e me pôs na frente de todo mundo na fila do check-in. Como estou ficando espertíssima, não despachei bagagem. Peguei a mochila abarrotada de coisas e a maletinha de mão, também socada de itens críticos para minha sobrevivência e lá fui eu atrás do avião.

Congonhas - aqui vou eu!! Tive vergonha de levantar os braços para pôr minhas malas no bagageiro... Estava suadíssima. Estressadíssima. Descabelada e malcheirosa... Bom.. nem tanto, porque mesmo suada ainda sou cheirosinha.. Mas estava fora do meu padrão normal... Exceto pelo "Descabelada" que é um adjetivo constante como um acessório. Como um batom ou um brinco que também nunca deixo faltar.

Durante a viagem, para relaxar, li um pouco. Estou lendo "A Escolha de Sofia" de William Styron - muito bom! Recomendo.

Cheguei a Congonhas. Agora, pensei eu, está tudo dominado! Tenho até tempo para o maravilhoso Capuccino paulista.. Tomo meu café tranquila e vou alugar meu carro....

- Senhora, eu sinto muito, mas não estarei podendo liberar o carro (sic).
- Por que??
- Sua carteira venceu em 2/03.
- Eu sei. Já dei entrada na nova. Fiz exame e tudo. Ficará pronta semana que vem. A Lei me permite usar a carteira até 02 de abril!
- Sinto muito, Senhora, mas a empresa não estará podendo aceitar, pois nosso procedimento interno não permite!

Pensei com meus botões - Como às vezes buscando a excelência em obedecer as normas as pessoas acabam sendo mais realistas que o Rei!
Ok. Vou pegar um táxi.... Dez posições de fila.... Espera, né?? Paciência!
- Onde, senhora?
-Itaí.
-Ah, tá, Itaim ou Itaimbibi?
- Não - Itaí. Av Santo Antônio - Centro
- Ah, tá.. Centro... você está enganada! Não é avenida! É Rua! Rua Santo Antônio! Você vai para o centro de SP!!!
- Nãaaaaaaaao!!! Eu vou para Itaí!!! Cidade de Itaí!!! Interior de São Paulo!
- Mas aqui está escrito centro... Ah, tá... Centro de Itaí...Entendi..... Interiorrrr (sotaque paulista).... Custa R$ 935,00, senhora...
...  ...  ...
- Vc tá de sacanagem???? - Calma!!! foi só um pensamento. Eu não verbalizei isso! Respirei fundo e respondi, tentando não rir:
- A senhora está de brincadeira?
- Não. É esse o preço para o interior.
- OK. Muito obrigada

Fui até outro balcão de aluguel de carros:
- Quero alugar um carro, mas minha carteira venceu, já dei entrada na nova, e blá, blá, blá.
- Um momento senhora, vou estar verificando....
- Senhora, pelo procedimento a senhora pode estar alugando sim....
- OBA! Pegue aqui meu docum....
- Só que não temos carros! Estão todos alugados!
... ... ...
E o relógio agora aponta 20h. Havia chegado as 19h. Estimava eu umas três horas de viagem de carro até Itaí. Tudo bem. Chegarei 23h. Not that bad!

Finalmente a Localiza me salvou. Como sou cliente cadastrada, consegui logo um carrinho até legal. Só que sem GPS. Estava esgotado também.

Ok. São quase nove da noite, estou em SP, vou pegar 300km de estrada, não conheço a cidade nem tenho GPS... Tudo bem! Vamos em frente.

Não é difícil chegar a Itaí. Peguei as coordenadas e segui para a Rodovia Castelo Branco. Aqui um elogio aos Paulistanos. Eles sabem explicar roteiro direitinho. Não havia erros. Rapidamente eu cheguei na rota.
Pedágio 1.... R$ 2,90
Pedágio 2...R$ 5,35..... Quantos pedágios ainda tem pela frente, moço?? -A senhora, deve ter mais uns quatro....

Paguei e me preparei para o pior! Lembrei-me de que não tinha mais dinheiro! Esqueci de sacar!!!

Meu Deus - faça aparecer um banco Itaú na minha frente agora, pois só posso sacar até 22h. São 21:30!

Milagrosamente o posto GRAL apareceu diante dos meus olhos, por volta do km 50 da rodovia. Entrei para perguntar onde tinha um caixa eletrônico e antes de descer do carro, ele se materializou diante de mim.. no estacionamento do posto!! Lindo! Saquei meu dinheirinho, comprei uma água e um bombom e troquei uma ideia com o pessoal do posto. Tem alguma pousada por aqui? Ah, tem sim, em São Roque. É a próxima cidade!

Aviso aos navegantes - Sempre que puderem, evitem viajar a noite. Planejem-se melhor e reservem hoteis para pernoitarem. É muito mais seguro!

Saí da estrada e dei uma volta em São Roque. A única pousada que achei estava muito escura e tive medo de entrar. Voltei para a rodovia. Saí mais uma vez em Sorocaba seguindo um outdoor do Ibis que parecia mais uma miragem. Cada vez que me aproximava ele ficava mais distante. Para acessá-lo, tive que sair da Castelo e entrar na Raposo Tavares... Que está toda em obra. Ou seja, justamente as saídas que eu precisava pegar estavam bloqueadas. Os acessos alternativos me levavam para cada vez mais longe do Íbis, da Castelo Branco, de Itaí e da cama quentinha que lá me esperava.

Bateu o desespero. A fome, o cansaço e o sono. Só não bateu medo de me perder. Sabia que ia chegar a Itaí. A estrada é ótima e cada pedágio é como PC. Uma nova oportunidade de verificar o mapa, checar o azimute e navegar. Ainda bem!

De "saco cheio" percebi que o tempo que perdi tentando chegar a um hotel poderia ter me levado ao meu destino! Quase 23h. Voltei para a Castello Branco decidida a não parar mais por nada no mundo.

Aí, choveu hotel na beira da estrada! Na esquerda, na direita, no viaduto... Não, não e não. Agora não quero mais!!

Quando pensei que estava chegando ainda faltavam 80 km... Até Avaré!
De lá, ainda tinha mais 60 km pela SP 255 até Itaí.... E chegando lá, ainda teria que encontrar o hotel.

Estradas boas, bem sinalizadas, largos trechos com iluminação urbana e pelo menos uns seis pedágios, considerando que paguei para sair em Sorocaba.

Quase duas da manhã. Fim do trecho sob concessão... Buracos, obras e máquinas na pista.... Era o que me faltava!! Ainda bem que foi um trecho bem curtinho. Logo cheguei em Itaí. Parei num posto para perguntar onde ficava o que, ao que me parece, é o único hotel da cidade. Hotel São Francisco. Com a dica certa, cheguei em 3 minutos. Não queria nada. Só água, banho e cama!

Dormi um pouco e comecei logo a trabalhar. Demos duro hoje! A turma da fábrica é muito atenciosa e estão todos engajados em fazer um bom trabalho. Dá gosto trabalhar assim.

Ainda tenho um relatório para fazer, mas precisava desse momento de ócio criativo para contar para vocês como foi minha viagem e desopilar o cérebro de tantos requisitos que verifiquei hoje.

Estou esperando o único restaurante - na verdade pizzaria - começar a servir. Vou fazer meu relatório. Comer pizza e dormir. Amanhã, vou correr cedinho para não enferrujar. Depois, vou trabalhar mais um pouco.

Quando puder, voltarei a passeio. Quero explorar Avaré. Ao passar pelo portal da cidade notei que ela se apresenta como estância turistica. Se algum leitor já tiver visitado Avaré, me conte como é lá. Fiquei curiosa.

Boa semana para todos!!

domingo, 13 de março de 2011

Reflexões sobre o Ser Humano

Sempre que algo bom me acontece, algo ruim está acontecendo no mundo. Na verdade, sempre tem algo ruim acontecendo no mundo... E, eventualmente, algo de bom acontece comigo.

A verdade é que isso me entristece. Como ser totalmente feliz com tanta desgraça acontecendo?
É temporal no Rio, é tsunami no Japão. É menino pobre catando lata enquanto milhares de turistas insensíveis pulam o carnaval, pisando em seus pés descalços. Empurrando-o para fora da sociedade. Para bem longe deles. Para bem longe de nós! Para que não suje, não esbarre. Não incomode, menino!

Pobreza. Miséria. Corrupção. Iminência de acidente nuclear, assassinatos, guerras, traições...
Parece mesmo um prenúncio do Apocalipse. Talvez minha mãe tenha razão. Talvez o mundo se acabe e os escolhidos sejam levados para um lugar melhor.. Talvez... sei lá!

Sei que com ou sem profecia, tudo me parece muito óbvio! A origem do mal está no homem. A semente do ódio. Da destruição. A ganância e o desprezo. O orgulho e o preconceito. O homem é o pior dos predadores, pois ele destrói por egoísmo. Não por fome. Mata por prazer, não por necessidade. Oh, bicho homem! Quem poderá salvá-lo da sua própria ganância?

Por outro lado, esse mesmo homem é capaz de atos grandiosos. Essa mesma raça se une para doar. Levanta fundos, distribui comida. Larga seus afazeres, familia e trabalho para ajudar o próximo.

Essa mesma humanidade descobriu a eletricidade, a penicilina e o uso inteligente da radioatividade.

Essa mesma humanidade gerou Martin Luther King Jr, Gandhi, Carlos Chagas e Oswaldo Cruz. Kennedy e o Dalai Lama. São esses seres iluminados que me fazem acreditar que nós podemos reverter tudo isso!

Por onde começar? Hoje tentei doar dinheiro para a Cruz Vermelha internacional. Não consegui. Meu cartão de crédito 'entendeu' que era uma operação suspeita e não autorizou. Que bom! Pensei. Isso me deu uma chance de refletir... O que estou fazendo pela minha comunidade? E pela minha família, que está ainda mais perto de mim?

Todo mundo sonha em mudar o mundo. Em fazer algo grande! Mas todos esquecemos de que qualquer construção começa com um pequeno tijolo. Uma pequena pedra. Um pedaço de pau. Se cada um de nós conseguisse ajudar a um próximo. Somente um! Em pouco tempo, a corrente do bem alcançaria o mundo todo. Que King, Gandhi, Lama e outros nos abençoem. Que Deus nos ilumine. Que em breve não haja mais crianças pedintes nem velhos abandonados. Que não haja desastres e que haja Paz. Enfim!

Uma ótima semana para todos e um convite a fazer pelo menos um pequeno gesto de solidariedade esta semana. Que nossos pequenos gestos de solidariedade permitam que o Sol continue a brilhar sobre nós!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Carnaval 2011

Cores, sons, sabores, culturas diferentes.. Tudo no mesmo Brasil.

Salvador da Bahia - Axé, pipoca e gente bonita
Meu carnaval começou na Bahia. Mais precisamente no circuito Barra-Ondina. Para garantir uma boa vaga de estacionamento, cheguei cedo. Aproveitei para pular na pipoca do beco, na Barra. Logo depois, fui para a grama do Farol. Tranquilíssimo! Se houve violência em Salvador, ela passou bem longe de mim. Fiquei atrás de um isopor de cerveja cuja vendedora sambava mais que as dançarinas do Parangolé!

Vi passar o trio do Tomate, com o Sr ACM neto de convidado. Ele acenou para a multidão e todos retribuíram com simpatia. Como demorei para associar o rosto a pessoa, não correspondi. Tive a impressão de que ele notou e não gostou... oops! Espero não ter me metido em encrenca. Desculpa aí, viu, seu ACM neto.. Não foi por mal.

Não lembro a ordem exata dos trios, mas lembro de alguns detalhes marcantes:  Ivete linda fantasiada de Cisne Negro e se achando. Tô bonita! Tô Gostosa! Vocês me amam! Não eram perguntas. Eram exclamações da mais pura vaidade. A gente perdoa, Ivete. Você é mesmo demais!

Passou o Parangolé e o negão requebrava que era uma beleza!! Ai, Ai... foi um delírio. Que coisa mais linda! Um puro e legítimo exemplar da raça!

O Chiclete, como sempre lindo!! Lotado de gente bonita. E o Bel até que ficou simpático sem a barba. Contudo, achei que o Asa este ano estava mais animado, mais cheio e mais bonito que o Chiclete. Pelo menos ali no Farol a animação estava contagiante. Me deu vontade de sair atrás. Só não fui, porque sou fiel ao Denny. Ai, o Denny.... Ai a Timbalada!

Outro trio que surpreendeu foi o Sertanejo. Muito animado e com músicas ótimas. Adorei.

Após quase duas horas de atraso, eis que surge Denny e os tambores da Timbalada anunciam mais uma noite animada. Bloco lotado. Gente de todas as raças e tamanhos. Todo mundo dançando sem parar um minuto. E eu cantando animadissima! Eu, Lulu, Marcio e sua turma paulista, Tadeu e sua namorada... E mais um monte de gente que passava e cumprimentava a gente. Passou um rapaz e olhou bem sério para mim:: -Eu conheço você!!! Da empresa em que trabalho!! Ainda bem que eu sou comportadinha!!! (rs)

No Morro do gato, como já é tradição, os trios entram no pagodão. Aí é baixaria mesmo.. Corre-corre superhomem, foge mulher maravilha e outras pérolas do axé invadiram nosso bloco. E Denny se requebrando todo para delírio das fãs.

Um pouco mais adiante, Denny se recompôs e voltou a cantar sucessos antigos da Timbalada e de outras bandas. Este ano, a Timbalada comemorou 20 anos de carnaval. Estão de parabéns. Até hoje me lembro das primeiras músicas. E toma de Obaluaê! Acho que ele cantou essa música umas 50 vezes! Denny também cantou marchinhas de carnavais antigos. E eu chamei o Arlequim de Alecrim a noite toda! Alecrim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão! Só fui perceber que estava cantando errado quando já estava no Rio. Eu sou mesmo uma comédia ambulante!!

Ao som de Chuva de Flores, Luciana resolve do nada perguntar as horas.... Eram quase duas da manhã e eu tinha que embarcar para o Rio as 4!!! Lu, preciso sair daqui agora mesmo!!!

Sem pensar duas vezes ela me acompanhou e corremos, literalmente, do Camarote da Band até o 'C' do Clériston Andrade lá na Adhemar de Barros. Como não dava tempo de passar em casa, fui direto para o Aeroporto. Fiz o check-in suada, fedida e cantando - Timbaladaaaaa leva eeeu... Timbaladaaa, leva eu e o meu amoooor!!! - Comédia!

Um banho de gato com papel toalha e detergente de banheiro, uma roupa limpa e lá fui eu... quase limpinha e cheirosa para o Rio.

Rio de Janeiro  - Tradição, família e bandinhas



Cheguei no Santos Dumont pontualmente as 6h de domingo! DORMIR!! Preciso dormir!!! Ah, como eu amo o Santos Dumont. Tem uns sofazinhos lá no segundo andar que são tudo de bom. Desci do salto, demiti a etiqueta e deitei no sofá. Dormi que nem criança até as 9!

Por volta das 10h chegou o Hugo, vindo de Sampa e seguimos rumo ao Centro do Rio e seu carnaval de rua. Inocente, simplório. Quase infantil e muito divertido.

Onde mais, a não ser no Rio você poderia ver uma fila de metrô imensa e todo mundo feliz, cantando e tocando percussão!! Estação Carioca. Gente pra dedéu!! Daqui a pouco, aparece do nada uma mini bateria de escola de samba e todo mundo começa a cantar um samba antigo -- Chora, não vou ligar (não vou ligar) , chegou a hora, vais me pagar.. podes chorar, podes chorar... Eu, é claro, cantei também. E sambei, para desespero do meu filho que morre de vergonha dessa minha espontaneidade.

Eu nem ligo. Sou espontânea mesmo, com muita honra!

Pegamos um metrô lotado e rumamos para a zona Sul. Mais marchinhas, mais bandinhas, mais Lucy correndo atrás dos blocos e Hugo correndo atrás da Lucy...Tive que comprar um chinelinho novo porque meus pés estavam pedindo arrego. Mas, nem liguei. Com calo ou sem calo, era só tocar uma musiquinha e eu já começava a pular.

Comemos tapioca na rua, bebemos água de coco e fomos ao Arpoador. Ficamos um bom tempo sentados naquelas pedras. Que lugar é aquele!! Inspirador! Todo carioca deveria  ver o pôr do Sol pelo menos uma vez no Arpoador. É lindo demais!

Ok. Temos mais um avião para pegar. Voltamos para o aeroporto e rumamos para Cabo Frio, onde minha mãe se esconde. O vôo durou 20 minutos. A viagem de táxi para a casa dela... durou 2 horas e uma facada na minha carteira.

Minha mãe deve ter sido pioneira na outra vida. Nunca vi ninguém gostar tanto de desbravar os lugares. Daqui a uns dez anos o condomínio dela vai ser uma metrópole. Mas hoje, é uma roça. Uma adorável roça, diga-se de passagem. Espero que esse lado bucólico seja preservado quando o boom imobiliário chegar por lá.

Sopinha de ervilha, mimos, banho morninho (só para nós, pois os habitantes da casa só tomam banho gelado!). Cama quentinha!! Ai, ai. Tem coisas que só na casa da mamãe mesmo!!

Dia seguinte - café da manhã e pé na estrada. Fomos a Rio das Ostras. Feirinha, bugigangas, Almoço na praça. Tudo bem interiorano mesmo.

Terça de carnaval. Desfiles de escola de samba bombando e nós... fugindo para Búzios. Estava chovendo um pouco, mas nem ligamos. Eu queria muito aproveitar a viagem. Pegamos um passeio de barquinho pelas praias. Vale muito a pena. Os lugares são lindos e a turma do barco é o maior astral. Nosso comandante era doidinho e contava histórias muito engraçadas sobre o lugar. Além de ser um ótimo dançarino, diga-se de passagem. Enquanto pilotava o leme requebrava até o chão. Léo Santana que se cuide!!!
Caí na água duas vezes. Havia me esquecido de como o mar é gelado no Rio. Tive a impressão de ter mergulhado em uma piscina de balas halls. Extra forte! Mesmo assim, achei delicioso e fiz mil peripécias na água. Eu voltei a ser criança. Coisa que só acontece quando estou bem feliz.

Adorei passar o carnaval com minha família. Adorei pular em Salvador. Adorei ver as bandinhas no Rio. Não vi violência. Não vi maldade. Vi gente brincando feliz. Crianças, velhos, homens vestidos de mulher. Todo mundo rindo e se divertindo. Talvez eu tenha me fantasiado de Pollyana e fechado os olhos para não ver o mal. Talvez seja tudo ilusão. Que me importa! Desejo que a alegria que eu vi e vivi seja real e perdure pelo resto do ano. Os baianos merecem. Os cariocas também.

Obrigada a todos que passaram pela minha vida neste Carnaval por me proporcionarem momentos tão bons. Sei que nunca mais os verei, mas deixo um beijo para a turma que animou a estação do Largo da Carioca com aquele sambinha.

Um grande beijo aos dois rapazes fantasiados de bailarinas que estavam na frente da Assembleia Legislativa. Um de cisne branco e um de cisne negro. Ambos carregando um 'Oscar' e dançando iguaizinhos. Achei tão lindo que não poderia deixar de mencionar.

Parabéns a Beija Flor pela vitória merecida. A escola estava linda mesmo!
Parabéns ao Denny - Príncipe da nação Timbaleira pelos vinte anos desse querido bloco.

A ilusão acabou. Já despi a fantasia. Mas preservei a alegria, que vai me seguir pelo resto do ano, que começa hoje, para valer!

Feliz Ano Novo para todos!