segunda-feira, 10 de maio de 2010

Sobre mim

Sempre achei pedantes os escritores que escrevem sobre si. Sempre os achei pouco criativos. Depois de muito ler, vi que todos deixam escapar um pouco de si em suas obras. Intencionalmente ou não
Então resolvi perdoá-los. Resolvi perdoar a mim mesma também. Hoje vou escrever sobre mim, como se falasse de outrem.

Ela nasceu num dia de muita chuva. Sua mãe fizera faxina na casa no dia anterior. Excedera-se no esforço. Precisava limpar a casa depois do que as crianças do bairro fizeram a sua varanda durante o dia de São Cosme & Damião.

Ai que dores. Ai que dores. Não há ajuda. Valei-me meu São Jorge. Era a quem aquela barriguda chamava. Ai que chuva. Os ônibus passam e jogam água nas duas. Ninguém pára. A sombrinha já se quebrou com o vento. As forças da natureza se mostram valentes. Ela está com medo.  A criança encolhida dentro daquela barriga se contorce. Ela sente dor.

São Jorge não apareceu. Mas sim um táxi. Quiçá o taxista se chamava Jorge. Jamais se saberá Nunca mais foi visto.

A mãe dá sinal. Sabe que não tem dinheiro. Está no Catumbi e o hospital é na Tijuca. Só tem o da passagem. As dores a cegam. Precisa de ajuda.

Ele pára. Moço, meu neném vai nascer aqui na rua. Me ajude. Pelo amor de Deus.
Entre minha filha e fique calma. Tudo vai dar certo.

Ela entrou. Era 1972. A música do toca-fitas bem podia ser do Roberto Carlos, ou talvez do Chico Buarque. Talvez do Caetano. Talvez... Debaixo dos caracóis dos seus cabelos... Talvez.

O taxista anònimo não cobrou a viagem. Ficou no hospital até que a mulher estivesse bem acomodada. E foi embora. Sumiu no mundo. Foi fazer o bem para outrem. Talvez ele nem tenha percebido o quanto sua ajuda fora oportuna.

Nasceu. Era menina. Tinha cabelos cacheados. O pai orgulhoso tomou um porre para comemorar. Vestiu um terno barato e trouxe um buquê de flores. Pensou que agora era mesmo um homem feito. Tinha uma mulher e uma filha. Que grande encrenca! Era fácil comandar uma tropa e combater os subversivos. Mas cuidar de uma família... Isso sim era coisa de homem!

Uma mãe, uma menina, uma mulher, uma criança.... Tudo se misturou naquela hora. Onde terminava a menina e começava a mãe, ninguém sabe. Era só uma menina. Mas agora eram duas. E ele.. era só um homem.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Insanidade

Insanidade... é não fazer perguntas
Insanidade... é se conformar
É tentar ir além das suas forças... sem saber para onde.

Não tem cura... para a fome de alma.
Não há alimento que chegue. Elogio que baste. Mão que apóie.
Está tudo perdido. Solto no ar. Girando como um rodamoinho.
Louco

Qual é a fronteira da loucura? Qual é o limite da sanidade?
A aflição que consome a alma, alimenta o espírito e definha o corpo
O que sobra? Homens partidos. Mulheres interrompidas

Fragmentos de gente. Pensamentos quebrados. Mosaico. Ladrilho
Pedra. Pau. Toco. Sozinho....

E sozinha caminho. Para onde não sei. Nado freneticamente. Rumo ao oceano. Contra a correnteza que joga em direção as pedras.